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  UMA LEITURA DAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NO/DO COTIDIANO ESCOLAR

Leila Maria Ferreira Salles - Depto de Educação, UNESP/IB/Rio Claro

O objetivo desta apresentação é fazer uma leitura das práticas pedagógicas do e no cotidiano escolar a partir da discussão da relação professor/aluno. Na construção dessa relação a forma como o outro é percebido nas práticas escolares determina os contornos dessas relações. O modo pelo qual o adulto percebe o aluno adolescente e/ou jovem tem implicações nas práticas pedagógicas cotidianas. As diferenças e os estereótipos presentes no cotidiano escolar determinam formas de ação e são um dos aspectos que o constitui. Este estudo, desenvolvido a partir da revisão de alguns autores, pretende se constituir em uma contribuição para o aprofundamento deste debate que é, inclusive, apontado pelos temas transversais em educação.

1. Introdução

O objetivo desta apresentação é fazer uma leitura das práticas pedagógicas do e no cotidiano escolar a partir da relação professor/aluno e dos alunos entre si. O pressuposto deste estudo é que na construção dessa relação a forma como o outro é percebido nas práticas escolares determina os contornos dessas relações.

O modo pelo qual o adulto percebe o aluno adolescente e/ou jovem tem implicações nas práticas pedagógicas cotidianas.

Em um estudo que fiz procurei caracterizar a representação social do adolescente e da adolescência. Isto é, as imagens sociais ou a forma pela qual os adolescentes são percebidos socialmente.(Salles, 1998).

Nos depoimentos de professores e diretores de escolas publicas e nos dos próprios jovens a percepção sobre o adolescente e a adolescência evidenciou a existência de um núcleo comum: a despreocupação com o futuro, a irresponsabilidade, a auto-afirmação comportamental que todos acreditavam constituir-se no modo de ser adolescente. O adolescente é percebido como sem perspectiva, sem objetivo e irresponsável, que não sabe o que quer, que não se preocupa com o futuro, que só busca a diversão, como liberado, que indisciplinado, desinformado, consumista, apolítico, individualista, independente e que não aceita regras, limites ou normas de comportamento. A adolescência é vista como uma época de viver a vida, namorar, dançar, divertir-se. Ao redor desse núcleo se articulavam vários componentes: o uso de drogas, a liberalidade sexual, a despreocupação com o estudo, as relações pais e filhos estabelecidas sem limites ou sem controle.

Mesmo que no cotidiano os entrevistados percebam existir jovens diferentes, pois há exemplos que se contrapõem a essa imagem construída do adolescente, isso parece que não altera a percepção que elaboraram sobre essa faixa etária.

Embora uma percepção precise ser amparada ou respaldada por comportamentos reais, possivelmente as teorias, as pesquisas divulgadas, a ideologia e os meios de comunicação criam e veiculam uma imagem sobre o que é ser adolescente que se generaliza pela sociedade, contribuindo para criar a ótica pela qual a percepção social é elaborada.

A adolescência tem características específicas de acordo com o nível sócio econômico em que o jovem está inserido que acaba por determinar formas diferentes de ser adolescente. Mas, no discurso dos entrevistados, as falas sobre o adolescente apresentaram traços e evocaram imagens comuns, o que nos pareceu indicar que há uma tendência à homogeneização dessa representação social.

A permanência em nível das homogeneizações dificulta a captação do indivíduo, a forma como ele pessoalmente se posiciona frente aos outros, às coisas, à sociedade. Embora as representações difundidas socialmente às vezes ressaltem as qualidades positivas da adolescência – os jovens são os responsáveis pelo futuro, pelas mudanças sociais - em geral o acentuado é a dimensão negativa que associa os jovens aos “problemas sociais” e aos desvios de conduta, a indisciplina e ao descontrole.

Fixa-se uma imagem social do adolescente como sem perspectiva, sem objetivo e irresponsável, como liberado e individualista, que não sabe o que quer, que não se preocupa com o futuro, que só que divertir-se e que não aceita regras. Ressalta-se o desregramento que os transformam em problema social que assusta e incomoda. E que acaba por influir nas relações interpessoais estabelecidas entre professores e alunos na sala de aula e na escola.

