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A CONSTRUÇÃO DISCURSIVA DAS MASCULINIDADES A PARTIR DO GÊNERO E DA SEXUALIDADE

Clézio Souza Silva - Universidade Federal de Goiás/Campus Avançado de Jataí (UFG/CAJ)

Rubiana Oliveira Rezende – Universidade Federal de Goiás/Campus Avançado de Jataí (UFG/CAJ)

Introdução

Neste trabalho, apresentamos parte do resultado de uma pesquisa cuja intenção é perceber como o discurso da sala de aula constrói masculinidades hegemônicas ou subalternas. Acreditamos que, enquanto examinamos a construção das identidades de gênero e sexualidade na sala de aula de língua materna, perceberemos que a masculinidade hegemônica é um ponto central para compreender as identidades de gênero e sexualidade no contexto dentro do qual estaremos inseridos. Acreditamos, ainda, que o trabalho interacional desenvolvido na sala de aula é orientado pelos esforços dos meninos e das meninas em definir os meninos como masculinos. De forma semelhante, a sexualidade e o gênero feminino devem ser construídos em relação à masculinidade hegemônica.

Para a realização do trabalho, adotamos os procedimentos de coleta de dados que seguem o modo etnográfico de investigação. A pesquisa etnográfica é caracterizada por colocar o foco na percepção que os participantes têm da interação lingüística e do contexto social em que estão envolvidos, através da utilização de instrumentos tais como notas de campo, diários, entrevistas etc (Moita Lopes: 1996 p. 22). Adotamos a visão socioconstrucionista do discurso, visto que ela contempla a característica múltipla das identidades sociais. Sendo múltiplas, tais identidades são passíveis de contradição ou até mesmo de contestação. Adotando uma visão socioconstrucionista do discurso, nós o caracterizamos como uma ação na qual os significados são gerados pelos participantes de um evento discursivo específico. Segundo Fairclough (1992), o discurso é um modo de ação, uma forma pela qual as pessoas agem perante o mundo e especialmente perante uns aos outros. Dizer isso significa que quando interagimos em práticas discursivas, constituímos o mundo em significados. Esses significados apresentam atribuições. Uma dessas atribuições de significado diz respeito às identidades sociais.

Gravamos um total de 10 horas/aula e aplicamos um questionário, que foi respondido pelos alunos, no qual os mesmos deveriam dar informações a respeito de questões ligadas à sexualidade. Decidimos pela aplicação do questionário porque alguns alunos, talvez por timidez ou outros motivos pessoais, poderiam se sentir constrangidos ao se manifestarem oralmente, e num questionário, onde são preservadas as suas identidades, existe a possibilidade de serem mais autênticos em suas falas.

Este trabalho busca estudar a formação de identidade de gênero e sexualidade de uma turma de língua materna em uma escola pública estadual da cidade de Mineiros Goiás , tentando entender a influência dos diversos discursos aos quais essa turma é exposta na construção dessas identidades. O trabalho foi desenvolvido em uma turma de segundo ano do Ensino Médio. Escolhemos essa série pelo fato de ser ela transitória entre o início e o fim dessa fase de estudos, além de possibilitar uma maior maturidade aos alunos.

1- Gênero e Identidade

Devido aos processos de globalização que as sociedades vêm enfrentando, as Ciências Sociais têm tentado, em suas pesquisas, fazer sentido das transições rápidas experimentadas por essas sociedades. Mudanças provocadas pela globalização são responsáveis por novos modos de pensar o mundo como também as pessoas em seus esforços para compreender o que está acontecendo à sua volta em seus embates cotidianos em busca da construção do significado.

Com isso, a questão da identidade tem se tornado um tópico central, uma vez que uma das mudanças mais importantes em várias sociedades contemporâneas está diretamente relacionada à compreensão política de que a experiência humana não é limitada a um grupo étnico particular, a uma raça, a um gênero, a um modo de expressão da sexualidade (cf. Moita Lopes, 2002).

Entre as mudanças provocadas pela globalização, percebemos mudanças nos traços de gênero e sexualidade usados na construção de significados relacionados à identidade social de gênero masculino e, ainda, percebemos como esses significados tendem a incluir um grupo e a excluir outro da masculinidade de prestígio, representada pelo papel masculino heterossexual.

