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COLUNAS LITERÁRIAS: VARIEDADES, MISCELLANEAS, LITTERATURA, FOLHETINS

  

Germana Maria Araújo Sales – Universidade Federal do Pará (UFPA).

  

A expansão da imprensa periódica durante o século XIX constituiu-se em um dos elementos fundamentais para a vida intelectual da época no que se refere a transmissão de informações, atualização de novos conceitos e, até mesmo, como fonte de instrução.

 O jornal passou a ser veiculado, também, como meio de entretenimento, e o elemento que estimulou esta prática foi a publicação diária de folhetins, introduzidos no Brasil, com o primeiro romance-folhetim traduzido – O Capitão Paulo, publicado no Jornal do Comércio. [1] A partir de então, essas leituras diárias caíram no gosto do público. Nesse sentido, os periódicos apareceram como um dos meios de formação do público leitor, através de textos informativos, noticiosos e literários.

 Rigorosamente, durante os anos oitocentos, os romances-folhetins ocupavam um lugar estabelecido nos jornais — o pé da página — espaço destinado a publicações diversas que abordassem temas literários e de entretenimento. Ali, publicavam-se desde crônicas, críticas, peças de teatro e livros recentemente lançados, até piadas, charadas e receitas de cozinha, o que sugeria, para a crítica que essa mistura de escritos que se apresentavam nos rodapés dos jornais não estavam classificados entre os gêneros nobres. Mesmo assim o romance-folhetim foi uma febre nacional que impulsionou muitos dos nossos grandes autores a utilizarem esse espaço como forma de publicação das suas obras e projeção de seus nomes entre o público e a crítica. Sendo o jornal o veículo de comunicação mais acessível na sociedade dos anos oitocentos, talvez este fosse o caminho mais rápido e fácil para o escritor alcançar notoriedade.

 Os progressos e as variações dos periódicos não podem ser observados de forma independente da história social e econômica que os enquadra. Sua condição de instrumento cultural está condicionada em cada caso às situações particulares do momento e do espaço em que ocorreram. Deste modo, o jornal surgiu e adquiriu importância, não apenas pelas circunstâncias políticas, mas pela notabilidade como instrumento de veiculação da literatura, alcançando um público mais amplo, que não ficaria restrito apenas à leitura de livros para o conhecimento de uma produção literária. Graças ao seu baixo custo, o jornal possibilitou uma maior interação entre o leitor e o texto impresso, convertendo-se num meio de divulgação literária, alcançando dimensão e proporção significativas para o estreitamento das relações entre leitor e leitura.

 Em relação a prática de leitura de romances-folhetins no Brasil, examinou-se que a ocorrência desse gênero não foi particular à cidade do Rio de Janeiro, mas que foi contemplado em outras regiões do país, como a província do Grão-Pará. O desenvolvimento jornalístico no Pará foi crescente e dinâmico e entre os periódicos da época circulavam temas noticiosos e políticos. Ao lado dessas matérias, entretanto, eram introduzidos, ainda que discretamente, assuntos literários. [2]

 Numa região marcada pela distância em relação aos centros culturais mais desenvolvidos, observa-se que a publicação do romance-folhetim na província do Grão-Pará [3] se desenvolveu literariamente com os recursos mais acessíveis à região, como a publicação de traduções ou textos extraídos de jornais publicados no Rio de Janeiro. Concretamente, esta reprodução dos textos ficcionais era mais acessível, pois as pesquisas indicam que havia um número reduzido de autores locais dedicados à escrita de prosa de ficção. A moda do romance-folhetim se estabeleceu em alguns jornais locais, como a Gazeta Oficial, o Jornal do Pará, o Diário de Belém, o Liberal do Pará e A Folha do Norte, dentre outros. Nesse espaço do folhetim, encontram-se rubricas que registram a diversidade de gêneros ou ainda a dificuldade de nomear um gênero novo. Variedades, Miscellanea,Litteratura ou Folhetim, assim eram denominadas as seções, geralmente divididas em quatro colunas no pé-de-página inicial em que circulavam as publicações literárias nos jornais.

 A partir da segunda metade do século XIX, cresceu o número de periódicos na cidade de Belém que investiram nas publicações literárias. Num total de cinqüenta e quatro jornais publicados entre 1822 e 1900, vinte e nove reservavam um espaço para publicações literárias de diferentes gêneros [4] .

 Nesses periódicos circularam, diariamente, textos literários de vários gêneros: “romance-folhetim”, “romance”, “romance de cavalaria”, “novela”, “conto”, “crônica”, “crônica religiosa”, “crônica política”, “crônica humorística”, “crônica de viagem”, “poesia”, “farsa”, “lenda” e “texto reflexivo” [5] . Os assuntos também eram diversificados: amor, peripécias, desilusões amorosas, dramas familiares . As colunas de Variedades, Miscellanea, Litteratura ou Folhetim apresentavam uma diversidade das práticas de escrita que romperam com os gêneros cristalizados da poética clássica.

