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  A FACE OCULTA DA LITERATURA: A SOCIEDADE INFLUENCIANDO NA FORMATAÇÃO DO TEXTO LITERÁRIO

Sandra Eleine Romais - Universidade Estadual de Maringá

1. Introdução

A sociedade do século XXI vive no auge da modernidade e do desenvolvimento de aparatos científicos e tecnológicos que proporcionam a comodidade, ao mesmo tempo que colocam em xeque a identidade do homem, abalando seus valores e concepções.
Diante deste desvendamento de um novo mundo, a sociedade contemporânea procurou resgatar suas raízes culturais, sociais e históricas a fim de redimensionar seus horizontes e assim, substituir os paradigmas tradicionais. Nesta busca incessante, encontraram-se vestígios de uma imponente construção ideológica e política de uma classe burguesa dominante. Esta minoria estabeleceu, durante décadas, os padrões de comportamento e os valores morais e éticos que estruturavam e organizavam as relações sociais e econômicas, alimentando, assim, a utopia de um mundo melhor e democrático, fundamentado num discurso homogeneizador e de fundo igualitário.
Esses ideais, no entanto, nunca se concretizaram, pelo contrário, apenas intensificaram as diferenças sociais acentuadas pelas imposições do sistema capitalista.
Nesse sentido, o próprio contexto exigiu uma reformulação dos antigos conceitos: era o fim da crença nas verdades absolutas que legitimavam a ordem social aos moldes burgueses.
No contexto educacional, devido à reformulação curricular, a literatura tornou-se alvo de críticas e questionamentos quanto ao seu valor e importância para a formação do indivíduo moderno. A função da escola voltou-se para a preparação de indivíduos capacitados para atender as necessidades e exigências do mercado, dentro de um sistema capitalista, industrial e especializado. Hoje, a linguagem é predominantemente visual, instantânea, compacta e plurisignificativa – valorizando-se, assim, a imagem sobre a escrita:

“O final do século presencia, contudo, uma situação paradoxal: diagnósticos pessimistas acompanham a valorização da leitura, proclamando-se o encerramento da era do livro, sua substituição por equipamentos mais desenvolvidos tecnologicamente e a soberania de formas de comunicação eletrônicas, capitaneadas pelo uso do computador e o fascínio exercido pela Internet” (ZILBERMAN, 2001: 16,17).

Os grandes embates dos estudiosos e críticos literários giram em torno da questão do declínio das letras e do possível fim da era dos livros e do ensino da literatura.
Desde o século XVIII, com a ascensão da burguesia ao poder, a produção literária tem sido elogiada, mas também condenada por muitos. A matéria da literatura é a linguagem, e este fato a torna num “instrumento poderoso de instrução e educação” podendo tanto humanizar quanto alienar seu leitor (CANDIDO, 1995: 243):

“Daí a ambivalência da sociedade em face dele, suscitando por vezes condenações violentas quando ele veicula noções ou oferece sugestões que a visão convencional gostaria de proscrever. No âmbito da instrução escolar o livro chega a gerar conflitos, porque o seu efeito transcende as normas estabelecidas” (CANDIDO, 1995: 244).

Desconfiada do potencial emancipatório da literatura, a classe burguesa tem controlado e ditado as regras moldando um gosto literário comum entre os leitores. Como exemplo dessa prática, tem-se a valorização do cânone literário e do modelo historiográfico que lista autores consagrados e obras representativas de cada época, segundo o julgamento da classe dominante.
A grande questão é por que este modelo é adotado no ensino de literatura pelos livros didáticos do Ensino Médio? Sabe-se que as relações entre os indivíduos e a obra modificam conforme o tempo – atualmente o livro, suporte tradicional da literatura, tem sido substituído por outros mais modernos e práticos; o próprio conceito de literatura já não é mais o mesmo que há décadas atrás; a escola, porém, permanece com os mesmos valores e métodos inadequados.
A questão literária, no entanto, é muito mais complexa e abrangente do que a concepção que se aprende na escola, pois, envolve práticas que dependem de uma série de fatores sociais, históricos e culturais. Este fato confirma que o próprio processo de desenvolvimento e construção do conceito de literatura está relacionado às manifestações sociais de uma época e aos elementos que a preescrevem.