Neste trabalho, entendemos sexo como uma conformação particular que distingue o macho da fêmea, atribuindo-lhes um papel determinado na geração e conferindo-lhes certas características distintivas. A sexualidade será tratada por nós como o modo pelo qual uma pessoa dirige seu desejo sexual e o gênero como a forma culturalmente elaborada que a diferença sexual toma em cada sociedade e que se manifesta nos papéis e status atribuídos a cada sexo e constitutivos da identidade sexual dos indivíduos.

A visão de gênero que temos é aquela defendida por Crawford (1995), que diz ser o gênero produto de uma negociação social e não um atributo dos indivíduos. Dessa forma, a construção da identidade de gênero será compreendida como sendo construída a partir do discurso. O gênero é definido pelas práticas sociais, pelo momento histórico e pela cultura da sociedade na qual a pessoa está inserida, e não pelo sexo (cf. Crawford, op. cit.).

Nossa visão de sexualidade aqui será plural, indo além das chamadas etiquetas tais como heterossexual, gay, lésbica, bissexual, transexual, etc. A identidade sexual, para nós, deve ser vista como em relação com outras identidades sociais que temos, como a classe social da qual fazemos parte, o gênero, a etnia, a raça, a profissão, dentre outras. Como nos diz Hall (1990), talvez em vez de pensarmos a identidade como um fato já completo, deveríamos pensá-la como uma ‘produção’, que nunca está completa, sempre em processo, e sempre constituída dentro, e não fora das representações.

Pode ser que o traço mais relevante de nossas identidades sociais esteja relacionado a como nos posicionamos e somos posicionados pelos outros em termos de nossa sexualidade. Isso ocorre, talvez, por conta de nossa procura por afeto e amor, e também por conta de nossas necessidades sexuais.

Os traços da sexualidade começam a surgir na adolescência. Por conta disso, esta pesquisa torna-se pertinente ao trabalhar com sujeitos adolescentes, uma vez que nesse período da vida as pessoas começam a se envolver com os significados do amor, do afeto e do sexo. Apesar disso, percebemos um pequeno número de estudos nas Ciências Sociais que têm examinado esse tipo de questão nas escolas .

Nossa preocupação com a questão das masculinidades se justifica pelo fato de que existe na sociedade uma tendência a visualizar a sexualidade especialmente ligada à heterossexualidade, e o homoerotismo como típico de uma minoria, apesar de essa minoria estar ficando cada vez mais visível na maior parte do planeta. No Brasil, por mais que as minorias homoeróticas não sejam tão bem organizadas politicamente como em outros países, questões relativas ao homoerotismo estão sendo abertamente discutidas em programas de entrevista na TV, novelas, na imprensa escrita, no Congresso, etc. Sabemos que, embora a questão do homoerotismo venha ganhando espaço, isso não extingue as visões preconceituosas a respeito do tema.

Heilborn (1996, apud Moita Lopes, 2002) afirma que há um debate sobre homoerotismo na sociedade brasileira, e, na verdade, sobre variados tipos de experiências sexuais. Isso se aproxima, de certa forma, do que Giddens (1992, apud Moita Lopes, 2002) chama de o declínio da perversão sexual em várias partes do mundo atualmente.

A questão das masculinidades faz parte de nossa preocupação também pelo fato de que esse tópico tem se tornado interesse das Ciências Sociais e Humanas a partir da década de 70 (cf. Moita Lopes, 2002). Desde então, o papel do homem na vida social vem sendo alvo de muitos debates. Com as mulheres lutando por direitos iguais e desprezando a figura do machão, os homens começaram e perceber que suas identidades masculinas começavam a ser ameaçadas e passaram a buscar uma nova forma de ser homem.

Abordarmos o tópico da identidade torna-se relevante uma vez que a temática das identidades surge em meio a uma concepção de linguagem como discurso, ou seja, uma concepção que coloca como central o fato de que todo e qualquer uso da linguagem envolve ação humana em relação a alguém em um conjunto interacional específico (cf. Moita Lopes, 2003).

