Voltar    
  A ESCUTA DOS CONTOS CLÁSSICOS INFANTIS E SEU RECONTO PELOS ALUNOS COMO APRENDIZADO DAS FORMAS DE VIVER, PENSAR E AGIR

Sibele Aparecida Ribeiro (UNESP- Rio Claro)

Era uma vez...
e um sorriso de criança faz a gente acreditar...
Contos de fadas, rainhas e reis...
Roupas que o povo não pode enxergar...
Universo criado por um sonhador...
E o menino venceu a pobreza
e fez da arte a linda princesa
com quem viveu um grande amor.
(Trecho do samba enredo da escola de samba
Imperatriz Leopoldinense -RJ, 2005)

Ouvindo histórias podemos sentir emoções importantes, como a raiva, a tristeza, o medo, a alegria, a insegurança, a tranqüilidade. Vivenciar essas emoções auxilia a criança a esclarecer e a lidar com angústias, como a morte, a perda dos pais, o preconceito. É também por meio de histórias que podemos descobrir outro lugar, outras épocas, outro modo de ser e de agir.

O Referencial Curricular Nacional fala sobre a importância da leitura de histórias infantis como “um momento em que a criança pode conhecer a forma de viver, pensar, agir e o universo de valores, costumes e comportamentos de outras culturas situadas em outros tempos e lugares que não o seu”, e a partir daí, “estabelecer relações com a sua forma de pensar, e o modo de ser do grupo social ao qual pertence.” Daí a importância de, na educação infantil “resgatar o repertório de histórias que as crianças ouvem em casa e nos ambientes em que freqüentam, uma vez que essas histórias se constituem em rica fonte de informação sobre as diversas formas culturais de lidar com as emoções e com as questões éticas, contribuindo na construção da subjetividade das crianças” (RCN, 1998, vol.3, p.143).

Trabalhando em um Centro de Educação Infantil, que atende crianças da faixa etária de zero a seis anos, procuramos desenvolver um projeto com as crianças de cinco anos, com base na narração de histórias infantis.

Os objetivos traçados visaram, pela exploração do livro e questionamento dos indícios, levar a criança a perceber a estrutura narrativa presente nas histórias, como propõe Jolibert (1994). Por meio de situações de escuta pelos alunos, da leitura desses contos pelo professor e ao recontar as histórias ouvidas reconstruir mentalmente as partes da história, ou seja, introjetar um esquema narrativo e desenvolver a linguagem oral. Criar situações para reproduções das histórias e assim levar a criança a estabelecer relações com sua forma de viver, pensar e agir.

1. Os Contos Clássicos Infantis e a Relação com a Vida

Ao discorrermos sobre a importância pedagógica dos contos clássicos infantis, não podemos deixar de lado a relação desses contos com a vida, envolvendo assim o trabalho com a imaginação, a sensibilidade, a fantasia e principalmente a gratuidade presente no ato de ouvir e contar histórias. Sobre essa gratuidade do ouvir e contar histórias, principalmente quando a criança vai dormir, um momento tão importante para esse diálogo, para essa troca, Pennac, em seu livro Como um Romance fala sobre essa importância:

Para ele, nos transformávamos em contador de histórias. Desde o seu desabrochar para a linguagem nós lhe contamos histórias. E essa era uma aptidão em que nos desconhecíamos. O prazer dele nos inspirava. A felicidade dele nos dava fôlego. Para ele multiplicávamos os personagens, encadeávamos os episódios, refinávamos as armadilhas... (PENNAC, 1993, p.34-35).

Além da gratuidade oferecida por essas histórias para a criança na hora de dormir ou quando a criança se encontra doente, a narração dos contos clássicos infantis podem trazer uma solução moral na resolução de um problema interno da criança. Segundo Giglio (1991) “Crianças lidam com conflitos internos típicos do processo de desenvolvimento, e gostam dos contos maravilhosos porque é a partir das dificuldades, crises e conflitos, ou mesmo carências e frustrações, que se desencadeia o processo de individuação” (GIGLIO, 1991, p. 21).

Abramovich também cita a importância da leitura dos contos clássicos para crianças na educação infantil, afirmando que esses contos são vividos por meio da fantasia, do imaginário, com intervenção de entidades fantásticas, plantas sábias. Eles partem de um problema vinculado à realidade (carência afetiva, conflito entre mãe e filho), que desequilibra a tranqüilidade inicial e assim a busca de soluções, no plano da fantasia (ABRAMOVICH, 1989, p.120-121).

As crianças, desde muito pequenas, podem construir uma relação prazerosa com a escuta dessas histórias. O professor deve trabalhar com esses contos na educação infantil, dando atenção para a relação dessas histórias com os sentimentos, a auto-estima, e deve organizar o ambiente de trabalho de tal forma que as crianças participem e argumentem suas idéias, seus pensamentos, pontos de vista. Cabe a ele, ao trabalhar com esses contos, usar toda a sua sensibilidade, tendo em mente que a criança possui forma própria de se expressar e de ver o mundo, de viver e de pensar. Por meio do trabalho com esses contos esses conceitos podem ser desenvolvidos na educação infantil.

Dessa forma aproveitando a motivação, o encantamento que os contos maravilhosos despertam nos alunos e sensibilizando-os de forma a fazê- los acreditar que essas histórias podem ser o caminho para encontrar prazer, descobertas, lições de vida, podemos inventar e improvisar situações gostosas e significativas como a roda de histórias com perguntas, o contar e recontar das histórias, a repetição, a dramatização das personagens. Bettelheim fala sobre esse encantamento, essa intensidade que os contos maravilhosos despertam nas crianças:

A intensidade com que a criança vivencia os contos maravilhosos, não é diferente daquela das crianças de vinte ou trinta anos atrás. Esta intensidade é percebida pelo brilho dos olhos do pequeno ouvinte, sua atenção concentrada, suas perguntas, seus freqüente pedidos de repetição da história, suas representações das personagens e situações nos brinquedos. (BETTELHEIM, 1991, p. 69).

Alguns autores ainda associam os Contos Clássicos infantis com obras de arte. Segundo Giglio, “os contos maravilhosos são como obras de arte. Não permitem imitações. Se no entanto for necessário fazer uma reprodução, esta deve ser feita com a máxima sensibilidade e fidelidade” (GIGLIO, 1991, p.61).

