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  LETRAMENTO E CONVERSÃO RELIGIOSA: UM ESTUDO DE CASO

Lêda Rodrigues dos Santos (FaE/UFMG) - Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Antônio Augusto Gomes Batista (CEALE/UFMG)

1. Introdução

O Brasil é o maior país católico do mundo. Entretanto, os católicos desde 1980 vêm perdendo sua supremacia. O Censo Demográfico de 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, revela que os católicos perdem 9,4 pontos percentuais enquanto os evangélicos crescem 6,6 pontos percentuais e o número de pessoas que se declaram pentecostais, sobe de 3,9 milhões em 1980 para 8,8 milhões em 1991 e 18 milhões em 2000. Mais que dobra a cada década, como afirma Romero (2003).

Os dados do IBGE (2000) mostram ainda que a religião é um importante fator na distribuição de alfabetização, sendo os espíritas os mais alfabetizados (96,7%). Dentre as denominações evangélicas, 91% dos de missão e 84,7% dos pentecostais são alfabetizados, em contraposição os percentuais de alfabetizados entre os católicos são menores: 83,6%.

Reconhece-se nos dados do IBGE (2000) que os evangélicos de missão têm em seu cotidiano práticas de leitura e escrita mais intensas que os pentecostais , ressaltando, sobretudo, terem estes últimos suas práticas mais voltadas para a oralidade o que chama a atenção para seu melhor desempenho quando comparados aos católicos.

Nesta perspectiva Ribeiro (2003) apresenta três níveis de alfabetismo, observados nos dados do INAF (2001) que faz um levantamento das habilidades e práticas relacionadas a leitura e escrita, realizado em uma amostra de 2000 pessoas entre 15 e 64 anos.

• Nível 1: Capacidade de localizar informações explícitas em textos muito curtos. Foram incluídas neste nível, questões que tiveram de 3 a 9 acertos, correspondendo a 31% dos entrevistados, que compõem a amostra do INAF.

• Nível 2: Neste nível estão incluídas 34% dos entrevistados que obtiveram entre 10 a 15 acertos em questões em que foram analisadas a capacidade de localizar informações em textos curtos, de extensão média, mesmo que a informação não apareça na mesma forma literal em que é mencionada na pergunta.

• Nível 3: 26% dos entrevistados obtiveram entre 16 a 20 acertos e demonstraram capacidade de ler textos mais longos, podendo orientar-se por subtítulos, localizar mais de uma informação de acordo com as condições estabelecidas. Além de relacionar textos, compará-los, realizar inferências e sínteses. E ainda 9% dos entrevistados que não responderam corretamente a nenhum ou a muito poucos itens, correspondendo a até dois itens do teste, estes indivíduos estão situados no nível de Analfabetismo absoluto.

Os dados do INAF (2001) foram analisados por Batista e Ribeiro (2003) na tentativa de compreender as relações entre pertença religiosa e o domínio das habilidades medidas, evidenciando que, por exemplo, os evangélicos tendem a alcançar níveis mais altos de alfabetismo quando comparados aos católicos, 29% contra 22% no nível 3 de alfabetismo.

Desse modo, “a prática religiosa, com efeito, parece ter um papel destacado no acesso à cultura escrita” embora “os dados existentes não permitem auxiliar a determinar os efeitos que a diferenciação do acesso à cultura escrita exercem sobre os indivíduos ou grupos, nem como eles vivenciam esses efeitos”. (BATISTA e RIBEIRO, 2003.p.25). Perspectiva que noreteia este projeto, descrito no próximo tópico.

2. metodologia:

A opção metodológica tomada neste estudo, refere-se a opção pela realização de um estudo de caso à medida em que os dados acima descritos não fornecem elementos para uma análise micro sociológica na escala do indivíduo, levando-se em conta que a escala de observação escolhida apóia-se nas afirmações de REVEL(1998) quando trata da explicação de fenômenos mais gerais como o crescimento do Estado e a formação da sociedade industrial atribuindo a escala micro a possibilidade de uma leitura diferente dependendo do nível de análise em que os fenômenos:

“ podem ser lidos em termos completamente diferentes se tentamos apreende-los por intermédio das estratégias individuais, das trajetórias biográficas, individuais ou familiares, dos homens que foram postos diante deles. Eles não se tornam por isso menos importantes. Mas são construídos de maneia diferente.” (p.13).

HÉBRARD (apud BATISTA, 2002), demonstra que “a investigação da trajetória individual de um sujeito fornece elementos que permitem apreender os modos de apropriação por estes indivíduos dos objetos escritos e suas redes de circulação”, assim como, compreender as redes de sociabilidades estabelecidas por estes indivíduos, destacando o papel fundamental da ocupação profissional no processo de apropriação e inserção na cultura escrita.