Quando usamos a linguagem não o fazemos com um interlocutor pura e simplesmente, mas com uma mulher, um mulato, um bissexual, um jovem ou velho, por exemplo. A partir das suas marcas sócio-históricas, as pessoas tendem a deixar transparecer certos traços identitários, por mais que eles sejam suspensos em algumas práticas discursivas ou em alguns posicionamentos interacionais.

Esta pesquisa pretende contribuir para uma maior reflexão sobre o processo de construção da identidade de gênero na sala de aula, tendo em vista que é ela um espaço no qual professores e alunos têm a possibilidade de interferir na transformação da estrutura social.

2- Masculinidade Hegemônica

O caráter normativo assumido pela masculinidade hegemônica tem-se apoiado no discurso tradicional, ainda fortemente enraizado em nossas sociedades. Fazem parte desse discurso, por exemplo, o essencialismo e o caráter institucional da construção da masculinidade hegemônica, amparada pelo patriarcado. É por esse motivo que essa identidade de gênero, construída mediante um rigor e uma vigilância constantes, e estabelecendo relações de poder com o gênero feminino, pode ser contemplada sob a perspectiva de um cânone cultural construído na tradição, que passa a ser questionado pelos discursos que permeiam a pós-modernidade.

O discurso essencialista sobre as identidades é um dos principais artifícios usados para se separar os gêneros feminino e masculino. Sendo assim, em oposição à emotividade e à passividade compreendidas como inerentemente femininas, é que se concebe o gênero masculino. Com isso, o homem passa a ocupar a posição de provedor do lar por ser essencialmente racional e ativo, em uma visão fixa e naturalista das identidades de gênero. Como esse discurso é amparado institucionalmente (cf. Connell, 1995), ele estabelece relações de poder entre homens, sobre os quais recaem os benefícios do patriarcado, e as mulheres, que não ocupam, no geral, posições no mercado de trabalho tão prestigiosas quanto às dos homens, recebendo salários mais baixos, por exemplo.

Essa hegemonia masculina, entretanto, é conquistada mediante um alto preço, o que Jost (1978, apud Badinter, 1992, p. 39) considera “uma luta de cada instante”. Ao contrário do que acontece com a construção do gênero feminino, a masculinidade é constantemente submetida a provações, em que a vigilância, a misoginia e a homofobia figuram como seus principais traços. Essa necessidade constante de provação põe em xeque, entretanto, o caráter fixo e essencialista da masculinidade hegemônica, que não admitiria nuances nessa categoria, não dando conta da possibilidade de mudança: “a ordem ‘seja homem’, tão freqüentemente ouvida, implica que isso não [seja] tão evidente e que a virilidade não [seja], talvez, tão natural quanto se pretende”, cf. Badinter (1992, p. 3). Em uma visão pós-moderna das identidades sociais, portanto, em que as masculinidades são consideradas fragmentadas, contraditórias e fluidas, segundo Moita Lopes (2002), a quebra desse cânone cultural surge como uma possibilidade bastante viável.

3- Os Dados Constituintes do corpus

Por uma questão de espaço, não transcreveremos todos os dados de que dispomos. Apresentaremos recortes de uma das aulas ministradas e recortes do questionário aplicado.

Esta aula apresentada aqui foi ministrada no dia 31/05/2005 com duração de 50 minutos. O questionário foi aplicado pela pesquisadora no último dia de aula. Esse questionário era composto de 15 questões, todas com respostas discursivas. A maioria, além da pergunta central, apresentava o pedido de maiores explicações com indagações do tipo por quê? Explique, Discuta, Comente. Vinte e sete alunos responderam ao questionário sem qualquer indicativo de quem estava respondendo.

Para a aula, a pesquisadora levou para debate com os alunos o texto Complexo de Priscilla – a outra face dos pseudo-machões. O texto, de Daniel Weiss, apresenta considerações a respeito dos heteros que namoram gays. Apresenta alguns depoimentos de homens e mulheres heterossexuais que descobriam que seus/suas namorados/as eram gays.

A seguir, apresentamos tópicos da discussão feita a respeito da sexualidade e a essencialização de alguns traços identitários relacionados às masculinidades. Em seguida, colocamos dados obtidos na resposta ao questionário.

