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  CONCEPÇÕES DA ORALIDADE:
CONTEXTO DO CONTO DE CAUSOS NO PROCESSO DA EJA

Iracema Stancati Rodrigues - FACEAR/PR
Janaina da Silva Alencar - FACEAR/PR

INTRODUÇÃO

Ao utilizar a linguagem como proposta de trabalho e pesquisa, vislumbra-se que, em uma comunidade a comunicação oral seja uma forma de afirmação e auto-realização do exercício da cidadania, pois para REYZABAL (1999), o uso da linguagem é uma forma de possibilitar que o sujeito possa construir-se a si mesmo e alcançar o êxito como cidadão.

A partir da Teoria Dialógica de Bakhtin e da Teoria da Comunicação de REYZABAL, deu-se inicio a um trabalho cuja meta foi a observação de como ocorre a interação entre os sujeitos de um determinado grupo de pessoas, no caso os professores e alunos do programa de “Alfabetização Solidária”, a partir da narração de causos e contos, o qual foi dividido em etapas:

- capacitação de docentes em relação atividades que envolvam oralidade, contos e causos para atuarem com alunos;

- como o alfabetizador compartilha esta aprendizagem por meio de atividades em sala de aula, gerando assim registros de aprendizagem e formas de compartilhamento de idéias pelo grupo e por cada integrante do mesmo.

Com base nestes tópicos propomos uma reflexão na primeira fase sobre a complexidade do trabalho oral da memória quando considerada em seu funcionamento discursivo, das condições de produção de sua narração na dinâmica social, como elemento constituído do cotidiano, atribuindo à conversa o estatuto de prática social.

O diálogo, “no sentido estrito do termo, não constitui senão uma das formas é verdade que das mais importantes, da interação verbal. Mas pode-se compreender a palavra ‘diálogo’ num sentido amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta de pessoas colocadas face a face, mas toda a comunicação verbal, de qualquer tipo que seja” (FARACO, 1996, p.124).

Para REYZABAL(1999, P.22) “ dentro de um grupo social a comunicação oral implica uma função exteriorizadora, auto-afirmativa, pois permite a transmissão do discurso que a comunidade sustenta sobre si mesma, o que assegura sua continuidade. ”.

Augusto Ponzio aput FARACO (1996, p.124) explica que “todos os nossos discursos, e, sobretudo os nossos discursos interiores, vale dizer os nossos pensamentos, são inevitavelmente dialógicos. […] O diálogo não é um compromisso entre um EU já existente como tal e o outro. Ao contrário, o diálogo é aquele compromisso que dá lugar ao EU: o EU é esse compromisso. O EU é um compromisso dialógico, dialógico em um sentido substancial e não formal, e o discurso narrativo com o qual se constrói a própria identidade é estruturado como um diálogo”.

Por esse raciocínio, para Bakhtin aput FARACO (1996, p.125) “a alteridade é a condição da identidade: os outros constituem dialogicamente o eu que se transforma dialogicamente num outro de novos eus”. O aprendizado acontece tanto entre os eus do sujeito como entre os eus e os outros eus dos demais sujeitos, e não se deve excluir a priori nenhuma competência; pois para ele não existe diálogo entre sentenças entre textos entre

obras de arte, por necessitar do diálogo. No contexto da teoria dialógica fica explicito a inter-relação que gerara enunciado e conseqüentemente compreensão da expressão do outro.

Assim, respeitadas as competências dos sujeitos (professores e alunos), seria possível identificar o aprendizado pelo uso da linguagem como representação verbal, tendo como meta também em estudar o aprendizado pela interação entre sujeitos, então era necessário verificar se os principais pontos abordados nas teorias estariam presentes na pesquisa de campo. A oralidade é para o processo de negociação entre participação e reificação numa comunidade de prática.

A dualidade participação/reificação é assim descrita: o inesperado, o vivido, as circunstâncias, a força centrífuga, o agora, a fluidez são o significado do termo ‘participação’. Os padrões, os modelos, a estrutura, a história, a força centrípeta, o antes, o congelamento, a cristalização são o significado do termo ‘reificação’. O reconhecimento, a busca de identificações e os modelos pré-estabelecidos, relacionados a fatos anteriores dados pela reificação passam pela fluidez do momento o que resultaria na confecção de algo para representar. O processo, chamado de ‘movimento’, caracteriza a geração de significado pela negociação entre os dois primeiros termos (WENGER, 1998). Neste raciocínio, o aprendizado na interação, para Wenger, acontece no movimento causado pela negociação entre as circunstâncias do agora (contexto) e dos modelos conhecidos (história), como geração de relações feitas pelos sujeitos.

Pode-se colocar a teoria de Bakhtin e de Wenger em paralelo, pois, o diálogo acontece no experimento, no instante da geração de significados de Bakhtin pelo compartilhamento de idéias no processo de Wenger.

Porem, a teoria de Wenger trata a comunidade de prática (professores e alunos), como sendo apoiada em três pilares, são eles: o envolvimento mútuo, o repertório partilhado e o empreendimento comum(WENGER, 1998).

O compartilhamento de idéias ocorre entre pessoas. O processo de participação e reificação, somado a teoria dialógica de Bakhtin, faz o que se chama de compartilhamento de idéias. A produção humana, isto é, sua representação por meio de linguagens, é indispensável para o compartilhamento, pois é ela que exterioriza e possibilita a troca de signos e são as pessoas que, por meio desta, partilham, relacionam tempos, dialogam histórias, compartilham idéias, assim, construindo socialmente o significado entre seus eus e outros eus. Significado este que ocorre por intermédio da interação entre sujeitos.

Para verificar a existência da comunidade de prática era necessário estudar a interação no processo de aprendizado dos grupos mencionados, professores e alunos, a partir dos contos e causos.

