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A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS EM UMA LIVRARIA: UMA EXPERIÊNCIA

Mariângela Polacchini Zanella - Universidade Estadual Paulista – UNESP

Maria Augusta Hermengarda Wurthmann Ribeiro – Orientadora - Universidade Estadual Paulista – UNESP

Relato de trabalho cuja metodologia empregada é a narrativa oral, tão comum em décadas passadas, entretanto cada vez mais substituída por outras formas de comunicação, tais como a televisão e o computador. Com o objetivo de resgatar a prática do contar histórias, valorizando a voz (ZUMTHOR, 1997) e o dar-se como texto (LARROSA, 2003), são apresentados diversos contos de forma divertida e dinâmica. Há um ano é desenvolvida a “Hora do Conto” tendo como cenário uma Livraria da cidade de Rio Claro, local de aproximação entre leitor e livros, que já conta com um público cativo de crianças, adultos e professores que, sentados sobre uma colcha de retalhos, permitem-se uma viagem, experiência singular e única (MACHADO, 2004), pelo mundo da fantasia e da imaginação.

O relato

Ninguém sonharia em negar a importância do papel que desempenharam na história da humanidade as tradições orais. As civilizações arcaicas e muitas outras culturas das margens ainda hoje se mantém, graças a elas. (ZUMTHOR, 1997, p. 10)

Desde os primórdios o homem utiliza várias formas de linguagem para relatar sua vida, sua existência e a evidência disto é a infinidade de ilustrações registradas em rochas, em cavernas e em objetos encontrados em escavações arqueológicas. Estes registros geralmente retratam a vida cotidiana, os costumes de diferentes povos, crenças e uma série de informações que permitem o estudo de antigas civilizações que habitavam determinadas regiões do planeta há dezenas de séculos atrás.

Estes registros não têm somente uma importância histórica, mas servem também para evidenciar uma característica marcante da humanidade: a necessidade de contar histórias. Estas histórias tanto podem ser relatos de situações reais como podem ser uma construção imaginária, na verdade o homem sempre tem algo a transmitir para seus semelhantes e a forma mais comum e mais utilizada com este intento é, sem dúvida, a narrativa oral.

Antes da televisão e do computador era muito comum que as pessoas, ao final do dia, sentassem em volta de uma fogueira para contar sobre seu dia; os homens descreviam as caçadas, geralmente com certo heroísmo, enquanto mulheres e crianças acompanhavam com entusiasmo as gloriosas narrativas. Ao lado do fogão à lenha, na cozinha da casa, mulheres aproveitavam para contar histórias de príncipes e princesas, fábulas e reinos fantásticos para as crianças que prestavam muita atenção a cada detalhe e depois faziam destas histórias enredos para divertidas brincadeiras.

A narrativa oral não se limitava ao ambiente doméstico e simples. Grandes saraus reuniam pessoas das classes sociais mais elitistas que, atentas, ouviam a leitura de livros que hoje consideramos grandes clássicos literários.

 

 


Alguns contos ainda são transmitidos de geração em geração e, em algumas famílias, são considerados como uma herança, um patrimônio; geralmente estas histórias se iniciam com a seguinte frase: minha avó contava que..., o que deixa claro ser aquela história uma propriedade praticamente particular. Na verdade este ato de transmissão e apropriação de histórias corresponde realmente a uma herança, entretanto não se trata de uma herança material, mas sim cultural que reflete, na maioria das vezes, costumes, tradições, valores e ensinamentos.

Com a invenção do rádio houve uma revolução no ato de contar histórias. Se antes as pessoas se reuniam em volta de uma fogueira, com o rádio passaram a se reunir em volta deste que poderia ser considerado um aparelho falante. Através do rádio torna-se possível ter informações sobre o que acontecia no país e em todo o planeta. Além das notícias que, até então, só podiam ser encontradas na forma escrita surgiram as novelas que logo se tornaram um grande sucesso nacional.

Pode-se dizer que, apesar de o rádio ser um grande avanço tecnológico para a época e ter a sua importância social muito bem definida, este contribuiu para que a tradição das narrativas orais fosse sendo substituída por formas mais modernas de comunicação.

Tempos depois surge a televisão e cada vez mais a narrativa oral vai perdendo seu espaço para este aparelho que, apesar de sua importância na veiculação de notícias e a possibilidade de conhecer lugares sem sair de casa, com sua programação cada vez mais diversificada e colorida, sorrateiramente destitui os contadores de histórias que, mesmo procurando relatar grandes feitos, histórias de terror ou simplesmente contos narrados pelos seus bisavôs, não possuem todo o aparato tecnológico do aparelho falante com imagens.

