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O CONTO POPULAR BRASILEIRO E DE FADAS COMO UMA ALTERNATIVA NAS AULAS DE LEITURA PARA ALUNOS DE EJA


Cilene Vicente dos Santos - EM Prof. André Franco Montoro – Vinhedo/ SP


1. ERA UMA VEZ...

Neste trabalho não pretendo fazer uma crítica literária e nem uma crítica lingüística do conto popular brasileiro e/ ou do de fadas, mas mostrar uma nova alternativa de abordagem de textos literários nas aulas de leitura na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do 2º segmento do Ensino Fundamental (5ª - 8ª série). Foi dentro de uma nova proposta que este trabalho foi formulado, tendo em vista que o currículo de EJA permite uma maior flexibilidade, uma vez que o conteúdo deve ser adequado, pensado em relação às características dos alunos.

É de conhecimento público que há uma falta de material específico para se trabalhar com alunos adultos no Ensino Fundamental. O Ministério da Educação e Cultura – MEC (2002) reconhece essa falta:

O fato de uma grande parte (47,82%) dos professores entrevistados declarar que usa exclusivamente o livro didático em suas aulas, ou cópias de textos (54,65%), mostra que a diversidade não está sendo explorada em toda sua potencialidade. Preocupante é também o fato de que a maioria dos livros didáticos adotados se destina ao Ensino Fundamental que tem como leitor virtual o adolescente de 11 a 15 anos, enquanto os alunos de EJA têm uma experiência acumulada muito diferente. Por outro lado, sabe-se que o professor tem poucas alternativas, pois é muito pequena a oferta de materiais didáticos específicos para os cursos de EJA. Para aproximar o trabalho das reais necessidades dos alunos, uma alternativa é o trabalho com textos em seus suportes de origem – como alguns professores declaram já vir fazendo. (MEC, 2002:68)

Além disso, é necessário saber quem é o aluno de EJA para que se possa pensar uma proposta curricular:

Determinar claramente a identidade de um curso de EJA pressupõe um olhar diferenciado para seu público acolhendo de fato seus conhecimentos, interesses e necessidades de aprendizagem. Pressupõe também a formulação de propostas flexíveis e adaptáveis às diferentes realidades, contemplando temas como cultura e sua diversidade, relações sociais, necessidades dos alunos e da comunidade, meio ambiente, cidadania, trabalho e exercício da autonomia. (MEC, 2002:80)

Na falta de material didático adequado os alunos “mais velhos”, passei a pesquisar novos materiais e propostas, e senti a necessidade de introduzir textos literários em minhas aulas de leitura. A escolha do conto popular brasileiro e de fadas se deu, principalmente, pelas características universais que este apresenta. Sua simbologia e estrutura permitem ao aluno, mesmo àquele que não tem hábito de leitura, reconhecer elementos e mobilizar conhecimentos anteriores (pré-construído) e associá-los a outros discursos e textos (memória discursiva). Nos contos populares temos uma linguagem simbólica muito forte, e sobre este ponto, Fromm (1966) diz que:

O símbolo universal é o único onde a relação entre o símbolo e o simbolizado não é pura coincidência, mas algo intrínseco. Ele tem suas raízes na experiência de afinidades entre uma emoção ou pensamento, de um lado, e uma experiência sensorial, do outro. Pode ser denominado universal por ser partilhado por todos os homens, ao contrário não só do símbolo acidental, pela própria natureza inteiramente pessoal, mas também do símbolo convencional, restrito a um grupo de pessoas, que adotam a mesma convenção. O símbolo universal está implantado nas propriedades de nosso corpo, de nossos sentidos e de nossa mente, comuns a todos os homens e, por conseguinte, não restritos a indivíduos ou grupos específicos. Com efeito, a linguagem do símbolo universal é a única língua comum elaborada pela raça humana, uma língua esquecida por esta antes de lograr criar uma linguagem convencional universal. (Fromm, 1966:21)