2. A literatura através dos tempos

As primeiras manifestações literárias de que se tem registro foram apreciadas na Grécia e recebiam o nome de poesia. Sua função era divertir a nobreza em tempos de paz. As guerras freqüentes inspiravam as epopéias, como por exemplo, a Ilíada e a Odisséia, que mais tarde serviram de parâmetro social, norma de comportamento e de modelo político para a sociedade grega. As produções poéticas, desta época, tinham propensões educativas e eram divulgadas em recitais e concursos públicos organizados. A serviço do Estado, muitas obras forneciam os padrões cabíveis à comunidade segundo os moldes da ideologia dominante.
Os primeiros estudiosos da literatura, como Aristóteles e Horácio, já reconheciam o prazer e a instrução que a leitura literária proporcionava. Segundo Zilberman, esta certeza “de que o texto poético favorece a formação do indivíduo, cabendo, pois, expô-lo à matéria-prima literária, requisito indispensável a seu aprimoramento intelectual e ético” permanece através dos tempos (In: ZILBERMAN & SILVA, 1990:13).
Observa-se, portanto, que a relação social com as produções artísticas e literárias já correspondia às necessidades de um contexto histórico. Os tempos de guerra exigiam a formação de um povo unânime, liderado por uma entidade que valorizasse a força e a luta do todo coletivo. Assim, o papel da poesia para os gregos era evidenciar as qualidades do indivíduo que conservasse os padrões elevados e determinados pelo Estado como sendo ideais, e destacar o coletivo sobre o privado, assegurando a confiança na democracia.
Com a Renascença, a literatura perdeu o caráter comunitário e restringiu-se a uma pequena minoria formada pela nobreza e o clero. Era o fim das guerras e invasões bárbaras, a luta, agora, era política e religiosa. Logo, com o aumento da população e das técnicas especializadas, os pontos de trocas se constituíram, movimentando, assim, o capital e mobilizando novos investimentos a partir das expansões marítimas.
Os comerciantes e mestres de ofício, chamados burgos, enriqueceram e formaram uma nova classe social: a burguesia – que futuramente instaurou uma nova ordem mundial.
No contexto educacional, priorizou-se o ensino das letras e da cultura clássicas, a retórica, a lógica e a gramática – herdada dos gregos. Havia uma preocupação em se manter a hegemonia e o poder e, por isso, o modelo de ensino grego atendia e garantia este domínio almejado, uma vez que ensinava o respeito e a submissão ao Estado.
No século XV, na Alemanha, a invenção da tipografia de Gutenberg iniciou uma nova fase para o mundo das letras. O livro consolidou-se em sua forma substituindo o codéx e os antigos rolos, tornando-se o principal e quase exclusivo suporte dos textos impressos (ZILBERMAN, 2001).
Com a expansão e desenvolvimento das prensas mecânicas, o livro tornou-se um produto manufaturado e próprio para a comercialização. Isto gerou muitos conflitos, pois, a leitura até então, pertencia aos sacerdotes da igreja e a uma minoria da nobreza.
A leitura, a partir de então, passa a ser um ato individual que promovia o conhecimento e a liberdade para interpretar os signos. Porém, apesar deste avanço, a grande maioria da sociedade permaneceu analfabeta.
Nessa época, a prática do mecenato era comum. Muitos nobres, o clero e a alta burguesia patrocinavam as produções artísticas (literárias, pintura, teatro) que atendessem as suas necessidades, muitas vezes de autopromoção. Apesar dos interesses políticos, essa prática contribuiu para o avanço nas artes.
Assim, a burguesia divulgava sua revolta contra o sistema servil, escravocrata e monárquico, pregando a igualdade e o fim das diferenças sociais:

“Do ponto de vista histórico, o moderno conceito de crítica literária está estreitamente ligado à ascensão da esfera pública burguesa e liberal, nos primórdios do século XVIII. A literatura serviu ao movimento de emancipação da classe média como instrumento de aquisição de amor-próprio e de articulação de suas exigências humanas contra o Estado absolutista e uma sociedade hierarquizada” (EAGLETON, 1991: 4)

