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  LEITURA HIPERTEXTUAL

Cláudia Rodrigues – UNICAMP/IEL

JUSTIFICATIVA

Pesquisar o funcionamento textual discursivo do hipertexto na categoria específica dos textos jornalísticos, tanto impressos quanto virtuais, visa estudar detalhadamente como funcionam os aspectos formais e interpretativos do texto jornalístico que utiliza como perfil para a notícia o hipertexto. Nas décadas recentes, a linguagem jornalística diversificou-se para concorrer com os meios eletrônicos. O estilo e a redação fluida foram substituídos por uma linguagem mediana, passível de ser entendida por parcela maior da sociedade, sem se perder a informatividade e, a não ser deliberadamente, a moderação. Buscando-se alcançar novos leitores, diversos produtos jornalísticos foram criados e baseados em dois aspectos para ajustar-se, no plano da forma, ao público que pretendem: o componente visual e a adequação da linguagem.

A Lingüística Textual, desde seus primeiros momentos, segundo Costa Val (2000:34) defende que o conceito de textualidade “tem sido entendido como o conjunto de características que fazem com que um texto seja um texto e não apenas uma seqüência de frases”. Da mesma forma, a aprendizagem de língua constitui-se na concepção de interação e defende a posição de que os sujeitos (re)produzem o social na medida em que participam ativamente da definição da situação na qual se acham engajados e que são participantes na atualização das imagens e das representações sem as quais a comunicação não poderia existir.

Analisar essas hipóteses, então, esbarra no conceito chomskyano de competência lingüística para o de competência textual, capacidade que habilitaria o falante a produzir, interpretar e reconhecer textos coerentes, a resumir e parafrasear textos, a perceber os limites e a completude ou incompletude de um texto, entre outros itens. Tal abordagem pode contribuir para o estudo desta pesquisa, que objetiva analisar como é o processo de construção, elaboração e compreensão de uma categoria específica de texto, o texto jornalístico, observando seus aspectos formais e interpretativos que chegam até um recurso específico: o hipertexto.

Essa análise contribui, conseqüentemente, no processo pela busca da melhoria do ensino e da aprendizagem que percorre uma inquietação quanto à urgência de reestruturar conteúdos, renovar métodos de ensino e repensar objetivos educacionais. O letramento escolar insere um conjunto de práticas sociais, cujos modos específicos de funcionamento têm implicações importantes para as formas pelas quais os sujeitos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem constrói relações de identidade e conhecimento. Além da renovação de conceitos e conteúdos, a pesquisa e a auto-avaliação profissional é prudente para constituir a boa prática de professores críticos e conscientes de sua função na escola.

Azeredo (2000) ressalta a ampliação nacional do debate sobre uma política capaz de assegurar eficiência no domínio dos meios de expressão lingüística num contexto sociocultural tão heterogêneo quanto o brasileiro, defende a valorização do papel cultural da palavra e cita a dimensão social da língua que se imprime em sua extraordinária maleabilidade e adaptabilidade as circunstâncias comunicativas, aos interesses dos indivíduos e aos caprichos do tempo e da história.

Hoje, torna-se urgente o esforço de todos para não só estar a par da tecnologia e seus usos, mas também produzir uma reflexão contemporânea e atenta. As relações em sala de aula devem ser re-atualizadas e re-interpretadas e a metodologia e recursos encadeados de tal maneira que o professor possa levar para sala de aula uma perspectiva de um contexto em que aconteça, de forma efetiva, a aprendizagem.

No contexto atual, devido ao acelerado desenvolvimento da tecnologia, apresenta-se um quadro amplo de possibilidades de mudanças no setor educacional. A Internet, como ferramenta de pesquisa, intensificou a busca mais rápida por informações, facilitando a constituição de banco de dados de assuntos bem variados, no entanto, percebe-se ainda as dificuldades com a linguagem escrita desses documentos, quer seja de um e-mail, artigos, propagandas, textos jornalísticos. Por este motivo, discute-se atualmente a influência das novas tecnologias, especialmente na informática, na linguagem e na cognição humana.