Mesmo tendo em mente o valor dos meios de comunicação – rádio, televisão, computador (rede mundial de computadores) – não se pode deixar de também atribuir à narrativa oral sua importância. Esta importância baseia-se não somente na transmissão cultural, sua relevância vai muito além. O contador de histórias estabelece um contato que pode ser considerado um contato afetivo com o ouvinte que se torna cúmplice da narrativa e dela se apropria na medida em que a internaliza e a visualiza de acordo com sua própria experiência. Ou seja, o ouvinte passa a fazer parte da história, pois ele a incorpora, a imagina e constrói dentro de si todas as situações que vão sendo narradas. Desta forma, o sujeito não é mero espectador, pois a narrativa permite que este esteja dentro de um processo criativo. Este processo criativo é desencadeado a partir do conto, mas depende totalmente do sujeito que ouve a história, pois, a partir de sua experiência e de sua criatividade, poderá até mesmo transpor o conto e construir a história utilizando as cores e as formas que sua imaginação alcançar.

O mesmo não acontece quando se assiste à televisão, pois nela imagem e som já estão prontos. O sujeito não precisa imaginar, não precisa criar nada. Enquanto, na narrativa oral, o sujeito ouve e visualiza internamente aquilo que ouviu, na televisão este exercício de criatividade não é necessário, pois, tanto a imagem como o som já foram criados por uma equipe de produção e nesta criação o telespectador não opina, não interage. Esta situação do individuo perante a televisão nos parece um tanto passiva, enquanto a posição deste mesmo indivíduo perante a audição de um conto ou a leitura de um livro tem um aspecto mais atuante.

Este aspecto atuante do sujeito que realiza a leitura de um texto ou que ouve uma história – sendo que esta história tanto pode ser contada como pode ser lida em voz alta - em muito difere da posição do indivíduo frente aos programas de televisão ou frente à tela do computador devido à capacidade de imaginação característica dos seres humanos. Ao ouvir uma história, contada ou lida por outra pessoa, e ao ler um texto o indivíduo constrói, em seu imaginário, as imagens correspondentes ao que está ouvindo; imagina feições para as personagens; cria o cenário; imagina todas as situações. O ouvinte produz, em sua imaginação, a partir da narrativa, o produto final, torna-se assim um cineasta que, a partir de um texto, busca dentro de si, em suas próprias experiências, elementos que se unem a esse texto ouvido, constrói as imagens e visualiza cada situação narrada.

Neste sentido, quando o imaginário do sujeito é despertado pela história contada, temos que observar dois aspectos fundamentais que evidenciam a importância do contador de histórias para o resgate das narrativas orais. Trata-se da presença da voz e do corpo. A presença da voz e a presença do corpo são essenciais para este resgate. Tanto a voz como o corpo do contador, durante a narrativa, aproximam o sujeito, que ouve, do texto contado, fazendo muitas vezes, que este sujeito se sinta parte integrante da história. É a voz que transmitirá todas as emoções de cada situação narrada. A voz retoma o contato entre os sujeitos na medida em que modifica seu tom para se aproximar deste sujeito.

Ora, a voz é querer dizer e vontade de existência, lugar de uma ausência que, nela, se transforma em presença; ela modula os influxos cósmicos que nos atravessam e capta seus sinais: ressonância infinita que faz cantar toda matéria...como o atestam tantas lendas sobre plantas e pedras enfeitiçadas que, um dia, foram dóceis. (ZUMTHOR, 1997, p. 11)

Zumthor, de forma praticamente poética, em seu livro Introdução à Poesia Oral, discorre sobre a voz em sua totalidade de significados; voz que retoma o inconsciente, voz que afeta a linguagem, voz como lembrança, voz como presença marcante. É neste sentido global que contextualizamos a voz neste trabalho. Para contar histórias a voz pode ser comparada como um agente propulsor que terá seu nível de potência ajustado de acordo com o objeto a ser alcançado.

A voz convida o público para o momento da escuta do texto de forma indireta, trazendo para si esta intenção do convite. Esta mesma voz indica, também de forma indireta, cada emoção da história, as alegrias, as tristezas, as conquistas e as desventuras, que ali estão sendo apresentadas.

