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A LEITURA CRÍTICA DE TELEJORNAIS COMO INSTRUMENTO DE CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

Ivete Cardoso do Carmo Roldão - Pontifícia Universidade Católica de Campinas

Pesquisa ação, realizada com agentes da Igreja Católica e universitários, utilizando a técnica de grupos focais, verifica em que medida esses grupos fazem a leitura crítica dos telejornais e busca um modo de análise que possibilite a multiplicação dessa leitura, tendo como objeto o Jornal Nacional e o Jornal da Cultura. O referencial bibliográfico baseou-se nos trabalhos do Núcleo de Comunicação e Educação da USP, considerando, também, estudos de recepção: MARTIN-BARBERO (1995 e 1997). Entre outros resultados, foi possível comprovar que um grau de conhecimento que requer que o telespectador seja capaz de questionar possíveis estratégias da mídia é privilégio de poucos e que o viés político e econômico é de fundamental importância na leitura de qualquer programa de TV.

O papel da televisão na sociedade e a sua influência sobre a mesma é uma discussão antiga e que sempre desperta polêmica. SODRÉ (1980) apresenta um ensaio crítico à televisão, segundo o qual, a finalidade aparente da informação é ordenar (ou reordenar) a experiência social do cidadão, tendo, assim, uma função política. Para o autor, a mensagem na televisão é produzida a partir da busca de um suposto denominador comum, que renda o máximo de aceitação por parte do público, já que a tevê visa à universalidade, ou seja, atingir todo e qualquer receptor indistintamente. Essa necessidade de padronizar o conteúdo condiciona a formação da mensagem e tende a empobrecê-la.
Reflexão semelhante à de Muniz Sodré viria a ser feita, no final da década de 90, no livro Sobre a televisão, (BOURDIEU: 1997), quando o sociólogo francês afirma que “quanto mais um jornal estende sua difusão, mais caminha para assuntos-ônibus que não levantam problemas. Constrói-se o objetivo de acordo com as categorias de percepção do receptor” (p. 63).
Os estudos mais recentes de recepção têm como principal referência na América Latina, Martín-Barbero. Esse estudioso parte para a análise interpretativa das mediações, rompendo com a linha teórica-metodológica centrada nos meios, tendo como exemplos de mediação a cotidianidade familiar, a temporalidade social, a competência cultural e as lógicas da produção e dos usos dos mass media.
Nas pesquisas da recepção há um deslocamento dos pólos emissor/mensagem para a dimensão do sujeito-receptor. MARTÍN-BARBERO (1995: 39) salienta que “a recepção não é apenas uma etapa do processo da comunicação. É um lugar novo, de onde devemos repensar os estudos e a pesquisa de comunicação”. Ainda segundo o autor, o modelo de comunicação em que se privilegia a recepção pode-se rever e repensar todo o processo comunicativo, em nossas culturas e em nossa sociedade.
Partindo desse referencial em que há um consenso da influência da televisão na vida da sociedade em geral, mesmo que seja teorizado a partir de diferentes abordagens, este artigo objetiva demonstrar como exercícios de leitura dos meios de comunicação podem melhorar a percepção de quem participa e o rico aprendizado coletivo que pode ser obtido.
Além disso, entendemos que a possibilidade de democratização da comunicação passa por dois caminhos: as discussões e perspectivas de avanços das questões estruturais, como as políticas de concessão e a exigência de uma Lei Geral dos Meios Eletrônicos de Massa; mas também o engajamento da população na fiscalização da programação, que só será possível com um maior entendimento sobre as técnicas que envolvem a construção da mesma.
Uma rica experiência de fiscalização da programação é a campanha “Quem Financia a Baixaria é contra a Cidadania” realizada pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, presidida pelo deputado federal Orlando Fantazini, do PT - São Paulo. A Campanha, que tem parceria de organizações da sociedade civil, visa promover os direitos humanos e a dignidade do cidadão na mídia.
O próprio termo cidadania vem sendo banalizado pelos meios de comunicação, portanto, é importante reforçar que para o presente trabalho este conceito deve ser entendido como:
A participação dos indivíduos de uma determinada comunidade em busca da igualdade em todos os campos que compõe a realidade humana, mediante a luta pela conquista e ampliação dos direitos civis, políticos e sociais, objetivando a posse dos bens materiais, simbólicos e sociais, contrapondo-se à hegemonia dominante na sociedade de classes. (MARTINS 2000: 58)

