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  O BILINGÜISMO KADIWÉU – PORTUGUÊS: INFLUÊNCIA E TROCAS.

Constance Maria Lago Santana Dos Santos

Dentre as várias etnias existentes no Brasil “nove pertencem ao estado do Mato Grosso do Sul. "São elas: Atikum, Guarani-Kaiowá, Guarani-Ñandeva, Guató, Kadiwéu, Kamba, Kinikinau, Ofaié e Terena. “(José da Silva, 2003). Neste trabalho tratarei especificamente do linguajar dos Kadiwéu e da forma como conduzem o uso cotidiano dos idiomas Kadiwéu e Português em suas vidas, apresentando assim, situações de Bilingüismo. Falo da experiência vivida atualmente na Escola Municipal Indígena “Ejiwajegi-Pólo”, à RESERVA INDÍGENA KADIWÉU, no município de Porto Murtinho, onde tenho contato com uma comunidade escolar de 167 alunos de um total de 1.300 indivíduos residentes nesta aldeia (MANGOLIM, 1993). A RESERVA INDÍGENA RADIWÉU, possui aproximadamente 538.536ha divididos entre cinco aldeias que são: Barro Preto, Bodoquena, Campina, São João e Tomázia. A referida escola fica na Aldeia Bodoquena.

O idioma Kadiwéu pertence à família Lingüística Guaikuru e seu espaço geográfico é o Gran Chaco Paraguaio. A este respeito diz o Historiador Giovani José da Silva, em sua Dissertação de Mestrado.

“A palavra Chaco é de origem Quíchua e significa campo de caça. O território conhecido como Gran Chaco, cuja característica topográfica dominante é a planície, abrange cerca de 700.000 km2, distribuídos entre Paraguai, Bolívia e Argentina. Geograficamente, o Chaco é uma vasta planície circundada por montanhas subandinas a oeste, pelas serras e morros baixos ao final do maciço central brasileiros (...) De maneira geral, o Chaco é uma região seca, sendo que a ocupação humana foi facilitada pela presença de lagoas e canais que abundantemente irrigam a região (...) Segundo Susnik (1978), a classificação das populações da área chaquenha desenvolveu-se a partir de condicionantes lingüísticos, indicativo considerado mais eficiente para identificar e classificar a complexidade dos grupos que habitavam a região”.

Sabendo-se que o Brasil é um país de muitas línguas, pois neste Estado não se fala somente o português derivado do latim, principalmente por haver povos e culturas diversificados. Os imigrantes que aqui residem vêm de todas as partes do mundo e seus descendentes brasileiros utilizam-se também de línguas como o inglês, o árabe e o italiano por exemplo, e, mesmo as pessoas portadoras de necessidades especiais como as surdas têm sua língua própria: a de sinais. Isto sem contar o fato de que, aqui, também são faladas cerca de 180 línguas indígenas por indivíduos veramente brasileiros. Temos então, o português, considerado língua oficial e por conseqüência, majoritária e, mais especificamente falando, as línguas indígenas, consideradas línguas nacionais e minoritárias. Donde se concluí que, apesar de haver em nosso país grupos monolíngues em língua indígena há, também respectivas comunidades que possuem contato diário com duas ou mais línguas, ou seja, são bilíngües, ou multilingües, pois o aparecimento do Bilingüismo se dá ao fato de a pessoa aprender e apreender a utilizar-se de duas línguas simultaneamente, ou seja, é “o uso regular de duas ou mais línguas”. (GROSJEAN, 1982). Segundo Heloísa Mello “várias são as definições de Bilingüismo sugeridas por lingüístas e outros pesquisadores. Entretanto, todas elas estão sujeitas a algum tipo de crítica porque parecem, até certo ponto, arbitrárias, limitadas e imprecisas".

A criança Kadiwéu adquire seu próprio idioma (L1) e português (L2) imersa num contexto social e situacional natural, como no contato diário com seus pais, parentes e outras crianças, aprendendo tudo através da interação com o outro e apresenta-se como bilíngüe, adquirindo as duas línguas simultaneamente ou, primeiro uma, depois outra. Ao chegar à escola, encontramos crianças falantes apenas de seu idioma, enquanto outras poucas trazem o português como sua primeira e única língua, porque, nos dias atuais, alguns pais julgam “desnecessário” ensinar as duas línguas, por acreditar que seu filho precisará fazer uso apenas da língua portuguesa para que, anos mais tarde, ao sair da aldeia, não seja rechaçado por onde quer que ela vá. Algumas dificuldades à nível alfabetizador são aí notadas, por exemplo: o alfabeto Kadiwéu não utiliza a letra “u”. Há então, uma confusão mental. Ao se tentar falar ou escrever a palavras tudo, a criança pronuncia todo e enrosca várias vezes até conseguir efetivar esta diferença em sua cabeça.

