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  A CIRCULAÇÃO DOS GÊNEROS NA ESCOLA

Lucimar Regina Santana Rodrigues - Universidade de São Paulo - USP

A escola tem papel importante na formação intelectual do indivíduo, por isso ela deve fornecer diversos tipos de textos ao aluno, instrumentalizando-o para a adequação dos diferentes gêneros do discurso, tanto na escrita quanto na oralidade.

Gêneros do discurso, segundo Bakhtin (1992, p.279), é: “Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados [...]” O autor divide os gêneros em: primários, que são aqueles que estão relacionados às situações de comunicação oral e imediata, como as conversas informais, e secundários, aqueles que envolvem a escrita e que estão, portanto, relacionados a situações mais complexas.

O autor considera a língua como um instrumento de mediação usado pelo ser humano para agir com a linguagem, por isso abstrair a língua de seu contexto de produção é desconsiderar sua natureza. Faz-se necessário, portanto, estudar a inter-relação entre os gêneros primários e secundários e a “correlação entre língua, ideologia e visões de mundo” (BAKHTIN, 1992, p.282).

As formas da língua e as formas típicas de enunciados, isto é, os gêneros de discurso, introduzem-se em nossa experiência e em nossa consciência conjuntamente e sem que sua estreita relação seja rompida. Aprender a falar é aprender a estruturar enunciados” (op.cit., p. 992, p.301-302).

Tais palavras comprovam a importância que Bakhtin dá aos gêneros de discurso e à necessidade de seu aprendizado.

Outros autores seguem o pensamento bakhtiniano quanto à necessidade do estudo dos gêneros na escola, apesar disso, alguns defendem a utilização da expressão “gêneros de texto” ou “gêneros textuais” como sinônimos de gênero do discurso.

Schneuwly & Dolz (1999, p.6), por exemplo, afirmam que “é através dos gêneros que as práticas de linguagem encarnam-se nas atividades dos aprendizes” e consideram que:

Os gêneros textuais, por seu caráter genérico, são um termo de referência intermediário para a aprendizagem. Do ponto de vista do uso e da aprendizagem, o gênero pode, assim, ser considerado um mega-instrumento que fornece um suporte para a atividade nas situações de comunicação e uma referência para os aprendizes. (op.cit., p. 7)

Bronckart (1999, p.77) define texto como “uma unidade concreta de produção de linguagem, que pertence necessariamente a um gênero, composta por vários tipos de discurso, e que também apresenta os traços das decisões tomadas pelo produtor individual em função da sua situação de comunicação particular”. Quando da definição de gênero, o autor reforça a estreita relação, já defendida por Bakhtin, do texto com o contexto:

[...] na noção de gênero de texto no decorrer deste século e, mais particularmente a partir de Bakhtin, essa noção tem sido progressivamente aplicada ao conjunto das produções verbais organizadas: às formas escritas usuais (artigo científico, resumo, notícia, publicidade, etc.) e ao conjunto das formas textuais orais, ou normatizadas, ou pertencentes à ‘linguagem ordinária’ (exposição, relato de acontecimentos vividos, conversação, etc). Disso resulta que qualquer espécie de texto pode atualmente ser designada em termos de gênero e que, portanto, todo exemplar de texto observável pode ser considerado como pertencente a um determinado gênero.” (op.cit., p.73).

Meurer e Motta-Roth (2002, p.18) classificam os gêneros como textuais e também mostra sua importância para o crescimento do indivíduo, quando questiona:

como ler e analisar criticamente os diferentes gêneros textuais? Mais explicitamente, é necessário elaborar respostas para a pergunta: como descrever e explicar os textos evidenciando que neles e através deles os indivíduos produzem, reproduzem ou desafiam a realidade social na qual vivem e dentro da qual vão construindo sua própria narrativa pessoal.

O aluno do ensino médio tem que saber fazer uso eficaz da linguagem em instâncias públicas e privadas, o que compreende a habilidade de leitura e interpretação, produção e adequação dos diferentes gêneros do discurso com os quais ele se defronta nas mais variadas situações sociais.

