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  LER NAS ENTRELINHAS: A EDUCAÇÃO DA CRIANÇA INSTITUCIONALIZADA NO ASILO DOS EXPOSTOS DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO PAULO 1896-1950?

José Fernando Teles da Rocha - Universidade São Francisco - USF

Este texto tem como pressuposto apresentar as práticas pedagógicas vivenciadas pelos asilados na escola existente no Asilo dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo entre 1896 a 1950, como parte da política de assistência à criança abandonada, órfã, desvalida ou pobre que se instalou no país e, especificamente em São Paulo, nas primeiras décadas após a Proclamação da República. Apesar desta problemática já chamar a atenção na época do Império, notadamente é no período republicano que a infância passou a ser vista e falada mais detidamente nos discursos de médicos, educadores, juristas e políticos. Estava inserida dentro de um contexto maior de organização da sociedade e de uma preocupação em termos da formação de um futuro adulto.
Tal estudo utilizou como fonte primária os Relatórios da Mordomia escritos pelos administradores do Asilo, denominados Mordomos de Expostos. São através desses documentos que tivemos acesso às informações que nos possibilitaram conhecer um pouco mais sobre o cotidiano das crianças institucionalizadas em uma determinada época e Instituição.
Esses Relatórios eram entregues anualmente ao Provedor da Santa Casa e neles podemos encontrar, por exemplo, relatórios de aulas, metodologias e programas, enfim uma série de textos que permitem identificar as práticas pedagógicas ministradas pelas professoras e vivenciadas pelos asilados em seu dia-a-dia.
O recorte inicial deve-se ao fato de que, em 1896, o Asilo dos Expostos foi transferido para um prédio próprio, no bairro do Pacaembu. Até então, desde 1824, era uma unidade anexa à Santa Casa. Essa transferência marcou não só a mudança do Asilo de um prédio para outro. Também colocou em destaque sujeitos e fatos de uma época de profunda transformação na cidade de São Paulo não só no espaço físico mas também na mentalidade de seus moradores .
Em relação ao recorte final, ou seja, 1950, deve-se à limitação das fontes, os Relatórios da Mordomia. O último Relatório disponível no acervo do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo – principal local de pesquisa para este trabalho e onde se encontra um número maior de volumes da documentação – data de 22 de maio de 1950.
A primeira informação sobre a existência de uma escola no Asilo dos Expostos está presente no Relatório relativo a 01 de julho de 1902 a 31 de dezembro de 1903. Por meio dele verificam-se os seguintes dados: o ensino primário e a freqüência ao longo deste período foi de quarenta e nove asilados, sendo dezesseis meninos, entre sete a onze anos, e trinta e três meninas, cuja idade variava de seis a doze anos ( p.48). “ O ensino ahi distribuído approxima-se do programma official nas escolas mantidas pelo governo, e com o tempo espero modifical-o tornando-o mais practico” (p.48).
Ressalta-se, porém, que embora utilizando um programa semelhante ao oficial, o ensino dentro do Asilo deve ser analisado levando-se em conta que estamos escrevendo sobre sujeitos com perfis diferenciados dos encontrados nas escolas oficiais.Isso porque as práticas sociais e pedagógicas ministradas naquela época, com as crianças institucionalizadas, diferenciavam-se das adotadas com as crianças socialmente instituídas pelo vínculo da família com a escola. Este fato decorria de uma visão social que algumas escolas/instituições apresentavam em relação aos alunos “sem família”, que exigia a definição de objetivos pedagógicos específicos para formar um cidadão com papel predefinido na escala social em função das suas origens.
A maioria das instituições voltadas a esse perfil de criança buscava encaminhá-la para o “mundo profissional”, ensinando ofícios que, no aspecto econômico, fossem necessários para acompanhar o ritmo de crescimento da cidade de São Paulo. Ofícios como o de marceneiro, alfaiate, sapateiro, entre outros.
Segundo Cunha, “a partir de meados do século XIX, com o aumento da produção manufatureira no Brasil, começaram a ser organizadas as sociedades civis destinadas a amparar órfãos e/ou ministrar o ensino de artes e ofícios” (1979, p.18).Como pode ser notado então a ênfase estava em um fim prático e útil para a sociedade da época.
Era necessário seguir um caminho, dar uma direção ao ensino principalmente àquele destinado à camada mais pobre da população. Daí o trabalho como aspecto educativo, disciplinador, necessário para o desenvolvimento e expansão daquela época.
É certo que a partir do federalismo adotado com a República os Estados conquistaram maior autonomia. São Paulo, por meio de sua burguesia cafeeira, conseguiu se posicionar melhor em meio às mudanças que estavam ocorrendo. A questão do ensino foi projetada, juntamente com outros objetivos políticos e econômicos.
O que se observa, através da revisão bibliográfica, é que a Constituição de 1891 traz, em seu bojo, o sistema federativo como também o sistema dual de ensino que já estava sendo aplicado desde o Império. Esse mesmo sistema favorecia a classe dominante através, por exemplo,do acesso às escolas secundárias, em detrimento à educação da camada pobre, para a qual eram destinadas as escolas primárias assim como as profissionais.
Em relação ao Estado de São Paulo, Antunha observa que a Constituição paulista, de 14 de julho de 1891, estabeleceu que o ensino seria formado pelo “primário, secundário, superior e profissional“ (1976,p. 52). Fazendo uso da legislação da época o autor transcreve a seguinte divisão para o ensino em São Paulo :
No nível primário: a) o Jardim da Infância, funcionando anexo à Escola Normal, b) o ensino primário, dividido em dois cursos: o preliminar, com a duração de quatro anos e o complementar, também com quatro anos; no nível secundário : a) Curso Ginasial; b) Curso Normal; no nível superior: as escolas superiores. (1976, p.56)