Nesta perspectiva, projeto busca compreender os fenômenos relacionados a inserção na cultura escrita e pertença religiosa imbrincados às relações estabelecidas pelo indivíduo investigado, levando-se em conta aspectos como: trajetória escolar individual e familiar, pertença social, gênero e raça será utilizado o conceito de configuração social em LAHIRE (1997) citando Norbet Elias definida como:

“Conjunto de elos que constituem uma ‘parte’ (mais ou menos grande) de realidade social concebida como uma rede de relações de interdependência humana.” (LAHIRE, 1997. p.39-40).

O comportamento dos membros da família do sujeito investigado não serão analisados de forma descontextualizada o que demanda da reconstituição da tessitura das interdependências já que:

O comportamento dos membros da família, na verdade, estão envolvidos num conjunto de estados de fatos, de dados cujos comportamentos práticos cotidianos não passa de tradução: traduzem o espaço potencial das reações possíveis em função do que existe em termos de inter-humanos.”(LAHIRE, 1997, p.73).

As disposições constitutivas das relações estabelecidas pelos sujeitos com a família, por meio dos modos e das representações transmitidas e da trajetória escolar dos pais que influencia a formação individual, coletiva e escolar dos filhos, podendo ser estes “herdeiros” ou não de um “capital cultural ” que pode existir no estado incorporado, ou seja, “sob a forma de disposições duráveis (...) sob a forma de bens culturais ou no estado institucionalizado na forma por exemplo do certificado escolar.

Entretanto, afirma Batista (2004) o “sucesso” de um não herdeiro não depende só de disposições mas principalmente da existência de “condições que permitem uma forte ruptura na linhagem familiar, inaugurando em seu seio, de maneira mais ou menos generalizada, novas potencialidades. (p.40)”. como se caracteriza o sujeito deste projeto.

Outro aspecto importante a ser observado é a intensificação das práticas de “letramento” conceito utilizado em um sentido mais amplo como "(...) o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como conseqüência de ter-se apropriado da escrita" (Soares, 1998, p. 18). A intensificação dessas práticas são apontadas por Batista e Ribeiro (2003) como principal característica nos resultados positivos obtidos pelos protestantes em relação aos católicos.

E ainda será utilizado em uma perspectiva étnico racial o termo negro em Gomes (1995), já que o indivíduo deste estudo se reconhece como “negro”, aqui utilizado não para diferencia-lo a partir de uma característica exterior mas sim na mesma perspectiva dos movimentos negros: “com o sentido de dar ressignificação ao papel do negro na construção do processo histórico (...) remetendo-o a uma origem racial, valorizando os atributos físicos e culturais.” (p.46).

Para tanto será realizado um estudo de caso, para reconstruir o percurso do indivíduo pesquisado, privilegiando sua inserção na cultura escrita. A entrevista será utilizada como principal instrumento de coleta de dados. Esses dados serão abordados por meio da análise de conteúdo e com base em estudos sociológicos e históricos sobre o letramento. Além de realizado a triangularização de dados entre o indivíduo investigado o pastor que o coordenou na Congregação Pentecostal e membros dessa mesma congregação.

4. o sujeito da pesquisa

E. é um pastor da Igreja Batista da Lagoinha. Uma Igreja Renovada . É o nono filho de uma família de onze irmãos, de tradição católica e de meios populares. Atualmente com trinta e cinco anos de idade mora em Contagem, município de Minas Gerais. Casado. Tem dois filhos. T. com sete anos de idade e D. com oito anos.

De acordo com E. seus pais não concluíram o ensino fundamental; sua mãe cursou o segundo ano e seu pai o terceiro ano. No ano de 1977 data de seu sétimo aniversário é também o ano de falecimento de seu pai acometido de cirrose por uso de bebida. O sustento da família e a formação no ensino fundamental de seus dez irmãos para a ser assegurado pelo irmão mais velho, na época, gari no Serviço de Limpeza Urbana (SLU/MG).

Aos quatorze anos sob a orientação de sua mãe católica, carismática, praticante E. fez catecismo e a primeira comunhão, além de concluir o ensino fundamental. Com esta mesma idade converteu-se ao protestantismo em uma Igreja Pentecostal, permanecendo ainda pelo período de um ano entre o catolicismo e o protestantismo e começou a trabalhar para ajudar financeiramente a família.

