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O DISCURSO SOBRE A LEITURA E O LEITOR NO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO NO PERÍODO DE 1986 A 2000

Érica Rodrigues - Universidade Federal do Paraná – UFPR

Este trabalho faz parte do projeto O discurso sobre a leitura e o leitor na mídia escrita brasileira no período de 1970 a 2000 cujo principal objetivo é investigar quais conceitos são associados à leitura e a leitor na revista Veja e nos jornais Folha de São Paulo e Gazeta do Povo .
Apesar de considerada muito importante, os dados sobre a educação brasileira revelam que os estudantes brasileiros têm grande dificuldade com a leitura. Uma das evidências disso, é o resultado do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) que no ano 2000 avaliou a capacidade de leitura de estudantes na faixa etária de 15 anos, alunos de escolas públicas e particulares. Dos 32 países participantes, o Brasil ficou em último lugar. Da mesma forma, os estudantes nas edições do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) têm apresentado resultados nada satisfatórios. De acordo com o Relatório do ENEM – 2002, uma possível justificativa para os baixos índices de rendimento não apenas nas provas de redação, mas também em provas objetivas seria a “ausência do domínio da leitura compreensiva”:

A ausência do domínio de leitura compreensiva foi possivelmente a causa do desempenho apresentado. Só a leitura superficial e fragmentada pode explicar a opção por alternativas de resposta que revelam leitura de gráficos sem associação com a proposta, escolha de alternativas dissociadas do contexto, dificuldade de estabelecer relações entre linguagens expressas por tabelas, fórmulas e gráficos, escolha de afirmações e argumentos contraditórios e mutuamente excludentes.

As justificativas mais recorrentes (talvez as mais visíveis) para este baixo desempenho dos estudantes costumam girar em torno de questões como: falta de investimento do governo, precária infra-estrutura das escolas, professores mal remunerados e outros aspectos de ordem sócio-econômica. Sem desprezar estes fatores externos que influenciam (e muito!) o desempenho dos alunos, gostaríamos de levantar algumas questões sobre as possíveis “causas internas” deste resultado: como a leitura vem sendo trabalhada nas escolas? Que tipos de leitores a escola vem formando? Qual é o discurso sobre leitura e leitor que chega não apenas às escolas, mas que “circula” na sociedade através da mídia?
Já em 1981, ao abordar o ato de ler na abertura do Congresso Brasileiro de Leitura, Paulo Freire apontava alguns fatores que muitas vezes dificultam o processo de aprendizado da leitura e escrita. Entre esses fatores, está a concepção de palavra escrita dos educadores. Segundo Paulo Freire, muitos educadores dão a palavra escrita uma importância suprema, mágica. Partindo desta visão mágica da palavra escrita, o educando é mero receptor de conhecimento e a leitura se dá de modo mecânico, sendo reduzida a um mero processo quantitativo:


A insistência na quantidade de leituras sem o devido adentramento nos textos a ser compreendidos, e não mecanicamente memorizados, revela uma visão mágica da palavra escrita. Visão que urge ser superada. (FREIRE, 1986, p. 19)

Diante disso, esta pesquisa pretende investigar o discurso sobre leitura e o leitor presente na mídia escrita brasileira, neste caso, mais especificamente, no jornal Folha de São Paulo no período de 1986 a 2000 a fim de identificar se este discurso tem se configurado como uma contribuição efetiva à formação de leitores.
A nossa hipótese é que há na mídia um discurso decorrente desta visão mágica da palavra escrita. Nesse discurso o ato de ler é compreendido como um processo mecânico e quantitativo em que a interação entre sujeito e o mundo é ignorada. Nesse discurso, leitor seria aquele que desenvolveu o hábito de ler livros (literários e clássicos).
Devido à abrangência do assunto, a leitura é estudada sob diversas perspectivas: na tentativa de compreender os mecanismos de compreensão do ato de ler em si e a relação leitor-texto (KLEIMAN, 2001); buscando discutir formas de estimular o ensino da leitura e da literatura (SILVA, 2003; BARZOTTO, 1999; MAGNANI, 2001), há publicações sobre a história brasileira da leitura (LAJOLO & ZILBERMAN, 1999), também trabalhos de autores estrangeiros a respeito da história da leitura e do leitor no mundo ocidental (MANGUEL, 1997; ABREU, 2000; CAVALLO & CHARTIER,1998) e ainda algumas propostas sobre o tema da leitura a partir de perspectivas discursivas (ORLANDI, 1998). Apesar desta grande variedade, até o momento desconhecemos algum trabalho que se deteve a investigar qual é o discurso veiculado pela mídia escrita brasileira sobre leitura e leitor.
Para identificarmos esse discurso, baseamos nossa pesquisa nos princípios teóricos de Michel Foucault. Assim, é importante compreendermos, primeiramente, o que o autor denomina como enunciado, que é a unidade elementar do discurso:

(...) apercebi-me de que não podia definir o enunciado como uma unidade do tipo lingüístico (superior ao fenômeno e à palavra, inferior ao texto); mas que tinha que me ocupar de uma função enunciativa, pondo em jogo unidades diversas (elas podem coincidir às vezes com frases, às vezes com proposições; mas são feitas às vezes de fragmentos de frases, séries ou quadros de signos, jogo de proposições ou formulações equivalentes); e essa função, em vez de dar um “sentido”, a essas unidades, coloca-as em relação com um campo de objetos; em vez de lhes conferir um sujeito, abre-lhes um conjunto de posições subjetivas possíveis; em vez de lhe dar limites, coloca-as em um domínio de coordenação e de coexistência; em vez de lhes determinar a identidade, aloja-as em um espaço em que são consideradas, utilizadas e repetidas. Em suma, o que se descobriu não foi o enunciado atômico – com seu efeito de sentido, sua origem, seus limites e sua individualidade – mas sim o campo de exercício de uma função enunciativa e as condições segundo as quais ela faz aparecerem unidades diversas (que podem ser, mas não necessariamente, de ordem gramatical ou lógica). (FOUCAULT, 1995, p.122)

Para Foucault, o enunciado está além da língua, ou seja, não se identifica exclusivamente com uma unidade lingüística e gramatical, mas é antes “uma função que cruza um domínio de estruturas de unidades possíveis e que faz com que apareçam, com conteúdos concretos, no tempo e no espaço” (FOUCAULT, 1995, p. 99). Os enunciados se repetem independentemente dos sujeitos, épocas e lugares em que foram produzidos, mas de acordo com as “leis” da formação discursiva a qual pertencem:

Um enunciado pertence a uma formação discursiva, como uma frase pertence a um texto, (...) enquanto a regularidade de uma frase é definida pelas leis de uma língua, (...) a regularidade de um enunciado é definida pela própria formação discursiva. (FOUCAULT, 1995, p. 135)

Portanto, discurso é compreendido como:

Um conjunto de enunciados, na medida em que se apoiem na mesma formação discursiva (FOUCAULT, 1995, p. 95)

