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UMA REFLEXÃO SOBRE O MOVIMENTO HIP HOP E SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA INCLUSÃO ESCOLAR


Cleber Ferreira dos Santos
Dr. Maria Peregrina de Fátima R. Furlanetti
FCT-UNESP (Presidente Prudente)


INTRODUÇÃO


A criminalidade na adolescência vem tomando grandes proporções e já se configura como um grave problema da sociedade.

Nesse momento quais seriam as medidas apropriadas para tratarmos essa questão? Alterar o ECA, reduzir a idade penal? Não acreditamos que essas seriam saídas inteligentes. Pois sem justiça social não vemos a possibilidade de redução concreta da criminalidade.

Acreditamos que a Educação pode desenvolver um importante papel para minimizarmos os reflexos da perversa sociedade.

Combinando a leitura, a produção de textos (fanzines), o Hip Hop e outras formas auxiliares no processo educativo, talvez seja possível construir junto aos jovens que estão em conflito com a lei, uma alternativa...


OBJETIVO

Problematizar junto aos jovens a condição em que se encontram, de estarem em conflito com a lei, para que através dos questionamentos possamos refletir qual é o papel que a criminalidade desempenha na sociedade e como isso interfere em suas vidas e relações com as pessoas.


METODOLOGIA

Desenvolver oficinas junto aos jovens, que relacionem o Hip Hop, a condição em que eles se encontram e a sua identidade racial e de classe.

Trabalhar com músicas, imagens, filmes, fanzines, dança, etc. que possam desenvolver o censo crítico. Mas não num processo apenas depositário onde chegaremos com todas as formulações pré-concebidas, e sim na construção conjunta com os jovens durante as oficinas para que essa chegue ao seu objetivo.


A Educação de jovens em liberdade assistida: a contribuição do movimento Hip Hop

Em primeiro lugar é necessário problematizarmos o conceito de inclusão social, que permeia vários projetos que trabalham com jovens. Desde jovens moradores de subúrbio à jovens que estão em conflito com a lei. Esses projetos são até positivos ao desenvolverem ações que visam minimizar os problemas decorrentes da situação social do país, muitos podem até abrir novas perspectivas aos jovens para desenvolverem sua vida. Mas, ao trazerem a idéia da simples inclusão social, deixam lacunas ao não abordarem de forma crítica o conceito de inclusão social.

Como incluir os que já estão incluídos? Tendo em vista que a condição precária de vida das pessoas pobres é conseqüência da própria forma como a sociedade capitalista está estruturada e que este é um sistema que se fundamenta na desigualdade e exploração. Portanto, os excluídos estão incluídos no local que lhes foram atribuídos por esse sistema.

Segundo José de Souza Martins:

“A sociedade capitalista desenraiza, exclui, para incluir, incluir de outro modo, segundo suas próprias regras, segundo sua própria lógica. O problema está justamente na inclusão”.

Concordo com Souza Martins, ao afirmar que a tônica da sociedade capitalista é a degradação dos pobres que já estão incluídos na estrutura da sociedade. A problemática se dá, inclusão precária e degradante.

O narcotráfico talvez possa servir de exemplo: um jovem que presta serviços ao narcotráfico para ganhar a vida, não são excluídos: eles são incluídos como delinqüentes, ou seja, como pessoas que estão no mercado possível de um sociedade excludente que é essa. Eles se integram economicamente, mas se desintegram moral e socialmente.

É nessa inclusão perniciosa que devemos focar, ao desenvolver trabalhos, a crititicidade, pois ao meu ver essa idéia de que precisamos “incluir para a cidadania” na perspectiva de melhorar a vida das pessoas para que estas se enquadrem na sociedade, está carregada de ideologia (no sentido de mascarar a realidade).

A ideologia que cria a esperança de inclusão de todos na sociedade “sustentável”, de forma econômica e moral. Porém, a sociedade capitalista recria continuamente novas modalidades de exclusão, para as quais também cria novos meios de inclusão.