A Era Moderna se afirma com a burguesia no poder e os resultados palpáveis dos grandes investimentos e pesquisas científicas e tecnológicas, na área da indústria e comércio.
É nesse século que se denomina a poesia e as produções artísticas em geral de literatura. A denominação literatura originou-se da palavra latina [littera], que significava toda escritura, erudição e conhecimento das letras (MOISËS, 1970). Desde o início, a literatura identificava-se com a forma escrita e, logo após, impressa, descartando e invalidando as produções de cunho oral. Até hoje, esta concepção se reflete nos julgamentos de valor e está presente no imaginário coletivo, marginalizando erroneamente diversas manifestações artísticas:

“Os critérios do que se considerava literatura eram, em outras palavras, francamente ideológicos: os escritos que encerravam os valores e “gostos” de uma determinada classe social eram considerados literatura, ao passo que uma balada cantada nas ruas, um romance popular, e talvez até mesmo o drama, não o eram. Nessa conjuntura histórica, portanto, o “conteúdo de valor” do conceito de literatura era razoavelmente auto-evidente” (EAGLETON, 1997:23).

Por relacionar-se com a forma escrita, considerava-se todo tipo de material impresso, fosse filosófico, histórico ou científico, como literário. Isto gerou questionamentos sobre a verdadeira especificidade da literatura. Conseqüentemente, foi preciso que a teoria da literatura, a crítica e a historiografia desenvolvessem suas técnicas e abordagens como uma prática científica no campo das ciências humanas.
Diversas correntes críticas elaboraram conceitos e investigaram o texto literário, considerando os elementos possíveis internos da obra. Primeiramente, adotou-se a concepção clássica e aristotélica dos gêneros épico, lírico e dramático. Porém, com o aparecimento do romance, este sistema se tornou insuficiente, marcando uma nova fase para os estudos literários:

“No sentido restrito, a literatura (fronteira entre o literário e o não literário) varia consideravelmente segundo as épocas e culturas. Separada e extraída das belas-letras, a literatura ocidental, na acepção moderna, aparece no século XIX, com o declínio do tradicional sistema de gêneros poéticos, perpetuado desde Aristóteles” (COMPAGNON, 1999:32).

Distinguiu-se, então, a prosa do verso, compreendendo a tríade: romance, teatro e poesia. Admitia-se o romance, pois este “se coadunava perfeitamente com o novo espírito implantado em consequência do natural desgaste das estruturas sócio-culturais trazidas pela Renascença” (MOISÉS, 1970: 164). O romance era a manifestação mais autêntica da burguesia e de sua influência.
Assim, estabeleceu-se um cânone literário que consistia na aceitação de obras padrões, “destinadas a serem imitadas de maneira fecunda; o panteão moderno é constituído pelos escritores que melhor encarnam o espírito de uma nação” (COMPAGNON, 1999: 33). Os romances, então, deveriam obedecer aos moldes impostos pela burguesia.
Nesta perspectiva, é possível observar que o fato literário sempre esteve associado a um julgamento de valor formulado pela voz do branco, europeu, civilizado, letrado, adulto e masculino (LAJOLO, 2001). Era, no entanto, exatamente esta classe culta que dominava as letras e as ciências da época.
O cânone literário durante séculos serviu de parâmetro para a “boa literatura” – mas, além de excluir as produções populares, observou-se que o bom gosto e as escolhas modificavam-se conforme o tempo e o contexto sócio-cultural. Os conceitos de temporalidade e universalidade da obra tornaram-se duvidosos.
Em seguida, considerou-se, como literatura, toda escrita dotada do aspecto ficcional e imaginativo – diferenciando-se de qualquer fato verdadeiro: que eram os tratados científicos, relatos históricos ou jornalísticos. Questionou-se, então, a confiabilidade da descrição de um fato e a verossimilhança presente nas obras literárias. O papel do pesquisador perdeu seu caráter objetivo e exato, pois, tanto um crítico, cientista ou historiador partem de um ponto de vista, arbitrário e subjetivo, sobre o seu objeto de estudo – escolhendo, assim, a problemática abordada, além de estar praticamente condicionado aos seus valores e crenças que se manifestam em suas afirmações, ideologias e discursos.
No século XX, inspirado pela nova lingüística de Saussure, Jakobson definiu a literatura como uma linguagem poética, peculiar e diferente da linguagem cotidiana. Para os formalistas russos, a linguagem literária possuía artifícios (desvios) que provocavam um estranhamento, intensificando a experiência do leitor com o texto. Esse efeito, porém, não poderia ser identificado e classificado, pois, a linguagem comum (cotidiana) diferenciava-se segundo a utilização de determinados grupos sociais, podendo, assim, um elemento poético ser ou não considerado um “desvio”.
O estruturalismo, por sua vez, buscou teorizar um modelo virtual, configurando-se como princípio de organização e/ou sistemas básicos, afastando de certa forma a relação com a história e suas particularidades. Porém, o contexto também desperta o olhar para o mundo e a compreensão da identidade do sujeito. Era preciso, portanto, equilibrar a análise de cunho mais científico e a análise crítica que indaga a validade e a projeção da obra para a experiência humana:

“De fato, antes procurava-se mostrar que o valor e o significado de uma obra dependiam de ela exprimir ou não certo aspecto da realidade, e que este aspecto constituía o que ela tinha de essencial. Depois, chegou-se à posição oposta, procurando-se mostrar que a matéria de uma obra é secundária, e que a sua importância deriva das operações formais postas em jogo, conferindo-lhe uma peculiaridade que a torna de fato independente de quaisquer condicionamentos, sobretudo social, considerado inoperante como elemento de compreensão” (CANDIDO, 1985: 4).

Com efeito, analisar os aspectos internos do texto contribuiu significantemente para a compreensão das obras, porém, o fato de ignorar-se o contexto em que estas eram produzidas tornou tais análises incompletas.
Nessa época, no entanto, incluir fatores sociais e históricos como parte constituinte da interpretação dos textos acarretaria sérios problemas com a censura dos estados governamentais. A crise econômica, a Primeira Guerra mundial, as perseguições e todo contexto de intensos movimentos e revoltas abafariam os resultados ou até mesmo impediriam a divulgação deles.
Com a Segunda Guerra e a criação da ONU, discutiam-se os direitos humanos; neste contexto, os estudos literários também se voltaram para o sujeito-leitor e sua história.
Diferente das correntes estruturalistas e formalistas que optam em estudar a estrutura do texto literário, a sociologia da literatura desenvolveu-se para analisar a idéia da função atribuindo valor a tudo que envolve o autor e o receptor da obra (leitor).
Segundo Escarpit (1969: 9) “todo o facto literário pressupõe escritores, livros e leitores ou, de uma maneira geral, criadores, obras e um público”. Assim, o escritor assume uma posição social que refletirá em sua escrita, tornando-se espelho do coletivo, mas também um interprete da realidade que vivencia. O leitor, como parte de um sistema de comunicação, encontra-se também, influenciado por valores sociais e ideológicos que o constituem. A obra, obviamente, obedece às normas impostas pelo grupo social dominante: ela traça um código lingüístico comum, referindo-se à termos e experiências ligadas à realidade, para que seu sistema simbólico seja expressivo e significativo ao seu leitor.
Esta integração comum entre a tríade autor-obra-público fundamenta-se no aspecto sociológico que a obra literária apresenta e manifesta.
Segundo Candido (1985), a literatura é toda criação de cunho poético, ficcional ou dramático, manifestada em qualquer cultura em todos os tempos – é uma experiência universal e presente em todo homem, pois parte da necessidade de fabulação. Assim, a satisfação de tal necessidade constitui-se um direito, além de resultar num equilíbrio social, pois é indispensável para a humanização e na formação do homem (consciente ou não). A literatura permite viver os problemas dialeticamente, apreender o bem e o mal, enfim, viver – contribuindo, assim, na formação da personalidade do indivíduo.
Para a Estética da Recepção, o processo de leitura literária envolve o potencial artístico do autor revelado na obra e seu efeito estético obtido pela atividade do leitor. Este participa da criação literária ao preencher os espaços vazios sugeridos pelo autor – tal interação torna cada leitura diferente e dinamizada, rompendo os horizontes estabelecidos pelo conhecimento anterior do leitor e suas expectativas. Nesse sentido, o texto possui um caráter dialógico, pois, instiga seu leitor a constituir novos sentidos e crescer como ser humano.
Isto posto, percebe-se que os estudos sobre a literatura sempre avançaram conforme o contexto histórico permitia. Até que as investigações centrassem no aspecto social (autor-leitor), muitos eventos e conquistas tiveram que acontecer no âmbito político, econômico e cultural.
Porém, o conceito de literatura, tal como hoje é entendido, deveu-se ao movimento de aburguesamento que se iniciou na Europa e correu por todo mundo, orquestrando um conjunto de fatores sociais que propiciaram a construção do que hoje chamamos de literatura, como se mostrará no tópico seguinte.