Também Mendes fala sobre a semelhança entre os Contos Clássicos e as obras de arte, em seu aspecto de portadores de múltiplos sentidos, dos quais se “emerge uma visão do papel desempenhado pelas narrativas populares em todas as culturas: elas representam uma maneira de ver o mundo e, que tem permanecido inalterável ao longo do tempo” (MENDES, 2000, p.58).

E a maneira de ver o mundo das crianças, suas formas de viver, pensar e agir estão intimamente ligadas aos Contos Clássicos infantis. Por isso na educação infantil devemos incluir o trabalho de contar e recontar os contos clássicos infantis como um importante instrumento educacional. Nos dias de hoje, percebemos que as crianças começam a formar sua leitura de mundo e despertar para rabiscos, traços e desenhos desde cedo. Cabe, então, enfatizarmos que é necessário colocá-las em contato com a leitura de maneira prazerosa. Um importante caminho a ser seguido nesse aspecto é a exploração desses contos maravilhosos e da literatura infantil. Evidenciando que a sua prática desperta o interesse e a atenção das crianças, desenvolvendo nelas, entre outras coisas, a imaginação, a criatividade, a expressão das idéias, e o prazer pela leitura.

Nós, professores, além de proporcionarmos à criança a leitura e a audição dessas histórias, devemos atuar como seus espectadores nas suas manifestações de recontar ou mesmo contar histórias que elas mesmas criaram, que podem ser, inclusive, narrativas da própria vida. Afinal, o que são os Contos clássicos infantis, senão narrativas de vida que, há tantos anos, encantam crianças e adultos?

2. Metodologia

Para realização deste trabalho utilizamos a pesquisa-ação, por meio do qual, a partir do planejamento da ação didática e sua execução, houve o acompanhamento da proposta de: pela exploração do livro e questionamento dos indícios, levar a criança a perceber a estrutura narrativa presente nas histórias, como propõe Jolibert (1994). Por meio de situações de escuta pelos alunos da leitura desses contos pelo professor e a o recontar as histórias ouvidas reconstruir mentalmente as partes da história, ou seja, introjetar um esquema narrativo e desenvolver a linguagem oral. Criar situações para reproduções das histórias e assim levar a criança a estabelecer relações com sua forma de viver, pensar e agir.

A metodologia proposta foi aplicada nos meses de fevereiro, março e abril de 2004, com um grupo de 18 crianças de uma classe de educação infantil- pré nível II de um Centro de Educação Infantil. Antiga creche, este Centro de Educação Infantil funciona como um espaço com função educativa, favorecendo o desenvolvimento integral da criança. Atende a aproximadamente 110 crianças de quatro meses a seis anos de idade.

A classe era formada por crianças de cinco anos, que apresentavam problemas de auto-estima, disciplina, concentração, atenção, com dificuldades de aprendizagem. À época que intervimos na classe, os pais exerciam atividades remuneradas fora do seu domicílio: pedreiros, motoristas, serventes, domésticas, e alguns desempregados. O acesso aos bens culturais (jornais, revistas, livros, cinema, computador) era restrito; a grande maioria utilizava-se apenas da televisão como meio de informação. Cabe ressaltarmos que alguns pais não participavam da vida escolar dos filhos, algumas crianças viviam somente com os pais que trabalhavam o dia todo, outras moravam com outros parentes que as acolheram. Essas crianças permaneciam o dia todo no Centro de Educação Infantil, sendo carentes de afeto e carinho.

Tendo como base o primeiro objetivo da pesquisa: pela exploração do livro e questionamento dos indícios perceber a estrutura narrativa presente nas histórias, utilizamos o esboço de narração, proposto por Jolibert.

Jolibert, Josette (1994), em seu livro Formando Crianças Leitoras, no Capítulo 12 (p.181-185), fala sobre os indícios característicos da “superestrutura narrativa” que podem ser questionados pelo professor no trabalho com relatos e cita o recontar de histórias das crianças para os colegas na educação infantil, elaborando assim um esboço de narração. Trata-se de uma ajuda para uma apresentação oral, de um lembrete e não de uma ficha de leitura a ser preenchida por escrito. Segundo a autora o relato é um tipo bem determinado de escrito. É o mais comum de se achar na biblioteca das escolas. Pode ser um conto, uma história humorística, um conto de fadas, de ficção ou real.

O contato com esse tipo de texto ocorre após várias apresentações de livros lidos página por página, capítulo por capítulo e com ilustrações.

Indícios característicos que podem ser questionados pelo professor no trabalho com histórias: presença do título, nome do autor, editora, nome do livro e número de páginas, densidade do escrito na página, presença de diálogos, travessões e o “era uma vez” ou “uma vez”..., a superestrutura narrativa: situação inicial, corpo da história e situação final, palavras conhecidas ou não.

O relato pode ser lido pela professora parágrafo por parágrafo utilizando os indícios apontados por Jolibert:


- É a história de quem ? (Situação inicial, cenário, personagens)
-
- Onde e quando acontece? (personagens, cenário, personagens)
-
- O que lhe (ou lhes) acontece? (de repente ou um dia desses?)
-
- E depois, o que acontece?
-
- Como termina? (resolução)
- Do que eu gostei ou o que me interessou nessa história? Por que eu escolhi contá-la para vocês?


Quadro 01: Esboço de narração simplificada proposto por Jolibert (1994, p.185) para ser trabalhado com a criança na apresentação oral, no qual a criança recontará para seus colegas uma história que leu sozinha.

A mesma autora, em seu livro Formando Crianças Leitoras, “defende a leitura como uma construção singular, de cada sujeito, mas que ocorre com maior potencialidade em situações reais, vividas em grupo, com um objetivo claro e coordenado pela intervenção do professor.” (JOLIBERT, 1994, p.vii)

Relacionando com o segundo objetivo da pesquisa- por meio de situações da escuta dos contos clássicos pelas crianças e leitura pelo professor- desenvolver a leitura oral e reconstruir mentalmente suas partes- podemos citar Pennac, que em seu livro Como um Romance fala sobre a gratuidade e a importância dos pais em contar histórias para criança:

... se não tivéssemos o talento de contar histórias, se apenas contássemos para ele as histórias dos outros, e mal, buscando as palavras, estropiando os nomes próprios, confundindo episódios, casando o começo de um conto com o final de outro, nada disso teria importância...E mesmo se não contássemos histórias, mesmo se nos contentássemos em ler em voz alta, nós, ainda assim, teríamos sido o romancista dele, o contador único por quem, no final de cada dia, ele escorregava dentro dos pijamas do sonho antes de se dissolver nos lençóis da noite. Melhor, éramos o Livro. Em suma, ele um verdadeiro leitor. Assim era a dupla que formávamos na época, ele leitor, e tão sagaz, e nós o livro, e tão cúmplice! (PENNAC, 1998, p.17-18).