 Diante de tal variedade pode-se afirmar que tais textos estariam direcionados a uma leitura classificada como “extensiva”, de acordo com a terminologia utilizada por Roger Chartier, pois se tratava de uma situação em que o leitor deparava-se com um grande número de impressos, consumidos com avidez e velocidade [6] .

 Essas publicações podem ser divididas nas seguintes categorias: textos anônimos e com pseudônimos, traduções, publicações de autores nacionais. Somente na década de 1860 — nos jornais Gazeta Official, Jornal do Pará, Diário de Belém e Liberal do Pará — foram publicados 139 textos nos rodapés das colunas diárias, divididos nas categorias elencadas no gráfico abaixo:

 

 

Legenda:

1 – Livros de instrução
2 – Livros jurídicos
3 – Livros religiosos
4 – Livros literários
5 – Livros em língua francesa (de instrução e alguns de cunho literário)

  

A publicação de romance-folhetim que foi bem explorada na Gazeta Official, no Jornal do Pará, no Diário de Belém e Liberal do Pará, repete-se também, na década de 1880, 1890 e 1900, n’A Folha do Norte [7] — periódico que tinha como objetivo divulgar notícias políticas e acontecimentos significativos à sociedade — chamou atenção pelo espaço dedicado aos assuntos literários. Publicado a partir de 1886, com grande circulação, destacou-se neste jornal as colunas dos rodapés em que apareciam os romances-folhetins e outros gêneros literários. Somente durante o primeiro ano do jornal, foram publicados vinte e oito folhetins, com temas diversificados, incluindo, alguns contos para crianças. Além da publicação permanente de folhetins, que circulavam diariamente, apareciam também notícias avulsas referentes à Literatura, como anúncios de lançamentos ou de vendas de livros; colunas críticas, assinadas pelos intelectuais da época; avisos de vendas em livrarias; publicação de poesias e textos sobre literatura portuguesa e autores desta mesma literatura e, até, conselhos de recomendações à leitura.

 O interesse do jornal A Folha do Norte pela literatura estende-se para a divulgação de folhetins e, logo na sua primeira edição, publica o folhetim Cara, do escritor francês Hector Malot (1830 - 1907), entre janeiro e março de 1886. Entre os folhetins publicados neste jornal, encontra-se uma expressiva produção de autores brasileiros oitocentistas já consagrados pela História Literária Nacional. Destes, encontramos as publicações de Machado de Assis, Visconde de Taunay, Manuel Antônio de Almeida, Medeiros e Albuquerque, José Veríssimo, Garcia Redondo e Bernardo Guimarães. Ao lado dos escritores consagrados da nossa literatura aparecem, em maior número, outros, pouco conhecidos na época, e, também uma quantidade significativa de traduções de folhetins de autoria estrangeira. Entre as publicações, chama atenção, no entanto, a grande quantidade de folhetins anônimos ou com o uso de pseudônimos, chegando a contabilizar 52% do total das publicações literárias desse jornal.

   Os romances-folhetins publicados n´A Folha do Norte aproximam-se das matrizes do modelo francês, pois mantinham a estrutura convencional com divisão em capítulos, à qual se liga a criação e manutenção do suspense. A estrutura da continuação em capítulos, importada da França, proporcionava a curiosidade para a leitura diária do jornal. Esta leitura, de certo modo, teve uma via de mão dupla, pois à medida que favoreceu a divulgação da literatura e, conseqüentemente, para a formação de um público leitor; contribuía também para a difusão necessária dos jornais que necessitavam de leitores para propagação dos anúncios, como observa Marisa Lajolo, “a aritmética é simples: mais leitores = mais anunciantes; mais anunciantes = mais dinheiro” [8] . Neste sentido, A Folha do Norte manteve até o final do século a publicação diária da coluna folhetim, ainda que nem todos os textos obedecessem especificamente ao molde francês da divisão em capítulos. O fato é que esta divulgação literária fortalecia um público leitor que estava se intensificando.

 Diante do grande número de textos literários publicados nas colunas de rodapé dos jornais paraenses, no final do século XIX, pode-se concluir que a ocorrência desses textos literários, direcionados, ou não, para o entretenimento; consistiam num grande atrativo nos jornais da época. Percebe-se, além disso, que a re-edição em folhetins, de obras já editadas em livros, seria uma maneira de aproximar o público de uma literatura que poderia não circular amplamente no Pará. [9]

 A produção de textos em folhetins publicados em jornais da cidade de Belém refere-se a uma época de grande efervescência cultural, período em que as parcerias entre uma elite intelectual e facções políticas, facilitaram a produção periódica e a divulgação literária. A linha temática do romance-folhetim esteve presente entre grande parte dos jornais de todo o país e percorreu toda a segunda metade do século XIX, na província do Grão-Pará, alcançando uma produção semelhante às publicações em folhetins de outras regiões, como Rio de Janeiro e Mato Grosso. [10]

 Retomar as investigações sobre o romance-folhetim no Brasil é tentar reconhecer o percurso percorrido por esse gênero após sua implantação em terras nacionais. Ademais, as investigações sobre esta produção literária podem nos levar novamente a refletir sobre um fenômeno que alcançou um público significativo, emoldurado pelo discurso do melodrama comum na maioria dos textos. Reconhecer a divulgação do romance-folhetim no Grão-Pará contribui para as pesquisas sobre os caminhos da ficção e sobre a História da leitura no Brasil.