Os contos populares, especialmente o de fadas, muitas vezes foram classificados como Literatura Infantil e, por este motivo, esquecidos pelos professores quando trabalham com adultos. Sílvio Romero enquadra os contos populares dentro das primeiras manifestações do gênero no Brasil e a importância deste tipo de literatura é inquestionável, pois por ser de tradição oral, reflete em suas histórias: a cultura, a moral, os valores, ou seja, o modo de viver de um povo. Coutinho (2004:45) afirma que “(...) os contos populares (...), não obstante seu freqüente conteúdo filosófico, seu profundo simbolismo humano, a malícia e o imprevisto de sua finalidade deliberadamente moralizadora, pertencem antes à nossa literatura oral.” E acrescenta (2004:77) que “(...) conceber a literatura não é fazer crer que o fenômeno literário é como uma bólide no espaço, sem contato com o ambiente social e histórico, retirando-lhe assim qualquer significado humano.”

Por serem passados oralmente de geração em geração, os contos populares foram sendo recontados sempre a partir de uma nova perspectiva sócio-histórica e foram-lhes atribuindo novos sentidos. Sobre os contos de fadas, o psicanalista Bettelheim (1999) concluiu que:

Através dos séculos (quando não dos milênios) durante os quais os contos de fadas, sendo recontados foram-se tornando cada vez mais refinados, e passaram a transmitir ao mesmo tempo significados manifestos e encobertos – passaram a falar simultaneamente a todos os níveis da personalidade humana, comunicando de uma maneira que atinge a mente ingênua da criança tanto quanto a do adulto sofisticado. (Bettelheim, 1999:14)

Nas aulas de EJA, foram analisados três contos populares: Cinderela ou o Sapatinho de Cristal de Perrault, Cinderela (versão alemã) e Maria Borralheira (conto brasileiro).


2. O CONTO POPULAR BRASILEIRO E DE FADAS NAS AULAS DE LEITURA DE EJA

O “projeto de leitura” foi desenvolvido no 2º bimestre do 1º semestre de 2005 com três classes (1TA, 2TA e 3TA) da EM Professor André Franco Montoro – Vinhedo/ SP, onde leciono Língua Portuguesa. Os objetivos são: ampliar o repertório textual dos alunos, entender as características dos contos populares, acompanhar com atenção a leitura em voz alta, trazer à atenção dos alunos para os diferentes efeitos de sentido e produção de textos verbais/ não-verbais.

Selecionei um conto extremamente difundido e que acreditei ser conhecido de todos os alunos – Cinderela. O trabalho teve o seguinte desenvolvimento:

1. Os alunos escreveram a história que conhecem de Cinderela.
2. Os alunos foram orientados a que prestassem atenção à leitura em voz alta das três diferentes versões de Cinderela.
3. Registro verbal ou não-verbal (desenho) de cada versão das histórias após a leitura.
4. Produção de duas tabelas: personagens (TABELA 1) e enredo (TABELA 2).
5. Discussão sobre algumas imagens/ trechos selecionados pelos alunos.
6. Produção textual de auto-avaliação.
7.
As tabelas foram feitas a partir das anotações dos cadernos dos alunos. A classe foi dividida em grupos de no máximo três pessoas e após a discussão nos grupos, cada grupo apresentou a sua versão das tabelas e a classe decidiu por uma tabela única para cada tema (personagens e enredo). O resultado foi o seguinte:


TABELA 1

                 versões

personagens

Perrault

Alemã

Brasileira

1. Cinderela

Boa, ingênua, bonita e abnegada.

Boa, ingênua e bonita.

Esperta.

2. “irmãs”

Más, arrogantes e mandonas.

Más, arrogantes e mandonas.

Obedientes à mãe.

3. madrasta

Má, arrogante.

Má e ambiciosa.

Má e ambiciosa.

4. pai

Aparece só no 1º parágrafo.

Conivente com a situação.

Submisso à esposa.

5. príncipe

Apaixonado.

Apaixonado e ciumento.

Apaixonado.

 

TABELA 2

                 versões

enredo

Perrault

Alemã

Brasileira

1. casamento do pai

“Fidalgo que se casou em segundas núpcias”.

Morte da esposa e segundo casamento em poucos meses.

Viúva insiste para que Maria convença seu pai a se casar com ela.

2. “madrinha”

Madrinha que era uma fada.

Aveleira do túmulo da mãe de Cinderela.

Vaquinha dada pela mãe de Maria.