4- Análise dos Dados

4.1. A Aula

Seqüência 1

1 Pesquisadora: Se você descobrisse que o seu namorado é gay, o que faria?

2 Joana: Terminaria.

3 Pesquisadora: Quem mais?

4 Pietra: Terminaria

5 Pesquisadora: Seria normal, só chegaria e terminaria?

6 Xena: Eu não terminaria, porque se a gente se gosta mesmo, eu não terminaria, porque eu gostaria

7 dele. Agora, se ele fez a escolha, a escolha é dele, a minha foi ficar com ele.

8 Pesquisadora: Então você manteria um relacionamento com ele estando ele com vocês dois?

9 Xena: Sim!

Nesta seqüência achamos interessante observar a manifestação das três alunas (Joana, Pietra e Xena). Enquanto as duas primeiras manifestam discursivamente postura contrária ao fato de permanecer com um namorado se descobrisse ser ele gay, a terceira afirma que continuaria o relacionamento em virtude de gostar do sujeito. Percebemos que, para as meninas, a aceitação do homossexualismo parece estar mais perto de ser alcançado, mesmo com a resposta negativa das duas primeiras. Essa afirmação se justifica pelo fato de que as duas primeiras não apresentaram argumentos pejorativos para o fato de não aceitarem que o namorado fosse gay.

Na seqüência a seguir, a pesquisadora direciona a questão aos meninos.

Seqüência 2

1 Pesquisadora: Vou fazer a pergunta para os meninos. Vocês aceitariam dividir sua namorada com

2 outra do mesmo sexo?

3 Jorge: Claro que não!

Neste recorte, percebemos a manifestação explícita de contrariedade à questão gay na fala de Jorge com o uso da palavra claro, dando intensidade à sua afirmação negativa.

A participação dos meninos continua na discussão.

Seqüência 3

1 Pesquisadora: Você aceitaria dividir sua namorada com outra mulher? Por quê?

2 Mateus: Ela seria como um homem, ela gosta de mulher também, pra que se relacionar com os

3 dois?

4 Pesquisadora: Você acha que seria uma questão de infidelidade?

5 Mateus: É

Na fala de Mateus, percebemos uma manifestação diferente de Jorge. Também contrário ao fato de aceitar sua namorada com outra garota, Mateus demonstra que sua reação não seria por outro motivo senão a questão de que sua namorada com ele e outra garota instauraria uma situação de infidelidade. Com isso, notamos no discurso de Mateus uma manifestação comumente atribuída às mulheres: o fato de achar conflitante um relacionamento baseado na infidelidade. Por outro lado, também hipotetizamos que o discurso de Mateus instaura um outro tipo de manifestação: a de que homens não aceitam ser traídos.

Na seqüência a seguir, temos a manifestação de outro menino, confirmando nossa hipótese levantada anteriormente na fala de Mateus.

Seqüência 4

1 Márcio: Eu não aceitaria porque é a mesma coisa se ela me traísse com outro homem. Por isso, eu

2 me abalaria, e o relacionamento iria acabar.

O discurso de Márcio demonstra claramente a não aceitação dos homens quanto ao fato de ser traído. Embora o fato de duas mulheres transando povoe o imaginário de muitos homens, Márcio não aceitaria tal fato. No seu discurso, percebemos claramente que ele é um integrante da masculinidade hegemônica.

Nas seqüências que seguem, podemos observar na fala dos alunos uma manifestação que poderia ser questionada pelos colegas, mas que não foi.

Seqüência 5

1 Pesquisadora: Você aceitaria sua namorada com outra?

2 Lucas: Sei lá. Se houvesse amor da minha parte.

Seqüência 6

1 Pesquisadora: Você aceitaria? Por quê?

2 Paulo: Eu gostando dela, talvez. Eu não sei!

A manifestação discursiva de Lucas e Paulo nós dá a impressão de serem eles pertencentes a uma masculinidade subalterna, quando não reagem como os demais colegas integrantes da masculinidade hegemônica. Para Lucas e Paulo, o amor pode falar mais alto, e seria motivo para relevar um fato tão abominado por Mateus e Márcio. Com esse discurso, Lucas e Paulo acabam se excluindo da masculinidade de prestígio.

A pesquisadora volta novamente sua atenção para as meninas, que apresentam manifestações de contrariedade à aceitação do namorado ter outro homem.