De acordo com o site da Campanha “Quem Financia a Baixaria é contra a Cidadania” , ela “consiste no acompanhamento permanente da programação da televisão para indicar os programas que - de forma sistemática - desrespeitam convenções internacionais assinadas pelo Brasil, princípios constitucionais e legislação em vigor que protegem os direitos humanos e a cidadania”. Posteriormente, os patrocinadores são procurados com o objetivo de solicitar que parem de financiar tais programas.
Entretanto, embora essa campanha tenha ganhado visibilidade em nível nacional, infelizmente percebe-se uma pequena participação da sociedade em geral neste tipo de iniciativa. Isso ocorre pela falta de discussão da mídia em espaços nos quais ela poderia ocorrer sistematicamente, como a igreja, a escola, sindicatos e associações comunitárias em geral.
Assim, este trabalho trata-se de uma pesquisa ação, para a qual foram formados dois grupos: um de agentes pastorais da igreja católica em Campinas-SP. e um de alunos da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Durante a pesquisa foi efetivada uma intervenção pedagógica e desenvolvida também a técnica de grupos focais, que, de acordo com CRUZ NETO (2002: 5), é uma técnica na qual o pesquisador “reúne, num mesmo local e durante um certo período, uma determinada quantidade de pessoas que fazem parte do público-alvo de suas investigações, tendo como objetivo coletar, a partir do diálogo e do debate com e entre eles, informações acerca de um tema específico”.
Escolhemos como objeto para análise dois telejornais de horário nobre: Jornal Nacional (Rede Globo) e Jornal da Cultura (TV Cultura). Eles foram escolhidos pela sua importância para o telejornalismo brasileiro. As edições dos telejornais analisados são de um período aleatório, de acordo com as datas definidas dentro do calendário de encontros com os grupos. A amostragem foi composta por quatro edições de cada um.
O processo metodológico teve início com um questionário para identificação do perfil dos participantes e um debate de como vêem a televisão, utilizando a técnica de grupos focais. No segundo e terceiro também foi utilizada a mesma técnica. Do quarto ao sétimo encontro foi realizada a intervenção pedagógica, que enfocou a história da TV; um painel da política de concessões no Brasil; o que é e como se dá a produção do jornalismo na televisão. Nos oitavo e nono encontros foi repetida a utilização da técnica de grupos focais, porém com um roteiro prévio de análise dos telejornais.
A idéia de GRAMSCI (1968) de que os intelectuais têm uma função nos grupos sociais a que se ligam, deve ser considerada no contexto atual, quando diversos estudiosos passam a chamar a atenção de comunicadores e educadores para a sua responsabilidade de educar cidadãos no sentido de desenvolver a leitura crítica da mídia. De acordo com SILVERSTONE (2002: 267) “nós, estudiosos da mídia, temos a responsabilidade de nos engajar com o mundo que foi o objeto de nossa atenção. A fronteira que separa a academia do mundo concreto não pode mais, pelo menos nesta área, ser defendida.”
No caso desta pesquisa, defendemos que o conhecimento de como se desenvolve a produção do jornalismo na televisão - restrito àqueles que fazem parte do cotidiano de uma redação e a estudiosos da mídia - precisa ser compreendido também pelos telespectadores. Mas apenas isso não basta. É preciso que esses telespectadores tenham a dimensão das relações econômicas e políticas que envolvem esse processo, já que uma grande parcela dos meios de comunicação possui relações comerciais com outros segmentos empresariais e também porque a informação atualmente, mais do que nunca, é vista como “um negócio”. Além disso, é também evidente a intrínseca relação dos empresários da comunicação com as decisões tomadas por aqueles que detêm o poder na política brasileira.
Acreditamos que o conhecimento adquirido com o exercício de leitura da televisão poderá ser um instrumento através do qual os diversos grupos da sociedade, principalmente aqueles que constituem as classes politicamente dominadas, “passarão a intensificar sua postura crítica, sua análise de conteúdo e forma, diante dos órgãos de comunicação.” (ABRAMO, 2003: 49)
Nosso objetivo vai ao encontro do pensamento de MORAN (1991: 53): “não se trata de afastar as pessoas dos jornais e telejornais, mas de ajudá-los a perceber melhor o contexto da informação, alguns mecanismos internos da informação como indústria e produto, despertando nelas a necessidade de comparar as notícias, sem deixar se levar pela primeira fonte” Esta pesquisa, que está inclusa em uma área denominada educação para os meios, identifica-se, de acordo com a classificação de SOARES (2002: 21) com a vertente culturalista “que busca garantir aos educandos os conhecimentos necessários para que os mesmos adquiram o hábito de ler de forma adequada as mensagens dos meios”.