Essa preocupação passa a ter um papel central na educação como uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita, pois parece que a Internet tende a ocupar um papel relevante no sentido de ser utilizada como ferramenta de pesquisa e de fácil acesso para os alunos e pesquisadores em geral. O que é facilitado devido aos recursos que o hipertexto oferece, pois segundo Coscarelli (2002:66) “o hipertexto é, grosso modo, um texto que traz conexões, chamadas links, com outros textos que, por sua vez, se conectam a outros, e assim por diante, formando uma grande rede de textos”. Além disso, o conceito parece incluir recursos não-verbais uma vez que dispõe da presença de imagens, ícones, outras marcas, como hiperlinks, as barras de rolamento, diferentes formas de mostrar que um botão está ou não ativado, sons gráficos, animações, vídeos, entre outros.

Contribuindo a este advento, as novas perspectivas de letramento propõe contemplar dimensões constitutivas dos diferentes saberes presentes no ambiente escolar. O que atualmente se discute é a representação da linguagem em textos com tantos avanços no contexto tecnológico. De acordo com Coscarelli (2002:65)

uma das mudanças é o aparecimento de outros tipos e gêneros textuais. Além dos textos que temos em circulação em nossa sociedade letrada, outros aparecem e merecem ser pesquisados com profundidade. Entre eles, podemos citar o chat, o hipertexto, a multimídia, a hipermídia, os banners publicitários, a literatura digital em toda a sua diversidade, e, provavelmente, alguns outros que ainda não somos capazes de mencionar.

Dessa maneira, a autora apresenta três aspectos que referem a linguagem se apresentam:

1. A linguagem jamais ficaria fora de tantas mudanças, permanecendo a sua representação em outras formas de manifestação.
2.
3. A linguagem apresentada nos textos veiculados pela Internet precisa ser considerada, principalmente no sentido do tipo e do gênero dos textos.
4.
5. A linguagem envolve o aspecto da comunicação, o tipo e a forma como acontece, enfim, o caráter social do ato comunicativo.
6.


Portanto, uma das características essenciais a qualquer gênero textual é o caráter sociocomunicativo. Todo texto é produzido para ser recebido, é produto de uma intenção comunicativa que o leitor tem o trabalho de tentar recuperar. O que confirma Koch (1997:26):

O texto é considerado como um conjunto de pistas, representadas por elementos lingüísticos de diversas ordens, selecionados e dispostos de acordo com as virtualidades que cada língua põe à disposição dos falantes, no curso de uma atividade verbal, de modo a facultar aos interactantes não apenas a produção de sentidos, como fundear a própria interação como prática sociocultural.

Desta forma, os estudos vinculados a esta proposta terão sempre por tema o estudo do funcionamento textual discursivo de um recurso da língua, o hipertexto, em uma categoria específica de texto: os textos jornalísticos. Além disso, este estudo propõe um discurso configurado a questões sobre letramento que podem promover acesso para compreender as condições de uso de produção e recepção de textos jornalísticos, mediante o uso do hipertexto, a fim de identificar como é e quais são os efeitos das práticas da leitura e compreensão textual mediante as mudanças provocadas pelas novas tecnologias, no caso a utilização do hipertexto como um suporte para acionar os mecanismos mentais e estratégias cognitivas que os sujeitos usam na produção e compreensão de textos jornalísticos. Este estudo visa compreender que mudanças as novas tecnologias estão provocando nos textos, na forma de ler e de produzir textos e, conseqüentemente, nas formas de pensar.

