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O DISCURSO JORNALÍSTICO E A QUESTÃO DA HETEROGENEIDADE

Lucília Maria Sousa Romão - Profa Dra da Faculdade dede Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

Existe uma tradição avantajada de estudos sobre o papel da mídia hoje, questão esta que tem merecido espaço crescente nos estudos acadêmicos por dois motivos, tanto pelo excesso de informação veiculada por meio impresso, televisivo, radiofônico e eletrônico, quanto pela aceleração na difusão de dados nesses suportes. Num piscar de olhos, quantidade e velocidade se cruzam e dão origem ao fruto que, desde o final do século passado, tem sido engolido vorazmente pelos habitantes da aldeia global em uma enxurrada de dados, cuja extensão não é pequena: programas de tv gratuita e a cabo, publicações impressas e eletrônicas para todos os gostos, preferências, religiões, idades e etnias, jornais diários e boletins mensais, portais eletrônicos atualizados a cada hora. O tamanho dessa cadeia e a sua dimensão levaram Moraes (1998) a apelidar a sociedade atual de teleinfocomunicacional.
A velocidade do trânsito de informações faz parecer natural que todas as pessoas tenham acesso ao mundo ao vivo, on-line e em tempo real e o leiam assim como uma estréia permanente. Dificilmente percebe-se que a meta-narrativa sobre o mundo, criada pelo discurso jornalístico, se alimenta justamente do motor da novidade, pressa e superficialidade. Isso pode ser comprovado se observada a sede com que as redações jornalísticas buscam furos, fatos exclusivos, reportagens inéditas e depoimentos nunca vistos, apresentando-os como fatos puros, naturais e objetivos. Sobre isso, Arbex (2001:103) afirma que:

“A mídia cria diariamente a sua própria narrativa e a apresenta aos telespectadores – ou aos leitores - como se essa narrativa fosse a própria história do mundo. Os fatos, transformados em notícias, são descritos como eventos autônomos, completos em si mesmos (...) Qualquer crítica séria da mídia deve ter como pressuposto, necessariamente, a ‘desnaturalização’ dos fatos e das notícias apresentados enquanto tais pela mídia. ‘Fatos’ e ‘notícias’ não existem por si só, como ‘entidades naturais’’. São designados por alguém (por exemplo, por um editor), por motivos (culturais, sociais, econômicos, políticos) que nem sempre são óbvios”

Nos sintomas de velocidade das notícias e de permanente atualização dos fatos como dados naturais, funciona um imaginário que faz parecer, ao cidadão comum, que o mundo e a realidade nacional lhe estão disponíveis o tempo todo; sempre prontos a serem consumidos como produto, e usados como adereço, sejam feitos de que matéria for. Assim, um terremoto, a região de fome no continente africano, o casamento da modelo internacional, o acidente aéreo etc transmutam-se em pílulas de consumo diário, sem as quais o aldeão da modernidade não conseguiria viver, seria banido da sociedade da informação e, por fim, entregue à ignorância e à exclusão.
O fato é que existe hoje um imperativo para que as pessoas, o tempo todo e em todas as idades, mantenham-se plugadas, conectadas, informadas, ligadas em rede, presas ao comércio da informação e sejam consumidoras das empresas que as produzem. Longe de ser uma impressão solitária, essa é uma realidade que dialoga com investimentos crescentes no país e no mundo. O setor de comunicação e entretenimento engorda a olhos vistos; cresce em recordes de vendagem com cifras de muitos zeros, acumulando, juntamente com o crescimento financeiro, o prestígio de informar, de apresentar a realidade como mercadoria ou espetáculo, controlando os sentidos que circulam sobre ela. Sodré (1992:43) assegura que:

“O setor cada vez mais responsável pelo controle desse imaginário [social brasileiro] – imprensa escrita e radiodifusão – é um dos mais centralizados ou monopolistas do país. E também um dos mais familiais: nove clãs controlam mais de 90% de toda a comunicação social brasileira. Trata-se de jornais, revistas, rádios, redes de televisão, com mais de 90% de circulação, audiência e produção de informações”

Nessa linha de raciocínio, vale ressaltar que os meios de comunicação, informação e entretenimento têm poucos donos: clãs familiares, que se mantêm detentores de concessões de rádio, tv e são donos de produtoras de vídeo, jornais e revistas, apresentam um fôlego financeiro invejável e são responsáveis por quase tudo o que se lê, ouve, assiste, acessa e/ou compra em termos de informação. Segundo Moraes (op. cit.107):

“Entre as proprietárias de grupos de comunicação, destacam-se as famílias Marinho (Globo), Civita (Abril), Sirotsky (RBS), Saad (Bandeirantes), Abravanel (SBT), Bloch (Manchete), Mesquita (O Estado de S. Paulo), Frias (Folha), Nascimento Brito (Jornal do Brasil e Sistema JB de Rádio), Alves (do empresário e ex-ministro Aluízio Alves, que possui o Grupo Cabugi de Comunicações (...) ), Daou (TV Amazonas), Câmara (TV Anhanguera), Collor de Mello (Organizações Arnon de Mello), Franco (do governador de Sergipe, Albano Franco (...) ).”