A televisão vista pelos integrantes dos grupos

O perfil dos integrantes dos dois grupos demonstra que eles incluem-se no quadro geral da sociedade brasileira, confirmando a constatação de diversas pesquisas de que a televisão é a principal fonte de informação para a maioria da população. O que mais assistem na TV são os telejornais, gênero citado por quase todos os componentes do grupo (15), seguido pelos documentários, filmes/séries e novelas, com quatro citações cada. Os telejornais que mais assistem são o Jornal Nacional, citado 11 vezes; seguido pelo Jornal da Globo, citado oito vezes. O Jornal Regional (EPTV Campinas/Globo) e Jornal da Cultura, foram citados sete vezes. Uma parcela deles (sete) dificilmente lê jornais; cinco lêem um ou mais jornais alguns dias da semana; três lêem um jornal todos os dias e dois afirmaram ler mais que um jornal todos os dias.
Entretanto, quando perguntado aos participantes, sobre que os atraiu para o grupo, as respostas demonstram que, embora se informem prioritariamente pela TV, já havia da parte deles uma atenção especial para com a comunicação e/ou a televisão, principalmente entre aqueles que trabalham com comunidades:
Cláudia: Acho que não tem como a gente trabalhar com uma comunidade, para que ela se emancipe, se eu não tenho uma consciência crítica, e sei que eu tenho que melhorar muito meu nível crítico. (G. Universitários)

Marta: uma coisa que eu falei hoje na reunião das mulheres é que a nossa era é a era da informação, só que muitas vezes são informações que não são exatas, que chegam ao conhecimento da gente, assim, já deturpadas... (G. Agentes Pastorais)

No grupo de estudantes universitários, no primeiro encontro, quando foi realizado um debate sobre o que eles acham da televisão, foi possível observar referências significativas, como: não mostra causas, conseqüências e/ou soluções; fragmentação; superficialidade; banalização; bombardeio de informações, etc. No grupo de agentes pastorais, a falta de caráter social no telejornalismo; a inversão de valores, muitas vezes não se distinguindo o que é ficção ou realidade, foram algumas das questões negativas abordadas.
João: As pessoas assistem novelas, que são ficção, e choram. As pessoas vêem uma tragédia no jornal e falam graças a Deus não foi comigo. Eu acho essa coisa das pessoas gostarem de ver tragédia diminui um pouco a sua própria tragédia pessoal, a sua condição de vida. Elas se sentem um pouco melhores, mais consoladas.(G. Agentes Pastorais)

A violência e o sensacionalismo na televisão, questão que vem merecendo destaque nas discussões, inclusive entre a classe política brasileira e o fato de os telejornais darem prioridade para o lado negativo dos acontecimentos, deixando de lado os fatos positivos e questões culturais foram mais abordadas pelo grupo de agentes pastorais. No grupo de estudantes universitários a discussão ficou mais voltada para a alienação e a falta de interesse da televisão em aprofundar as questões políticas e econômicas. A linha de construção do debate nesse grupo voltou-se mais para a questão ideológica:
Douglas: Eu retomo o que a gente já começou a falar, sobre o uso da questão ideológica. ... Eu lembro da questão, não é muito do meu tempo, mas a questão do Collor, quando houve um impeachment. A própria Rede Globo, através dos telejornais e de outros meios, até de novela. ... Então não sei, eu acho que eles se aproveitam dos momentos e utilizam isso a favor deles. Uso ideológico.