O Referencial Curricular Nacional (RCN) enfatiza nas novas orientações didáticas, a importância de desenvolver o trabalho com a oralidade da criança:

A leitura pelo professor de textos escritos, em voz alta, em situações que permitem a atenção e a escuta das crianças, seja na sala de aula, no parque, debaixo de uma árvore, antes de dormir, numa atividade específica para tal fim, fornece às crianças um repertório rico em oralidade e em sua relação com a escrita (RCN, 1998, vol.3, p. 135).

Como citado acima, a escuta das histórias pelas crianças e a leitura feita pelo professor em voz alta favorecem o desenvolvimento da oralidade, nosso segundo objetivo de pesquisa.

Assim o trabalho com o contar e recontar de histórias na educação infantil, exige do professor uma escuta e atenção à fala das crianças, aos seus movimentos, gestos e demais ações expressivas. Com relação ao nosso terceiro objetivo: criar situações para reproduções das histórias e assim levar a criança a estabelecer relações com sua forma de viver, pensar e agir, temos o RCN (1998) que afirma: “A fala das crianças traduz seus modos próprios e particulares de pensar e não pode ser confundida com um falar aleatório” e que “a narrativa pode e deve ser a porta de entrada de toda criança para os mundos criados pela literatura”, e enfatiza que o professor deve conduzir os relatos contados pelos alunos relacionando à vida pessoal, ou seja, com sua forma de pensar, viver e agir.

Daí a importância que hoje se dá à iniciação da criança desde cedo no mundo da literatura, para que elas consigam estabelecer profundas relações entre o mundo literário e o seu mundo interior, para que elas relacionem as histórias contadas com suas formas de pensar, agir e o modo de ser do grupo social a que pertencem.

Trabalhamos com os Contos clássicos infantis: O Patinho Feio, de Hans Cristhian Andersen, João e Maria, dos Irmãos Grimm e Cinderela, dos Irmãos Grimm que foram escolhidos pelos alunos em forma de votação, no início da intervenção.

A votação das crianças coincidiu com o nosso objetivo de iniciar a pesquisa com o Conto O patinho feio, de Hans Christian Andersen, uma vez que a seqüência narrativa do mesmo, pareceu-nos a mais simples dos três contos escolhidos.

Dividimos o trabalho em três momentos, de acordo com os objetivos da pesquisa:

- Primeiro Momento- Exploração do Livro e questionamento dos indícios.

- Segundo Momento- Contando e Recontando a História.

- Terceiro Momento- Criando uma nova história.

Esses três momentos privilegiam os objetivos propostos: primeiramente o questionamento dos indícios, depois a escuta e a percepção da estrutura narrativa e o reconto oral e por fim a criação, que levará as crianças a estabelecer relações entre a história ouvida e recontada e a própria vida, como descrevemos a seguir:

2.1 Primeiro Momento - Exploração do Livro e questionamento dos indícios- perceber a estrutura narrativa presente nas histórias, como propõe Jolibert (1994).

Para Jolibert , o questionamento dos indícios pelas crianças começa desde cedo, na educação infantil:

As crianças da pré- escola lêem cartazes, folhetos publicitários, cartas dos correspondentes, fichas de trabalhos manuais, lêem também álbuns, fichários e livros de poesia, bem como histórias inventadas pelos amigos de outras turmas. Muito rapidamente e desde o início do ano letivo, as crianças encontram indícios de significado nos suportes do escrito: é uma palavra de catálogo, é um papel de cinema. Acham indícios também na apresentação do escrito: é um cartaz, é uma história... As cores, os tipos de letras, os espaçamentos, o comprimento das palavras, os sinais, são tantas outra informações tão preciosas para as crianças quanto os desenhos e as fotografias. Desenvolve-se e afina a coleta de indícios (JOLIBERT, 1994, p. 72).

Antes da leitura, no momento da roda da história, foi realizado o questionamento dos indícios característicos propostos por Jolibert (1994). Apresentaremos o questionamento da história O patinho feio, de Hans Cristhian Andersen, a primeira história com a qual trabalhamos, sendo que nos contos Joãozinho e Mariazinha e Cinderela também fizemos a exploração e o questionamento dos indícios com as crianças.

- O que é isso? (pesquisadora mostrando o livro)

- Um livro. (aluno)

- Por que é um livro? (pesquisadora)

- Pra contar histórias. (aluno)

- Pra aprender a ler e a escrever. (aluno)

- Como esse livro chegou até aqui? (pesquisadora)

- Comprando na livraria. (aluno)

- Tem um recadinho aqui que faz parte dos contos clássicos. (pesquisadora)

- Um conto de fadas. (aluno)

- O que é um conto de fadas? (pesquisadora)

- Acontece na floresta. (aluno)

- Não só na floresta. (aluno)

- Na imagem, na nossa imaginação. (aluno)

- Os contos de fadas surgiram há muitos anos atrás, foram histórias contadas pelos camponeses que, ficaram registradas em suas memórias e foram transmitidas através dos tempos, durante as noites em suas cabanas. Perrault redescobriu esses contos maravilhosos e os escreveu nos livros. (pesquisadora)

- Toda história tem um nome, como é o nome dessa história? (pesquisadora mostrando a capa do livro)

- Vai falar de um patinho. (aluno)

- O patinho feio. (aluno)

- Porque ele era feinho. (aluno)

- Ninguém é feio, todo mundo tem uma beleza. ( pesquisadora)

- Vamos contar quantas páginas têm? (pesquisadora)

- 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10,...25. (alunos)

- Tem autor? (pesquisadora)

- Sim. (aluno)

- O que é o autor? O que ele faz no livrinho? (pesquisadora)

- Ele escreve a história. (criança)

-Vamos ver o nome dele, o autor dessa história é Hans Cristhian Andersen. (pesquisadora)

- Como é que chama quem faz o desenho, a pintura? (pesquisadora)

- O ilustrador. (aluno)

- O ilustrador é Manuel Vitor. (pesquisadora)

- Quem confeccionou, grampeou, que juntou as folhinhas? (pesquisadora)

- A editora. (aluno)

- A editora é a Kuarup. (pesquisadora)

-Vamos então ouvir a história: O Patinho Feio. (pesquisadora)

Fizemos então a leitura do conto, mostrando as ilustrações.