REVISÃO TEÓRICA

A realização deste estudo se justifica pelo fato de que as discussões sobre definições hipertexto são inúmeras, e podemos até mesmo questionar o que é um hipertexto. Marcushi defende que

Em certo sentido, o hipertexto perturba nossa noção de texto rompendo a estrutura convencional e as expectativas a ela associadas. A ordem das informações não está dada na própria estrutura da escrita. diferentemente do que o texto de um livro convencional, o hipertextos não tem uma única ordem de ser lido. A leitura pode dar-se em muitas ordens. Tem múltiplas entradas e múltiplas formas de prosseguir. Há maior liberdade de navegação pela informações como se estivéssemos imersos num continuum de discursos espalhados por imensas redes digitais. (2000:91)

Além de buscar a compreensão sobre as conceituações de hipertexto e verificar as mudanças provocadas pelas novas tecnologia, que alteram os gêneros dos textos, veiculados por meio de hipertexto, na forma de ler e compreendê-los, bem como sua escrita, é interesse pesquisar quais são os efeitos das práticas da leitura e compreensão textual mediante as mudanças provocadas pelas novas tecnologias, no caso a utilização do hipertexto em textos jornalísticos.

Para tanto, será apresentado aqui alguns conceitos de hipertexto para que possamos refletir sobre as mudanças que o advento do hipertexto provocaria, a iniciar por Koch (2002:63):

O hipertexto constitui um suporte lingüístico-semiótico hoje intensamente utilizado para estabelecer interações virtuais desterritorializadas. Segundo a maioria dos autores, o termo designa uma escritura não-seqüencial e não-linear, que se ramifica e permite ao leitor virtual o acessamento praticamente ilimitado de outros textos, a partir de escolhas locais e sucessivas em tempo real.

Sob essa perspectiva, o hipertexto caracteriza-se por um processo de leitura multilinearizado, multiassequëncial e indeterminado. Como se pode ver na definição dada por Machado (1996:64):

Não se trata mais de um texto, mas de uma imensa superposição de textos que se pode ler na direção do paradigma, como alternativas virtuais da mesma escritura, ou na direção do sintagma, como textos que correm paralelamente ou que tangenciam em determinados pontos, permitindo optar entre prosseguir na mesma linha ou enredar por um caminho novo.

Analisando a função da hipertextualidade, Biderman (2001) considera o hipertexto como uma tecnologia, na qual chama de “inovadora” e “extraordinária”, pois “permite estabelecer uma conexão automatizada de qualquer ponto de um documento com ou um outro ponto desse ou de outro documento, e esse ponto pode ser um texto, uma imagem, um arquivo sonoro”. A autora ainda enfatiza que “tal tecnologia tem valor inestimável” por também permitir a possibilidade de fazer remissões e referências cruzadas.

O hipertexto permite estruturar os dados (a informação) numa rede na qual textos, gráficos, e até mesmo o som podem ser armazenados em determinados nós. Essa rede complexa de nós pode ser conectada de modo essencialmente arbitrário conforme o interesse e a necessidade do consulente. (Biderman, 2001:88)

Tal afirmação se encaixa no conceito de linearidade. A questão da linearidade da leitura gera discussões calorosas quando a noção de hipertexto está em pauta. Sabemos que, embora aparentemente linear, o texto tradicional apresenta uma hierarquia entre seus elementos constituintes que o torna uma entidade hierarquicamente construída. Essa hierarquia é normalmente marcada no texto de várias maneiras, começando por título e subtítulos, que, quando prototípicos, marcam os elementos mais importantes do texto e, conseqüentemente, os mais altos na hierarquia das proposições.

A proposta de estudar os conceitos e significações de conceitos que envolvem o hipertexto como uma prática discursiva de atuais textos jornalísticos surgiu a partir da constatação por Marcuschi (2000) que considera o hipertexto como um “novo espaço de escrita”. O autor reflete sobre a presença do hipertexto no domínio das atividades escolares, particularmente no que se refere às práticas de escrita. Sugere que podemos tomar o hipertexto como um bom momento para rever a questão mais ampla do papel da escola no letramento e a função do computador no ensino.