A rigor, dentro deste projeto de constituição desta “nova e organizada” sociedade republicana a infância pobre também começava a ocupar um lugar de destaque nos discursos educacionais, políticos, científicos e jurídicos já que era necessário transformar esta criança em um adulto em ótimas condições de saúde, moralmente bem constituído, cuja educação estivesse voltada principalmente para a formação de uma mão-de-obra capaz de acompanhar as necessidades econômicas do país.Daí o trabalho como um aspecto educativo, disciplinador, necessário para o desenvolvimento e expansão daquela época.
A tônica desse processo, naquele momento, mostrava que fora a necessidade de modernizar o país e abrir caminho na área política,médicos e educadores, por exemplo, acreditavam que “as medidas de política sanitária seriam ineficazes se não abrangessem a introjeção, nos sujeitos sociais, de hábitos higiênicos, por meio da educação”. (CARVALHO, 1997, p.283)
Reis Filho, comentando sobre a reforma Republicana do ensino paulista, diz que as escolas estatais “teriam o cargo e preparar o futuro cidadão para que ele pudesse desempenhar o papel político reservado pelo regime republicano a todos os brasileiros” (1995 p.204). Ele observa ainda que :

O novo regime republicano atribui à escola a tarefa primordial de educação cívica, entendida como a compreensão fundamental dos deveres do cidadão. Isso se verifica não só no plano de estudo da escola como um todo, mas também por meio do rol de disciplinas como : História do Brasil, Geografia do Brasil, Economia política, Educação Cívica, que exerciam a função de ampliar o quadro de informações sócio-políticas necessárias ao exercício da cidadania. ( 1995, p.204)

Também houve, nas primeiras décadas do pós-República, a ampliação dos sistemas escolares, carregados de ações voltadas para a infância. No caso específico deste estudo, a infância abandonada, órfã ou desvalida que começava a ser “cuidada” pela “assistência científica”, que ganhava espaço e incorporava com maior racionalidade a “assistência caritativa”, sistema até então estabelecido pelo estado e instituições religiosas para proteger essa infância.