E. trabalhou por seis anos em uma multinacional como torneiro mecânico r seis anos como líder de segurança no Banco Central. Durante quinze anos sua trajetória profissional foi paralela a sua experiência religiosa na mesma Igreja Pentecostal onde havia se convertido.

Ao contrário de seus dez irmãos E. retoma seus estudos interrompidos já há quatro anos. Dos dezoito anos até os vinte e nove anos ininterruptamente E. faz cursos, oferecidos pela Igreja que têm como base o estudo bíblico ou teológico para o aprimoramento à formação religiosa, alternando-os com sua formação no ensino médio ofertado pela rede pública de ensino:

• fez uma média de sete cursos que tinham duração variada: semanas ou dias e eram direcionados ao aprimoramento à formação religiosa dos fiéis, sendo que em sua grande maioria a exigência de um nível de escolarização não era pré requisito para participação os mesmos;
• no período de quatro anos, concluiu p ensino médio em uma escola norma na rede pública de ensino;
• cursou quatro anos no Instituto Bíblico Pentecostal. Não certificado pelo MEC.

Há três anos, passou a fazer parte do ministério pastoral de uma Igreja Renovada - Igreja Batista da Lagoinha- onde é pastor em um núcleo, Igreja menor administrada pela Igreja de origem ou central. O núcleo no qual E. é pastor está localizado na região nordeste de Belo Horizonte.

3. Objetivos

Diante dos exposto este projeto procura descrever e analisar as relações entre as práticas de leitura e escrita realizadas pelo indivíduo e as demandas da Igreja Pentescostal na tentativa de compreender os modos como se deu sua inserção na cultura religiosa e na cultura escrita, assim como as disposições que contribuíram para assegurar essa inserção assim como suas relações na vida profissional, social e familiar.

Pretende também reconstituir as atividades de leitura e escrita; (realizadas na Igreja Pentecostal), Compreender a partir das expectativas explicitadas as relações entre trabalho e atividades de leitura e escrita e reconstituir e apreender o processo pelo qual foram transmitidos os saberes, práticas e disposições que propiciaram a inserção na cultura e escrita. Esta pesquisa em andamento não permite,ainda que sejam apresentados resultados.

Bibliografia:

¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬ALCÂNTARA, Maria de Lourdes Beldi de. Um outro olhar sobre o estudo das manifestações religiosas. In. Imaginário -USP. São Paulo. Religião, nº 8, pág.29-34, 2002.

BATISTA. Antônio Augusto Gomes et al. Entrando na cultura escrita: percursos individuais, familiares e sociais nos séculos XIX e XX. Projeto de Pesquisa Integrada. Belo Horizonte, julho de 2002. (mimeog.)

BATISTA, Antônio Augusto Gomes; RIBEIRO, Vera Masagão. Cultura escrita no Brasil: modos e condições de inserção.Belo Horizonte. 2004.

GAETA, Maria Aparecida Junqueira Veiga. A pluralidade religiosa na história do Brasil: encontros e confrontos. In: História e Geografia IV. Organizadoras: Maria Umbelina Caiafa Salgado & Glaura Vasques de Miranda. Coleção Veredas: SEE-MG. módulo 6- vol1, Belo Hotirizonte, 2004, p. 53-87.

GOMES, Nilma Lino. A mulher negra que vi de perto: o processo de construção da identidade racial de professoras negras. Belo Horizonte: 1995. 198p. (broch.)

HOFSTEE, Willem. Pequenos fatos e grandes questões. Pensamentos sobre método no estudo da religião. Imaginário - USP. São Paulo. Religião, nº 8, pág. 141-148, 2002.

IBGE. Censo demográfico 2000. CD.

LAHIRE, Bernard. Sucesso escolar nos meios populares: as razões do improvável. Editora Ática. São Paulo, 1997.

MENDONÇA, Antonio Gouveia de; VELASQUES FILHO, Prócoro. Introdução ao protestantismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1990.

NOGUEIRA, Maria Alice; CATANI, Afrânio. (org) Escritos de Educação. Petrópolis: Vozes, 1998.

ONG, Walter J. The orality of language. In: ONG, Walter J. Orality and literacy: the technologizing of the world. London: Methuen, 1982. p.5-15;31-77.

ORTIZ, Renato. Anotações sobre religião e globalização. Imaginário - USP. São Paulo. Religião, nº 8, pág. 69-94, 2002.

REVEL, Jacques. Jogos de escalas a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: FGV, 1998.

RIBEIRO, Vera Masagão. Letramento no Brasil. São Paulo. Global Editora, 2003.

SOARES, Magda Bexker. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

 
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