3. baile/ festa

Dois dias de baile no castelo.

Três dias de baile no castelo.

Três dias de festa na igreja.

4. sapato

Sapatinho de cristal.

Sapatinho de ouro.

Chapim de ouro.

5. desfecho

Cinderela perdoa as irmãs e arruma casamento para elas.

As irmãs comparecem ao casamento e ficam cegas.

Madrasta morre ao ver Cinderela casada.


Toda leitura passa por um processo de interpretação, de atribuição de sentidos; tendo isto em mente, os alunos selecionaram trechos para serem discutidos a partir das relações semânticas que estabeleciam com os conhecimentos anteriores que eles têm. A primeira discussão passou pela imagem da madrasta.

(...) Mal foi celebrado o casamento, a madrasta já começou a mostrar o seu mau humor.
Cinderela - Perrault


A nova mulher trouxe com ela suas duas filhas, que eram alvas e belas externamente, mas negras e más de coração. Começou o infortúnio para a pobre órfã.
Cinderela – versão alemã


(...) A menina pegou e falou ao pai para casar com a viúva, porque, “ela era muito boa e agradável”. (...) o pai respondeu: “Minha filha, ela hoje te dá papinhas de mel; amanhã te dará de fel”. (...) Tudo que havia de mais aborrecido e trabalhoso no trato da casa, era a órfã que fazia.
Maria Borralheira – conto brasileiro


Para a maioria dos alunos era natural que a madrasta provocasse o sofrimento de Cinderela e favorecesse suas filhas biológicas. O mesmo não aconteceu com a imagem do pai de Cinderela, que era omisso aos maus tratos sofridos pela filha; ao contrário, a versão alemã causou uma “revolta” nos alunos, pois em nenhum momento o pai se refere à Cinderela como sua filha e a chama sempre pelo nome.


Um dia, em que o pai ia a uma grande feira, ele perguntou às suas duas lindas filhas o que desejariam que lhes trouxesse. (...) E tu, Cinderela, que é que tu queres? (...) O pai disse: “Será a Cinderela?” E mandou que lhe trouxessem um machado e uma machadinha para arrombar a porta do pombal.

(...) Ele [o príncipe] fez meia-volta com o cavalo e devolveu a falsa noiva à sua casa. “Ainda não é esta”, disse ele. “Não tendes outra filha?” “Não”, respondeu o pai, “a não ser a da minha primeira mulher, a coitadinha da Cinderela, que fica lá toda suja, no meio das cinzas; mas não pode ser ela”.


Ainda na versão alemã, quando a mãe pede que as filhas se mutilem para poder calçar o sapatinho de ouro que pertencia a Cinderela, os alunos acharam a situação cômica e não trágica, pois só numa situação de comédia é que aceitariam a possibilidade absurda de colocar a ambição antes da integridade física das filhas.


(...) a mais velha pegou o sapatinho e foi para se quarto experimentá-lo, enquanto a mãe a observava. Mas o dedo grande do pé não entrava no sapato, que era muito pequeno. A mãe entregou-lhe então uma tesoura e falou: “Corta o dedo; quando fores rainha não terás necessidade de andar a pé”. (...) A outra foi para o seu quarto, a fim de fazer a tentativa; os dedos entraram facilmente, mas o calcanhar é que era muito grande. A mãe estendeu-lhe então uma faca e disse: “Corta o calcanhar; quando fores rainha não terás mais necessidade de andar a pé”.


Para alguns dizer que a madrasta é má, é uma redundância. Em quase todos os contos populares a imagem de malvada é intrínseca a madrasta. Monteiro Lobato (1996?), que é considerado um dos maiores escritores infantis, traz a evidência esta simbologia ao explicar o conto popular brasileiro A Madrasta:

? E há ainda um traço delicado – disse dona Benta – esse das cabeleiras das meninas que viraram capinzal murmurejante ao vento. Aparece também a figura da madrasta, que é muito comum nas histórias populares. Toda madrasta tem que ser má. O povo não admite a possibilidade de madrasta boa.