A “assistência científica” foi elaborada a partir de diferentes influências. Os problemas da vida urbana e das fábricas levaram chefes de polícia,juristas,médicos, religiosos,industriais,educadores,engenheiros e arquitetos a articular suas iniciativas para implementar uma política assistencial. Aquelas forças manifestavam as suas concepções no interior dos congressos profissionais. A assistência foi dividida em ramos, sendo que a proteção à infância era um de seus principais pilares (KUHLMANN JR., 1990, p.40).

A citação serve para estabelecer uma ponte com o fato de que, por causa dessa mudança na visão assistencial, ganhou força a instalação de asilos e jardins de infância e , mais tarde, as creches como propostas voltadas à camada mais pobre da população. Essas instituições pré-escolares, segundo Kuhlmann Jr., “tinham uma perspectiva educacional coerente com as proposições da ‘assistência científica’, claramente dirigida para a submissão das crianças das classes populares” (1990,p.129).
Voltando à questão da escola existente no interior do Asilo, em 1904 o mordomo, noticiando sobre o aumento no número de asilados, descrevia que julgou necessário dividir a escola em “três secções”, sendo a primeira para o sexo feminino, a segunda para o masculino e a terceira para os menores de cinco anos de ambos os sexos.Confira:

A primeira secção teve a frequencia de 59 alumnas, regulando a edade de 5 a 14 annos. A segunda secção teve a frequencia de 46 alumnos regulando a edade de 6 a 12 annos.
N’estas duas secções o ensino adoptado é calcado no programma official, e folgo em confessar que, tanto os alumnos da primeira como os da segunda secção, demonstraram, no correr do anno, grande aproveitamento.
A terceira secção que não é mais do que um ponto de reunião de creanças – um grande jardim de infância, teve uma freqüência de 16 creanças, regulando as edades de 3 a 5 annos. (RELATÓRIO DA MORDOMIA,1905 , p.64)

A divisão realizada pelo mordomo, nota-se, não foi rígida em relação à idade das crianças. Isso porque, de acordo com o programa oficial, o curso preliminar, referente ao ensino primário, era obrigatório para crianças de “sete a doze anos inclusive. O limite superior, no entanto, não implicava na proibição de matrícula à criança de idade mais avançada”. (ANTUNHA, 1976, p.63). Pelo que se verifica na citação, somente a idade limite é que parece ir ao encontro à legislação. O que possivelmente pode ter ocorrido é que não havia a possibilidade de formar novas seções na escola do Asilo, fazendo com que o mordomo colocasse, mesmo com idade inferior, asilados numa mesma turma.
No Relatório de 1909 há informações mais detalhadas tanto sobre a escola quanto às matérias ensinadas. Naquele ano freqüentaram as aulas cento e dezoito asilados, sendo cinqüenta e cinco meninos e sessenta e três meninas. É interessante observar por meio da citação abaixo que o número de disciplinas que compunha a grade curricular era relativamente extenso e diversificado, tanto para os meninos quanto para as meninas. Isso salta aos olhos pois, fora a freqüência na escola, havia ainda o aprendizado nas oficinas e os serviços domésticos , o que os deixava ocupados praticamente durante todo o dia.

A secção masculina, funccionou dividida em duas aulas, tendo sido a primeira freqüentada por 32 alumnos e a segunda por 23. Os da primeira tiveram como programma de ensino o official, com pequenas modificações. As disciplinas ahi ensinadas foram: Grammatica Portugueza, Arithmetica, Geographia, Historia do Brazil e Natural, noções de Geometria, Calligraphia, Gymnastica e Musica. Os da segunda aula, primeiras letras.
A secção feminina como a primeira funccionou em duas aulas, tendo a primeira freqüência de 41 alumnas e a segunda de 22. As da primeira estudaram: Grammatica Portugueza, Arithmetica, Geographia, Historia do Brazil, Natural, noções de Literatura, Calligraphia e Francez. As da segunda aula, primeiras letras. (1909, p. 76).