2. Os estereótipos e preconceitos sobre o outro e as práticas pedagógicas do e no cotidiano escolar

A sociedade categoriza pessoas em função, dentre outros aspectos, do que considera comum e natural para um grupo social, uma faixa etária ou um status social. As pré-concepções que construímos sobre um grupo de pessoas são transformadas em expectativas e normas de comportamento e esperamos que elas ajam de acordo com elas.

O enquadramento das pessoas em categorias permite prever a identidade social de cada uma delas. Ou, como diz Goffman (1988), atribuímos as pessoas uma identidade social virtual e, a partir do caráter que imputamos a elas, fazemos exigências sobre aquilo que o indivíduo deve ser. Quando aquilo que é imputado ao indivíduo adquire uma conotação depreciativa estamos, segundo o autor, falando de estigmas ou estereótipos. Para Goffman (1988), pelo processo de estigmatização o indivíduo passa a ser visto como diferente do normal ou como desviante.

Segundo Goffman (1988), existem três tipos de estigma. Em todos eles um traço chama a atenção, e o individuo é reduzido a ele. Um primeiro tipo de estigma são aqueles gerados por deformidades físicas. Outro tipo são os estigmas que tem por origem as culpas de caráter como vontade fraca, desonestidade, alcoolismo, doenças mentais, homossexualismo e desemprego. O terceiro tipo de estigma é o tribal, de raça, nação e/ou religião.

Entre os estigmas desse tipo poderíamos acrescentar os decorrentes da faixa etária em que o individuo se encontra, pois como dizíamos, os adolescentes são enquadrados de uma forma rígida em certos estereótipos de comportamento. Os estereótipos desse tipo contaminam todos os membros, ou todos os indivíduos pertencentes ao grupo, independente de apresentarem ou não características reais que justifiquem a atribuição destes estereótipos a eles. Isso, como vínhamos apontando, é o que parece ter ocorrido com os nossos entrevistados, pois mesmo que conhecessem pessoas que divergiam da imagem social de adolescente, tal fato parece não ter alterado a percepção que construíram sobre essa faixa etária.

Quando os indivíduos são reduzidos aos estereótipos a sociedade constrói teorias ou ideologias para explicar essa diferença e justificar a discriminação. Isso pode provocar que as pessoas discriminadas se isolem por medo de que os outros os desrespeitem. Pode também provocar que os discriminados se aproximem dos outros, os considerados normais, com agressividade.

Isso nos remete então a outro ponto que gostaríamos de refletir durante essa apresentação: a questão da violência presente no âmbito escolar protagonizada por adolescentes e jovens.

Hoje se nota, e isto é constante afirmado e reafirmado, um crescimento das práticas de violência entre os jovens nos seus diferentes espaços de convivência: família, escola, rua, lazer.

O fenômeno da violência, especialmente nas grandes cidades, vem adquirindo cada vez maior visibilidade social. Embora sempre tenha existido, hoje assume uma multiplicidade de formas e sua incidência cresce, assim como o envolvimento de pessoas cada vez mais jovens.

Em geral, violência é conceituada como um ato de brutalidade, física e/ou psíquica contra alguém e caracteriza relações interpessoais descritas como de opressão, intimidação, medo e terror. A violência pode se manifestar por signos ou por símbolos, preconceitos, metáforas, desenhos, isto é, por qualquer coisa que possa ser interpretada como aviso de ameaça, o que ficou conhecido como violência simbólica.

A violência é um problema comum ao conjunto das sociedades. Na explicação deste fenômeno intervêm fatores muito diversos: a exclusão na convivência escolar (Candau, 1999; Camacho, 2000; Diaz Aguado, 1996, 2002, 2003); o assédio das escolas pelo narcotráfico, particularmente nas escolas públicas situadas nas zonas periféricas das grandes cidades (Candau,1999, 2001); as relações de trabalho e a exclusão social (Zaluar,1997; Minayo, 1993; Burstyn, 2000); as condições familiares, as questões de ordem política como a ausência de controle policial e a impunidade social, a deslegitimação da política e das instituições sociais (Fernandez Villanueva, Domínguez, Jiménez e Revilla, 1998); e as ideologias autoritárias, as dificuldades de definição e percepção do futuro e a identidade social (Diaz Aguado, 2002, 2003; Fernandez Villanueva, et al.,1998; Zaluar,1997).