...o começo da lição é abrir o livro, num abrir que é, ao mesmo tempo, um convocar. E o que se pede aos que, no abrir-se o livro, são chamados à leitura não é senão a disposição de entrar no que foi aberto. O texto, já aberto, recebe àqueles que ele convoca, oferece hospitalidade. Os leitores, agora dispostos à leitura, acolhem o livro na medida em que esperam e ficam atentos. Hospitalidade do livro e disponibilidade dos leitores. Mútua entrega: condição de um duplo devir. (LARROSA, 2003, p. 139)

Pennac, ao escrever sobre a leitura e sobre o leitor, relata uma experiência sobre o escutar uma história, no caso a leitura de O Perfume – livro de Patrick Süskind, por alunos sem interasse em ler a obra. Conta que o professor iniciou a leitura em voz alta do livro e os alunos, que de início acharam aquilo no mínimo ridículo, passaram a esperar ansiosos pelo desenrolar da história e descobriram uma forma nova e prazerosa de receber a leitura pela voz do outro.

Outro aspecto fundamental é a possibilidade de o contador utilizar as mãos e o corpo para os gestos e poder encontrar os olhos do ouvinte com seus próprios olhos proporcionando com isto uma relação de intimidade e cumplicidade durante a narrativa.

O sucesso do contar histórias pode ser percebido pelas telenovelas que monopolizam grande parte da população frente à tela da televisão que espera ansiosa pelo próximo capítulo. Entretanto, nosso trabalho não tem o mesmo objetivo dos programas da televisão. Nosso objetivo é por algo mais intenso e dinâmico, que passe a fazer parte do ouvinte e não uma digestão imediata (PENNAC, 1998, 113) como acontece com a televisão. Neste sentido podemos dizer que contar histórias significa permitir que o ouvinte construa todas as características do que está ouvindo. É o sujeito que construirá o cenário em que a história acontece, construirá as personagens; ele visualiza as informações com base no que está sendo narrado, mas considera também sua própria experiência, portanto passa a integrar a história, estará sempre dentro de um processo criativo e mais, sente e vive esta história como se fosse sua. Desta forma, a narrativa oral tão comum aos homens desde os primórdios e metodologia deste trabalho, torna-se uma fonte inesgotável para a imaginação e a criatividade.

Assim, evidenciamos a importância do resgate das narrativas orais, pois estas permitem uma aproximação entre texto e sujeito não alcançado por outras formas de representações da literatura. Não se trata de diminuir o valor da dramaturgia, pois esta tem, sem dúvida, um valor inestimável, entretanto cabe resguardar e resgatar a importância desta manifestação cultural tão antiga e tão própria dos seres humanos que é o contar histórias.

Além disso, utilizar as histórias para transmitir a cultura de geração em geração, conceituar valores, educar crianças e principalmente estabelecer relações com o outro, relações estas baseadas em interações e experiências de vida, como já foi abordado é uma das atividades mais antigas praticadas pela humanidade. Este ato – o contar histórias - deve ser mantido e estimulado evitando que seja substituído por atitudes mecânicas como apertar o botão do controle remoto ou inserir uma fita no vídeo-cassete; muitas crianças relatam assistir, inúmeras vezes, a um mesmo desenho animado, chegando a decorá-lo.

Portanto, este trabalho é fruto da preocupação em não deixar que esta expressão cultural – a narrativa oral – perca seu espaço diante da tecnologia moderna – televisão, vídeo cassete, computador.

Aqui se faz necessário ressaltar a importância do livro, pois é o livro o suporte utilizado para todas as histórias contadas.

O livro é gerador de possibilidades, neste caso a narrativa oral. Contar a história que um livro apresenta significa experimentar uma qualidade diferente de relação com a audiência (MACHADO, 2004, p.78). Ainda significa que o leitor pode, posteriormente, fazer sua própria leitura e verificar a diferença de palavras utilizadas, a improvisação do contador mediante a situações imprevisíveis que possam ocorrer durante a narrativa, como, por exemplo, dúvidas e questionamentos feitos durante o conto.

Assim, temos como objetivo fundamental em nosso trabalho, o resgate das narrativas orais, tendo o livro como fonte para estas narrativas, pois é nele que buscamos todas as histórias a serem contadas.

O sopro da voz é criador. (ZUMTHOR, 1997, p. 12)

Semanalmente ocorre a “Hora do Conto” em uma Livraria da cidade de Rio Claro. Este local foi escolhido com o objetivo de promover a aproximação entre sujeito e livros. Este espaço possibilita o encontro com os diversos gêneros literários, com as diferentes apresentações dos livros, com os lançamentos destacados pelos meios de comunicação como o jornal e a televisão, com os best-sellers, com os clássicos - muitas vezes já transformados em filmes para o circuito comercial, enfim, possibilita que o sujeito, sendo ou não um leitor, tenha conhecimento da produção literária a ele disponível.