3. A literatura como um fato social

A concepção que se tem de literatura é extremamente limitada e condicionada aos moldes estabelecidos por uma classe dominante e elitista: a burguesia. Isto faz com que qualquer análise torne-se superficial e incompleta perante a complexidade que envolve as manifestações artísticas literárias.
Do ponto de vista sociológico, a produção da literatura está intrinsecamente ligada à revolução burguesa, pois a literatura concretiza-se no interior de uma prática social específica de leitura e escrita de uma sociedade formada pelos moldes burgueses, devido à modernidade conseqüente de um sistema capitalista.
Desse modo, pressupõe-se que a literatura possua duas características que a tornam significativa: primeiro porque representa a sociedade, tematizando seu processo de produção artística e estética (interna); e segundo porque o texto abre-se para um contexto diverso e cultural que se insere na produção da obra (externa) (LAJOLO & ZILBERMAN,1991).
Esta relação externa da obra com a sociedade e o seu contexto possibilita uma reflexão em torno das propriedades que, enquanto parte de uma prática social, interferem e formatam a literatura. Dentre estas se encontram as tecnologias, projetos, saberes, instituições, formações, esferas e instâncias que cuja ação integram e delimitam o campo de literalização e desliteralização dos textos (LAJOLO, 2001).
Neste trabalho, serão destacadas cinco instâncias essenciais que formatam os textos produzidos dando-lhes as proporções e o valor estético que os chancelam como literatura.
A primeira instância é marcada pela descoberta da imprensa. Anteriormente, os textos copilados estavam restritos a uma classe dominante formada pelo clero e a pequena aristocracia. Com a invenção da imprensa de Guthemberg, no século XVI, rompeu-se com os privilégios desta minoria detentora do poder, suscitando, assim, uma democratização da cultura e a ascensão da burguesia na economia e na política.
O fato apresentou proporções maiores com a Revolução Industrial e a criação da máquina a vapor, pois, “a tipografia deixou de ser um ofício artesanal, para se alinhar ao modelo em curso da produção anônima e em série, raiz da massificação” (ZILBERMAN, 2001: 31). Este novo contexto trouxe contribuições significativas para a prática de leitura, uma vez que os textos passaram a ter maior circulação – isto provocou um aumento do grau de letramento dos leitores e, conseqüentemente, ocorreu um maior investimento tecnológico que impulsionou de vez a produção de materiais e mobilizou o mercado livreiro e editorial.
O acontecimento revolucionou a questão literária tornando-a uma prática social. Segundo Escarpit, a literatura se constitui como um fato social porque pressupõe a presença de autores, de textos e de um público-leitor, estabelecendo, assim, um sistema de trocas no qual relacionam-se as estruturas sociais, o próprio artefato artístico e o mercado com seus meios tecnológicos (ESCARPIT, 1969: 9).
O desenvolvimento do processo de produção material de textos consolidou o sistema de comercialização de impressos – segunda instância considerada. Favorecido pelo apoio financeiro da burguesia, o livro popularizou-se e a literatura adaptou-se ao sistema capitalista de produção - distribuição e circulação do objeto literário, tornando-se, assim, uma mercadoria, gerando lucros e mobilizando o comércio. Apesar das constantes críticas, é impossível pensar na literatura sem considerar suas relações com o mercado e, conseqüentemente, com o poder. Tal relação tem gerado diversos conflitos e questionamentos quanto ao valor estético e fruição das obras – uma vez que estabelecem laços com as instituições ideológicas e atendem aos interesses das classes dominantes:

“Claro que todos sabemos que uma obra literária é também uma mercadoria que o escritor vende ao editor, o editor ao livreiro, o livreiro ao público, assumimo-lo porém como um fato natural sobre o qual não pensamos duas vezes, e assumimo-lo sobretudo como algo de exterior à obra literária, como uma característica periférica e acidental que não atinge o seu conteúdo ideário” (WELLERSHOFF, 1970: 44).