Marcuschi parte de uma hipótese sociocognitiva sobre a linguagem, vista pois como uma atividade interativa, o que leva necessariamente a uma concepção processual da construção de sentido. Apesar de citar autores que defendem o hipertexto como somente um recurso virtual das telas de computadores, o autor argumenta que o hipertexto não é somente uma realidade virtual, mas também um espaço cognitivo que exige do leitor a revisão de estratégias de lidar com o texto. O autor ainda considera que

o hipertexto é um texto interativo: procede pela interconexão interativa que, por um lado, é propiciada pela multissemiose e pela acessibilidade ilimitada e, por outro lado, pela contínua relação de um leitor-navegador com múltiplos autores em quase sobreposição em tempo real, chegando a simular uma interação verbal face a face. (Marcuschi, 2000:96)

As novas tecnologias influenciam algumas atividades elementares do cotidiano do sujeito contemporâneo e, devido a isso, não se pode ignorar que o uso do computador nas escolas torna-se um poderoso instrumento para a leitura e pesquisa no ensino, apesar de que parece, no contexto educacional, não estar claro como incluir a nova tecnologia sem promover exclusões sociais. Dessa forma, entendemos que o hipertexto tanto impresso quanto virtual pode contribuir, no sentido de facilitar, de forma significativa, a compreensão de textos levando em conta que oferece a possibilidade de opção entre caminhos diversificados, de modo a permitir diferentes níveis de desenvolvimento e aprofundamento de um tema, além de considerado uma unidade semântica que parece ser constantemente feita, desfeita e refeita, dependendo dos caminhos que o leitor escolhe para percorrer.

Para tanto, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) redefinem os objetivos do ensino da comunicação e da expressão, enfatizando mudanças qualitativas para o processo de ensino e de aprendizagem no Ensino Médio. Estes objetivos implicam a sistematização de um conjunto de disposições e atitudes sobre como pesquisar, selecionar informações, analisar, sintetizar, argumentar, negociar significados, cooperar, de forma que o aluno possa participar do mundo social, incluindo-se aí a cidadania, o trabalho e a continuidade dos estudos. Considera-se que a compreensão das significações dadas, em diferentes esferas, e as várias manifestações de linguagem contribuam para a formação geral do aluno como “uma possibilidade de aprender a praticar escolhas individuais, limitadas por princípios sociais, e de ter o interesse e o desejo de conservá-la e/ou transformá-la” (SIMÕES, 2000:114).

De acordo com Koch (2002:61), “a Lingüística Textual considera que todo texto constitui uma proposta de sentidos múltiplos e não de um único sentido, e que todo texto é plurilinear na sua construção”. Pode-se então, segundo a autora, afirmar que todo texto é um hipertexto. A mesma autora define as diferenças entre alguns textos, iniciando pelos textos acadêmicos que são rodeados por notas de rodapé, citações; textos ao gênero de reportagem, que possuem boxes explicativos; a notícia jornalística, que apresenta informações de estilo backgroud, enfim, recursos hipertextuais que exigem do leitor, para que alcance uma visão completa sobre o que é alinhado a estas informações, deverá construir a sua interpretação do fato. (Ibid, 2002).

E ainda acrescenta,

... o texto se constitui de um conjunto de pistas destinadas a orientar o leitor na construção do sentido; e, mais ainda, que, para realizar tal construção, ele terá de preencher lacunas, formular hipóteses, testá-las, encontrar hipóteses alternativas em caso de “desencontros” entre o dito e o não-dito, tudo isso por meio de inferenciamentos que exigem a mobilização de seus conhecimentos prévios de todos os tipos, dos conhecimentos pressupostos como partilhados, do conhecimento da situação comunicativa, do gênero textual e de suas exigências, a compreensão terá de dar-se de forma não-linear, como têm evidenciado entre muitos outros, Marcuschi e Koch, em vários de seus trabalhos (KOCH, 2002:62).