Há discursos sobre os mais variados assuntos, eles constróem representações da realidade e os sentidos de uma época. Contraditoriamente, o discurso é objeto de desejo e ao mesmo tempo de temor por aquilo que o “surgir dos enunciados” podem trazer a tona. Para analisar os discursos em suas condições de produção de sentido é preciso “questionar nossa vontade de verdade; restituir ao discurso seu caráter de acontecimento; suspender , enfim, a soberania do significante”. (FOUCAULT, 2004, p. 51).
Com base nestes pressupostos teóricos procuramos identificar nas fontes, neste caso especificamente, na Folha de São Paulo qual o discurso sobre leitura e leitor veiculado através deste jornal.
Para a coleta de dados, além do recorte temporal já previsto no projeto de pesquisa, de 1986 até o ano 2000, foram selecionadas algumas datas e eventos relacionados às temáticas de educação, leitura, livro e leitor, bem como a época de realização/acontecimento: volta às aulas (fevereiro), dia dos professores (outubro), Bienal do Livro (abril, agosto), vestibular (junho, dezembro e janeiro). Assim, passou-se a buscar neste jornal qualquer citação, referência, imagem, relacionada à leitura e a leitor (reportagens sobre educação ou sobre a Bienal do Livro, entrevistas, publicidade, quadrinhos, cartas de leitores, fotos). Os materiais selecionados foram fotocopiados, catalogados e discutidos pelo grupo de pesquisa a fim de identificarmos qual o tipo de opinião/conceito sobre leitura e leitor ali presente.
A primeira etapa desta pesquisa, descrita neste texto, se refere à coleta de dados dos jornais que circularam no período de 1992 a 2000 . Deste intervalo de tempo, foi possível reunir um bom material, com muita diversidade em gêneros discursivos (reportagens, entrevistas, tiras, imagens...). A partir disso, foram realizadas algumas análises e reflexões referentes à temática de leitura e de leitor presentes neste corpus.
Para iniciarmos nossa discussão, podemos citar como exemplo as edições da Bienal do Livro em São Paulo que são divulgadas como o grande (senão o maior) evento cultural do país, mas apontando para uma contradição: um evento deste porte num país onde não há leitores (de livros)? Essa idéia fica clara nas informações trazidas pela jornalista Patrícia Cerqueira que traça um paralelo entre público jovem da Bienal e seu hábito de leitura: o número de títulos expostos na Bienal (150 mil) assusta se comparado com a estimativa do hábito de leitura dos jovens brasileiros (Caderno Teen, 12/08/1996). A reportagem também traz estatísticas num quadro intitulado: O hábito de leitura de quem têm 16 e 20 anos, em 11 capitais brasileiras. A questão que se coloca aos jovens é a seguinte: quantos livros você leu por lazer ou cultura nos últimos 12 meses? E para a escola? E para o trabalho? Diante dos dados, concluiu a jornalista:

“A maior parte dos jovens brasileiros, entre 16 a 20 anos, de 11 capitais, não leu nenhum livro nos últimos 12 meses, nem para escola. (...) Pelo levantamento, dos 811 entrevistados, 50% não leram nada por lazer ou cultura. E o que é pior, 46% dos garotos e garotas não consumiram nenhuma literatura exigida por professores ou para o vestibular”. (Caderno Teen, 12/08/1996)

Questiona-se a quantidade de livros lidos, como se isso fosse suficiente para considerar uma pessoa um leitor, ou seja, uma pessoa é ou não leitora de acordo com o número de livros que lê, se tem ou não o hábito de leitura de livros. Na pesquisa não se menciona nem ao menos a leitura de jornais e revistas, que dirá de outros meios. Além do quantitativo expresso claramente neste trecho, a jornalista acrescenta que ainda é “pior” o fato de 46% dos entrevistados não terem lido nenhum livro de literatura.

( Ilustrada, 25/07/1997)

Gostaríamos de chamar a atenção, principalmente para os dois primeiros quadrinhos desta tira, em que é interessante observar a conclusão a que chega a personagem: para ser considerado um “intelectual” e conseqüentemente obter sucesso com as garotas, Jon conclui que precisa se especializar em literatura. Não se trata aqui de negar a importância da leitura de livros de literatura, mas sim de chamar a atenção para como a leitura é abordada.
Neste outro trecho, também sobre a Bienal do Livro, fica evidente a surpresa causada pela presença do público jovem no evento: se os jovens não lêem, porque é que participam?

“Os jovens não lêem. Mas vão a Bienal do Livro, em geral com a escola. É como se, de uma hora para outra, passear por estantes e estandes cheios de livros fosse um programa tão atraente quanto olhar as vitrines dos shoppings e paquerar.” (Folhateen, 24/08/1992)

E para não centralizar a questão apenas nos jovens, num encontro realizado pela Folha sobre “Novas Estratégias para conquistar o leitor”, Sérgio Machado fala sobre possíveis causas do distanciamento entre brasileiros e leitura, afirmando que o livro é um veículo de ascensão, mas aqui no Brasil não é valorizado como tal:

Tenho observado que as pessoas nascem com o hábito da leitura que depois a gente faz um grande esforço para elas perderem o hábito da leitura. Isso parece que talvez seja uma coisa inconsciente, talvez até da própria tradição da família brasileira, que recebeu uma influência muito grande de uma cultura oral, musical, mas não recebeu uma influência européia que realmente valoriza o livro como fonte do saber e do desenvolvimento. (...) O livro, ao contrário de outras mercadorias, exige um certo estado de espírito para ser consumido e de fato aqui no Brasil nós não temos tido esse estado de espírito muito freqüentemente. (Livros, 28/08/1994)