As crianças pacientemente a ouviram e algumas apontavam diferenças entre a história narrada e outras versões que conheciam:

- Pesquisadora já ouvi a história de outro jeito. (aluno)

- Na história que eu ouvi, não tinha o quintal dos patos. (aluno)

Após a leitura da história, continuamos o questionamento:

- Do que falou a história? (pesquisadora)

- A mamãe chocou os ovos, mas nasceu um pato muito feio. (aluno)

- O patinho era tão feio e cinza que todo mundo não gostava dele, a galinha bicava o pescoço dele, o caçador queira matar, o cachorrão morder. (aluno)

- Ele era muito feio, mas depois ele ficou bonito. (aluno)

- E por que ele ficou bonito? (pesquisadora)

- Porque ele cresceu e virou um cisne. (aluno)

- Onde aconteceu a história? (pesquisadora)

- No livro. (aluno)

- Em que lugar no livro? (pesquisadora)

- No lago, no campo. (aluno)

- Essa história acontece hoje? (pesquisadora)

- Não!! (aluno)

- Quando aconteceu? (pesquisadora)

- Ontem, era uma vez. (aluno)

- Isso mesmo, ontem. (pesquisadora)

- E se fosse acontecer? (pesquisadora)

- Amanhã!!! (aluno)

- Quem participou da história? Quais foram os personagens? (pesquisadora)

- Os filhotes, a mamãe pata, a velha pata, a galinha, o cachorro, os patos selvagens, o gato, o patinho feio, os irmãozinhos do patinho, o peru, as crianças, os cisnes e o patinho feio grande. (aluno)

- E como termina a história? (pesquisadora)

- Ele bonito. (aluno)

- Ele se olhou na água do lago e viu que era um lindo cisne. (aluno)

- Ele colocou a cabeça na água e viu que ficou bonito. (aluno)

- O que será que o autor quis falar quando escreveu esta história? O que será que ele quis mostrar para as pessoas nessa história? (pesquisadora)

- Pra gente se achar bonito. (aluno)

- Todos nós temos uma beleza, precisamos ser bonzinhos, obedientes e amorosos para cultivarmos a nossa beleza interior. (pesquisadora)

2.2 Segundo Momento- Contando e Recontando a História: em situações de escuta e leitura dos contos clássicos infantis pelo professor ao recontar as histórias ouvidas desenvolver a linguagem oral e reconstruir mentalmente as partes, ou seja, introjetar um esquema narrativo, como propõe Jolibert (1994).

Segundo o RCN (1998), o professor deve trabalhar com diferentes tipos de textos, principalmente as histórias infantis, pois estas propiciam a ampliação do universo cultural e permitem conhecer e aprender a respeitar o diferente. E sobre o recontar de histórias pelas crianças afirma:

Recontar histórias é outra atividade que pode ser desenvolvida pelas crianças. Elas podem recontar histórias conhecidas com a ajuda do professor, reconstruindo o texto original à sua maneira. Para isso podem apoiar-se nas ilustrações e na versão lida. Nessas condições, cabe ao professor promover situações para que as crianças compreendam as relações entre o que se fala, o texto escrito e a imagem. O professor lê a história, as crianças escutam, observam as gravuras e, freqüentemente, depois de algumas leituras, já conseguem recontar a história, utilizando algumas expressões e palavras ouvidas na voz do professor. (RCN, 1998, p.144)

A reconstituição oral (reconto) da história O patinho feio foi realizada e muitas crianças quiseram participar, contando, individualmente, a história já narrada por nós.

Nessa atividade surpreendemo-nos com a riqueza de detalhes, o vocabulário diversificado, com palavras e expressões diferentes das que habitualmente estavam acostumados a usar e ainda com expressões faciais e entonação na voz.

Verificando os relatos, podemos considerar que os alunos conseguiram compreender o início, o meio e o final da história, a características de cada personagem, o que nos pareceu um resultado positivo do relato. Aqui apresentaremos apenas alguns relatos produzidos pelos alunos da história O patinho feio. Algumas crianças, ao recontar a história optaram por mostrar o livro aos colegas, explorando as figuras, outras simplesmente recontavam oralmente a história, sem utilizar o livro.

Reconto olhando as figuras do livro: O patinho feio

Toda história tem um nome, o nome dessa histórinha é: O Patinho Feio, o autor é Andersen. Ah...esqueci o nome do ilustrador, como que é mesmo?

- É Manuel Vitor.(pesquisadora)

- A mamãe pata chocou os ovos. Daí nasceu os patinhos.Ela ficou aborrecida e triste, porque o ovo grande não tinha quebrado ainda. Aí ela escutou o clic, clic !!! O ovo maior quebrou e ela levou eles nadar no lago para ver se eram patos mesmo.

Daí a velha pata viu que ele era meio diferente, porque ele não era um pato, ele era um cisne no lugar de pato. Ela bicou ele no pescoço.

A mamãe pata levou eles onde tinha patos selvagens. Daí a galinha começou a beliscar, o peru macho a lhe xingar .

Ele foi visitar os patos selvagens, os patos acharam ele muito feio. Depois apareceu dois cisnes e falou para ele, se ele queria voar um pouco.

O patinho feinho fugiu e encontrou um cachorro com olhos brilhantes, porque era muito bravo. O cachorro abriu a boca para mostrar os dentes afiados. O patinho colocou a asinha na cabeça, com medo que o cachorro bravo mordesse ele. Mas daí pensou: melhor eu ser comido pelo cachorro, do que ser xingado pelo peru macho, beliscado pelas galinhas.

Aí ele viu uma casa, que morava um gato e uma galinha. A galinha começou a cacarejar e o gato queria comer o patinho.

A dona da casa não gostou dele, porque ele era muito feio e não botava ovos.

Ele fugiu e percebeu que tava parecido com um cisne. Ele colocou a cabecinha na água e viu a sua imagem e percebeu que era um cisne e não um pato.

I.- cinco anos

Reconto sem o livro- O patinho feio

Era uma vez uma patinha que tava chocando os ovos para ver se o patinho feio tinha nascido.