Essa fotografia marca quão cartelizado é o setor de comunicação, concentrado nas mãos de poucos e estratégico do ponto de vista de manutenção do poder dominante. Temos aí uma pilastra forte de mais um dos muitos sistemas de privilégios vigentes no país, em cuja conjuntura material engendram-se as condições de produção (Pêcheux, 1969) para que alguns dizeres sejam produzidos e outros silenciados no discurso jornalístico. Não seria possível avaliar esse quadro, sem tocar de perto a questão de/do poder que o sustenta, poder este que Silverstone (2002: 263) mostra a seguir:

“Trata-se tão somente de poder, é claro. O poder que a mídia tem de estabelecer uma agenda. O poder que ela tem de destruir alguém. O poder que tem de influenciar e mudar o processo político (...) O poder de mudar o equilíbrio de forças: entre Estado e cidadão; entre país e país, entre produtor e consumidor (...) Trata-se do poder da mídia de criar e sustentar significados, de persuadir, endossar, reforçar. O poder de minar e reassegurar. Trata-se de alcance. E de representação: a habilidade de apresentar, revelar, explicar; assim como a habilidade de conceder acesso e participação. Trata-se do poder de falar e ser ouvido. Do poder de incitar e guiar reflexão e reflexividade. O poder de contar contos e articular lembranças.”

Floresce, nessa rota de crescimento, concentração e poder, um imbricado desenho de interesses subterrâneos, em que a classe dominante, detentora dos equipamentos de transmissão cultural e de comunicação, filtra, recorta e seleciona um único sentido para circular, destinando todos os outros possíveis ao banimento, marginalidade e silenciamento (Romão, 2002). É preciso, então, levar em conta o lugar social dos interlocutores, investigar de quais regiões de poder ele está investido, observar que posição o sujeito ocupa na ordem social. Sobre isso, Orlandi (1996: 138) assegura que:

“A partir da consideração do lugar social dos interlocutores, podemos dizer que os conhecimentos podem ser comuns, mas não iguais. Há desigualdade na distribuição dos conhecimentos, não há partilha. Essa desigualdade é jogada na interlocução. Há um jogo entre explícito e implícito que instaura aquilo que pode ser considerado como conhecimento atribuído por(a) um ou outros interlocutor. Não é um dado, é uma construção.”

O fato é que o interlocutor do jornal – seu leitor – nem sempre chega mais perto das palavras para contemplar as faces secretas do discurso jornalístico, poucas vezes desnaturaliza as informações que recebe. Dificilmente lê as notícias pelo avesso e nas beiradas, fazendo apenas uma interpretação literal ou ingênua. Na maioria das vezes sem chave interpretativa e sem interpretar a memória do dizer, segue o leitor arrastado pela imensa enxurrada de notícias, sobressaltado por uma frenética narrativa reinventada a cada segundo, ocupando a posição de receptor, mero depositário de dados, chancelado pela apatia e pela inércia, já que, para efetuar uma leitura crítica, precisa recorrer a um conjunto de indagações sobre interdiscurso, condições de produção dos ditos e confronto entre vozes e classes inscritas historicamente.

Referências bibliográficas:

ARBEX, José. Showrnalismo- a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela, 2001.

MORAES, Denis de. Planeta Mídia- tendências da comunicação na era global. Campo Grande: Letra livre Editora, 1998.

ORLANDI, Eni P. A linguagem e seu funcionamento as formas do discurso. Campinas: Editora Pontes, 1996.
PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp, 1969.

ROMÃO, Lucília Maria Sousa. O litígio discursivo materializado no MST: a ferida aberta na nação. Ribeirão Preto: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, 310 p. (Tese de Doutorado), 2002.

SIVERSTONE, Roger. Por que estudar a mídia? São Paulo: Edições Loyola, 2002.
SODRÉ, Muniz. O social irradiado: violência urbana, neogrotesco e mídia. São Paulo: Cortez, 1992.

 
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