O desenvolvimento do mercado leva à terceira instância que é a criação de regulamentação própria e específica, importante para a caracterização do literário, pois, possibilitou um melhor funcionamento das diversas etapas em que o objeto literário está sujeito dentro do processo econômico e judicial. Entre estes, encontra-se a mobilização dos elevados investimentos de capital e do desenvolvimento tecnológico de produção. Investe-se na produção local, nacional, abrindo também para o mercado internacional ou programas de exportação e importação de materiais, como por exemplo, a produção de papel, prelos, maquinários e gráficas. Outra necessidade foi criar leis judiciais que garantissem os direitos autorais e regulamentassem a remuneração dos intermediários envolvidos desde a produção até circulação do objeto literário – como as editoras, as distribuidoras e livrarias até o atendimento aos direitos do consumidor. A quantidade de pessoas envolvidas e os contratos neste meio são inúmeros, vão desde a locação de um imóvel aos salários dos técnicos responsáveis pela manutenção das máquinas, os empregados encarregados da limpeza, os seguranças noturnos e outros. ‘A indústria não pode parar!’.
Como a sociedade burguesa é caracterizada pela industrialização, as habilidades lingüísticas e o nível de letramento dos indivíduos deveriam ser cada vez mais capazes de atender as demandas capitalistas, criou-se uma política educacional - a quarta instância analisada, para difundir a escrita e a leitura..
Várias intenções podem ser detectadas durante o processo e incentivo da alfabetização. Por exemplo, a necessidade de mão-de-obra qualificada para o trabalho industrial, que exigia um conhecimento das letras para compreensão das instruções técnicas e específicas do serviço em série; a própria necessidade do mercado livreiro de se ter um público consumidor; a concretização do discurso burguês de democratização e cultura para todos, etc.
À serviço do Estado, as instituições educacionais como a escola, contam com os projetos de incentivo à leitura, os clubes de leitura, as bibliotecas públicas, aulas televisivas e outros.
Há alguns séculos que a escola tem desempenhado um papel estratégico para a centralização política da classe dominante. Através de uma promoção democrática e com o desenvolvimento de um sistema educacional, a burguesia proclama seus ideais de igualdade, ao mesmo tempo organiza ou intensifica uma notável desigualdade social (CERTEAU, 1995).
A escola associa-se ao complexo sistema literário atuando na divulgação da prática da leitura, formando leitores e, conseqüentemente, ampliando e mobilizando o mercado livreiro consumidor, e também é visada pela crítica literária para difundir seus valores.
A crítica literária utiliza-se das instituições formais, como a escola, ou de textos literários, a fim de transmitir a herança cultural burguesa às novas gerações, cristalizando, sutilmente, sua concepção de mundo, formando uma imagem de organização social ao s seus moldes burgueses.
Segundo Yunes e Pondé, o ensino de literatura:

(...) assume um papel político muito mais amplo, pois deixa de ser apenas sinal de erudição, para contribuir para a formação do pensamento crítico e atuar como instrumento de reflexão, uma vez que pode questionar, através de sua linguagem, a hegemonia do discurso oficial e o consenso estabelecido pela ideologia dominante (YUNES & PONDÉ,1988: 37).

É exatamente por esta razão que a escola – como instituição burguesa, busca através dos livros didáticos, uniformizar os valores morais, éticos e ideológicos a partir dos padrões predeterminados pela classe dominante.
Observe a seguir alguns exemplos práticos de como esta voz discursiva reverbera na escola, no ensino de literatura através dos livros didáticos:

A) Modelo Historiográfico:
Através do modelo historiográfico adotado pelo livro didático para o ensino de literatura, a crítica preserva suas classificações e escolhas canônicas. Como é evidente, o aluno fica restrito a esta gama de autores e obras preestabelecidas para o estudo de cada fase (movimento ou escola) literária. A coleção de livros didáticos de Cereja e Magalhães, por exemplo, apresenta diversos quadros e tabelas comparativas com datas, autores e obras representativas de cada época literária.
O modelo historiográfico tradicional é muito criticado por autores da crítica literária moderna. Jauss afirma que “a qualidade e a categoria de uma obra literária não resultam nem das condições históricas ou biográficas de seu nascimento, nem tão-somente de seu posicionamento no contexto sucessório do desenvolvimento de um gênero, mas sim dos critérios da recepção, do efeito produzido pela obra e de sua fama junto à posteridade, critérios estes de mais difícil apreensão” (1994: 7).
A proposta de Jauss valoriza o aluno como leitor, além de emancipar, de certa forma, a função da literatura como algo independente da ideologia dominante imposta pela crítica.