REFERÊNCIAS

BRITO, Eugênio Leitão de. História do Grêmio Literário e recreativo português. Belém: Editora Santo Antônio, 1994.

 CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 2vls. São Paulo: Martins, 1964.

 CHARTIER, Roger. “O romance: da redação à leitura”. In: Do palco à página. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2002.

 HALLEWELL, Laurence. O Livro no Brasil. São Paulo: T.A. Queiroz, 1995.

 LAJOLO, Marisa. Como e por que ler o romance brasileiro. São Paulo: Objetiva, 2004.

 LAJOLO, Marisa & ZILBERMAN, Regina. A Formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1999.

 LUSTOSA, Isabel. Insultos Impressos – a guerra dos jornalistas na Independência (1821-1822). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

 MEYER, Marlyse. Folhetim: uma História. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

 NADAF, Yasmin Jamil. Rodapé das Miscelâneas — o folhetim nos jornais de Mato grosso (séculos XIX e XX). Rio de Janeiro: 7Letras, 2002.

  SERRA, Tânia Rebelo Costa. Antologia do romance de folhetim (1839 a 1870). Brasília: editora da UNB, 1997.

 SOARES, Antonio José. História Geral de Belém e do Grão-Pará. Belém: Distribel, 2001.

 TINHORÃO, José Ramos. Os romances em folhetim no Brasil: 1830 à atualidade. São Paulo: Duas Cidades, 1994.

 

 

 



[1] Capitaine Paul, de Alexandre Dumas, publicado em 1838, foi traduzido do francês e publicado em jornais brasileiros no mesmo ano. Chamava-se folhetim o espaço no rodapé dos jornais, reservado à publicação de romances-folhetins e outros gêneros literários. Sobre esta publicação e a ocorrência do romance-folhetim no Brasil, mais particularmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, ver: MEYER, Marlyse. Folhetim: uma História. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 60.

[2] A imprensa na província do Grão-Pará teve início com Filippe Patroni que, adquiriu uma pequena tipografia usada em Lisboa e fundou, em Belém, no ano de 1822, o primeiro jornal impresso da região Norte – O Paraense.

[3] Em 1815, as capitanias gerais do Brasil foram transformadas em províncias. A província do Grão-Pará, com capital em Belém; abrangia toda a superfície da Amazônia, pois a capitania do Rio Negro (atual estado do Amazonas) permaneceu dependendo do Pará.

[4] Esses números referem-se aos jornais catalogados na sessão de microfilmes da Biblioteca Arthur Vianna, em Belém, PA.

[5] Termos atribuídos aos diferentes gêneros publicados nas colunas de rodapé.

[6] CHARTIER, Roger. “O romance: da redação à leitura”. In: Do palco à página. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2002. De acordo com Roger Chartier as práticas de leitura podem ser caracterizadas em duas categorias: leitura intensiva e leitura extensiva. A primeira categoria se refere ao início do século XVIII, quando o leitor se confrontava com um número limitado de textos, que eram lidos, relidos e memorizados. A leitura extensiva passa a ser praticada no final do século XVIII, em oposição à leitura intensiva, o leitor lia variados impressos e raramente retomava a leitura desses textos.

[7] Jornal de circulação diária, independente, noticioso, político e literário. Fundado por Enéas Martins, Cipriano Santos e outros, tinha por objetivo principal lutar pelo desenvolvimento político e social da região, defendendo o partido republicano federal, chefiado por Lauro Sodré e, depois, por Paes de Carvalho.

[8] LAJOLO, Marisa. Como e por que ler o romance brasileiro. São Paulo: Objetiva, 2004.

[9] Podem ser encontradas, nos jornais do Pará, algumas publicações de obras anteriormente editadas em livros, como o romance Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, editada em livro em 1858. O romance Inocência, de Visconde de Taunay, publicado em livro em 1872 e O Seminarista, de Bernardo Guimarães, também anteriormente publicado em livro, em 872.

[10] Sobre a produção de folhetins no Mato Grosso, ver: NADAF, Yasmin Jamil. Rodapé das Miscelâneas — o folhetim nos jornais de Mato grosso (séculos XIX e XX). Rio de Janeiro: 7Letras, 2002.

 
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