A idéia de que a TV influencia a sociedade é compartilhada pelos membros dos dois grupos. A discussão se dá, no entanto, sobre os diferentes aspectos em que ela ocorre:
Marialba: Eu acho que a gente está caminhando para ter uma babá eletrônica. Senta a criança na frente da televisão e fala: fica quietinha aí que a mamãe já volta. ... Ela vai crescer um adulto que só vai assistir televisão.(G. Universitários)

Henrique: Na religião, antes tinha uma influência muito maior. Antes, as pessoas se aconselhavam com o líder religioso. Hoje é o líder midiático. (G. Universitários)

João: A escola discute muitas vezes família e igreja. Igreja, discute às vezes família e escola. A família, algumas, acompanha a escola, acompanha a igreja. Mas é a televisão que falta. Nenhuma das três entidades, escola, igreja e família tem como base fazer um contraponto com a televisão. As famílias não discutem a TV, as escolas não fazem o uso de crítico da TV e a igreja usa a TV de outras formas. Acho que falta um movimento contrário. (G. Agentes Pastorais)

Quando solicitados que contassem se eles próprios ou a comunidade da qual participam já haviam vivenciado alguma situação que posteriormente tivesse virado notícia na televisão, duas histórias, contadas no grupo de universitários, apresentam situações completamente diferentes, mas que demonstram o quanto uma notícia pode ser distorcida, de acordo com a gravação, redação e, principalmente, a edição. A primeira foi sobre uma passeata da ALCA, da qual participou um aluno de Ciências Sociais:
... A gente chegou lá, os policiais todos tiraram a identificação e nós saímos da Paulista, o chefe da polícia de São Paulo chegou para gente e disse: “Olha eu vou garantir a segurança, não vai acontecer nada, vocês podem fazer a passeata e voltam para as suas casas.” No meio do caminho, tropa de choque, todos sem identificação, batendo. Ali tinha gente de doze anos, [ ...] até gente mais velha. Um monte de Ong, era sociedade civil mesmo. Eles meteram o cacete e daí quando eu fui ver na Globo e em outro que eu não me lembro mais: “BADERNA NA AVENIDA PAULISTA”. Não falam quem bateu primeiro, como começou o negócio.

A segunda foi sobre os cem anos do Seminário de Aparecida, onde um aluno de filosofia era seminarista:.
Quando o Seminário de Aparecida completou cem anos, a Rede Globo foi fazer uma matéria. [...] Ela gravou o que cada um falou. E ela insistiu nessa questão : “Mas o sexo, como vocês trabalham isso?” Aí teve um corajoso que disse : “Não isso é uma questão muito clara para a gente. É uma questão de você arrumar meios para sei lá, válvula de escape. Infelizmente ele usou esse termo.” ... E aí, o que ela fez? No horário da oração ela pegava um trechinho da fala de cada um. Por exemplo, eu lembro que eu falei que era cansativo, levantar quatro horas da manhã. Ela usou isso: Olha acordar de manhã , até os padres não gostam. Daí ela colocou a minha fala, mas ela só colocou isso, não colocou o que eu disse depois. Pois o que é cansativo é um ideal, o cansaço se transforma em prazer, enfim. ... Aí chegou nessa parte do afetivo, do sexual . Daí ela pergunta, como vocês se relacionam, como que é conviver com trinta, quarenta e sete homens. Aí ela usa da fala do cara lá: É uma válvula de escape, você tem vontade de manter relação, de transar, só que você vai jogar bola para ... Quer dizer, ela pegou uma fala que era lá do esporte e colocou aqui. Ela catou um recorte. Então eu passei por isso e é muito chato.

Mesmo sem conhecer profundamente as técnicas jornalísticas, os depoimentos confirmaram o que já foi demonstrado por diversos autores, entre eles PEREIRA JR., (2000: 12): “é na edição do telejornal que o mundo é recontextualizado.” E nos casos narrados por esses dois universitários, com um grau de distorção acentuado.

Os grupos assistem aos telejornais

Para que fosse realizada a análise do Jornal Nacional e Jornal da Cultura , foi feita a gravação dos mesmos, bem como o espelho de cada telejornal, com as notícias transmitidas nessas edições. Foram analisadas antes da intervenção pedagógica, reportagens sobre: a CPI dos Bingos; o pagamento de parcela ao FMI feito pela Argentina e a greve de Policiais Federais entre outros. A seguir será descrita a análise feita da cobertura da CPI dos Bingos, notícia escolhida entre as veiculadas nos telejornais do dia 02 de março de 2004:
A CPI dos bingos vista pelos universitários e agentes pastorais