A violência é então multideterminada e não está restrita a determinados espaços - o espaço urbano - ou a uma classe social - a pobreza.

A violência faz parte do cotidiano do jovem. Os jovens destacam que a violência está se tornando cada vez mais freqüente no dia-a-dia e que, muitas vezes, nem se reconhece mais, pequenos atos como violentos. Há violências tão banalizadas que não são percebidas como as depredações nas escolas públicas.

Na medida em que esses pequenos atos passam a serem considerados normais, devido á sua freqüência, acaba-se banalizando a violência, o que contribui para atitudes de agressão e de desrespeito ao outro. Para Elias (1990), as pequenas violências ou as pequenas agressões do cotidiano se repetem sem parar como a falta de polidez, a transgressão aos códigos de boas maneiras ou a ordem estabelecida o que difere da violência das condutas criminosas ou delinqüentes.

No espaço escolar a violência cotidiana aparece no desrespeito ao outro. O cotidiano escolar é marcado pela violência verbal que aparece como segregação, exclusão e indiferença ao outro. A violência no espaço escolar é praticada também por jovens da classe media ou alta.

Nas escolas, segundo os professores, a violência está aumentando não somente do ponto de vista quantitativo como também do qualitativo. Os tipos de violência assinalados por eles como estando mais presentes no dia-a-dia escolar são as ameaças e agressões verbais entre alunos e entre estes e os adultos. Embora menos freqüentes as agressões físicas também estão presentes. Vários estudos apontam sobre a violência dos alunos contra o patrimônio escolar, contra o adulto e contra a instituição. Os discentes, por sua vez, destacam o abuso de poder dos "mais fortes", sejam estes os alunos mais velhos, os familiares ou as autoridades da escola.

Camacho (2001), pesquisou as práticas violentas em duas escolas, uma pública e outra privada (religiosa), consideradas não violentas e modelos de escola. A pesquisa foi feita com alunos da 5ª a 8ª série, de 12 a 15 anos de idade, pertencentes a classe média e a elite.

Segundo a autora, a violência aparece de forma diferente em cada uma dessas escolas. Na escola privada a violência surge na sala de aula, na frente dos professores. Desse modo, ela aparece sob uma forma disfarçada, mascarada ou implícita. Diferentemente, na escola pública, a violência predomina nos pátios, nos corredores e nas calçadas em frente ao prédio, onde em geral, o adulto não está presente. Aqui se dá uma violência não mascarada, ou seja, a violência de forma explícita.

Na escola privada os agredidos, excluídos e rejeitados são os diferentes da maioria, seja por marcas culturais ou pelo corpo. Os agressores são os socialmente capacitados que praticam a violência aos diferentes. É uma violência que surge pela intolerância ao diferente, pela rejeição aos intrusos, que discrimina os pobres ou os ricos demais, os negros, os homossexuais, os bons alunos, os maus alunos, os novatos, os gordos e os feios. O diferente é transformado no desigual e no inferior. A diferença social gera intolerância, preconceito, discriminação e racismo (Camacho, 2001).

Na pesquisa de Camacho (2001) na escola publica acontece o contrário. Os agressores são os diferentes, aqueles que não se integram ao projeto pedagógico da escola, os que não querem estudar, os indisciplinados, os bagunceiros, os maus alunos, os que atrapalham, os pichadores, os violentos, os homossexuais, os negros, os que infernizam a vida da escola. Os diferentes, sozinhos ou em grupos, respondem a agressão que sofrem agredindo os que os discriminam, e ressaltando suas diferenças, exagerando um estilo como o jeito de andar, de vestir, de falar e de se comportar.

Para a autora, na escola pública tanto se presencia a violência que se fica insensível a ela, enquanto que na escola particular falta visibilidade ao ato, que passa por brincadeira, já que não há a intenção de machucar.

A violência na forma explícita é controlada nas escolas por meio de punições, mas a violência mascarada, em geral, fica impune, por ser dissimulada ou por ser confundida com indisciplina. A violência implícita é considerada sem gravidade, sem conseqüências, pois os danos são morais ou psíquicos e não físicos, o que contribuí para uma sensação de impunidade. Esta é uma forma de violência não controlada que ocorre constantemente no cotidiano escolar, e que é banalizada e fica naturalizada. É então vista como normal, própria da adolescência. Isso, como vimos, esta de acordo com a imagem social do adolescente de desregrado, sem limites e irresponsável.