Daí a pata velha descobriu que o ovo não era de pato e sim, de cisne. O patinho nasceu todo feinho e diferente. Ele fugiu e foi embora sozinho.

Ele encontrou os cisnes e descobriu que ele era o cisne mais bonito.

Ele olhou na água do lago e assim virou um cisne e a história acabou.

M. - cinco anos

Na leitura do segundo conto João e Maria, os alunos fecharam os olhos para ouvir. O interessante é que após a leitura, não precisamos questionar o esboço de narração, os alunos contavam a história para os colegas.

A história também foi recontada mostrando as ilustrações do livro.

Depois da narração dos contos, elencávamos as personagens da trama, conversávamos sobre onde a história se passava, criávamos novos finais para os contos e inventávamos, oralmente, situações para a atividade “ se eu fosse... (o João e a Maria, a madrasta, a bruxa, o lenhador...)”.

No reconto da terceira história Cinderela, as outras versões da história Cinderela conhecidas pelos alunos também foram mencionadas; - No meu livro, tem a fada, é ela que faz a Cinderela ser princesa. (G.- cinco anos); - A minha história tem até ratinhos que se transformam em cavalos e a abóbora em carruagem. (I.- cinco anos)

2.3 Terceiro Momento- Criando uma nova história: levar a criança a estabelecer relações com a sua forma de viver, de pensar e agir, a partir da história ouvida e recontada pelos alunos.

Pennac, em seu livro Como um romance (1993) fala sobre o envolvimento da criança com a história contada, na qual ela incorpora-a à sua vida:

... suas relações particulares com a Branca de Neve ou com qualquer um dos sete anões eram da ordem da intimidade, que exige segredo. Grande fruição do leitor, esse silêncio depois da leitura! É. Nós lhe ensinamos tudo do livro. Nós abrimos formidavelmente seu apetite de leitor. A tal ponto, lembremos, que ele tinha pressa em aprender a ler! Que pedagogos éramos, quando não tínhamos a preocupação da pedagogia! (PENNAC, 1993, p.19-20)

Com o objetivo de que as crianças contassem histórias, estabelecendo relações com a vida, com sua forma de pensar e agir, propusemos aos alunos a seguinte pergunta- conte-nos uma história: Se você fosse o patinho feio?

De alguma maneira a história O patinho feio marcou o aluno M.- cinco anos, em 2004, que em vez de falar sobre O patinho feio, fez A história do patinho pobre, enfatizando fatos cotidianos, presentes em sua vida como a escola, a casa da avó e a situação financeira, falando também dos limites do dinheiro como: ele comprou um telefone para ligar para a avó dele, porque ela mora na Bahia e tem que ficar três dias viajando pra chegar lá (de avião seria mais rápido, no caso cita três dias de viagem de ônibus). O aluno também apresenta fatos da sua imaginação como: ele achou um tesouro embaixo da terra e ficou bem rico. E também evidencia a arte, como se na casa dele faltasse esse complemento para ficar mais colorida e bonita: Aí ele comprou flores para colocar em todos os cantos da casa dele, para ficar tudo bonito e florido.

A família dessa criança apresenta dificuldades financeiras, os pais não podem comprar os materiais escolares e nem ajudar seu filho no estudo, devido às instruções elementares e à falta de recursos financeiros. Os pais trabalham o dia todo fora de casa e, com isso há carência afetiva e falta de apoio nos estudos. O aluno e sua irmã permanecem no Centro de Educação Infantil no período integral.

O Patinho pobre

Era uma vez, um patinho pobre, ele vivia catando moeda.

Ele achou um tesouro embaixo da terra e ficou bem rico. Ele podia comprar tudo que ele queria, antes não tinha dinheiro.

Ele comprou um livro e o material para estudar na escola. Ele escolheu a Escola Amália. Ele olhou nas águas e descobriu que era um patinho pobre e os olhos dele eram castanhos e o cabelo preto.

Aí ele comprou flores para colocar em todos os cantos da casa dele, para ficar tudo bonito e florido.

Ele comprou um telefone para ligar para avó dele, porque ele tava com muita saudade dela. Minha avó mora na Bahia, tem que ficar três dias viajando pra chegar lá. E aí acabou a história.

M. - cinco anos

Constatamos que o aluno M.-cinco anos, ao criar sua história apresenta fatos que realmente vive no seu cotidiano, como: a situação financeira, carência afetiva como a saudade da avó que mora na Bahia, escola em que ele realmente estuda, podemos relacionar com a vida do escritor da história O patinho feio. A vida do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1805- 1875) encontra paralelos com a narrativa do cisne que era marginalizado entre os patos, O Patinho feio (1844), após enfrentar anos de pobreza e rejeição, o escritor tornou-se o maior autor de contos infantis da literatura mundial. Andersen, filho de um sapateiro e de uma lavadeira, alimentava o sonho de ser bailarino ou um famoso cantor de ópera. Por isso, abandonou os estudos e partiu para Copenhague. Pouco tempo após sua chegada, seus planos foram por água abaixo: para alguns examinadores, a sua altura o impedia de dançar; para outros o frio, a fome e a miséria que passara na cidade haviam afetado a sua voz. Anos mais tarde, a escrita se tornou a sua paixão. E ao recontar a história do Patinho Feio, M. em sua narração o Patinho Pobre, mal sabia que quase dois séculos atrás viveu o escritor da história que recontava, isso nos remete a poesia de Carlos Drummond de Andrade:

Eu sozinho menino entre mangueiras

Lia a história de Robinson Crusoé.

Comprida história que não acaba mais.

(...)

Lá longe, meu pai campeava

No mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história

Era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

(Andrade, 1974. p.3-4)

O segundo conto João e Maria foi um dos contos clássicos infantis que fez muito sucesso entre as crianças, eles trouxeram o conto para a realidade, estabelecendo relações com seus sentimentos de medo, insegurança, ansiedade e desapontamento.

Esse conto clássico infantil expressa em palavras e ações as coisas que se passam no pensamento das crianças, como a ansiedade de João e Maria quando acreditam que os pais estão tramando abandoná-los na floresta e a relação com o medo das crianças de serem realmente deixadas pelos pais.

Com o objetivo de que as crianças estabelecessem relações com a sua forma de viver, pensar e agir, propusemos que criassem uma história a partir do conto João e Maria, fazendo a seguinte pergunta: - O que você ia sentir, se ficasse perdida na floresta?