Como o aluno pode ter acesso aos diferentes gêneros do discurso? Um dos facilitadores é, sem dúvida, o livro didático. O livro didático tem desempenhado papel importante no dia-a-dia educacional. Merece muitas críticas sobre sua qualidade e sua utilização em sala de aula, mas constitui-se, muitas vezes, na principal ferramenta de trabalho do professor e no suporte pelo qual o aluno entra em contato com diversificados textos escritos.

Os livros didáticos apresentam uma grande diversidade de gêneros, como: prosa, poesia, matérias de jornais e revistas, tiras de quadrinhos, músicas, propagandas etc. Mas, e a exploração desses textos? Será que está levando o aluno a produzir, reproduzir e desafiar a realidade em que vive, conforme sugere Meurer e Motta-Roth? Os exercícios propostos para o estudo dos textos estão levando o aluno a perceber aqueles que estão relacionados às situações de comunicação oral e imediata e aqueles que envolvem escrita e estão relacionados às situações mais complexas? Ou ainda, será que estão estudando a inter-relação entre os gêneros primários e secundários, sugerida por Bakhtin? Será que as atividades encontradas nos livros relacionam texto e contexto, e levam o aluno a perceber a importância das condições de produção dos textos?

Segue um texto extraído das páginas 46 e 47, do livro Do texto ao texto, de Ulisses Infante e a atividade proposta pelo autor. Tal texto abre o capítulo 1, da segunda unidade do livro, quando o assunto é A leitura.

A escolha desse texto ocorreu pelo fato de parecer muito rico quanto às possibilidades de estudo dos gêneros discursivos. Por exemplo, nele aparecem marcas de oralidade, apesar de tratar-se de texto escrito. Nele podemos perceber os gêneros primários e secundários sugeridos por Bakhtin. Além de ser uma narrativa que traz características do texto dissertativo.

A importância do ato de ler

Paulo Freire

Rara tem sido a vez, ao longo de tantos anos de prática pedagógica, por isso política, em que me tenho permitido a tarefa de abrir, de inaugurar ou de encerrar encontros ou congressos.

Aceitei fazê-lo agora, da maneira, porém, menos formal possível. Aceitei vir aqui para falar um pouco da importância do ato de ler.

Me parece indispensável, ao procurar falar de tal importância, dizer algo do momento mesmo em que me preparava para aqui estar hoje; dizer algo do processo em que me inseri enquanto ia escrevendo este texto que agora leio, processo que envolvia uma compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo. A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto. Ao ensaiar escrever sobre a importância do ato de ler, eu me senti levado – e até gostosamente – a “reler” momentos fundamentais de minha prática, guardados na memória, desde as experiências mais remotas de minha infância, de minha adolescência, de minha mocidade em que a compreensão crítica da importância do ato de ler se veio em mim constituindo. Ao ir escrevendo este texto, ia “tomando distância” dos diferentes momentos em que o ato de ler se veio dando na minha experiência existencial. Primeiro, a “leitura” do mundo, do pequeno mundo em que me movia; depois, a leitura da palavra que nem sempre, ao longo da minha escolarização, foi a leitura da “palavramundo”.

A retomada da infância distante, buscando a compreensão do meu ato de “ler” o mundo particular em que ouvia – e até onde não sou traído pela memória –, me é absolutamente significativa. Neste esforço a que me vou entregando, re-crio, re-vivo, no texto que escrevo, a experiência vivida no momento em que ainda não lia a palavra. Me vejo então na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre nós – à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para riscos e aventuras maiores. A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão, seu terraço – o sítio das avencas de minha mãe –, o quintal amplo em que se achava, tudo isso foi o meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus de pé, andei, falei. Na verdade, aquele mundo especial se dava a mim como o mundo de minha atividade perceptiva, por isso mesmo como o mundo de minhas primeiras leituras. Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto – em cuja percepção me experimentava e, quanto mais o fazia, mais aumentava a capacidade de perceber – se encarnavam numa série de coisas, de objetos, de sinais, cuja compreensão eu ia apreendendo no meu trato com eles, nas minhas relações com meus irmãos mais velhos e com meus pais.