Além disto, a livraria deixa de ter somente um caráter comercial e passa a promover um encontro cultural, ainda que não deixe de lado sua finalidade econômica e vislumbre no contador de histórias um investimento com possibilidades de retorno financeiro baseado em aumento de vendas.

Esta livraria escolhida está a mais de dez anos instalada em local comercial privilegiado e possui um espaço reservado para um café rápido que foi sendo adaptado para receber os ouvintes interessados em ouvir histórias. Trata-se de cerca de vinte e cinco metros quadrados que são ocupados por um balcão, cujo interior abriga a estrutura necessária para o serviço de café, quatro mesas com cadeiras e o espaço restante é coberto com uma colcha de retalhos onde não somente crianças, mas também alguns adultos, que preferem a colcha às cadeiras em volta das mesas, acomodam-se para quarenta minutos despreocupados e animados. As paredes ao redor deste espaço acomodam estantes onde os livros infanto-juvenis ficam expostos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
Geralmente este espaço fica completamente tomado na hora de ouvir histórias e, muitas vezes, algumas pessoas observam do lado de fora, da calçada, pois existe uma grande janela de vidro que possibilita esta observação do interior do prédio por quem passa pela parte externa. Aliás, recentemente, esta janela foi ampliada devido ao fato de que para olhar de fora para dentro a pessoa precisava ficar na ponta dos pés e agora, com a ampliação, a janela ganhou cerca de quarenta centímetros na parte inferior, diminuindo o esforço físico para quem quer observar pelo lado de fora.

A livraria fica entre duas escolas; uma, particular, atende desde alunos da educação infantil até os do ensino médio; a outra, estadual, atende alunos do ensino fundamental – ciclo I – de primeira à quarta séries. Muitos alunos e professores destas duas escolas são assíduos freqüentadores da “Hora do Conto”.

O encontro acontece às sextas feiras no final da tarde. Uma música anuncia que é chegada a hora do conto e as crianças tomam seus lugares sobre a colcha e cantam. Ao final da melodia, um grande silêncio e a história é contada. Este momento é de importância vital, pois representa uma passagem de um mundo para outro:do real para o imaginário das histórias (MACHADO, 2004).

A contadora de histórias veste-se com saias indianas e alguns véus são utilizados durante o conto. Estes servem para representar vários elementos do texto apresentado, entretanto possibilitam que cada ouvinte visualize, pela própria criatividade e imaginação, estes elementos, pois um véu pode representar um carro, apesar de não ser nem um pouco parecido com ele. Desta forma aquele que ouve a história, apesar de visualizar o véu que representa um elemento, imagina este elemento conforme lhe convém, conforme suas próprias referências e de acordo com seu próprio processo criativo. Assim, a história deve ser contada com riqueza de detalhes para que aquele que a ouve tenha as informações necessárias para produzir, em seu imaginário, o cenário, as personagens e as situações que acontecem durante a narrativa.

Ainda sobre a utilização de objetos durante o conto, neste caso os véus, devemos salientar que sua fundamentação baseia-se em uma percepção flexível (MACHADO, 2004, p.88), ou seja, é possível visualizar algo atribuindo-lhe uma função que não é única, mas sim possui várias possibilidades funcionais de acordo com o indivíduo que as atribui.

Larrosa propõe a leitura com os outros como pluralidade, como multiplicação e é neste sentido que se pretende atrelar a narrativa oral e a construção do imaginário de cada um, respeitando sua própria experiência, seu conhecimento, possibilitando inúmeras representações do texto, de acordo com a criatividade subjetiva.

           

 

 


A escolha dessas obras tem que ser feita com critérios que contemplem a qualidade e a variedade – é fundamental que haja diversidade, que as crianças e jovens possam ter contato com exemplos de escrita muito diferentes, com gêneros, autores, coleções, temas bem variados. (MACHADO, 2004, p. 106)

A seleção das obras a serem contadas tem importância essencial para o nosso trabalho. Ana Maria Machado em seu livro Como e Por Que ler os Clássicos Universais desde Cedo enfatiza esta questão procurando salientar que não basta a leitura; é importante que as obras escolhidas tenham realmente um bom conteúdo e que este seja muito bem escrito.