O JN concentrou o assunto no primeiro bloco apresentando três reportagens, já o JC dividiu o assunto. No primeiro bloco apresentou uma reportagem, seguida por um comentário do apresentador Heródoto Barbeiro. No terceiro bloco o JC apresentou duas notas que tinham relação com o assunto; mais uma reportagem e ainda uma entrevista com o Secretário da Segurança do Paraná sobre o tema.
Após os universitários assistirem ao bloco do JN que apresentou a cobertura da CPI dos Bingos, chama atenção o fato de alguns membros do grupo falarem com propriedade sobre a edição. Alguns deles consideraram ter havido uma defesa do Ministro da Casa Civil, José Dirceu.
Gustavo: Essa coisa que eles resumiram em cinco minutos, deve ter levado umas duas horas. Então o que eles fizeram? Eles fizeram um compacto e privilegiaram a defesa do ministro que estava sendo acusado que era o Zé Dirceu.

Depois de assistirem ao JC, houve discordância na comparação entre a cobertura que os dois telejornais fizeram do assunto neste dia:
Gustavo: Acho que as reportagens foram praticamente, foram parelhas as duas.
Henrique: Eu não concordo que o da Cultura seguiu a mesma linha. Porque na hora que apresentou a matéria, ele falou o governo está maquiando , tá tentando encobrir a CPI.
Fernanda: Eu concordo com o Henrique.[...] eu acho que nisso, ele (JC) já foi imparcial, muito mais imparcial que o JN.

Os universitários questionam também o JN pelo fato de ser uma cobertura rápida e superficial, enquanto o JC, na opinião de diversos membros do grupo, proporciona, além da informação, a reflexão e a aquisição de conhecimento.
Ricardo: A Globo vai jogando informação, mas ela não deixa um tempo para que a gente faça uma leitura daquela situação para ganhar conhecimento. A Cultura leva você a refletir. Porque o jogo do bicho não é lícito, porque a raspadinha é lícita?
Gilberto: A Cultura deixa mais informado para você pensar depois.
Douglas: Eu acho que a diferença é muito grande, até mesmo pelo cenário. A maneira que os jornalistas conduzem a notícia.
Marialba: A Globo não dá este espaço para pensar. A Cultura já dá esse espaço, quando você faz uma entrevista com alguém, você pensa depois sobre a entrevista, você pensa sobre o que a pessoa falou.
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É interessante observar como o grupo de agentes pastorais fez uma leitura diferente, analisando o enfoque do JN, que se preocupou em relacionar a denúncia do senador com as alterações do mercado financeiro e o JC que ficou mais centrado na CPI dos bingos.
José Alberto: A Globo se preocupou em mostrar que essa denúncia provocou uma alteração no mercado de ações. Já a Cultura não se preocupou com isso, mas já enfocou a questão dos bingos.

Givanildo: Eu observei também que a Globo foi mais para o lado econômico e a Cultura começou a explicar o que realmente interessava naquele fato.

Também apareceu no grupo de agentes pastorais a idéia de que o JN é mais governista, embora não tenha sido com tanta intensidade como no grupo de universitários.
Cristiane: O JN colocou que o Mercadante tem 24 anos de luta. O JC já colocou a falsidade das coisas. ... Eu anotei aqui que são cinco ou seis senadores que ela coloca contra as acusações. O JC são só três.

André: Eu acho que mais uma vez você tem uma porcentagem governista, é uma pena isso acontecer, mas, mais uma vez é o JN.

A maioria dos membros do grupo de agentes pastorais considera que foi mais fácil compreender o tema através do JC e critica o formato mais sensacionalista do JN:
Carolina: Eu acho que a Cultura usou uma linguagem mais fácil. Eu entenderia melhor pela Cultura do que pela Globo, até as imagens que eles utilizaram eu achei muito mais fácil.

José Alberto: É uma adrenalina atrás da outra. Depois o JC, o jeito “light” que ele fala, você vai entendendo a notícia, absorvendo. O outro (JN), você vai criando uma expectativa, para depois vir fazer o desfecho.

Ivair: Mais ou menos isso aí, a Globo tem uma preocupação de manter o telespectador até o final, suspense.