Seqüência 7

1 Pesquisadora: Meninas, vocês aceitariam seu namorado com outro homem sendo vocês hetero?

2 Marcela: Não. Porque é do mesmo sexo, né? E deve ter fidelidade. Ter somente uma pessoa.

Marcela demonstra o comportamento tipicamente feminino de colocar a fidelidade acima de qualquer acontecimento numa relação a dois. Além disso, ela demonstra que não aceitaria a relação de seu namorado com outro pelo fato de ambos serem do mesmo sexo. Nesse recorte, percebemos, claramente, a manifestação de um discurso homofóbico, que recrimina atitudes afetivas entre pessoas do mesmo sexo.

Na fala de Sara, abaixo, outro exemplo de manifestação de homofobia.


Seqüência 8

1 Sara: Eu acho que não há carinho de jeito nenhum entre pessoas do mesmo sexo por causa do

2 prenconceito.

Sara enfatiza a inexistência de carinho entre duas pessoas do mesmo sexo . Com essa firmação da aluna, percebemos a demonstração da idéia tão difundida socialmente de que pessoas do mesmo sexo, mais exclusivamente homens, ficam juntas em atitudes desregradas de sexo, inexistindo afeto. Ao dizer que não há carinho de jeito nenhum, Sara expressa um comportamento típico de pessoas integrantes do grupo masculino hegemônico, embora ela seja mulher.

Na manifestação discursiva abaixo, percebemos dois comportamentos das meninas: um, em que a aluna demonstra um comportamento típico de masculinidade hegemônica, e outro, em que a aluna, numa manifestação de feminilidade, usa a falta de amor do namorado como motivo para ele ficar com outro homem.

Seqüência 9

1 Pesquisadora: Você acha que é melhor ele te trair com uma mulher?

2 Andréia: Ah, claro que sim, porque hoje em nossa época a traição é normal, mas eu não aceitaria

3 que ele me traísse com uma pessoa do mesmo sexo que ele.

4 Jurema: Ah, sei lá. Eu acho que deve ter fidelidade. Se ele tiver caso com outro, ainda que seja do

5 mesmo sexo, é porque ele não te ama.

Andréia, na primeira parte da fala (antes do adversativo mas), demonstra aceitação à traição, por se tratar de um comportamento normal nos dias atuais. Consideramos essa afirmação hegemônica, uma vez que comumente ouvimos homens usarem como justificativa para a traição o fato de essa postura ser normal. Na segunda parte da fala, a aluna demonstra atitude homofóbica, uma vez que a traição seria aceita, desde que não fosse com outra pessoa do mesmo sexo que ela.

Já Jurema, discorda da traição, expressando um comportamento típico das mulheres. Ao dizer que a traição, com outra pessoa do mesmo sexo ou não, seria uma demonstração de falta de amor, explicita seu discurso feminino, uma vez que à mulher são delegadas atitudes de romantismo.

Seqüência 10

1 Adriana: Eu preferiria que ele fizesse sexo com uma mulher do que um homem.

A fala de Adriana é interessante, porque ela não faz menção ao afeto, ao romantismo, ao sentimento. Hipoteticamente, afirmamos que, para Adriana, não existiria afeto entre pessoas do mesmo sexo, já que ela se refere ao contato entre seu namorado e outra pessoa como apenas fazer sexo. Aparentemente, ela exclui o romantismo de seu discurso, contrariando aquilo que se espera de uma mulher. Ou então confirma a nossa hipótese levantada anteriormente sobre a fala de Adriana.

Seguinte à fala de Adriana, há uma seqüência de risos na sala. O riso tende a demonstrar a aceitação por parte dos alunos da afirmação dada por Adriana, ou seja, é melhor que o parceiro faça sexo com outra pessoa de sexo diferente do que com uma do mesmo. Com isso, percebemos a vontade dos alunos em querer distanciar dos posicionamentos daqueles colegas que afirmaram poder ficar com os parceiros que tivessem contato com pessoas do mesmo sexo e aceitam tal atitude.

Na seqüência abaixo, percebemos várias manifestações de meninas contrárias ao fato de o namorado ter relacionamento com outro homem.