O vocabulário das obras muitas vezes é tido como fator de dificuldade para muitos leitores e contadores, entretanto este não deve ser minimizado, não deve ser substituído por palavras mais fáceis, mas sim deve ser contextualizado ou explicado de forma sutil para que a história não perca a característica lúdica e passe a ter somente uma característica com conotação de educação formal. Este ponto é muito relevante e garante a perpetuação das palavras, do vocabulário que, por mais que não sejam utilizados determinados termos e palavras, deve ser ao menos conhecido e entendido para que o leitor não se sinta desencorajado a ler obras cujo vocabulário seja mais erudito. O acesso às obras é direito de quem recebe o texto quer seja sob a forma escrita quer seja sob a forma de narrativa oral, pois este é uma expressão histórica e cultural, está totalmente atrelado à época em que a história foi escrita, portanto reflete o tempo histórico, os costumes, a civilização, os aspectos ideológicos e políticos e mais uma gama de informações que serão muito bem entendidas pelo leitor conforme sua experiência em leitura vá se construindo e se consolidando.

Desta forma, procurando estabelecer um trabalho de qualidade, a escolha das obras é sempre uma preocupação. Títulos de todos os gêneros são apresentados, entretanto, o texto não pode ser apenas dinâmico e envolvente, ele deve acrescentar informações e instigar a leitura. Muitos clássicos infanto-juvenis são utilizados, geralmente em sua versão original ou em adaptações que respeitem este original e que, como obrigação de todos os livros, sejam bem escritos. Ainda, em respeito aos clássicos e às suas adaptações, a citação a seguir é muito oportuna:

O primeiro contato com um clássico, na infância e adolescência, não precisa ser com o original. O ideal é uma adaptação bem feita e atraente. (MACHADO, 2002, p. 15)

Uma experiência que ilustra muito bem sobre a questão das obras clássicas é a escolha de uma história de Hans Christian Andersen para a Hora do Conto; O Patinho Feio apresentado, em sua versão original, em uma das tardes na livraria. No início muitos ouvintes que, provavelmente, só conheciam a versão simplificada de Walt Disney – na qual um ovo de cisne é colocado no ninho de uma pata e, quando os ovos se quebram, o pequeno patinho é abandonado devido às diferenças entre as aves, mas, após alguns contratempos logo é resgatado por uma família de cisnes a qual deveria pertencer de fato - disseram que já haviam adivinhado qual era a história, porém, conforme as situações iam sendo narradas, esta certeza foi se dizimando e ninguém mais sabia se realmente aquela narrativa era a de O Patinho Feio ou não. Até mesmo o público composto por professores e alguns adultos presentes ficou surpreso com o desenrolar da história.

Algumas passagens dela, como a que segue abaixo, deixaram o público maravilhado ao perceber o quanto aquela história que pensavam conhecer era repleta de situações que jamais imaginaram.

As crianças quiseram brincar com ele, mas o patinho tinha medo de que lhe fizessem mal. Em pânico, esvoaçou direto para a tigela de leite, borrifando leite pelo cômodo todo. Quando a mulher gritou com ele e bateu palmas, voou para a tina de manteiga e de lá para a cumbuca de farinha e logo escapou de lá. Ai, Senhor, em que estado ele estava! A mulher gritou com ele e lhe bateu com a pá da lareira, e as crianças se atropelavam tentando agarrá-lo. Como riam e gritavam! Por sorte a porta estava aberta. O patinho disparou para os arbustos e se afundou, zonzo, na neve fofa, recém-caída. (ANDERSEN, 2004, p. 301)

Este conto abriu espaço para uma série de comentários a respeito do autor e de sua obra. Foi possível contar sua história de vida, falar de sua produção literária e das comemorações que acontecem durante todo este ano no mundo, inclusive no Brasil, devido ao bicentenário de seu nascimento.

Entretanto, o mais importante foi perceber o quanto aquele público de adultos e crianças gostaram de conhecer a verdadeira história do patinho que sempre ouviam falar. Desta forma, fica comprovado que o leitor deve ter acesso ao clássico ou a uma adaptação bem escrita e que respeite o original, pois as adaptações condensadas que não respeitam o conteúdo da história também não respeitam o leitor e muito menos o autor.

Outro exemplo significativo é a narrativa da Cinderela contada de acordo com a compilação dos irmãos Grimm. Durante cerca de trinta minutos, tempo necessário para contar esta história respeitando todas as situações que a compõem, um silêncio até mesmo estranho para aquele local tomou conta do espaço. No rosto de adultos e crianças a expressão de surpresa e encantamento diante de uma versão da clássica história que poucos conhecem. Ao final muitas perguntas afloraram e grande parte destas dizia respeito exatamente ao fato de não terem acesso a versões originais. O trecho abaixo foi muito comentado, pois todas as crianças tinham como símbolo da Cinderela o sapatinho de cristal.