O exercício de leitura dos telejornais, também proporcionou, além da discussão sobre a forma como eles apresentaram os diversos assuntos analisados, a abordagem de temas relacionados direta ou indiretamente às reportagens: se foi correta ou não a greve dos policiais federais; a forma como o governo tratou o problema dos bingos; a questão religiosa que envolve o Haiti; o risco Brasil; a localização de Brasília e como repassar a discussão da comunicação para outras pessoas que envolvem seus círculos de convivência.
Ao final desta primeira fase foi possível perceber que, em sua maioria, os membros dos dois grupos já tinham uma visão crítica do telejornalismo. Mas, em que pese a análise apresentada, poucas vezes foram feitas observações que indicassem um conhecimento das questões técnicas ou da lógica de construção dos telejornais.

A compreensão depois da intervenção pedagógica

Depois da intervenção pedagógica, no oitavo e no nono encontros foi utilizada também a técnica de grupos focais, porém com um roteiro prévio de análise, nos quais foi pedido que os participantes prestassem atenção em alguns pontos considerados importantes para a compreensão dos telejornais.

A prisão de Celso Pitta

Na análise dos telejornais do dia 04 de maio de 2004, o objetivo é que os grupos percebessem os detalhes da construção da reportagem, desde onde vem uma pauta, como é elaborada até a edição final. Nesse dia a reportagem escolhida foi sobre a prisão do ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, que havia sido detido porque teria desacatado uma autoridade durante sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito que investigava o escândalo do Banestado.
As reportagens tanto do JN como do JC têm três minutos e cinco segundos. A diferença é que a TV Cultura apresenta também um comentário. Deve-se levar em consideração que três minutos é um tempo normal de reportagem para a JC, mas não para o JN, já que neste telejornal as matérias têm em média 1 minuto e meio. Depois de analisarem a cobertura da prisão do ex-prefeito em cada um dos telejornais, os universitários fizeram a comparação.
O que foi possível perceber é que, como Celso Pitta é um político polêmico e antipático ao grupo, a maioria aprovou as reportagens, mesmo considerando que ambos os telejornais utilizaram termos e sonoras que poderiam ser negativas para o ex-prefeito. No caso do JN, eles justificam até um certo sensacionalismo apresentado na reportagem

Alexandre: Uma coisa que fizeram no JN, que deu um tempo legal, foi o questionamento do Antero Paes, a resposta do Pitta, a reação e o bate-boca. Você vê que demora, dá pelo menos uns 40 segundos. E não é uma coisa sem corte, é inteiro.

Sen. Antero Paes de Barros – Pres. da CPI: É impossível deixar de estabelecer relações entre a existência de contas no exterior em seu nome e os cargos que vossa senhoria ocupou na administração pública paulista e as denúncias de corrupção que pairam sobre a execução de obras públicas na cidade de São Paulo.
Celso Pitta: Eu mantenho silêncio em relação a essa questão.
Senador: Seu eu lhe indagar que vossa senhoria vê essas afirmações como sendo informações que vossa senhoria é corrupto, vossa senhoria mantém o silêncio também.
Celso Pitta: Se eu indagasse a vossa excelência se o senhor continua batendo na sua mulher, como é que o senhor responderia?
Senador: Eu exijo respeito de vossa excelência!
Celso Pitta: Eu também, eu também porque estou aqui na condição de depoente e não na condição de pessoa para sofrer um tipo de acusação tão grave como vossa excelência está colocando para mim.
Senador: Eu não bato na mulher e nem sou assaltante de cofres públicos.

Gustavo:... o pessoal fez sensacionalismo, mas o objetivo é importante. São coisas que têm relevância e têm mudança prática se isso for combatido, a corrupção, no caso.

Ricardo: A discussão dos dois, eu também achei que foi desfavorável ao Pitta. E por que isso? Em função de eles quererem que o Pitta seja desmerecido, colocam o bate-boca.

A afirmação da apresentadora do JN de que Celso Pitta insultou o presidente da CPI causou polêmica entre os membros do grupo.
Gustavo: Eu achei que o Pitta ofendeu, porque ele estava perguntando sobre os assuntos políticos da CPI e o Pitta foi perguntar da mulher dele.

Cláudia: Você acha que insultou, todo mundo acha que insultou. Para o advogado isso não foi um insulto. Não cabe a apresentadora colocar o insulto, acho que podia ter colocado como você falou “se sentiu insultado e deu voz de prisão.” E depois quem assiste vê o que acha.