B) Citações diretas de críticos literários:
As citações de críticos literários renomados pelas academias aparecem nos exercícios e propostas das unidades didáticas para comentar e, muitas vezes, dirigir os conceitos e críticas de uma obra, autor ou movimento literário. Sua voz ressoa com autoridade e competência, repercutindo como uma verdade absoluta.
Essas opiniões já formuladas acabam restringindo o prazer e as descobertas do leitor através do texto. Isto dificulta na formação de indivíduos capazes de formular suas próprias opiniões e valores.

C) Roteiros de leitura:
Através dos roteiros de leitura ou propostas de atividades com o texto literário, que ofuscam a voz do leitor, justificando, assim, o por quê de muitos jovens e adolescentes perderem o gosto pela leitura ainda na fase escolar. O texto literário é concebido como uma estrutura fechada e não como forma de prazer, reflexão e identificação com o mundo (imaginário e real). Além de sugerir apenas os cânones literários para a leitura, a função do aluno ainda se restringe em responder apenas as questões referentes à representatividade da obra em seu contexto sócio-cultural e histórico.

D) Posicionamentos ideológicos:
Há também as estratégias para se incluir uma ideologia ou um posicionamento político da crítica literária em relação alguns autores e/ou obras polêmicas – normalmente aquelas que em certo momento da história foram marginalizadas ou acrescidas no cânone devido a sua popularidade.
A coleção didática de Cereja e Magalhães, por exemplo, coloca uma situação em que o crítico Paulo Moreira Leite acusa o escritor Nelson Rodrigues de reacionário, “conservador, superficial e preconceituoso”. Diante destes comentários, qual seria a impressão do aluno em relação às obras de Rodrigues? Esta crítica certamente direciona um posicionamento equivocado, de certo modo, desfavorável sobre o escritor, exemplificando, assim, um inculcamento de posições da classe dominante.
No mínimo, os autores do livro deveriam colocar duas opiniões contrárias para que o aluno escolhesse uma posição diante do caso – assim, o exercício seria democrático, argumentativo e reflexivo.

E) O texto como pretexto:
Outras propostas consideram o texto literário como “ponto de partida para estudar um movimento literário ou um autor” (coleção de Cereja e Magalhães, por exemplo). Diante dessas, conclui-se que a literatura é apenas um pretexto para se estudar o modelo historiográfico ou muitas vezes para se analisar conteúdos gramaticais, etc.
Esta ideologia dispensa o prazer do texto e desconhece sua função humanizadora. Esse modelo é exatamente anti uma formação crítica do leitor.

F) Marketing:
Alguns livros didáticos mais modernos apresentam inclusões de gêneros diversificados como o jornalístico, a crônica, conto, imagens de novelas e filmes, músicas populares, cartoons, e outros. Aparentemente o fato pode ser revolucionário, mas no fundo há um “grande esquema de marketing das editoras mais poderosas” (CAFIERO & CORRÊA,2003: 282). É possível constatar nos livros didáticos, diversas “propagandas” ou indicações de livros auxiliares para a compreensão do conteúdo e aprimoramento do conhecimento cultural.

Com base nos exemplos acima, conclui-se que o professor deve assumir uma posição consciente e crítica para amenizar os possíveis efeitos alienantes causados pela ideologia imposta nos livros didáticos.
Essa compreensão do processo implica em condicionar o livro didático como apoio ao ensino e aprendizado da literatura e não como norteador e fonte única do conhecimento. Pois, quando se trata da aprendizagem da leitura literária, da função humanizadora e do prazer que o texto proporciona ao ser humano, muitas questões que limitam ou impõem certas experiências, devem ser reavaliadas e substituídas se for o caso.