? E não há – disse Narizinho. – As que eu conheço, como a madrasta da Quinota e a da Maricoquinha, não chegam a ponto de enterrar crianças vivas – mas boas não são.
? E a do Zeferininho da Estiva, que dava na cabeça dele com a colher de pau? – acrescentou Pedrinho.

? Sim – disse dona Benta. – Talvez a regra seja a madrasta má, embora as haja excelentes. Sei de dois casos de madrastas boníssimas, quase como mães. Tudo depende da criatura, e não do ato de ser mãe ou madrasta. Há mães tão perversas como as piores madrastas.

? Mas o povo assentou que as madrastas não prestam e não prestam mesmo – concluiu Emília. O coitado do povo sofre tanto que há de saber alguma coisa. Esse ponto da madrasta má o povo sabe. São más como caninanas – embora haja alguma degenerada que seja boa. Madrasta boa não é madrasta. Para ser madrasta, tem que ser uma bisca das completas. Eu, se pilhar alguma por aqui, furo-lhe os olhos. (Lobato, 1996?:XI)


Aqui aparece outro pré-construído, além da madrasta má, a de que a “voz do povo é a voz de Deus”, ou seja, o povo sempre tem razão naquilo em que acredita. Além disso, o fato de Narizinho e Pedrinho identificarem os enteados que sofrem nas mãos de suas madrastas (Quinota, Maricoquinha, Zeferininho) em contraste a dona Benta dizer que conhece dois casos sem dar muitos detalhes, serve como um meio de reforçar a idéia defendida: “Talvez a regra seja a madrasta má”. Sobre a madrasta Darnton (2001) afirma:


Comer ou não comer, eis a questão com que os camponeses se defrontavam, em seu folclore, bem como em seu cotidiano. Aparece em inúmeros contos, muitas vezes em relação com o tema da madrasta má, que deve ter tido especial ressonância em torno às lareiras do Antigo Regime, porque a demografia do Antigo Regime tornava as madrastas figuras extremamente importantes na sociedade das aldeias. Perrault fez justiça ao assunto, em “Cinderela”, mas negligenciou o tema correlato da subnutrição, que se destaca nas versões camponesas do conto. (Darnton, 2001:50)


A importância das madrastas na França dos séculos XVII e XVIII ocorria porque:

Terminados com a morte, e não com o divórcio, os casamentos duravam uma média de quinze anos, metade da duração que têm na França de hoje. (...) As madrastas proliferavam por toda parte – muito mais que os padrastos, porque o índice de novos casamentos entre as viúvas era de um em dez. os filhos postiços podem não ter sido tratados como Cinderela, mas as relações entre os irmãos, provavelmente, eram difíceis. Um novo filho, muitas vezes, significava a diferença entre pobreza e indigência. Mesmo quando não sobrecarregava a despesa da família, podia trazer a penúria para a próxima geração, aumentando o número de pretendentes, quando a terra dos pais fosse dividida entre seus herdeiros. (...) Os camponeses, no início da França moderna, habitavam um mundo de madrastas e órfãos, de labuta inexorável e interminável, e de emoções brutais, tanto aparentes como reprimidas. A condição humana mudou tanto, desde então, que mal podemos imaginar como era, para pessoas com vidas realmente desagradáveis, grosseiras e curtas. É por isso que precisamos reler Mamãe Ganso (Darnton, 2001: 44-45, 47)


A explicação histórica sobre a imagem criada da madrasta má nos ajuda a entender, a aceitação das aflições provocadas por estas as enteadas, pois se tratava de uma questão de sobrevivência em uma época em que era escasso os alimentos e as condições de vida eram extremamente precárias.

Outro pré-construído é que a heroína ou a “mocinha” deve ser sempre boa, não lhes é admitido que pensem ou façam mal a alguém, mesmo ao seu pior inimigo. A compaixão e o perdão parecem ser regras sempre aplicadas aos heróis. Este ponto foi reforçado no final de Cinderela de Perrault:


Foi então que suas irmãs a reconheceram como sendo a linda princesa que tinham visto no baile. Elas se atiraram aos seus pés para pedir perdão por todos os maus tratos que lhe tinham feito. Cinderela fez as duas se levantarem e disse, abraçando-as, que as perdoava de bom coração e lhes pedia que a amassem sempre. (...) Cinderela, que tanto tinha de bela quanto de bondosa, levou as irmãs para o palácio e casou as duas, naquele mesmo dia, com dois ricos fidalgos da corte.