A reportagem que abordou a prisão do ex-prefeito, Celso Pitta, causou bastante discussão, também, entre os agentes pastorais. No JN, tanto o texto da chamada da reportagem como o primeiro off da mesma, apresentou diversos termos que foram questionados pelo grupo.
Givanildo: Ela(apresentadora) usou a palavra “insultar”, que ajudou o Senador. Claro, o senador pode ter visto como um insulto e, tanto não foi, que depois acabou não sendo indiciado por desacato. ... Acho que não era o papel dela.

André: Na hora que a Fátima Bernardes fala do ‘insultar’, ela está num tom de voz normal, de repente ela fala “insultar”, dá aquela impressão maior.

Cristiane: Foi preso por desacato. ... Acho que ela estaria repetindo a palavra do senador. Diria “foi preso sob acusação de desacato”... Quando diz que foi um insulto, ela diz também “o escândalo do Banestado”, ela está chamando a atenção, é sensacionalista.
Já o fato de o JN apresentar, praticamente na íntegra, a discussão entre o presidente da CPI e o ex-prefeito, também foi considerado normal pelos agentes pastorais.
Marta: Eu achei que ela fez uma explicação do que estava acontecendo e do que procedeu.

Ivair: Como eles não abordaram a CPI, só falaram desse episódio, do desacato, eles só usaram essas imagens. Então, está mostrando isso, libera o som dele, depois fecha e coloca o off.

João: Sobe som fica mais contundente do que fazer uma sonora com os dois a respeito, para exemplificar o que aconteceu.

Depois de assistirem às duas reportagens sobre o mesmo tema, os agentes pastorais fizeram a comparação e consideraram a reportagem do JC melhor estruturada e menos sensacionalista, apesar das críticas:
André: Queria chamar a atenção para a questão do sensacionalismo. [...] a gente vai perceber que nas falas, no bate-boca, existe muito menos bate-boca entre os dois na Cultura..

Cristiane: Eu reparei também na posição das âncoras, porque elas deram mais ou menos a mesma informação. Agora, a Fátima Bernardes coloca uma tensão maior para a coisa. É a mesma coisa com as repórteres, elas fazem a sonora na frente da Polícia Federal falando do crime e das punições, mas na Cultura tem uma expressão mais tranqüila.

Carolina: Acho que a Cultura amenizou [...] Tem a repórter explicando o que foi o desacato, o que pode acontecer, tal. Achei que foi bem melhor a reportagem.

Observamos que este grupo teve mais dificuldade em analisar as reportagens levando em consideração as técnicas estudadas durante a intervenção pedagógica, mesmo assim é possível detectar uma maior intimidade com alguns termos utilizados. Além disso fica evidente, na reportagem sobre o ex-prefeito Celso Pitta, que o grupo de agentes pastorais é mais crítico ao sensacionalismo do JN do que o grupo de universitários.

Considerações Finais

Foi possível verificar, nesta pesquisa, que um grau de conhecimento que requer que o telespectador seja capaz de questionar possíveis estratégias da mídia é privilégio de poucos e que o viés político e econômico são de fundamental importância na leitura de qualquer programa de TV.
É necessário ter claro que esta é apenas uma forma de se fazer a leitura de um produto específico da televisão. As pessoas que participaram dos grupos em questão já tinham uma visão, que pode ser considerada crítica, seja pelo conhecimento adquirido na escola, ou pela participação em atividades na igreja ou nos movimentos sociais (em maior ou menor grau). O que procuramos desenvolver no trabalho realizado com os dois grupos, foi embasar esses conhecimentos, reforçando, assim, a necessidade e o hábito de fazer a leitura dos meios.
Consideramos importante a afirmação de CITELLI (2000: 36). Para ele
O desafio da escola parece ser, cada vez mais, o de apreender analítica e criticamente o que diz televisão, o rádio, o jornal, etc. Posto de outro modo, se a escola deve melhorar seus jogos interlocutivos com os meios, precisa fazê-los, não só para estar em sintonia modernizante com o novo, com o sedutor, mas também para tensionar e desestabilizar, quando necessário, um tipo de mensagem da qual não se exclui o elemento do espetáculo e da manipulação.”

Finalmente, pretendemos reforçar a necessidade de que a discussão sobre os meios de comunicação seja inserida na escola de forma oficial, ou seja, nos currículos escolares Apenas, acreditamos ter atingido o nosso objetivo se este trabalho, contribuir para colocar a Educomunicação em destaque no meio acadêmico, entre os estudiosos da comunicação, mas principalmente entre os educadores.

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