Desta forma, o processo de construção de sentidos interfere na compreensão de textos. Há um movimento em variadas direções, bem como as interruptas e diversas fontes de informação textuais ou extratextuais, o que confirma, de acordo com a autora, que todo texto é um hipertexto.

A proposta de investigar o processo de compreensão textual de textos jornalísticos que utilizam como recurso o hipertexto visa defender o ensino de gramática como uma atividade útil, porém para que isso aconteça é necessário fazer dos estudos gramaticais um meio de aprimorar a capacidade comunicativa de cada um e de todos nós. A capacidade de elaborar frases e textos bem-construídos é um meio que cada um de nós participa do cotidiano comunicativo da língua portuguesa. Portanto, é pertinente levar em conta as leituras significativas e a exigência de inferências para a compreensão do hipertexto, além de surgir como uma possibilidade de tomar textos do cotidiano – textos de jornais, revistas, canções, poemas e crônicas contemporâneas – como ponto de partida para o desenvolvimento dos tópicos gramaticais.

Atualmente, o ensino de língua materna se pauta não somente em ensinar gramática, enfatizando exclusivamente a leitura e a produção textual, mas ensinar gramática de modo reflexivo, expondo o aluno a variados tipos de texto (aos quais está exposto cotidianamente) e levando-o a refletir sobre fatos da língua. Isso porque vivemos uma época de mudanças muito rápidas, mergulhados num mundo de palavras e imagens com os mais diversos tipos de informação, de que nos chega por televisão, livro, rádio, jornal, internet, teatro, revista, cinema.

Na compreensão destes textos, além de enriquecer conhecimentos e expressar pontos de vistas, é oportuno trabalhar com jornal, rádio, televisão e com o universo da internet, veículos em que convivem linguagens diversas que precisam ser compreendidas, analisadas e utilizadas. O que é confirmado por Kleiman (2003:20) quando se refere ao letramento: “o fenômeno do letramento extrapola o mundo da escrita tal qual ele é concebido pelas instituições que se encarregam de introduzir formalmente os sujeitos no mundo da escrita”. Da mesma forma, acrescenta Travaglia (2003:15), no capitulo intitulado Ensino de gramática e qualidade de vida, quando evidencia o ensino de gramática como “um ensino plural”:

A proposta de ensino de gramática que apresentamos e defendemos só faz sentido a partir do momento que se pressupõe que em nossas escolas queremos propiciar atividades de ensino/aprendizagem que permitam aos alunos se prepararem para a vida que têm e terão dentro de uma sociedade, com uma determinada forma de cultura, incluindo-se nesta tudo o que representa o modo de ser da sociedade, o modo de ver o mundo e de constituir as relações entre os membros dessa sociedade.

Nesse contexto, o hipertexto no domínio das atividades escolares, particularmente no que se refere à prática da escrita, contribui no sentido de tornar o aluno apto a compreender as rápidas mudanças do mundo atual, como alguém que faz parte ativa dele, questionando-o sempre mais para encontrar as respostas mais adequadas “por permitir a possibilidade de múltiplos graus de profundidade simultaneamente, já que não tem seqüência nem tipicidade definida, mas liga textos não necessariamente correlacionados” (MARCUSCHI, 2000:93).

Por exigir um grau de conhecimentos prévios e maior consciência quanto a compreensão da leitura, o hipertexto é um convite a outras leituras; no âmbito escolar é um instrumento que pode exigir do aluno muito mais do que o livro didático. Dessa forma, segundo Marcuschi (2000:96), entendemos que precisamos buscar respostas para muitas perguntas sobre os mecanismos mentais e estratégias cognitivas que os sujeitos usam na compreensão e produção dos hipertextos. No entanto, exigem o trabalho de busca de novos referenciais teóricos, novas lentes, para que possamos compreender que mudanças as novas tecnologias estão provocando nos textos, na forma de ler e de produzir textos e, conseqüentemente, na forma de pensar.