Seqüência 11

1 Suzy: Tem muito homem que é homem mesmo. Pra que eu vou ficar com um que é gay?

2 Neuda: Eu não aceito porque acho que o casal não deve ser de duas pessoas do mesmo sexo.

3 Kelly: Se ele escolher homem, deve ficar com homem. Eu não aceitaria não.

4 Márcia: Eu não aceitaria não. Imagina seu namorado com outro homem? Não tem lógica, não tem

5 como, eu pegava o cara e largava dizendo “sai fora, cara”.

De todas as falas transcritas, a de Márcia é a que demonstra mais homofobia e traços de masculinidade hegemônica. É possível notar até mesmo um certo tom de agressividade quando ela menciona o que diria ao namorado. Todas são enfáticas ao dizer não aceitar de forma alguma o namorado com outro homem. Suzy demonstra um certo “não estou nem aí”, quando afirma existir muito homem que é homem mesmo. Para ela, não faz a menor diferença se o namorado, por acaso, demonstrasse interesse por outro homem. Ela não titubearia e procuraria outro logo. Outra questão interessante na fala de Suzy é quando ela diz existir homem que é homem mesmo. Na sua opinião, gay não é homem, por mais que homem seja considerado como indivíduo pertencente ao sexo masculino, independente de sua orientação sexual. Com isso, Suzy dá demonstrações de não saber diferenciar sexo, sexualidade e gênero .

Na seqüência abaixo, a pesquisadora faz uma questão voltada para todos os alunos

Seqüência 12

1 Pesquisadora: O texto se refere ao Carlos Eduardo, que tem parceiro homem, mas, como ele é o

2 ativo da relação, ele não se considera gay. O que vocês pensam sobre isso?

A indagação da pesquisadora coloca em discussão a questão de ser ativo ou passivo numa relação entre homens. Segundo Agacinski (1999), a maior prova de que é possível viver diferentes identidades de gênero independentemente do sexo e da sexualidade são as noções de ativo e passivo existentes na homossexualidade masculina.

As identidades são fragmentadas. Com isso, um sujeito pode exercer comportamento sexual passivo em uma situação e ativo em outra. Porém, nos recortes observados neste trabalho, percebemos que os conceitos de ativo e passivo só produzem significado em relação ao comportamento sexual.

Vejamos na seqüência abaixo o que os meninos acham da questão levantada pela pesquisadora.

Seqüência 13

1 Andréia: Ele é gay e não quer assumir.

2 Jonathan: Ele tem vergonha.

3 Jane: É falta de vergonha.

4 Vários alunos: risos.

A afirmação de Jonathan nos parece curiosa, como a maioria das demais participações dos meninos nessa aula. Aparentemente, ele demonstra um certo grau de tolerância à causa gay ao afirmar ser vergonha do sujeito do texto dizer não ser gay por ter atitude ativa na relação sexual. Ao contrário de Jonathan, Jane expõe uma opinião homofóbica e tipicamente hegemônica, afirmando ser falta de vergonha a afirmação de Carlos Eduardo. Porém, fica duvidosa a afirmação dela, porque não sabemos ao certo se é falta de vergonha dizer que não se considera gay por ser o ativo, ou se é falta de vergonha ser gay.

Indagados pela pesquisadora sobre a bissexualidade, os alunos apresentam manifestações diferentes, como podemos perceber na seqüência a seguir:

Seqüência 14

1 Pesquisadora: O que vocês acham da questão da bissexualidade? São a favor ou contra?

2 Vários alunos: Contra, contra, contra. Ou é ou não é.

3 Juca: Eu acho que não existe isso. Por que o cara quer ficar com dois ao mesmo tempo? Isso não

4 existe; ou um ou outro.

5 Kelly: Eu acho que isso existe. Tem tantos bissexuais espalhados por aí. A pessoa deve definir se

6 gosta mais da mulher ou do homem. Pra ficar com os dois não dá.

7 Marcela: Eu acho que pode até ser bissexual, no entanto deve assumir um relacionamento sério

8 somente com um.

É interessante observar as reações dos alunos. Vários alunos declararam contrariedade à prática do bissexualismo, sendo que Juca afirma não existir bissexualidade. Como justificativa para sua afirmação, ele diz que é preciso ficar com um ou com outro. Juca é radical, indicando aceitação somente de um caso (hetero ou homo). Assim, ele deixa transparecer em seu discurso um certo grau de aceitação quanto à prática homossexual. Para ele, o sujeito precisa se definir. Uma ou outra prática parece ser aceita por ele.