Nas outras duas versões, o final surpreende pois as inimigas de Cinderela são castigadas pelo sofrimento que causaram a heroína.


E quando se celebraram as núpcias, as duas irmãs compareceram, fingindo alegrar-se com a felicidade da irmã mas na realidade estavam roídas de inveja. Na igreja, a mais velha postou-se à esquerda da noiva e a mais nova à direita; e cada um dos pombos furou um olho da que estava do seu lado. Ao saírem da igreja, a mais velha ficou à direita da noiva e a mais nova à esquerda; e cada um dos pombos furou o outro olho da que estava do seu lado. E assim elas foram castigadas por sua malvadez e falsidade, ficando cegas pelo resto de suas vidas. (versão alemã)


Houve muita alegria e festas; a madrasta teve um ataque e caiu para trás, e Maria foi para o palácio e casou o filho do rei. (conto brasileiro)


Num processo de identificação, que possibilita a aceitação de uma “mocinha” esperta no lugar de uma heroína “tonta” e extremamente boa, os alunos defenderam a versão brasileira como a mais interessante. Isso foi justificado pela afirmação de o povo brasileiro ser esperto e “safo”, o que chamaram de “jeitinho brasileiro”.


Maria, que estava atrás da porta, apareceu já toda formosa com os chapins de ouro nos pés e estrela de ouro na testa, e quando falava saíam-lhe da boca faíscas de ouro. Amarrou um lenço na cabeça, fingindo doença, para esconder a estrela, e tirou os chapins dos pés, e foi-se embora para casa. Quando lá chegou entregou o fato e foi para o seu borralho. Passados alguns dias, as filhas da madrasta lhe viram a estrela e perceberam as faíscas de ouro que lhe saíam da boca, e foram contar à mãe. Ela ficou com muita inveja, e disse às filhas que indagassem da Borralheira, o que é que se devia fazer para se ficar assim.

Elas perguntaram e Maria disse: “É muito fácil; vocês peçam para ir também por sua vez lavar o fato de uma vaca no rio; depois de lavado botem a gamela com ele pela correnteza abaixo e vão acompanhando; quando encontrarem um velhinho muito feridento, metam-lhe o pau, e dêem muito; mais adiante, quando encontrarem uma casa com uns cachorros e gatos muito magros, emporcalhem a casa, desarrumem tudo, dêem nos bichos todos, e escondam-se atrás da porta e deixem estar que, quando vocês saírem, hão de vir com chapins e estrelas de ouro”. Assim foi.
(...) Quando as donas da casa chegaram e viram aquele destroço, a mais moça disse: “Manas, faiemos, manas: permita a Deus que quem tanto mal nos fez lhe apareçam cascos de cavalo nos pés.” A do meio disse: “Permita a Deus que quem tanto mal nos fez, lhe nasça um rabo de cavalo na testa”. A terceira disse: “Permita Deus que quem tanto mal nos fez, quando falar lhe sai porqueira de cavalo pela boca”. As duas moças, quando saíram de detrás da porta já vinham preparadas com seus enfeites. Quando falaram, ainda mais sujaram a casa das velhinhas. Largaram-se para casa e quando a mãe as viu, ficou muito triste. (conto brasileiro)


Historicamente, a esperteza não é encarada como falta de caráter, mas como uma forma do oprimido se colocar diante do opressor. Darnton (2001), ao falar sobre a relação estreita entre os contos populares franceses e o Antigo Regime, afirma que:


A velhacaria sempre joga o pequeno contra o grande, o pobre contra o rico, o desprivilegiado contra o poderoso. Estruturando as histórias dessa maneira, e sem explicitar o comentário social, a tradição oral proporcionou aos camponeses uma estratégia para lidar com seus inimigos, nos tempos do Antigo Regime. Mais uma vez, é preciso enfatizar que nada havia de novo ou de incomum no tema dos fracos vencendo os fortes, pela esperteza. (...) O que importa não é a novidade do assunto, mas sua significação – a maneira como ele se enquadra na estrutura de um relato e toma forma quando é narrado um conto. (Darnton, 2001: 82)


