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CARACTERÍSTICAS ESTRUTURAIS DO TEXTO ACADÊMICO EM PEDAGOGIA


Leandro Alves dos Santos

Tem-se observado, informalmente, que pessoas de áreas do conhecimento não vinculadas à licenciatura ou pedagogia costumam dizer que profissionais da educação: “falam...falam... mas não dizem nada”, “perdem tempo com discussões inúteis” ou ainda, “não conseguem aplicar sua teorias”. Essas idéias encontram-se implícitas no conteúdo dos textos científicos da área e no discurso dos professores.
Neste texto procura-se explicitar o resultado parcial de uma pesquisa descritivo-exploratória que objetiva investigar possíveis relações entre a estrutura dos textos lidos durante o processo de formação inicial do pedagogo e o discurso sobre a prática docente. Esta pesquisa privilegia, na análise dos dados, o enfoque qualitativo, tomam-se como referenciais para a análise do objeto proposto - a pessoa no discurso pedagógico - textos de professores de diferentes níveis e graus de ensino.
Para o cumprimento desse propósito, criou-se uma categoria de investigação baseada nos estudos de Fiorin sobre as categorias presentes na enunciação, e a partir daí procurou-se identificar nos textos investigados como uma dessas categorias - a de pessoa - se constitui no texto. Por fim, dos resultados parcialmente obtidos foram levantadas hipóteses como desdobramentos da pesquisa em questão.

DA ENUNCIAÇÃO À CATEGORIA DE PESSOA

A discurvilização implica uma relação entre enunciação e enunciado. A enunciação é o ato produtor do enunciado. “É essa colocação em funcionamento da língua por um ato individual de utilização”(Benveniste ,1974:80), é um ato da ordem do acontecimento, por isso não se reproduz idêntica a si mesma. Entretanto, vale ressaltar que a enunciação constitui um ato singular e como tal, não pode ser estudada como um objeto científico. O foco do estudo reverte-se então para o produto desta ação: o enunciado, o qual carrega em si traços e marcas da atividade enunciativa.
A enunciação, como aponta Fiorim, é o “ato pelo qual o sujeito faz ser o sentido”,e o enunciado “o objeto cujo sentido faz ser o sujeito”; ou seja, a enunciação é uma instância lingüística logicamente pressuposta pela própria existência do enunciado que comporta seus traços e marcas, através das operações de catálise (reconstituir o ato gerador do enunciado).
A enunciação é a instância constitutiva do enunciado, logo esta é pressuposta pela existência do próprio enunciado(que comporta seus traços e marcas). O enunciado carrega em si marcas que nos remetem à instância da enunciação, como: pronomes pessoais, demonstrativos, possessivos, adjetivos, advérbios, entre outros - elementos cuja ausência produz em texto enuncivo, eu seja, sem nenhuma marca de enunciação.
Essas marcas fundamentadas no enunciado através da enunciação nos remetem as categorias de pessoa, espaço e tempo instauradas através dos processos de debreagem e embreagem.
Estes processos ocorrem través da discurvilização, na qual certos termos ligados aos elementos constiuinte do encunciado(pessoa, espaço e tempo) são projetados para fora da instância da enunciação; a este processo denominamos debreagem. A embreagem, porém, é o movimento de retorno à enunciação, produzido pela neutralização da categoria de pessoa, assim como pela denegação da instância do enunciado.
Um dos elementos projetados para fora da enunciação é a categoria de pessoa, essencial para que a linguagem se torne discurso. Pode-se dizer, ainda, que esta categoria é principal constituinte do discurso, uma vez que as outras categorias, espaço e tempo, estão intimamente relacionadas a ela.
Como afirmou Beneviste: “na e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito, uma vez que, na verdade, só a linguagem funda, na sua realidade, que é a do ser, o conceito de ego” (Beneviste apud Fiorim 1996:41). Assim, a realidade é fundamentada pela subjetividade, ou seja, pela capacidade de o locutor pôr-se como sujeito; e esta, é determinada pelo estatuto lingüístico da pessoa.
A pessoa enuncia num determinado tempo e num determinado espaço, assim, todo tempo e todo espaço organizam-se em torno do sujeito, este é o ponto de referência pelo qual se instauram essas categorias.
A categoria de pessoa demarcada é, inicialmente, a que melhor se ajusta ao tipo de trabalho desenvolvido por, além das características abordadas a serem abordadas em seguida, ser uma categoria transparente e superficial no texto e de identificação precisa. A partir da identificação e da colocação das diferentes pessoas no discurso procurar-se-á, preliminarmente, investigar as possíveis relações entre a categoria estrutural de sujeito no discurso docente e a sua formação inicial.
Faz necessário, portanto explicitar algumas considerações, de acordo com Fiorin, sobre esta categoria:

- Oposição ele x (eu e tu)

As três pessoas no discurso não têm o mesmo estatuto; a terceira pessoa goza de uma situação especial em relação as outras duas. É sempre utilizada quando não se designa pessoa, quando a produção do fenômeno não está ligada a qualquer agente ou causa, é a expessão impessoal. Além disso, o “ele” pode ser uma infinidade de sujeitos ou então nenhum. Jamais é actante (categoria da sintagmática narrativa, os personagens podem atuar como sujeito, objeto, destinador, destinatário, opositor ou adjuvante) da enunciação. E é única com que qualquer coisa pode ser predicada verbalmente.
Em contrapartida, a primeira e a segunda pessoas são cada vez mais singulares e um implica a existência do outro. O eu existe por oposição ao tu, cada locutor coloca-se como sujeito remetendo a si mesmo como eu em seu discurso e atribuindo ao outro como tu. “A primeira pessoa, subjetiva, que se constitui a partir da segunda pessoa, não subjetiva” (Beneviste apud Fiorim 1996: 60).

- Os significados das pessoas:

A pluralização das pessoas do enunciado nem sempre significa a idéia de plural propriamente dita, em algumas pessoas ocorre uma amplificação ante uma simples adição de sujeitos. Assim, de acordo com Fiorin(1996:60) têm-se:

eu: quem fala, eu é quem diz eu;
tu: aquele com quem se fala, aquele a quem o eu diz tu, que por esse fato se torna o interlocutor;
ele: substituto pronominal de um grupo nominal, de que tira a referência, actante do enunciado, aquele de que eu e tu falam.
nós: não é uma multiplicação de objetos idênticos, mas a junção de um eu com um não-eu.
vós: plural de tu ou junção do tu a ele ou eles
eles: pluralização de ele.
Basicamente três conjuntos de morfemas servem para expressar pessoa: os pronomes pessoais retos (pessoa em função subjetiva) ou oblíquos(função complemento); os pronomes possessivos e as desinências número pessoais dos verbos.

RESULTADOS

Foram investigados cinqüenta textos de professores de diferentes níveis e graus de ensino. Verificou-se uma considerável oscilação na categoria de pessoa nos textos; principalmente entre a terceira pessoa do singular e a primeira pessoa do plural sobretudo o nós inclusivo. A utilização da terceira pessoa nos textos remete os discursos a uma impessoalidade do enunciador em relação ao enunciado. Esta impessoalidade ficou bastante aparente na argumentação que o enunciador utiliza para tratar da postura, obrigação,dever da instituição de ensino perante a uma determinada questão. Isto observa-se em: “A escola deve oferecer métodos de pesquisa e projetos para que o educador e educando adquiram conhecimentos mais eficazes.” e ainda: “ A escola deve ter claro qual o objetivo quer, o que pretende alcançar em relação ao mundo em que está inserida.”
Em contrapartida, a utilização da primeira pessoa do plural, na qual o enunciador se inclui e ainda inclui o enunciatário no discurso, evidencia-se nos textos quando o enunciador se coloca numa atitude passiva em relação à ação da instituição escolar, quer seja ela positiva quer seja positiva. Assim, temos: “Somos herdeiros da sistematização da educação pedagógica.”.
A oscilação entre as pessoas revela, aparentemente, ora uma inclusão do enunciador sobre algumas questões concernentes à escola, ora a ausência deste, evidenciada na impessoalidade do texto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS (DESDOBRAMENTOS)

Tendo em vista que a pesquisa ainda está em andamento preliminarmente, duas hipóteses podem ser levantadas, a partir desta investigação parcial. A primeira consiste na idéia de que estas características presentes nos textos produzidos pelos professores revelam uma possível influência dos textos acadêmicos no discurso dos docentes. A outra hipótese baseia-se na possibilidade que estas características parcialmente levantadas são estruturais do discurso pedagógico como um todo.

Referência bibliográfica

FIORIN, As Astúcias da enunciação: As categorias de pessoa, espaço e tempo. São Paulo: Ática, 1996.

 
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