O autor do livro didático propõe os seguintes exercícios relativos ao texto acima:

Lendo o Texto

1. O texto, apesar de se apresentar na forma escrita, mantém algumas características da língua falada. Aponte as que você perceber e comente-as.
2.
3. Na sua opinião, por que o texto aproxima a prática pedagógica da prática política?
4.
5. Por que, segundo o texto, a leitura não se esgota na “decodificação pura da palavra escrita”?
6.
7. Comente a passagem “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele”.
8.
9. Em que consiste a “leitura” do mundo de que fala o texto?
10.
11. Explique o conceito de “palavramundo”.
12.
13. Por que o texto apresenta as formas “re-crio” e “re-vivo” em lugar de “recrio” e “revivo”?
14.
15. Quais são os “textos”, as “palavras” e as “letras” das primeiras “leituras” de Paulo Freire? Qual a importância dessas leituras para a formação e desenvolvimento da pessoa?
16.
17. Você se recorda de suas primeiras “leituras”? Conte aos seus colegas, oralmente, uma experiência dessas leituras, expondo os “textos”, “frases” e “palavras” que você “leu”.
18.


Análise do texto e das questões relativas ao texto

Trata-se de texto escrito, Paulo Freire diz: “...enquanto ia escrevendo este texto...”, porém traz marcas da oralidade como na colocação pronominal “me parece indispensável”, “Me vejo” e no uso de termos de referência imediata “aqui” e “agora”. A primeira questão dá conta desse processo e desperta o aluno para o fato. Mas o autor não mostra as condições de produção do texto escrito e da oralidade, assim como não leva o aluno a perceber o porquê da inter-relação entre a escrita e a oralidade no contexto desse texto especificamente.

O texto é narrativo, o que pode ser notado no seguinte trecho: “Me vejo então na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre nós – à sua sombra brincava e em seus galhos...”. Mas traz as características da dissertação, pois “quando utilizamos a linguagem a fim de, por meio da exposição de fatos, idéias e conceitos, chegar a conclusões, adotamos a atitude lingüística da dissertação.” (Infante, 1998:156). Paulo Freire não só utiliza a linguagem e a partir de idéias e conceitos chega a conclusões sobre o ato de ler, como também convence o leitor sobre a importância da leitura e as possibilidades de leituras que possuímos e vivemos. O aluno também não é alertado para tal fato.

As questões de 2 a 8 são de interpretação e compreensão do texto que deveriam servir para levar o aluno a ser capaz de atravessar os significados implícitos no texto e se tornar sujeito do processo de construção do sentido. Porém o autor não apresenta o resultado das propostas sugeridas pelas questões. Num terceiro momento, o livro traz uma nota do autor, sob o título de Relendo o texto, que só dá conta do emprego dos pronomes demonstrativos no interior do texto, como pode ser observado abaixo:

Concentre sua atenção sobre a seguinte frase retirada do texto “A importância do ato de ler”.

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele.”

Esta frase nos fornece um ótimo exemplo do emprego dos pronomes demonstrativos como elementos de organização das partes que formam um texto. As formas esta e aquele, intencionalmente destacadas, estabelecem um jogo de relações que evita a repetição dos termos palavra e mundo, respectivamente, e ao mesmo tempo “amarram” a parte final da frase à parte inicial. Este é um procedimento de que você pode e deve fazer uso em seus próprios textos.

A questão 9 invoca o aluno a recordar-se de seu passado e a narrar oralmente suas experiências relativas ao ato de ler. Mas não mostra a diferença entre esse tipo de narração e aquela feita por Paulo Freire.