A aluna G.- cinco anos, ao criar a sua história Dois Irmãos, compara a mãe com a bruxa, e ao questionarmos o porquê, ela fala que a mãe é muito brava. A mãe ao impor exigências e restrições por não terem guardado os brinquedos, leva a aluna a comparar com a bruxa, achando que a mãe se tornou egoísta, rejeitadora e pouco amorosa.

Para Bettelheim, em seu livro, A Psicanálise dos Contos de Fadas, ao referir-se a bruxa da história diz que é assim que a criança se sente quando é devastada pelos sentimentos ambivalentes, frustações e ansiedades, assim como pelos desapontamentos prévios e raivas quando a mãe não consegue gratificar seus desejos e necessidades de forma integral esperada pela criança. (BETTELHEIM, 1980, p.199)

Dois Irmãos

Um dia a G. e o C. tava andando e encontraram um casinha de doces.

A bruxa, minha mãe, prendeu o meu irmãozinho na gaiola, daí ela falava pra mostrar o dedo, mas tava muito magro.

O Joãozinho e a Mariazinha empurraram a bruxa dentro do caldeirão. Aí nós vivemos felizes para sempre, eu, meu irmão e meu pai.

G. - cinco anos

Perguntei para a aluna porque a mãe era a bruxa:

- Por que a sua mãe é a bruxa na história? (pesquisadora)

- Porque minha mãe é brava, fica uma fera quando nós não queremos guardar os brinquedos. (aluna)

- E seu pai? (pesquisadora)

- É bom, é o pai de João e Maria. A floresta é lá onde eu moro na chácara, no meio das árvores . (aluna)

A aluna C.-cinco anos mostra bem, na sua história Floresta, o afastamento dos familiares, no caso, o abandono da mãe, que realmente mora no sul, e a C. mora com a tia que a adotou. Ela mantém contato com o pai, com quem passa alguns dias, já o Dani que ela cita na história é seu irmão, eles permanecem no período integral no Centro de Educação Infantil, embora em classes separadas, mas ele foi adotado por outra família.

No final do relato, a aluna diz que encontra a tia que chorava arrependida do que fez e não a mãe, que realmente a abandonou.

A versão de C., Floresta, lembra por exemplo, trechos da história Chapeuzinho Vermelho de Raiva, do Mário Prata.

Escrita por Mário Prata (1979) para o livro Linguagem e Criatividade, Chapeuzinho Vermelho de Raiva renova o clássico Chapeuzinho Vermelho, adquirindo elementos atuais. Nesta história, a menina tem a pele bronzeada devido ao final de semana em Guarujá:

- Ah, minha netinha, estes olhos estão

assim de tanto olhar para você.

Aliás está queimadinha, hein?

- Guarujá, vovó.

Passei o fim de semana lá...

(MESERANI, 1979, p.19)

Chapeuzinho Vermelho de Raiva bronzeia-se em Guarujá, não vai mais à casa da avó caminhando pela floresta, mas sim com sua moto que a conduz por uma estrada asfaltada, e já não leva mais bolo, pão, manteiga ou geléia feitos por sua mãe para a vovó, mas chega ao século XX carregando produtos industrializados como maionese Hellmman’s, danone e sopa Knorr.

Na versão da aluna C. - cinco anos, ela fala que ao chegar na floresta e achar a casa da bruxa, da história de João e Maria, encontra uma casa linda, cheia de coca-cola, chocolate, frutas e gibis da Mônica. Ela muda os doces da casinha, com coisas atuais que fazem parte de sua vida. E para ir embora da floresta utiliza um ônibus.

A aluna também fala da floresta poluída, cheia de fumaça, e que já estava espirrando, demonstrando preocupação com os problemas ambientais enfrentados nos últimos anos, talvez como uma proteção à natureza, os animais e ao meio ambiente, tema tão acentuado nos últimos anos.

Na história Chapeuzinho Vermelho de Raiva, a vovó responde à neta, quando esta lhe pergunta sobre o nariz grande, que é devido à poluição, desde que começou a industrialização do bosque, fica o dia todo espirrando.

Nesta paródia, a ênfase é dada a Chapeuzinho Vermelho e à avó, o lobo é extinto já que aparece na relação tumultuada entre as duas gerações. A avó assume características do lobo com olhos grandes e vermelhos, boca imensa e orelhas grandes e peludas devido, segundo a avó, aos discos malucos dados a ela por Chapeuzinho. A relação tempestuosa entre ambas é marcada explicitamente nos diálogos, que traz expressões orais próprias de determinadas épocas.

- Por falar em juventude, o cabelo da senhora está um barato, hein?

- Todo desfiado, para cima, encaracolado... Que é isso?

- Também tenho que entrar na moda, não é, minha filha? Ou você queria que eu fosse domingo ao programa do Chacrinha de coque e com vestido preto com bolinhas brancas?

... Chapeuzinho pula para trás.

- E essa boca imensa???!!!

A avó pula da cama e coloca as mãos na cintura, brava:

- Escuta aqui, queridinha: você veio aqui hoje para me criticar, é?

(MESERANI, 1979, p. 19)

O título da história, muito provavelmente deve-se ao conflito instituído entre neta e a avó que almejou ser moderna, findando com o comportamento e a aparência comum das avós, e deixando a menina vermelha de raiva.

Floresta

Maria sentia muitas saudades de sua mãe que morava no Sul, mas ela tinha a titia que cuidava dela com carinho e amor.

Um dia, Maria estava brincando de boneca, quando a titia disse que não podia mais cuidar deles.

Foi uma tristeza, meu pai levou a gente pra floresta poluída, cheia de fumaça e nos abandonou igual a mamãe fez.

Que sorte a nossa, eu já tava espirrando, quando lá encontramos uma linda casa, cheia de coca-cola, chocolate, frutas e gibis da Mônica A velhinha que lá morava era boa e cuidava da gente.

Mas, um belo dia resolveu prender o Dani numa gaiola, e me fez de empregada.

Eu lavava, eu passava, eu fazia comida e ainda por cima cuidava da casa, não podia mais brincar, nem chupar chupeta, era bondosa e trabalhadeira, o Dani teve que jogar o nana dele.

Eu sinto muita falta da mamãe e da titia.

Mas um belo dia, a velhinha que agora era má estava dormindo. Peguei meu irmão e fugimos de ônibus.

Chegamos e encontramos a titia, que chorava arrependida do que fez, vivemos felizes para sempre.