Existem ainda, neste lugar, os casamentos inter étnicos, como por exemplo: pai Kadiwéu e mãe Terena; pai Kadiwéu e mãe não-índia, pai Kinikinau e mãe não-índia; pai Terena e mãe Kadiwéu. Geralmente, nestes relacionamentos, os pais são bilíngües e há casos em que optam por ensinar a seus filhos as duas línguas (L1 e L2), mas, observa-se ainda lares em que apenas o português é utilizado como língua principal, ou seja, onde os pais são de etnia diferenciada e resolvem não ensinar o idioma Kadiwéu para suas crianças.

Ao serem questionadas sobre o porque não falam seu próprio idioma e, são, monolíngues em português, três alunas adolescentes e irmãs respondem de maneira aparentemente natural: porque nossos pais nunca falaram conosco no idioma, conversam apenas entre si. As garotas vivem assim um estado de conflito interior constante .

Percebe-se que os pais que não ensinam Kadiwéu geralmente são pessoas mais simples e acreditam que vivem muitas dificuldades por não terem estudado, mas há ainda casos nos quais os genitores conduzem uma certa leitura de mundo, não sendo, pessoas totalmente ignorantes ou analfabetas, ao contrário, contam com um certo poder aquisitivo, possuem televisão, são leitores de jornais, não são alienadas, o que, talvez tenha ocasionado esta situação de mudança total na vida dos filhos, através da aquisição da língua. Neste caso, os pais o fizeram por crer que a escola da aldeia demandava um “ensino fraco”.

Já em sala de aula encontramos mais ou menos 90% de alunos bilíngües e, que, sem cerimônia alguma fazem uso da Língua Portuguesa e do Kadiwéu naturalmente, rapidamente, automaticamente, sempre que a necessidade advém. Nestes momentos percebe-se que os educandos usam o “triggering”, ou seja, a mudança repentina do idioma se o mesmo não souber uma palavra em uma das línguas.

Vê-se que “(...), a Língua Portuguesa pode ser, para os povos indígenas, um instrumento de defesa de seus direitos legais, econômicos e políticos; um meio para ampliar o seu conhecimento e o da humanidade; um recurso para serem reconhecidos e respeitados, nacional e internacionalmente, importante para se relacionarem entre si e para firmarem posições políticas comuns". (RCNEI, 1998) Constata-se que, para os Kadiwéu, a Língua Portuguesa funciona apenas como este instrumento de defesa acima citado e que, seu próprio idioma, em várias situações exerce o papel de “arma”, pois, mesmo em sala de aula e, confiando na pessoa do educador que está à frente, conversam em Kadiwéu sempre que desejado, sem cerimônia alguma.

Há, no idioma Kadiwéu, outro aspecto a ser verificado: a perspectiva da diglossia, onde “duas variedades de uma língua coexistem numa mesma comunidade, desempenhando um papel definido” (FERGUSON, 1964).

Entre os Kadiwéu “há variações nas falas masculina e feminina, que devem ser levadas em consideração nos processos de alfabetização". (JOSÉ DA SILVA, 2003) O que se comprova é que este aspecto do uso da língua acontece naturalmente na aldeia, pois se um indivíduo do sexo masculino faz uso de determinada palavra pertencente ao universo de vocábulos do sexo feminino, ou vice-e-versa, será motivo de chacota automaticamente esteja ele onde estiver, em sala de aula, em suas casas ou em uma reunião da comunidade. Observa-se que este ensino ocorre assim que os mesmos, menina ou menino, dão início ao conhecimento de suas primeiras palavras.

Esta variação não acontece somente na diversidade do universo masculino e feminino, mas sim, em casos da utilização de número dos substantivos, por exemplo, quando se utilizar uma palavra no singular: homem: aginaga faz-se uso de outra palavra ao passar para o plural: homens: aginadi. Constata-se também, que existem vocábulos em que não acontece esta variação. A palavra Elenigoi (lê-se elénigôi), (que significa, como vai? Está tudo bem com você?) faz parte do repertório dos universos feminino ou masculino. A idéia que aqui se concretiza é a de que o idioma Kadiwéu é diversificado no sentido de sua utilização.