Assim, para as meninas, houve a introdução das noções de literatura e francês, e suprimidas do programa a ginástica, música e noções de geometria. Vale ressaltar que um ano depois foram acrescentadas para as alunas aulas de bordado e costura (RELATÓRIO DA MORDOMIA, 1910, p.105).
O objetivo da inclusão dessas duas últimas aulas ao Programa estava no fato de que havia também uma grande preocupação em ensiná-las para os serviços domésticos. Tal enfoque estava relacionado principalmente à questão do trabalho uma vez que muitas delas, ao saírem do Asilo, se não pelo casamento, estariam prestando sua mão-de-obra em casas de família. A introdução de matérias como bordado e costura seria uma forma de prepará-las para seu futuro sustento. Tanto que algumas asiladas ao saírem da Instituição e por terem tido um bom comportamento durante o tempo da institucionalização ganhavam, “por mérito”, uma máquina de costura (RELATÓRIO DA MORDOMIA, 1930, p.132).
Alguns cadernos “brochuras” doados pela ex-asilada D.R.M. ao Museu da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo nos possibilita verificar o conteúdo ministrado às meninas. Em um deles, datado de 1917, e referente ao segundo ano primário, traz na capa impresso o seguinte texto: “Escolas Públicas de São Paulo”, o que nos indica que os cadernos, pelo menos naquele ano, foram doados ao Asilo pelo governo do Estado. Embaixo deste texto, num espaço reservado e escrito à mão, “Caderno de Linguagem” e, em seguida, o nome da aluna e a data.
Neste caderno encontram-se exercícios lexicológicos, problemas de aritmética, cartas, composições, ditados e até mesmo exercícios utilizando tempos verbais em francês. Transcrevemos alguns deles, todos escritos à tinta:

Dictado – Uma bôa semana
A um menino piedoso e trabalhador, perguntam uma vez: Que fizeste de bom esta semana? Elle respondeu simplesmente: Meu dever e não me queixei de ninguém, de pessoa alguma. Eis tudo – Sim menino, eis tudo, tudo que Deus pede de ti, tudo que devias fazer. Não te queixareis de ninguém, nem de nada é para ti uma semana de sacrifícios, de paz, de submissão, de méritos sobre tudo [...].

Nota-se pelo texto acima a perspectiva de incutir nos asilados um certo controle por meio do bom comportamento, da submissão, do trabalho e humildade como fatores que os levariam a uma certa “redenção”.Não por acaso, o objetivo parece ser o de mostrar que o “segredo” para “uma bôa semana” e, porque não de uma vida melhor, reside na disciplina, na consciência dos deveres e na moral.Eram essas atitudes, entre outras, que possibilitariam a eles uma boa formação e caráter adequado, qualidades extremamente importantes e necessárias ao saírem da Instituição.
No exercício a seguir, no qual a aluna deveria “pôr os verbos no presente do indicativo”, nota-se uma verdadeira “doutrinação”. O texto sugere que nenhum tipo de problema – talvez nem mesmo o fato de ser abandonada e viver em uma instituição – fosse motivo para qualquer tipo de revolta ou rebeldia. Sentimentos como esses, aliás, poderiam ocasionar outros problemas. Era preciso, assim, sempre ter esperança. Observe:

Nos supportamos com resignação essa perda de dinheiro. Do alto do Corcovado se avista um esplendido panorama. Pouca cousa nos consola; pouca cousa nos magôa. Quantos males nos acusa o espírito de revolta.