C. - cinco anos

Verificando os relatos produzidos pelas crianças, podemos notar que algumas características dos contos foram transcritas, o mesmo ocorrendo com a realidade cotidiana de algumas crianças que inseriram em suas histórias temas como o ciúme, divórcio, brigas entre os pais, problemas financeiros, carências afetivas, desobediência. As personagens principais continuam triunfando no final, após percorrerem outros caminhos e encontrarem novos obstáculos.

4. Análise dos resultados

Tendo como base o primeiro objetivo da pesquisa, pela exploração do livro e questionamento dos indícios perceber a estrutura presente nas histórias, como as crianças não sabiam ler, passavam a identificá-las, no momento do questionamento dos indícios, pelas ilustrações, figuras, seu formato principal, pela sua origem, se era um livro, se era um conto de fadas, um conto clássico infantil, as páginas, o título, o autor, a editora, personagens.

Quanto a esse questionamento de indícios, Jolibert, em seu livro Formando crianças leitoras, afirma que as crianças não esperam pelo professor para questionarem os indícios de leitura e escrita, mas questionam livremente, partindo das ilustrações até chegar ao contexto:

As crianças não têm esperado pelos professores para questionarem livremente o escrito: na rua, em casa, até na escola, elas dedicam muito tempo em avançar hipóteses de sentido sobre os cartazes, as vitrinas das lojas, as prateleiras dos supermercados, as embalagens dos produtos alimentícios, os jornais, as histórias em quadrinhos, as obras de literatura infantil.... Elas fazem isso a partir de indícios que vão desde as ilustrações até o formato e a cor, passando, entre outros, pelas palavras e que, de todo o modo, estão muito ligados ao contexto no qual tais escritos são encontrados. (JOLIBERT, 1994, p.44)

Na primeira história trabalhada, O Patinho Feio, observamos que a maioria dos alunos manifestava muita dificuldade para organizar suas idéias e responder, questionavam os indícios do livro e da história, observando as figuras, nossa intervenção se resumia em orientá-los a seguir o esboço de narração, citado na metodologia.

As crianças contavam a história seguindo as ilustrações, com muita dificuldade para perceber o começo, o meio e o fim.

Nas outras histórias, João e Maria e Cinderela, não precisávamos mais seguir com os alunos o esboço de narração, pois davam seqüência à condução da narrativa sozinhos, reconheciam momentos da superestrutura narrativa (situação inicial, desenrolar e fim).

No questionamento dos indícios do segundo conto, João e Maria, todos participaram, cada um a seu modo. Percebemos que entenderam bem a superestrutura narrativa da história, começo, meio e fim.

Algumas vezes os alunos comparavam outras versões que conheciam ou os livros, que um era maior que o outro, questionavam até mesmo os autores. As crianças do pré nível II, mesmo não sabendo ler, questionavam os indícios e identificavam a superestrutura narrativa presente nas histórias.

As crianças se ajudavam, levantavam do lugar para ajudar o amigo, lembrar algum acontecimento esquecido e dar sugestões. Essa cooperação devido à forma como ocorreu a intervenção, limitando-se quando necessário a questionar os acontecimentos da história e a seqüência narrativa. Nossos questionamentos, dessa forma, levaram as crianças a observar tais indícios e perceber a superestrutura da narrativa.

Isso fica claro, no terceiro conto, Cinderela, no qual antes da leitura do texto, as crianças questionavam os indícios sozinhas e sem a intervenção da pesquisadora, percebiam a superestrutura narrativa sem precisar do esboço de narração, citado na metodologia.

Quanto ao nosso segundo objetivo por meio de situações de escuta pelos alunos, da leitura desses contos pelo professor e ao recontar as histórias ouvidas reconstruir mentalmente as partes da história, ou seja, introjetar um esquema narrativo e desenvolver a linguagem oral, observando os relatos produzidos pelas crianças quando recontaram, constatamos que a evolução do percurso narrativo e o desenvolvimento da linguagem oral foi maior nos alunos que utilizaram o livro para recontar a história do que as crianças que não utilizaram. As figuras ajudaram a reconstrução do percurso narrativo, o que se comprova pela extensão do relato de cada uma das crianças.

Quanto à oralidade, verificamos que ocorreram mudanças positivas na fala das crianças, como por exemplo, algumas delas que apresentavam dificuldades principalmente em falar em voz alta passaram a apresentar maior desenvoltura nessa ação, e isso elevou não só a qualidade das histórias contadas, mas também a auto-estima dos participantes. As frases curtas, confusas e incompletas do início deram lugar a frases coerentes e melhor elaboradas.

As produções das narrativas finais mostram evolução significativa nos relatos das crianças, demonstrando maior riqueza de detalhes, melhoria na condução da superestrutura narrativa, maior autonomia no reconto oral. As crianças envolveram-se com a atividade e todos queriam participar.

Verificando os relatos, podemos considerar que os alunos conseguiram compreender o início, o meio e o final das histórias, as características de cada personagem, alguns eles acrescentaram até detalhes de sua imaginação, que não existiam na história.

Mediante nosso terceiro objetivo, ou seja, criar uma nova história, estabelecendo relações com a forma de viver, pensar e agir, ao propor que as crianças criassem novas versões para os contos clássicos infantis, podemos observar que algumas características encontradas nos verdadeiros contos permaneceram, ao mesmo tempo em que elementos seculares dos contos sofreram modificações. Além disso, o momento que estavam vivenciando e o seu cotidiano também estão inseridos nas histórias criadas.

De maneira geral as histórias começam com o era uma vez... para situar o tempo e trazem o problema que estão vivenciando na época.

Com os colegas, os alunos interagiam, discutiam, observavam e pensavam. E analisando os relatos produzidos pelas crianças, podemos notar que algumas características do conto foram transcritas, o mesmo ocorrendo com a realidade cotidiana de algumas crianças que inseriram em suas histórias temas como o divórcio, problemas financeiros, problemas de auto- estima, briga entre os pais.

Segundo o RCN os modos de vida, os lugares, as vivências são para a criança parte de um todo integrado:

Desde muito pequenas, pela interação com o meio natural e social na qual vivem, as crianças aprendem sobre o mundo, fazendo perguntas e procurando respostas às sua indagações e questões. Como integrantes de grupos socioculturais singulares, vivenciam experiências e interagem num contexto de conceitos, valores, idéias, objetos e representações sobre os mais diversos temas que têm acesso na vida cotidiana, construindo um conjunto de conhecimentos sobre o mundo que as cerca. (RCN, 1998, vol.3, p.163).