Além dessas considerações, é pertinente considerar comentários que alguns autores defendem como Marcuschi (2000), que sugere pesquisas que proponham a revisão de novas leituras e estratégias de lidar com o texto. Koch (2002) propõe que a Lingüística Textual pode auxiliar eficazmente na compreensão do funcionamento do hipertexto. Halliday (1996) defende a necessidade e que o hipertexto, apresenta-se como “um bom momento para se refletir de maneira mais sistemática sobre o contínuo das relações entre oralidade e escrita e o surgimento de uma série de novos gêneros textuais no contexto da tecnologia eletrônica”.

Portanto, pesquisar sobre o uso do hipertexto em textos jornalísticos, observando os aspectos formais, constitutivos e interpretativos, objetiva analisar como é a constituição, construção e funcionamento do texto jornalístico com o discurso e recurso utilizado. Fundamenta-se no objetivo principal de explorar as possibilidades de uso dos recursos tecnológicos na escrita, utilizando o computador como ferramenta auxiliar no processo de construção do conhecimento, não somente o espaço virtual, como também hipertextos impressos que podem fornecer meios para alargar os domínios de questões relativas à construção textual dos sentidos.

Evidencia-se, assim, o objetivo de elucidar novas teorias que abarquem conceitos e significações de conceitos acerca do funcionamento textual discursivo de um recurso da língua, em uma categoria específica de texto: o texto jornalístico. Para tanto, a proposta é fazer uma análise, por meio de uma fundamentação teórica e de pesquisa objetivando estudar as características dos componentes do fato/fenômeno/processo do suporte lingüístico-semiótico que o hipertexto constitui pautado à construção de sentidos dos textos jornalísticos, ocupando-se com a identificação dos fatores que determinam a ocorrência, ou a maneira de ocorrer, desses fatos/fenômenos/processos.

Por esta razão a tematização desta pesquisa se define devido a hipótese de que mudanças vêm ocorrendo na construção da textualidade discursiva de textos publicitários, em especial dos textos jornalísticos. Sugerindo, então, um estudo sobre a concepção processual da construção de sentido destes textos. Nesta exposição, este projeto dedica-se à análise do hipertexto que afeta as formas de produção e compreensão textual em uma categoria específica de texto: os textos jornalísticos impressos e virtuais, observando sua produção e compreensão textual.

Portanto o problema dessa pesquisa se define a partir das seguintes variáveis que já vem sendo discutidas no meio acadêmico:

a) Será o hipertexto um novo espaço da escrita na categoria de textos jornalísticos?
b)
c) Como hoje se dá a reciprocidade entre a produção e recepção de textos jornalísticos que utilizam como recurso o hipertexto?
d)
e) A leitura e sua compreensão mediante o hipertexto oferece mais desafios e exige mais preparo do que as práticas textuais tradicionais? Quais são os efeitos na prática de leitura e escrita?
f)


Portanto, este artigo apresenta-se como parte do projeto de pesquisa em andamento no Mestrado em Lingüística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) que tem por objetivo estudar questões relacionadas à tipologia de textos e discursos. Trata-se de estudar o caráter intertextual de textos jornalísticos oferecido por um recurso lingüístico, o hipertexto, que aponta através de lógicas associativas a leitura como uma multiplicidade de percursos e sentidos. Desta forma, objetiva contribuir para se pensar em uma estética hipertextual, que dissolve os limites entre velhas e novas tecnologias que influenciam na constituição dos textos publicitários.

Da mesma forma, propõe refletir sobre questões relativas ao texto e seu funcionamento, procedendo a um exame dos principais processos e estratégias de construção de sentidos mobilizados na atividade de produção e compreensão de textos sintonizados com as novas maneiras de pensar e exigidas não somente pelo espaço cibernético como também textos impressos.

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