METODOLOGIA

Iniciou-se como projeto piloto aplicado em dois municípios alagoano no período de 2002 a 2003, tendo como base metodológica a narração de causos e contos, cujo os resultados estão relacionados abaixo. Atualmente esta pesquisa esta sendo reformulada e aplicada nos municípios de Marechal Deodoro/AL e Palmeira dos Indios/AL com o objetivo de promover uma análise comparativa entre o universo do trabalho oral, da memória e da imagem quando considerada em seu funcionamento discursivo, bem como das condições de representação e produção de sua narração na dinâmica social, tendo como base o universo da leitura de Mundo, Cidadania, do registro de Culturas. Esta pesquisa constou de varias etapas, a seguir:

1) Durante a capacitação dos alfabetizadores, desenvolveram atividades a partir da oralidade e expressão corporal, e representação com recortes e colagens das seqüências destes contos;

2) A partir de registros elaborados em fita cassete, dos contos, causos e lendas ocorreram o compartilhamento de idéias para o resgate da historia pessoal e local entre os integrantes dos grupos.

3) Apresentações artísticas de rodadas de contos e repentes, tendo como base a historia local (cultura) e pessoal.

4) Elaboração e apresentação de objetos como jogos e varal literário.

RESULTADOS

O resultado da pesquisa foi a percepção da modificação de diálogos e significados, motivados pela criação de causos e lendas, as quais podem ser percebidas pelas transcrições dos trechos de historias criadas pelos alfabetizandos, a seguir:

-1. E agora? Não tem jeito, nós vamos perder de se alimentar.

E o cágado disse:

- Se quisé aí eu vou.

- Mas quando você chega?

- Demora mais um pouco, mas é uma esperança.

- Então vá!

E o cágado foi, quando chegou lá e falou com o senhô, e o senhô disse:

- Olha aquela... aquele pé de árvore, aquela fruta é muito boa, e se chama: “caxaraxaxaquessecoma”. Pode comer.(transcrição da histõria criada por aluna de Santana do Ipanema)
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2- Era uma vez Joãozinho e Maria foram na roça, encontraram uma bruxa, uma bruxa, aí a bruxa chamaram elas, eles pra casa dela, deram muita comida a eles.

Eles comeram que ficaram gordos, depois mandô eles subi numa tábua pra coa dentro do caldeirão, aí ele disse, vá você primeiro que eu não sei nada como é pula não, aí quando ela foi, eles empurraram ela dentro.

Ai quem foi que morreu .....foi a bruxa ou foi o Joãozinho?

Quem morreu foi a bruxa.

É porque, ela queria fazer maldade, não foi ....

- se não tivesse feito não tinha morrido.(historia criada por Adailson 63 anos de Santana do Ipanema)

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Constatou-se que as teorias que tratam das questões de oralidade e dialógica podem ser identificadas, devido à geração de significado. Tanto professores como alunos participaram das atividades propostas e produziram seus textos a partir de mímicas, discurso, canto, jogral e registros em fita cassete de causos e lendas. Os professores passaram a utilizar estas atividades em seus planejamentos para inicio da sensibilização e entrosamento com os alunos como forma de compartilhamento, ou seja, engajamento em prática, visando apresentações artísticas tendo como base a historia local (cultura) e pessoal, como também jogos e varal literário. Para os alunos este engajamento em prática de elaborações e apresentações de jogos, pode ser considerado como forma de expressar memória, conhecimento e aprendizado.

CONCLUSÕES

Respeitando-se as competências dos sujeitos (alfabetizadores e alfabetizandos), constatou-se que para o planejamento de ensino ter pleno êxito, a teoria do diálogo e geração de significados de Bakhtin, o compartilhamento e engajamento mútuo de Wenger, e a busca da recuperação e do aperfeiçoamento da oralidade proposto por Reyzabal, os causos e contos poderão ser utilizados como aliado no processo de alfabetização.

O repertório partilhado foi verificado nas etapas do experimento, sendo diferenciado em cada uma. Na primeira foi verificado por intermédio da interpretação das representações das mímicas e imagens elaboradas pelos professores, nas demais etapas foi verificado pela troca das diversas linguagens usadas entre os grupos de alfabetizandos, por meio de gravações de causos e lendas em fitas cassete.

O empreendimento comum pode ser observado na sala de aula pela atividade ser comum a todos que ali estavam. Portanto, pode-se observar que pessoas pertencentes a um mesmo grupo, neste caso a escola, já formam uma comunidade de prática, por estarem inseridas em uma comunidade organizada que executa uma prática determinada.

Assim, a interação ocorre na comunidade de prática de Wenger, bem como, o diálogo tratado por Bakhtin, por intermédio do uso da linguagem oral proposto por Reyzabal. O compartilhamento de idéias entre pessoas explicita a construção do conhecimento e a torna social, o aprendizado pode ser verificado por intermédio das produções dos alfabetizandos.

Os objetivos propostos pelos alfabetizadores neste trabalho foram e estão sendo partilhados e discutidos por todos os envolvidos no Programa, como forma de análise e avaliação do plano de ensino.


BIBLIOGRAFIA

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 1999.
FARACO, Carlos Alberto. O dialogismo como chave de uma antropologia filosófica, in: - Diálogos com Bakhtin / Carlos Alberto Faraco, Cristovão Tezza, Gilberto de Castro (orgs.); Beth Brait … et al. -- : Ed. da UFPR, 1996.
REYZABAL,Maria Victoria. A comunicação oral e sua didática. Bauru : EDUSC,1999.
SANTAELLA, Lúcia & NÖTH, Winfried. Imagem: cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras, 1999.
WENGER, Etienne. Communities of Practice: learning, meaning, and identity. New York: Cambridge University Press, 1998

 
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