E completa:

Em última instância, então, a velhacaria expressava uma orientação relativa ao mundo, mais do que uma variedade latente de radicalismo. Proporcionava uma maneira de lidar com uma sociedade dura, em vez de uma fórmula para subvertê-la. (Darnton, 2001: 86)

3. E VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE...

A partir da leitura dos primeiros textos dos alunos, pude perceber que a versão que conheciam é a da Disney. Fiquei surpresa ao constatar que muitos alunos não conheciam a história e alguns homens disseram que até sabiam mais ou menos o “assunto” do conto, mas nunca lhe contaram a história por ser considerado como história para meninas. Houve uma preferência pelo registro não-verbal das histórias e a auto-avaliação apontou que leitura do conto remetia a infância e a necessidade de imaginar/ sonhar com um final feliz.

Encerro este trabalho com as palavras de Darnton (2001), que sintetizam o que penso sobre o valor dos contos populares e sobre a importância da leitura destes no curso de EJA:


(...) Os contadores de histórias camponeses não achavam as histórias apenas divertidas, assustadoras ou funcionais. Achavam-nas “boas para pensar”. Reelaboravam-nas à sua maneira, usando-as para compor um quadro da realidade, e mostrar o que esse quadro significava às pessoas das camadas inferiores da ordem social. No processo, infundiam aos contos muitos significados, cuja maioria se perdeu, porque estavam inseridos em contextos e desempenhos que não podem ser reconstituídos. Em linhas gerais, no entanto, parte do significado ainda se evidencia através dos textos. (...) Mesmo depois de absorvidas pelas principais correntes da cultura moderna, são testemunhas de uma antiga visão de mundo. (...) Plus ça change, plus c´est la même chose. (Darnton, 2001: 92, 93)

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Tradução Arlene Caetano. 8ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 1990.
BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução á análise do discurso. 2ª edição ver. Campinas: Editora da UNICAMP, 2004.
BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Fundamental. Proposta curricular para a educação de jovens e adultos: segundo segmento do ensino fundamental: 5ª a 8ª série: introdução. Vol. 1. Secretaria de Educação Fundamental, 2002.
COUTINHO, Afrânio (org.) e COUTINHO, Eduardo de Faria (dir.). A literatura no Brasil: Preliminares -Introdução. Vol. 1. 7ª edição. São Paulo: Global Editora, 2004.
¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬__________, Afrânio (org.) e COUTINHO, Eduardo de Faria (dir.). A literatura no Brasil: Relações e perspectivas - Conclusão. Vol. 6. 7ª Edição. São Paulo: Global Editora, 2004.
DARNTON, Robert. “Histórias que os camponeses contam: O significado de Mamãe Ganso”. In: O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultura francesa. Tradução de Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
FROMM, Erich. A linguagem esquecida: uma introdução ao entendimento dos sonhos, contos de fadas e mitos. Tradução Octavio A. Velho. 3ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 1966.
LOBATO, Monteiro. “A madrasta”. In Obra infantil completa. Vol. 3. São Paulo: editora Brasiliense, 1996?.
ORLANDI, Eni P. “Do sujeito na História e no Simbólico” e “Ponto Final: interdiscurso, Incompletude, Textualização”. In: Discurso e Texto: formação e circulação de sentidos. Campinas: Pontes, 2001.
_________, Eni P. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2003.
PÉCHEUX, Michel. Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Tradução Eni P. Orlandi. 3ª edição. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997.
PERRAULT, Charles. “Cinderela ou o Sapatinho de Cristal” e “Cinderela”. In: Contos de Perrault. Tradução Regina Regis Junqueira. Belo Horizonte: Villa Rica Ed., 1999.
ROMERO, Sílvio. “Maria Borralheira”. In: Folclore Brasileiro: Contos populares do Brasil.Belo Horizonte: editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1985.

 

ANEXOS

TEXTO 1
Achei interessante a parte em que os passarinhos catava as azeitonas na cinza para a Cinderela, e a parte em que a mãe mandou a filha cortar os dedos do pé, e a outra o calcanhar dizendo que se casase com o principe não ia precisar andar a pé.
Me fez lembrar o meu passado quando conheci o meu marido. Ele namorava uma moça e eu me apaixonei por ele e o tempo passou eles terminaram, e eu então consegui o que eu esperava e hoje temos um casal de filhos posso dizer somos uma família feliz.