Novamente a idéia de hábito de leitura e acrescenta Sérgio Machado que, no Brasil, devido a nossa tradição influenciada pela cultura oral, não temos esse hábito, não valorizamos o livro como fonte do saber e não temos o estado de espírito próprio de consumidores de livros. Fica clara a idéia de supervalorização do livro. O livro, na maioria das vezes, está associado a prestígio social.

A tira ironiza esta obrigação que muitas vezes sentimos de afirmarmos nossa posição de leitores. Para obter esse prestígio, ser aceito, não posso assumir a “falha” por não ter lido determinado livro. Ainda nesse sentido de prestígio social podemos ler as reportagens sobre os mais variados assuntos, em diferentes cadernos dos jornais: Esportes, Política, Empregos, Negócios. Há uma grande recorrência de imagens/fotos da pessoa que é assunto na reportagem num ambiente cercada de livros, o que lhe garante um certo ar de “intelectualidade, credibilidade e sucesso”.
Essa supervalorização aumenta a distância entre as pessoas e os livros, tornando o seu consumo algo restrito apenas ao grupo dos “intelectuais”:

“Bienal do Livro de São Paulo abre sua 15ª versão na expectativa de popularizar a leitura no Brasil, oitavo maior produtor de livros do mundo, mas onde o consumo é elitista, as edições são cada vez mais caras e onde cada habitante lê cerca de três vezes menos do que lê um francês” (Mais! 26/04/1998)

Além da referência ao consumo elitista de livros, também nos chama a atenção a comparação estabelecida entre a quantidade de leitura de um brasileiro e um francês. Neste trecho, onde se falou sobre produção e consumo de livros, fica claro que esse número de leitura do brasileiro (três vezes menor que a do francês) está relacionado ao número de livros lidos, desconsiderando assim outras formas de leitura (jornais, revistas, meios de comunicação, etc).
Este mesmo discurso, leitura quantitativa e restrita a livros, pode ser observado neste trecho de uma entrevista feita pela Folha com o escritor Arturo Pérez-Reverte:

Folha – Como leitor; quais são suas preferências? Prefere o “Ulisses” de Homero ou o de Joyce?
Peréz-Reverte – Leio muito desde menino. E tenho sete mil livros. É difícil decidir. Há uma tendência esnobe na crítica que pretende obrigar a pensar que “Ulisses” de Joyce acabou com o de Homero. Ambos têm imenso valor e eu não gosto de escolher entre eles. (...) (Mais! 16/04/1997)

Deixando de lado a discussão literária sobre a preferência do escritor pelo Ulisses de Homero ou de Joyce, é interessante observar como Peréz-Reverte inicia sua resposta como que legitimando seu status como leitor, ou seja, além de ler desde menino considera relevante dizer a quantidade de livros que possui.
De acordo com o material analisado, predominam enunciados do discurso de leitura e leitor associado ao hábito, ao número de livros clássicos que a pessoa lê, discurso decorrente do caráter mágico que empregamos a palavra escrita. Nesse discurso, o hábito de leitura é a garantia de prosperidade e sucesso, nem ao menos se questiona a qualidade dessas leituras, o que importa são as estatísticas de consumo. A leitura é compreendia a partir de uma perspectiva redutora que a centraliza no livro. A TV e computador (internet), por exemplo, figuram-se como os grandes culpados pelo distanciamento entre as pessoas e a leitura de livros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FARACO, C. A .; CASTRO, G. Leitura: uma retrospectiva crítica da década de 80. Revista Letras, nº 38, p. 5 – 13, 1989.

FOUCAULT, M. Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1986.

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. 11ª edição São Paulo: edições Loyola, 2004.

FREIRE, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se complementam. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1986.

GREGOLIN, M. R. Foucault e Pêcheux na construção da análise do discurso: diálogos e duelos. São Carlos: Clara Luz, 2004.

 
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