As questões parecem atender a alguns fatos dos gêneros discursivos, mas não chamam a atenção do aluno para a ocorrência de tais fatos. As perguntas remetem à argumentação/persuasão, mas não alertam o aluno de tratar-se de características da dissertação. Assim como não o levam a perceber a importante característica da arte de narrar, que pertence ao gênero discursivo de tradição oral, prática, inclusive, que caminha para o fim.

A partir do acima exposto, pode-se observar que os livros didáticos oferecem ao aluno do ensino médio textos de diversas naturezas, apresentando, assim, uma boa diversidade de gêneros discursivos, mas não exploram a adequação desses mesmos textos, de forma a contribuir realmente para o crescimento e amadurecimento do indivíduo, no tocante às suas leituras e escritas.

Considerações finais

Através do presente trabalho é possível observar que muitas são as possibilidades de classificações, divisões e agrupamentos, assim como muitas são as nomenclaturas possíveis para o estudo dos gêneros discursivos, mas é inquestionável que eles são imprescindíveis aos indivíduos, tanto para despertar-lhes análise crítica como auxiliá-los na produção e reprodução da realidade social na qual vivem e dentro da qual vão construindo suas próprias narrativas pessoais.

O adequado ensino da leitura favorece a reflexão sobre o ensino da produção escrita do aluno, bem como de sua expressão oral. Segundo Cristóvão (in MEURER; MOTTA-ROTH, 2002, p. 67), “A discussão sobre o processo de ensino-aprendizagem dessas atividades é fundamental para que as ações subseqüentes dos participantes desse processo sejam conscientes e justificadas e não práticas mecânicas e impensadas”.

O aluno precisa e deve saber ler, interpretar, compreender e identificar os diversos gêneros discursivos para melhorar sua fala e sua escrita, além de, principalmente, saber adequar os mesmos gêneros às diversas situações de comunicação às quais é submetido constantemente.

Apesar disso, os textos dos mais diversos gêneros, poéticos e não-poéticos, orais e escritos, verbais e não verbais, são trabalhados nas escolas, segundo modelos explorados pelo livro didático, em que “[...] os exercícios que a eles se aplicam são quase idênticos, o que na maior parte das vezes leva alunos e professores a leituras demasiadamente limitadas, pouco críticas e criativas, quando não totalmente equivocadas, limitando também o conhecimento da realidade tematizada.”, conforme afirma Chiapini (in BRANDÃO, 2000, p.10).

O presente trabalho baseou-se em um único texto, de um único livro didático, por isso não foi exaustivo quanto ao estudo da circulação dos gêneros na escola. Muito ainda se tem que pesquisar sobre esse importante assunto.

Referências bibliográficas

BAKHTIN, Michael. Os gêneros do discurso. In: ______. Estética da criação verbal. Trad. do francês de Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p.277-326. Título original: Estetika Slovesnogo Tvorthestva, 1979.

BRONCKART, Jean P. Atividade de linguagem, textos e discursos por um interacionismo sócio-discursivo. São Paulo: EDUC, 1999.

CHIAPINI, Lígia. A circulação dos textos na escola. In: BRANDÃO, Helena Magamine (Coord.). Gêneros do discurso na escola. São Paulo: Cortez, 2000.

CRISTÓVÃO, Vera Lúcia Lopes. Modelo didático de gênero como instrumento para formação de professores. In: MEURER, José Luiz; MOTTA-ROTH, Désirée. Gêneros textuais e práticas discursivas: subsídios para o ensino da linguagem. São Paulo: EDUSC, 2002.

INFANTE, Ulisses. Do texto ao texto. São Paulo: Scipione, 1998.

MEURER, José Luiz; MOTTA-ROTH, Desirée (Org.). Gêneros textuais e práticas discursivas: subsídios para o ensino da linguagem. Bauru;SP: EDUSC, 2002.

SCHNEUWLY, B. & DOLZ, J. Os gêneros escolares das práticas de linguagem aos objetos de ensino. S.l.: s.e., 1999.

 
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