TEXTO 2
Essa história da Cinderela na realidade tenhe muita gente que passa por iço com eu.

TEXTO 3
A versão que mais se identifica comigo eu acho que é a versão brasileira, que tem o jeitinho de Brasileiro mesmo, a Cinderela é astuta, esperta, trabalhadeira, bonita e as irmãs eram pau mandado da mãe. Ai se parece com minha história, meus irmãos eram pau mandado da minha mãe adotiva, judiavam de mim tinham ciúmes e inveja de mim, porque meu pai me protegia, minha mãe mandava ele arrumar namorado para mim, até que um dia o Flávio arrumou mesmo um namorado pra mim, e eu tinha 13 anos e ele 25 anos. Eu não gostava dele, pois ele já era um alcolótra mais minha mãe e meu irmão tramarão tudo, ele arrumou o namorado pra mim e minha mãe me obrigou a se casar com ele, eu com 14 anos de idade me casei com uma pessoa que eu não gostava e vivi 11 anos com ele, o que quer dizer vegetei 11 anos e não vivi 11 anos, me separei e casei novamente com aquele que eu escolhi e vivo bem Graças a Deus.

TEXTO 4
Meu pai é viúvo, minha irmã cuidou dos irmãos, minha fada-madrinha foi minha mãe. E não tem mais nada.

TEXTO 5
Eu gostei mais da versão brasileira tem mais perseguição parece com um pessoa próxima que eu conheço que era sempre perseguida por alguém tem a Maria que intercede ao pai para se casar com a velha também gostei da vaquinha milagrosa porque minha mãe é viúva e tinha uma vaquinha e foi graças ao leite e os filhotes que ela nos deu que minha mãe conseguiu criar 6 filhos sozinha só não apareceu um príncipe para casar com Cinderela e seus 6 filhos.

TEXTO 6
Eu gostei mais do conto de fadas brasileiro porque, existia, uma coisa mística nela e eu gosto dessas coisas. Eu não identifico com nenhum desses contos, mas acho que se fosse meu marido, daria certinho porque ele perdeu a mãe dele com 5 anos de idade, e o pai casou-se depois de 3 meses e a madrasta era malvada, não dava de comer para ele, e ainda fazia o pai dele bater nele e nos irmãos, sempre as melhores coisas eram p/ os filhos dela, que eram 4, e essa parte acho que combina com o conto de fadas.

TEXTO 7
A Cinderela que eu mais me indentifiquei foi a brasileira, por que a vida da gente é trabalhar, trabalhar e trabalhar, tempo para ir a baile, festa etc é difícil porque se tem dinheiro não tem tempo e se tem tempo não tem dinheiro e assim vai quando dar para ir a festa é só festa na igreja.
As meninas de hoje em dia são teimosas e incistentes quando quer ir ao baile pula até janelas.
A gente começou a trabalhar cedo as de hoje não quer nem saber de lavar os copos que toma água.

TEXTO 8
Eu me indetifico mais com a Cinderela brasileira.
Gosto muito de trabalhar só não gosto que mande ne mim sempre coidei de mim mesmo meus pais morrem sede demais os meus irmãos que cuidaram de casa só que eles gostavam de mandar por isso que eu comecei trabalhar com 14 anos comecei coidar de mim mesmo hoje em dia não gosto de me alembral do passado de sofre muito.

TEXTO 9
Na versão brasileira em que a Cinderela tem as qualidades de ser boa moça, bonita, astuta, trabalhadeira, é a que eu mais gostei, porque algumas pessoas por serem espertas trabalhadeiras alcançam seus objetivos e Cinderela, alcançou superando seus obstáculos, suas meias irmãs, a morte de sua mão acreditando que sua madrasta seria uma boa esposa para seu pai e tantas coisas que lhe aconteceram decepções, mentiras, falsidade, as boas coisas, boas situações, boas oportunidades para vencer.
O amor, a bondade, a caridade tudo supera.

 
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