Já Kelly afirma a existência do bissexualismo. Mas achamos curioso notar que ela, como a maioria das mulheres, coloca o gostar em evidência, contrariando opiniões diferentes das suas, como podemos perceber na fala de Sara (seqüência 8), por exemplo. Em sua fala, Kelly reforça o que tinha dito antes (seqüência 11), quando defende o fato de que a pessoa só deve ficar com um parceiro, homem ou mulher.

Marcela também evidencia a idéia feminina de que o afeto deve estar em destaque num relacionamento. Sua opinião é curiosa, porque anteriormente (seqüência 7) ela disse que é preciso ter somente uma pessoa, que deve haver fidelidade num relacionamento. Agora, nessa seqüência anterior, ela defende o fato de que relacionamento sério só deve ser assumido com um parceiro (independente de ser ele homem ou mulher). Com isso, surge a questão: o que seria fidelidade para ela? Ter mais de uma pessoa mas assumir relacionamento sério só com uma não evidencia traição?

4.2. O Questionário

Das respostas às questões apresentadas no questionário, a que mais chamou nossa atenção pelo grau demonstrativo de homofobia foi à referente à questão cujas respostas, com o valor percentual, apresentamos abaixo.

Tabela 1: O que você sentiria se visse duas pessoas do mesmo sexo se beijando?

1- Nojo

29%

2- Horrorizado

22%

3- Estranhamento

19%

4- Constrangimento

15%

5- Acharia normal

7%

6- Acharia um ato de coragem

4%

7- Não consigo descrever

4%


A primeira e a segunda respostas demonstram o alto grau de homofobia dos alunos e a inserção dessa maioria em práticas de comportamento hegemônico. Sentir nojo é a concretização de aversão ao homossexualismo. O mesmo é evidenciado pelo constrangimento e pelo estranhamento. O grupo de alunos da resposta número 7 parece demonstrar falta de opinião a respeito do homossexualismo, ou tentativa de isenção de opinião.

Nos dados apresentados a seguir, a opinião da maioria dos alunos se sentir enojada ao ver duas pessoas do mesmo sexo se beijando é contrariada na afirmação sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Tabela 2: Qual sua opinião sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo?

1- A favor

77%

2- Contra

19%

3- Não tem opinião

4%

Achamos curiosa essa manifestação por parte dos alunos. Hipoteticamente afirmamos que eles são a favor da união civil somente se os “casais” permanecerem ocultos. Nossa afirmação se justifica na demonstração da maioria deles se sentir enojada e horrorizada com a visão de um beijo dado por duas pessoas do mesmo sexo.

As afirmações homofóbicas e de não aceitação ao homossexualismo são novamente comprovadas nos dados estatísticos a seguir.

Tabela 3: Você tem preconceito com homossexuais?

1- Sim

67%

2- Não

33%

Nos dados abaixo, os alunos expressam o que pensam sobre as idéias da sociedade em relação ao homossexualismo.

Tabela 4: Como a sociedade vê o homossexualismo?

1- Com preconceito

55%

2- É contrária

19%

3- Como uma falta de vergonha

18%

4- Normal

4%

5- Depende de cada um

4%

A afirmação de que a sociedade vê o homossexualismo com preconceito corrobora a opinião deles próprios a esse respeito, como pode ser visto na tabela 3. De certa forma, embora a questão questione a opinião da sociedade, os alunos tenderam a colocar suas próprias opiniões, com a vantagem de, de certa forma, ficarem ocultos, já que podem ter se excluído do grupo sociedade. A afirmação 3 também, na nossa opinião, evidencia o que os alunos pensam sobre o homossexualismo.

5- Considerações Finais

Neste trabalho, objetivamos apresentar parte dos resultados de uma pesquisa cuja intenção é perceber como o discurso da sala de aula constrói masculinidades hegemônicas ou subalternas. Nas interações feitas pelos alunos e pela pesquisadora, percebemos a demonstração de como, através dessas interações, eles constroem significados que geram visões compartilhadas de mundo. Através das práticas discursivas cotidianas, podemos perceber a constituição das identidades sociais.