A sociedade, como apontamos acima, categoriza pessoas em função do que considera comum e natural para um grupo social, uma faixa etária ou um status social. Em geral, tomamos aquilo que somos como a norma e por meio dela descrevemos, avaliamos e discriminamos os outros. A discriminação leva á intolerância frente ao diferente. O outro é o diferente. Ao eu só importa o que o eu valoriza. O outro pode ser segregado, excluído ou desrespeitado.

As diferenças e os estereótipos presentes no cotidiano escolar determinam formas de ação e são um dos aspectos que o constitui. Isto é apontado inclusive pelos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) sobre a pluralidade cultural que buscam analisar essa problemática.

Os PCNs sobre a pluralidade cultural indicam como objetivos do ensino fundamental que os alunos sejam capazes de compreender a cidadania como participação social e política, adotando atitudes de solidariedade, de cooperação, de repúdio às injustiças e de respeito ao outro. Nos PCNs enfatiza-se a importância de se conhecer e valorizar a pluralidade cultural brasileira procedentes das diferentes etnias, culturas, e grupos sociais que convivem no Brasil. Também é solicitado aos docentes e alunos que analisem e critiquem as relações sociais discriminatórias e que se afirme a diversidade como traço fundamental na construção da identidade nacional brasileira. O respeito ao outro, seja ele quem for, ou quanto for diferente de nós, é sublinhado.

Os privilégios, conforme afirmado nos PCNs, são fundamentados em discriminações e preconceitos socioeconômicos, étnicos e culturais. No âmbito escolar estes se manifestam na forma de racismo e/ou de discriminação social e étnica por parte de professores, alunos e equipe escolar. Nas escolas costuma-se hierarquizar as culturas tomando a cultura branca européia como padrão. Porém, mesmo que contraditoriamente, no âmbito escolar em geral prevalece o mito da democracia racial. Em geral, as escolas se omitem frente à pluralidade cultural adotando uma perspectiva de homogeneidade cultural, de um Brasil sem diferenças, silenciando-se sobre discriminações que ocorrem socialmente. Isso contribui para a consolidação de estigmas.

Opondo-se a tudo isso, nos PCNs é proposto que a escola fortaleça a cultura de cada grupo social e étnico promovendo seu conhecimento e valorizando-o para fortalecer a igualdade, a democracia e a cidadania. Os alunos devem conhecer suas origens como brasileiros e como participantes de um grupo social específico compreendendo seu próprio valor e desenvolvendo atitudes de repúdio aos preconceitos. Cabe ao professor gerar nos alunos atitudes éticas que valorizem a dignidade, a justiça e a igualdade entre as pessoas e entre os diferentes grupos sociais.

As questões da pluralidade cultural, do multiculturalismo e da diferença tornaram-se então uma temática presente na educação e na formação dos professores como um dos temas transversais. As diferenças são reconhecidas como legítimas e há um apelo à tolerância e ao respeito para com a diversidade e para com a diferença.

No entanto, o que significa reconhecer a diferença como legítima e propor ás escolas a problematização da diferença?

Segundo Silva (2000), os PCNs sobre a pluralidade cultural, ao proclamarem a existência da diversidade e da diferença, tendem a naturalizá-las, cristalizá-las e essencializá-las, ou seja, tendem a tornar a diferença um fato da vida social. Para o autor, isso implica que não nos atentemos para o fato que as diferenças são determinadas, isto é, produzidas socialmente, e estão relacionadas ao poder.

As diferenças que demarcam identidades – quem sou eu - não são fixas ou essencialistas ou permanentes, são históricas e dessa forma se transformam conforme as formas pelas quais somos representados pela cultura (Hall, 2002). O eu é construído pela sociedade. Indivíduo e sociedade são entrelaçados (Giddens, 2002).

A identidade é construída pela organização social e cultural na qual os indivíduos estão inseridos. Há um processo de apropriação da realidade pelo indivíduo de tal forma que o homem ao viver em sociedade apropria-se do social e o mundo exterior se torna interno. A cultura dá os referenciais lingüísticos, os signos e as maneiras de manifestação da subjetividade. Mudanças na cultura têm implicações na forma como a identidade é construída.