Então seu gentil amigo o pássaro trouxe-lhe um vestido ainda mais lindo do que o anterior, e sapatinhos de puro ouro, de modo que quando ela chegou na festa, ninguém soube o que dizer de tão admirados que estavam com sua beleza; o filho do rei dançou somente com ela, e quando alguém a queria tirar para dançar, ele dizia, Esta dama é meu par. (GRIMM, 2000, p. 163)

Além dos clássicos, muitos autores contemporâneos são realmente imprescindíveis. É o caso de Ruth Rocha, Sylvia Orthof, Ana Maria Machado, Regina Machado, Ricardo Azevedo, Eva Furnari e muitos outros autores brasileiros que, sem dúvida nenhuma, estão contribuindo para a formação de leitores bastante interessados naquilo que lêem e que passam cada vez mais a freqüentar as bibliotecas de suas escolas e de sua cidade.

Um grande autor de nossa literatura, cujas histórias não podem ser lembradas somente pela novela infantil da televisão, é Monteiro Lobato. Grande parte das crianças e dos adultos, que participam do evento aqui descrito, assistem ou já assistiram ao Sítio do Pica-pau Amarelo sob a forma de novela infantil produzida pela emissora Globo de televisão. Apesar do conhecimento prévio da obra, ou de sua adaptação, a expectativa e o contentamento diante de ouvir uma das histórias de Reinações de Narizinho, por exemplo, do genial Lobato não são menores. Inclusive, depois que comecei a contá-las na livraria, a venda dos livros da obra infantil deste autor passaram a ser muito maiores do que antes.

Este fato mostra que o conhecimento da obra através da narrativa oral pode estimular a leitura, pois, sendo esta espontânea e não se tratando de decorar o texto mais sim de apresenta-lo ao público, surge a curiosidade no ouvinte em conhecer mais daquele livro e lê-lo por si mesmo, vivenciando novamente a história ouvida.

Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, mais se revelam novos, inesperados, inéditos, quando são lidos de fato.” (CALVINO, 1993 citado por MACHADO, 2002, p. 23)

O ato de contar histórias, aqui entendido como uma prática de leitura que possibilita não somente o acesso ao texto, mas também a um processo de criação, pode ser bem relacionado ao que Larrosa escreve em respeito ao texto não como uma doutrina, mas sim como abertura ao múltiplo: Dar-se como texto para ser lido por muitos – e não como doutrina a ser assimilada – é oferecer-se como abertura para o múltiplo. (LARROSA, 2003, p. 144)

E também em A amizade da leitura não está em olhar um para outro, mas em olhar todos na mesma direção. E em ver coisas diferentes. A liberdade da leitura está em ver o que não foi visto nem previsto. E em dizê-lo. (LARROSA, 2003, p. 145)

O contador de histórias entrega-se de corpo e alma ao texto que apresenta. Para isto ele precisa ser o texto e isto significa mais do que conhecer o texto. Sua voz, seu corpo e a história tornam-se uma unidade que está disponível aos outros. E, apesar desta unidade, a pretensão é a multiplicidade, pois cada sujeito que ouve é livre para apropriar-se disto – da narrativa – da maneira que lhe convier e construir em si algo novo, próprio, subjetivo.

BIBLIOGRAFIA:

Contos de Fadas: edição comentada e ilustrada/ edição, introdução e notas Maria Tatar; (trad. BORGES, M. L. X. de A.) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

Contos de Fadas dos Irmãos Grimm. (trad. PACIORNIK, C. M.). São Paulo: Iluminuras, 2000.

LARROSA, J. Pedagogia Profana: danças, piruetas e mascaradas. (Trad. VEIGA-NETO, A. de). 4ª Edição. Belo Horizonte: Autêntica, 2003

MACHADO, A. M. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. São Paulo: Objetiva, 2003.

________________ Ilhas no tempo: algumas leituras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.

MACHADO, R. Acordais – fundamentos teórico-poéticos da arte de contar histórias. São Paulo: DCL, 2004.

ZUMTHOR, P. Introdução à poesia oral. (Trad, FERREIRA, J. P., POCHAT, M. L. D. e ALMEIDA, M. I. de). São Paulo: Hucitec, 1997.

 
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