Outro exemplo, agora de matemática:

Um carniceiro comprou 15 vitellas a 58$ cada uma; 65 carneiros a 24$, 7 vaccas a 290$ e 3 bois a 520$. Quanto gastou e quanto lhe resta de 7:907$ que tinha?
Solução 58$ x 15 = 870$ preço das vitellas
24$ x 65 = 1: 560$ preço dos carneiros
290$ x 7 = 2 : 030$ preço das vaccas
520$ x 3 = 1: 560$ preço dos bois

O carniceiro gastou 870$ + 1: 5604$ + 2:030$ + 1: 560$ = 6 :020$
Resposta: resta-lhe 7: 907$ - 6:020$ = 1 : 887$


Pelo exercício transcrito nota-se que a ênfase está no procedimento da resolução do problema, ou seja, no algoritmo. Tanto que a “solução”, ao que parece, não dá chance para que a criança possa tentar outros caminhos.
Naquele ano de 1917 a Lei 1579, de 19 de dezembro de 1917, estabelecia diversas disposições sobre a Instrução Pública no Estado de São Paulo. Em relação ao programa de ensino, para o segundo ano primário, entre outros assuntos, recomendava para a “linguagem oral”, “contos moraes e cívicos, previamente explicados pelo professor e reproduzidos pela classe em aulas posteriores” (ANUÁRIO DE ENSINO, 1918, p.595). Para a “Arithmetica”, as “quatro operações – problemas fáceis-provas, conhecimento de medidas usuaes – exercícios práticos e problemas fáceis” (p. 595).
Segundo o Relatório de 1929, no ano de 1927 a escola estava constituída de quatro classes, com cento e treze asilados, sendo cinqüenta e sete meninos e cinqüenta e seis meninas (p.106). Um ano depois aumentou-se uma classe, embora o número de alunos tenha sido reduzido para cento e quatro. No ano de 1930 o Asilo mantinha dois asilados estudando no Liceu Salesiano, um no Seminário de Pirapora e dois no Instituto Anna Rosa (1930,p.132).
De 1931 a 1935 há pouca informação em relação ao ensino: apenas a quantidade de alunos freqüentando as aulas e alguns números dos que estavam estudando fora do Asilo.
A partir da década de quarenta há um número maior de informações sobre o sistema de ensino, educadoras, metodologias, estrutura física das salas, disciplinas, entre outras notícias da escola no Asilo e de seus alunos.
Em 1943, oitenta e seis alunos estavam no ensino primário, quarenta e seis meninos e quarenta meninas. Havia também um Jardim da Infância instalado no Asilo com vinte e nove crianças. De acordo com o mordomo, três alunos concluíram o quarto ano primário, levando-os a prestar os exames finais e “sido aprovados” no Grupo Escolar Godofredo Furtado, no bairro de Pinheiros (p.236).

Aos domingos reuniam-se no salão de festas levando o seu distintivo semanal de boa conduta os que deram prova de geral aproveitamento, durante a semana, frisando-se sobretudo a boa educação. Nesta reunião lhes é dada uma liçãozinha de polidês e de formação de caráter. São nelas também notadas as falhas e mais ainda elogiados os procedimentos corretos, observados durante a semana. Como recompensa aos esforçados, distribuem-se balas, revistas ou qualquer novidade que a ocasião proporciona. Tem-se mostrado muito interessado por essas reuniões um bom número de alunos. (RELATÓRIO DA MORDOMIA, 1943, p.236)