O psiquismo se constrói com as experiências, os conhecimentos, os valores e as informações, transmitidos pela tradição, pela comunicação, pela mídia, pela educação e pela ciência. A subjetividade só pode ser compreendida como produto das relações e mediações sociais. O psiquismo é mediatizado pelas relações sociais. O psiquismo é, assim, mediato e não imediato. A sociedade impõe ao indivíduo a forma pela qual as identidades são construídas (Berger, Luckmann, 2002, Leontiev, 1978, Simmel,1986, Vygotsky,1993).

A identidade é formada nas e pelas relações sociais. No processo de sua construção a diferença com o outro vai sendo marcada e estabelecida e vai-se negando que possa haver similaridades entre indivíduos e grupos diferentes. O que um grupo tem em comum é colocado em contraste com o que o outro tem para que as fronteiras sejam demarcadas (Hall, 2002).

Segundo Silva (2000), diferenciação é o processo pelo qual identidades e diferenças são produzidas. Nesse processo de estabelecimento de diferenças e identidades estas vão sendo hierarquizadas. Ao se hierarquizarem as diferenças as relações de poder entre os indivíduos vão sendo estabelecidas. A diferença permite imputar ao outro um atributo que o desfavoreça e assim se relaciona ao poder: de incluir/excluir, de pertencer/não pertencer, de demarcar fronteiras – nós/eles – de classificar em bons/maus, racional/irracional, de normalizar – normal/anormal.

Segundo o autor, classificar é hierarquizar, é dar diferentes valores aos grupos sociais dependendo de como a sociedade produz essas classificações. A construção da identidade é simbólica e social e assim demarca posições sociais. Dividir o mundo social entre nós e eles é classificar e ordenar grupos sociais.

3. Considerações finais

Como vínhamos apontando, a tendência é tomar aquilo que somos como a norma pela qual descrevemos e avaliamos aquilo que não somos, mas que os outros são. Ao elegermos uma identidade como parâmetro a tendência é atribuirmos a ela tudo de positivo e avaliarmos o resto como negativo, com pré-concepções ou de forma preconceituosa. O outro se torna um problema social. Isto tudo demarca relações de poder.

Assim, apenas a afirmação da tolerância e do respeito pode impedir de se ver a diferença entre nós/eles como um processo de produção social que envolve relações de poder e que, portanto, não são resolvidas somente pelo diálogo. As diferenças são produzidas socialmente e estão associadas as relações de poder que permitem incluir ou excluir pessoas, delimitar fronteiras e diferenciar entre o nós e o eles.

Nas escolas, os adolescentes e jovens interagem com outros adolescentes e jovens que são diferentes deles ou de seu grupo de referência, em função dentre outros aspectos, da cor, da sexualidade, da nacionalidade, do corpo ou da classe socioeconômica. No espaço escolar essa interação com o diferente, quando não é problematizada, se dá por meio de relações interpessoais pautadas por conflitos, confrontos e violência. A falta de limites associada á desconsideração pelos outros contribui para que os jovens e adolescentes busquem se impor pela força e pela agressão.

O cotidiano escolar é marcado pela violência que aparece na forma de segregação, exclusão e indiferença ao outro, o diferente dele. A escola deve ter em conta que essas práticas tem a ver com as relações sociais e não são restritas ao indivíduo ou a sua personalidade. O pessoal, o social e o político estão emaranhados.

Os valores invadem a escola e, quando não discutidos educativamente, contribuem para a formação de preconceitos. É importante que se analise as práticas, valores e informações que veiculam no âmbito escolar buscando o desvelamento e não o acobertamento das práticas de discriminação e de intolerância.

Enfim, é necessário fazer uma leitura das práticas pedagógicas do e no cotidiano escolar a partir da discussão da relação que é estabelecida com o outro, na qual influi a imagem social que é construída sobre o outro. Na construção dessa relação, a forma como o outro é percebido determina os contornos dessas relações e tem implicações nas práticas pedagógicas cotidianas. As diferenças e os estereótipos presentes no cotidiano escolar determinam formas de ação e são um dos aspectos que o constitui.

Referências Bibliográficas

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