“As relações socioeconômicas têm revelado aos grupos indígenas a necessidade de aprender a língua majoritária do país. Tornou-se necessário saber essa língua para compreender as normas do mercado de consumo, as relações de trabalho, as regras de escoamento de produção e as negociações de forma geral, diminuindo, dessa maneira, o desequilíbrio que se verifica, nessas situações, pelo pouco domínio da língua oficial. O conhecimento da Língua Portuguesa permite que as populações indígenas conheçam o funcionamento da sociedade envolvente e, ainda, que elas tenham acesso a informações e tecnológicas variadas". (RCNEI, 1998:121)

Os Kadiwéu entenderem que há esta necessidade de que fala o RCNEI, pois aprender a língua majoritária traz poder de construir negociações com o não-índio, no sentido de engrandecer e de obter louvores de forma bastante geral, resultando em bons lucros, tanto em nível pessoal e individual, como no coletivo.

Ainda há que se observar que “a língua é também a chave que nos permite conhecer todo o universo cultural de um povo (...) A língua, bem como a cultura, vão sendo moldados ao longo do tempo. (...) O conhecimento das línguas indígenas e (...) da experiência (...) acumulados pelos povos que as falam é de valor cultural e social inestimável”. (TEIXEIRA, 1995:293). Na comunidade da Aldeia Bodoquena, encontramos índios e índias mais velhos, com idade acima de 60 anos, que fazem parte da história-viva deste povo. Alguns deles falam um Kadiwéu arcaico que já não é mais pronunciado por indivíduos que estão abaixo da faixa etária dos 45 anos. Algumas senhoras idosas e monolíngues neste idioma cantam em dia de festa, num ritual alegre e belo e, logo após, explicam para os interessados, o significado da música. Estas senhoras carregam dentro de si este valor cultural e social que é de grande relevância para a comunidade.

Encerrando este trabalho, observo que, mais ou menos 90% dos alunos desta escola vivem diariamente situações de Bilingüismo, entendendo que o domínio tanto da Língua Indígena, quanto da Língua Portuguesa é uma necessidade, do contato interétnico, porque, através dele acessam um universo diferenciado, conhecem outras culturas, tornam-se poderosos para enfrentar situações abastadas de novidades, e sucessivamente, esta atitude ocasionará crescimento e evolução em sua comunidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAGGIO, Silva Lucia Bigongal – Contato entre Línguas: Subsídios para a Educação Escolar Indígina. Revista Museu Antropólogo. V.2, n°.s-p. 121-134, 1998

BRASIL, Ministério de Educação e Cultura

____________________. Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas, Brasília, 1998.

FERGUSON, C. A. Diglossia. In: HYMES, D. (ed.). Language in cultures and society: a reader in linguistics and anthropology. New York: Harper & Row, 1964.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 23. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

GROSJEAN, F. Life with two languages: na introduction to bilingualism. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1982.

JOSÉ DA SILVA, G. Do ponto de vista de não nativo: a natureza da educação intercultural e suas implicações antropológicas na escola indígena. Seminário Internacional Educação, Gênero e Movimentos Sociais, 2., Florianópolis, 2003a.

____________________. Enfrentando adversidades, respeitando a diversidade: a atuação da Coordenadoria de Políticas em Educação no âmbito da secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul. In: Seminário Internacional de Educação, 2., - Campinas, 2003b.

____________________. Práticas educativas interculturais: trilhas, atalhos e desvios nos difíceis caminhos da alteridade. Jornada de Educação de MS,1., Campo Grande, 2003c.

Alfabetização de jovens e adultos em Contexto multilingües e Interculturais: uma reflexão sobre duas experiências em Mato Grosso do Sul, Brasil. 2003

MANGOLIM, O. Povos indígenas no Mato Grosso do Sul: viveremos por mais 500 anos. Campo Grande: CIMI, 1993.

MELLO, H. A. B. de. O falar bilíngüe. Goiânia: UFG, 1999.

NASCIMENTO, A. C. Língua indígena na escola: recolonização ou autonomia? Série – Estudos. Periódicos do Mestrado em Educação da UCDB, n.15 (junho 2003). Campo Grande: UCDB, 2003.

NASCIMENTO, A. C.;. FREITAS, D. N. T, de; FEDATTO, N. A. O principio da equidade na educação básica brasileira: as particularidades da realidade educacional de Mato Grosso do Sul. In MARIN, J. R.; VASCONCELOS, C.A. de (orgs). Campo Grande, MS: Ed, UFMS, 2003.

 
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