Em última instância, essencial para a realização da literatura como prática social, está a criação de um discurso coeso e autônomo que legitima e valida a questão literária. Este discurso enraíza valores na sociedade, definindo e universalizando um gosto literário e a aceitação deste. De um ponto de vista elitista, encontra-se a crítica literária, que como instituição de maior confiabilidade, divulga e forma a opinião do todo coletivo: “As identidades discursivas não são previamente dadas, mas construídas pelo próprio ato de participação no diálogo polido” (EAGLETON, 1991:9).
Essas vozes se manifestam através das academias, revistas especializadas, em comentários de críticos renomados em jornais e outros impressos. Hoje, paralelamente, há a crítica de “massa” que interfere na opinião crítica do público a fim de atender aos interesses do mercado – são as propagandas publicitárias, as feiras de livros, lançamentos de escritores como palestrantes, a própria mídia, as editoras, livrarias, etc. Segundo Wellershoff, “a indústria cultural produz os homens que lhe convêm, inclusivamente os críticos” (1970: 47),ou seja, a indústria cultural tem controlado tanto as produções que lança como os discursos que as validam. Igualmente Eagleton discute que a “a crítica atual perdeu toda sua relevância social” porque “faz parte do ramo de relações públicas da indústria literária, ou é uma questão inteiramente interna às academias” ( 1991: 1).
Neste contexto de novas produções do mercado, as literaturas consideradas marginalizadas conquistaram seu espaço e valor, devido a um crescimento diversificado do público e dos gostos variados. Comercializa-se uma literatura de massa, romances policiais, eróticos, de movimentos feministas ou homossexuais, para crianças, negros ou classes de menor prestígio econômico e intelectual:

“No entanto, fatores sociais contribuem para o aparecimento de novos textos. A necessidade de crítica e a emergência das vozes minoritárias (como a da mulher, do negro, das classes marginalizadas, da criança) dão origem a obras novas, que redescobrem o Brasil urbano e rural no que ele tem de diferenças, trazendo à luz traços culturais até então poucos explorados” (AGUIAR, 2004: 20).

Assim, a crítica literária não dissemina apenas considerações do âmbito estético das obras, mas divulga valores ideológicos, morais, éticos e políticos. É, portanto, a crítica literária que, dentre tantas outras práticas discursivas, atinge mais diretamente as instituições de ensino, revelando-se através dos materiais pedagógicos, livros didáticos, nos livros infantis, etc. Questiona-se, no entanto, o papel da escola, considerando-a como um meio de divulgação de valores e formadora de opiniões. Como o livro didático, material pedagógico que orienta a prática do professor e dos alunos, formulado por uma elite intelectual e a serviço do Estado, tem transmitido as concepções de leitura e formado leitores.

4. Considerações finais

Dada a amplitude das relações sociais com a literatura, a ilustração abaixo exemplifica o conjunto de fatores que regulam o conceito de literatura. Este sistema é modular, ou seja, todas as relações (analisadas neste trabalho) são dependentes umas das outras. Cada produção literária parte da necessidade de uma delas (ou em conseqüência desta), resultando a seguir uma “reação em cadeia”. Por exemplo, o movimento feminista aparece em um determinado tempo num contexto social, este público passa a desejar uma literatura que corresponda às suas necessidade, até mesmo para a própria formação do pensamento do grupo. Assim o autor escreve (inspirado pelo meio ou a pedido do editor) e lança uma obra feminista. Logo, as práticas discursivas, como a crítica literária afiança o texto e lhe proporciona autoridade e validade para este grupo. O mercado investe nas propagandas e na distribuição da obra, e assim, por diante. Todos os fatores ajustam-se conforme o social determina.

Os estudos apresentados neste trabalho devem gerar discussões a fim de que os professores, acadêmicos e estudiosos da literatura venham a descobrir mais relações significativas que envolvem o texto literário.
Vivendo em plena modernidade, os conceitos e as formas de se conceber o mundo também precisam acompanhar toda esta evolução. A discussão do fim dos livros, do ensino e da própria literatura, não significa o fim no sentido de extinção, mas, sim, o fim de uma concepção restrita que foi cultivada durante séculos pela sociedade.
A literatura não é apenas o que está escrito, mas é aquilo que se diz e acredita – pois os seres humanos são também feitos de imaginação e sonhos. A leitura, do mesmo modo, não é só o que se decodifica das letras, mas é aquilo que se compreende na relação com o mundo.
Com efeito, devido ao processo de aburguesamento, a literatura hoje adquiriu um certo sentido, e este depende das muitas instâncias que o confirmam como um fato literário. Porém, estes elementos ajudam a compreender a amplitude das relações sociais e suas manifestações, e mais, ajudam a refletir no que realmente as pessoas acreditam que a literatura seja: porque não as revistas, as histórias em quadrinhos, as novelas da televisão, os sites da Internet, os grafites nos muros da cidade. Afinal o que é literatura para você?

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LIVRO DIDÁTICO ANALISADO:

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