É interessante notar, a partir dessa citação, o reconhecimento por meio de “recompensas” para aqueles asilados que demonstrassem comportamento adequado e correto, segundo julgamento dos responsáveis pelo Asilo. Há uma certa associação com a questão da moral e dos bons costumes, necessários de incutir-lhes para sua boa formação.
Não se pode também deixar de salientar que este tipo de “premiação” poderia servir como uma espécie de punição, ainda que velada, àqueles que não eram contemplados com tais “incentivos”. Era uma forma de mostrar, sem o uso de castigos físicos ou maus-tratos, por exemplo, qual a melhor atitude a ser tomada pelos asilados no dia-a-dia na Instituição.
Cabe salientar que ao longo dos anos estudados neste trabalho as recompensas extrapolavam a mera premiação. Observa-se a colocação em empresas e bancos aos meninos que mais se destacassem, seja no próprio Asilo ou na escola, em termos de bom comportamento, obediência, resultados positivos em termos de rendimento escolar, entre outros parâmetros.
Em 16 de agosto de 1943 foram iniciadas as aulas na oficina de costura. Para dirigir tal seção foi contratada a professora Genny Simonio, diplomada pela Escola Profissional de São Paulo. “Apesar de poucas no número, as alunas deram trabalho triplo no aprendizado pela mentalidade viciada que manifestavam” (p.237). Na seção masculina, segundo a professora, os meninos realizaram trabalhos de tecelagem, utilizando para isso teares manuais, construções em papel, entre outros materiais.
No período de férias escolares, dezembro a fevereiro, os alunos tiveram um horário especial. Durante duas horas diárias “cuidavam da jardinagem e horticultura. O regulamento foi amenizado com horas de leitura, contos e histórias e também o rádio à tarde”. (p.237)
Estas informações possibilitam uma observação.Mesmo em período de férias, as crianças não tinham um horário realmente “livre” no qual pudessem simplesmente fazer o que quisessem. Pelo contrário, eram também controladas e as atividades desenvolvidas escolhidas pelos responsáveis do Asilo para que não ficassem “ à toa” ou, simplesmente, livres pelos pátios e jardins. Assim, mesmo com o “regulamento amenizado” continuavam mantendo-as ocupadas por atividades ao longo de todo o dia, não se permitindo, pelo visto, o ócio.
Naquele mesmo ano de 1943, mais especificamente no mês de julho, iniciou seus trabalhos como assistente social junto ao Asilo D. Leopoldina Saraiva, designada pelo Serviço Social de Menores (p.263). Em seu primeiro relatório, datado de 30 de dezembro de 1943, escreveu estar impressionada, desde o início, com a postura das meninas. Segundo ela, havia desconhecimento total da vida fora do Asilo e o que é pior, muitas vezes uma idéia absolutamente falsa do que as esperaria no mundo; falta de capacidade de esforço; negligência não somente nos trabalhos como em arranjos e até arranjo próprio – higiene pessoal má; mentalidade retardada – vocabulário deficiente – assuntos sempre repetidos – efeitos prováveis do regime de segregação quase absoluta em que viviam. (RELATÓRIO DA MORDOMIA, 1943, p. 264)

Para atenuar esses problemas D. Leopoldina Saraiva tomou algumas atitudes. Entre elas: a instalação de uma oficina pré-vocacional para meninas maiores de dez anos “visando o combate á ociosidade e início de preparo profissional” (p.264), sob a direção de D. Laura Annita Magalhães, da Escola de Serviço Social .
Em 1944 foi introduzido o curso de “ginástica educativa e corretiva”, cujo objetivo principal era o de corrigir “defeitos” observados na constituição física de muitas crianças e também na “expansibilidade de movimentos, despertando o interesse associativo da ginástica moderna de marchas, ritmos e jogos” (p.245).
Um relatório escrito pela professora Cordelia Barbosa Dalpino revela que as aulas de educação física eram realizadas pelo método francês, às segundas, terças, quartas e sextas-feiras. Constavam de evolução, flexionamento de braços, pernas, tronco e caixa torácica.
Na lição propriamente dita haverá um imitativo ou educativo ou aplicação de famílias de:1.º) Marchar, 2.º) Trepar, 3.º) Saltar, 4.º) Levantar e transportar, 5.º) Correr, 6.º) Arremessar e 7.º) Atacar e defender.Para finalizar, volta a calma com marcha lenta e exercício respiratório, marcha com canto e exercícios de ordem. De cada aula constarão dois pequenos jogos.(RELATÓRIO DA MORDOMIA, 1944, p.261)