As seqüências apresentadas aqui demonstram a construção nos alunos do discurso hegemônico. Tamanha foi nossa surpresa pela demonstração, não só de discurso hegemônico, mas também de intenção homofóbica, demonstrada pelas alunas. A partir disso, notamos que as identidades sociais dos alunos, especialmente das meninas, são evidentemente construídas a partir da masculinidade hegemônica, cuja idealização pode ser facilmente percebida nas falas da maioria.

Houve, na aula em discussão, 47 manifestações dos alunos, sendo que somente 6% delas demonstram grau de aceitação à questão homossexual, evidenciando a ausência da masculinidade hegemônica. Assim, podemos confirmar a presença absoluta de hegemonia na discussão sobre a sexualidade, embora a maioria das manifestações discursivas (65%) tenha sido feita pelas meninas e a nossa expectativa era o encontro dessa manifestação no discurso dos meninos.

Em uma sociedade em que a masculinidade hegemônica é mais evidente e na qual são condenadas outras formas de masculinidade, não parecem estranhas as evidências aqui percebidas. A influência da masculinidade hegemônica é muito evidente mesmo no discurso feminino. São poucas, nessa aula, as participações discursivas dos meninos e, estranhamente para nós, nesses discursos não é evidente a indicação da hegemonia masculina tão presente no mundo no qual vivemos.

Na manifestação dos alunos que não se mostraram totalmente contrários à questão gay (seqüências 5 e 6) percebemos uma menor preocupação em adequar-se aos padrões da masculinidade hegemônica, que defenderia uma total aversão a essa aceitação. Nolasco (1993) chama o homem que demonstra essa manifestação de aceitação de “novo homem”. Isso talvez se deva ao fato de que o homem, na atualidade, está se vendo obrigado a deixar de lado a masculinidade hegemônica e reaprender a ser homem de outra forma, mais feminina e menos radical. Porém, a maioria dos discursos, os quais são construídos por mulheres, mostra que a sociedade brasileira parece continuar não reconhecendo nem aceitando outros tipos de masculinidades que não a hegemônica.

Concluímos afirmando que os discursos evidenciados neste trabalho tendem a mostrar o uso do conceito de sexualidade para a definição da identidade social de gênero. Os dados mostram a efetivação de traços atribuídos aos gêneros masculino e feminino, como a defesa das práticas heterossexuais. Esses traços são detectados nas masculinidades que estão sendo construídas nas interações observadas.

Resta saber que traços serão percebidos nas demais aulas e nos demais dados obtidos a partir do questionário.

6- Referências Bibliográficas

AGACINSKI, S. (1999). Política dos sexos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

BADINTER, E. (1992). XY: sobre a identidade masculina. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

CONNELL, R. (1995). “Políticas da Masculinidade”. In.: Educação e Realidade. 20(5). p. 185-206, jul./dez.

CRAWFORD, M. (1995). Talking difference. On gender and language. Londres, Sage.

FAIRCLOUGH, N. (1992). Discourse and social change. Cambridge, Polity Press.

GIDDENS, A. (1992). A transformação da intimidade. São Paulo: Editora da UNESP.

HALL, S. (1990). “Cultural identity and Diaspora”. In.: RUTHERFORD, J. (ed.). Identity: community, culture, difference. Londres, Lawrence e Wishart.

HEILBORN, M. L. (1996). “Ser ou estar homossexual: dilemas da construção da identidade social”. In.: PARKER, R. & BARBOSA, M. R. (eds.). Sexualidades brasileiras. Rio de Janeiro: Relumé-Dumará.

NOLASCO, (1993). O mito da masculinidade. Rio de Janeiro: Rocco.

MOITA LOPES, L. P da (1996). Oficina de lingüística aplicada. Campinas: Mercado de Letras.

___ (2002). Identidades fragmentadas. Campinas: Mercado de Letras.

___ (2003). Discurso de identidades. Campinas: Mercado de Letras.

WEISS, D. (2001). Complexo de priscilla [on line]. Disponível na Internet via www.url: http://www.glsplanet.terra.com.br/news/priscilla.html. Acessado em 16 de maio de 2004.

 
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