Ao final, constata-se que as crianças relatam, inventam o que dizer e, ao inventarem novas versões falam sem medo de errar. Inventam, imaginam e invertendo a história, relatam a partir do que vêem, do que sentem e do que ouvem. Confirma-se assim o nosso terceiro objetivo que as crianças criam novas versões estabelecendo relações com a forma de viver, pensar e agir.

Dessa forma podemos constatar ao analisarmos os resultados de nosso trabalho, como as versões criadas pelos alunos, trouxeram elementos do cotidiano relacionados com o modo de viver, pensar e agir de cada um deles.

Os contos clássicos considerados pelos camponeses na França, de Luís XIV, no século XVII, como “bons para pensar” e que, mostraram “como o mundo é feito”, chegaram ao século XXI e foram recontados pelas crianças, que inseriram fatos do seu cotidiano e valores atuais, situações que as afligiam, introduzindo a própria realidade em suas criações.

Transformaram, pois, tal como nosso objetivo maior, as narrativas de Grimm e Andersen, em histórias para pensar e as incorporaram como aprendizado das formas de viver, pensar e agir daquela época e desta.

Considerações Finais

Foi acreditando que os contos clássicos infantis poderiam ser uma alternativa que contribuísse ao trabalho na sala de aula da educação infantil, uma vez que permite à criança penetrar no mundo da fantasia, funcionando como uma ponte entre o real e o imaginário, identificando-se, algumas vezes, com as personagens, que propusemos realizar este estudo. Além do mais, os contos clássicos infantis podem despertar o interesse e apresentar elementos motivadores para a criação pelos alunos de novas histórias relacionadas com as formas de viver, pensar e agir de cada um deles.

O estudo foi proposto visando desenvolver um projeto de literatura infantil com base na narração de histórias infantis que incentivasse aos alunos à questionarem os indícios presentes nessas histórias, que percebessem e apropriassem aos poucos, das características de um texto narrativo. Entre essas características e que, ao mesmo tempo, o torna instigante, destaca-se o conflito entre personagens que praticam e sofrem ações. A história contada ou lida, podem propiciar o reconto mais organizado em idéias, introjetando assim um esquema narrativo.

A criança, desde muito pequena, ouve histórias, quer seja para dormir, quer para se entreter. Aos poucos, acaba internalizando o modelo narrativo das histórias infantis, ao mesmo tempo em que estimula a criatividade, imaginação, criando personagens, conflitos e tantas outras fantasias.

As histórias criadas pelos alunos manifestam suas idéias, sentimentos e experiências internalizadas e vividas. É o que justifica a inserção de fatos cotidianos e momentos vividos pelas crianças em seus recontos, que trouxeram, ainda, indícios de uma época, de uma vivência.

Confirmamos nos relatos produzidos pelas crianças a presença de elementos reais no processo de criação de uma nova versão. Esses elementos legitimam os relatos produzidos pelas crianças como um material, no qual é possível ler um acontecimento do cotidiano, determinado em um contexto. Assim podemos citar nosso objetivo maior, que as crianças criassem histórias relacionadas com as formas de viver, pensar e agir de cada uma delas.

Levando essa reflexão aos dias atuais, há muitas classes de educação infantil que as histórias jamais são vistas juntas, onde não se perde tempo em trabalhar com os alunos os contos clássicos infantis, porque para essas professoras não seria um trabalho “sério”, é preciso rapidamente, aprender a ler, a escrever e a contar. Em casa, as atribulações da vida cotidiana ou o reinado da televisão mal permitem que se conte uma história no momento da criança dormir, um momento tão importante para esse diálogo.

Ao mesmo tempo em que esta realidade está cada vez menos presente na escola e, em casa, percebemos esforços no sentido de resgatar esses contos clássicos infantis, como foi visto no último carnaval do Rio de Janeiro de 2005, a escola de samba Imperatriz Leopoldinense fazendo uma homenagem ao Bicentenário de Hans Christian Andersen, trazendo os seus contos clássicos infantis, que podem ser lidos em qualquer época e qualquer idade.

Com este estudo, temos a esperança de que algo tenha sido acrescentado à reflexão pedagógica, pensamos que o trabalho com os contos clássicos infantis permitem aos professores da educação infantil resgatarem em sua aulas a escuta e o recontar dessas histórias como um momento em que a criança possa relacionar com a sua maneira de viver, pensar e de agir, contribuindo na construção da subjetividade e no despertar da sensibilidade nas crianças.

Referências

ABRAMOVICH, F. Literatura infantil: gostosuras e bobices. 5ª ed. São Paulo: Scipione, 1989.

ANDERSEN, H.C. O Patinho feio. Tradução de Tabajara Ruas. Ilustrações de Manoel Victor Filho. Porto Alegre: Kuarup, 2002.

BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fadas. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

BRASIL. Ministério de Educação e do Desporto. Secretaria de Educação. Linguagem Oral e Escrita. In:_____Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. V3.117-159.

GIGLIO, J.S., GIGLIO, Z.G, GUIMARÂES A., SILVA C.R., ZIMMERMANN E.B. Contos maravilhosos: Expressão do desenvolvimento humano. Campinas: UNICAMP, NEP, 1991.

GRIMM, J; W. Cinderela.Trad¬¬¬¬ução de Verônica Sônia Kühle. Ilustrações de Bebel Braga. Porto Alegre: Kuarup, 2002.

______, J; W. Joãozinho e Mariazinha. Tradução de Verônica Sônia Kühle. Ilustrações de Avelino Guedes. Porto Alegre: Kuarup, 2002.

JOLIBERT, J. Formando Crianças Leitoras. Tradução de B. C. Magne. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

MACHADO, A.M. Ponto a ponto. Coordenação Donatella Berlendis; fotos de Michelangelo Princiotta. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 1998.

MENDES, M.B.T. Em busca dos contos perdidos: O significado das funções femininas nos contos de Perrault. São Paulo: Editora Unesp, 2000.

PENNAC, D. Como um romance. Tradução de Leny Werneck. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

ZUMTHOR, P. Introdução à poesia oral. Tradução de Jerusa Pires Ferreira, Maria Lúcia Diniz Pochat, Maria Inês de Almeida. São Paulo: Hucitec, 1997.

 
Voltar