Ela completava o relatório escrevendo que para as crianças do Jardim de Infância eram ministradas aulas com exercícios imitativos,aula historiada e pequenos jogos amenizados com “cantos, rodas cantadas e recitativos”. (p.262)
O Relatório do ano de 1945 traz um balanço do ensino ministrado no interior do Asilo e seus resultados, pelo menos de forma parcial. Neste sentido, após a mudança das meninas para a Casa de São José ficaram no Asilo somente crianças menores de doze anos. Sendo que até quatro anos havia asilados de ambos os sexos. A partir desta idade, exclusivamente meninos.
A partir do ano de 1948 o Asilo passou a contar com um Curso Maternal, cuja professora Olinda Pinto de Miranda foi cedida pela Secretaria da Educação. O objetivo do mesmo, “articulado com o Jardim de Infância”, segundo os responsáveis pelo Asilo, era o de dar aos “pré-escolares” hábitos que melhorassem suas condições físicas, morais e sociais, de modo a fornecer-lhes uma base mais sólida para quando ingressassem no período verdadeiramente escolar (p.258).
O último Relatório relativo à educação no interior da Instituição data de 23 de fevereiro de 1950, escrito pela professora Lirba de Barros e encaminhado ao mordomo na época, Dr. João Leite de Bastos. Nele há uma descrição das atividades trabalhadas ao longo do ano anterior. A maioria dos alunos tinha quatro anos.Portanto, freqüentavam o Jardim de Infância e, percebendo que as crianças necessitavam de exercícios nos quais pudessem se “movimentar à vontade”, a professora organizou um programa com aulas de ginástica recreativa, jogos livres, jardinagem, passeios ao redor do Asilo e do Estádio do Pacaembu, além de brincadeiras com bola, bicicleta, patinetes e carros para puxar.
Assim, pelo que verificamos ao longo do texto o foco dado à escola/ensino no interior do Asilo esteve voltado à formação prática e utilitária dos asilados. Esta era a intenção, pelo menos em boa parte do recorte demarcado nesta pesquisa: para os meninos, “transformá-los” em homens trabalhadores e úteis à Nação.
Vale lembrar ainda que a escola instalada no interior da instituição utilizava-se do modelo oficial de ensino e o aplicava, com as devidas adaptações, à estrutura da Casa. As próprias professoras também eram, em sua maioria, comissionadas do Estado. Essa medida tinha a ver com o fato de que ao completarem 12 anos de idade os meninos tinham que estudar fora do Asilo, em escolas que ofereciam o ensino acima do primário ou mesmo em escolas técnico-profissionais. Neste sentido, estudando por meio de um conteúdo semelhante ao oficial teriam maiores chances de continuarem seus estudos, o que de fato acabava ocorrendo com um grande número de crianças.

FONTES PRIMÁRIAS

Anuário de ensino – Faculdade de Educação –Universidade de São Paulo- 1918, 1920,1921

Caderno de asilada – 1917- Museu da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo

RELATÓRIOS do Irmão Mordomo dos Expostos. In: IRMANDADE DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO PAULO. Relatório [anual], apresentado á mesa conjuncta pelo irmão provedor referentes a: 1903-1910,1929,1930,1943-1949.

BIBLIOGRAFIA

ANTUNHA, Heládio César Gonçalves. A instrução pública no estado de São Paulo : a reforma de 1920. São Paulo : Faculdade de Educação – USP, 1976

CARVALHO, Marta Maria Chagas de . Quando a história da educação é a história da disciplina e da higienização das pessoas. In: FREITAS , M. C.História social da infância no Brasil. São Paulo: Cortez, 1997.

CUNHA, Luiz Antonio. O ensino de ofícios manufatureiros em arsenais, asilos e liceus. In: Fórum Educacional. Fundação Getúlio Vargas. Rio de Janeiro : Editora da Fundação Getúlio Vargas, vol. 3 , n. 3 , jul./set. 1979. p.3-47.

KUHLMANN JR, Moysés. Educação pré-escolar no Brasil (1899-1922). Exposições e congressos patrocinando a “assistência científica”. Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1990.

REIS FILHO, Casemiro dos. A educação e a ilusão liberal. Campinas: Autores Associados, 1995.
VILLELA, Dilson Correia. FEBEM: Educação física , desigualdade social e cidadania. Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2002.

 
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