Para não alongarmos mais essa polêmica questão, cito Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido:

Como marginalizados, “seres fora de”ou “à margem de”, a solução para eles estaria em que fossem “integrados”, “incorporados” à sociedade sadia de onde um dia eles partiram, renunciando, como trânsfugas, a uma vida feliz...

Na verdade, porém, os chamados marginalizados, que são os oprimidos, jamais estiveram fora de. Sempre estiveram dentro de. Dentro da estrutura que os transforma em “seres para o outro”. Sua solução, pois, não está em “integrar-se”, em “incorporar-se”a esta estrutura que os oprime, mas em transformá-la para que possam fazer-se “seres para si.

Da liberdade assistida e o movimento Hip Hop


A liberdade assistida que é uma das medidas sócio educativas previstas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente aplicada à jovens entre doze e dezoito anos de idade em conflito com a lei, se mostra interessante no ponto que tange ao acompanhamento, auxílio e orientação a jovem. Não tendo somente o caráter punitivo e repreensivo, mas possibilitando ações que auxiliem na reeducação do jovem.

É neste ponto que o Movimento Hip Hop tem uma contribuição no desenvolvimento dessas atividades. É um movimento de grande aceitação e identificação entre os jovens negros e pobres, com quem desenvolvemos nosso trabalho.

É um movimento que desde suas origens se coloca de forma contestadora e assumido caráter de “resistência” dos jovens moradores de periferia.

Trata de temas que fazem parte do cotidiano desses jovens como a violência, o crime, o desemprego e racismo, entre outras coisas. Além disso tudo,o movimento Hip Hop aborda outras questões políticas mais gerais, criando polêmicas ao utilizar em suas letras uma linguagem coloquial e repleta de gírias.

Aborda também a identidade racial e de classe, e é aí que o projeto envolvendo os jovens em liberdade assistida e o Hip Hop tem seu principal papel: partindo da própria realidade dos jovens, da qual o Hip Hop muitas vezes já faz parte, relacionar a questão da identidade racial e de classe com a situação que eles enfrentam em decorrência da estruturação da sociedade.

É através do Grafite, do Break e do Rap, que são componentes do movimento Hip Hop, que pensamos contribuir no estímulo à auto-valorização, leitura e solidariedade.

Com a arte do Grafite, com a contestação através da dança do Break e a rebeldia e informação do Rap, tentaremos construir com os jovens um ponto de interrogação em uma série de valores, inclusive o valor do crime.

Há uma passagem de Paulo Freire que acredito ser ilustrativa:

“Quem melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de um sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação que não chegarão pelo acaso, mas pela práxis de sua busca, pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela . Luta que, pela finalidade que lhe derem os oprimidos, será um ato de amor, com o qual se oporão ao desamor contido na violência dos opressores, até mesmo quando revestida da falsa generosidade”.


Utilizando O Hip Hop pretendemos seguir algo já dito pelo poeta Solano Trindade:

“Prefiro levar ao meu povo uma mensagem, em linguagem simples, em vez de uma mensagem cifrada para um grupo de intelectuais”.

Que também se expressa nesse poema:

F. da P.
Amor
Um dia farei um poema
como tu queres
dicionário ao lado
um livro de vocabulário
um tratado de métricas
um tratado de rimas
terei todo o cuidado
com os meus versos
Não falarei de negros
De revolução
De nada
Que fale do povo
Serei totalmente apolítico
No versejar
Falarei constritamente de Deus
Do presidente da República
Como poderes absolutos dos homens
Neste dia amor
Serei um grande F. da P.


Referências bibliográficas:

Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente/SP,ECA-Estatuto da Criança e do Adolescente 13anos
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 19a edição Rio de Janeiro, Paz e Terra,1987.
MARTINS, José de Souza. Exclusão Social e a Nova Desigualdade,São Paulo, Paulus, 1997.
TRINDADE, Solano. Cantares do meu Povo. São Paulo, Brasiliense,1981.

 

 
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