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  GÊNERO, TRABALHO E EDUCAÇÃO. ANÁLISE PRELIMINAR DA CONSTITUIÇÃO DO ESTUDO DE GÊNERO E SUA RELAÇÃO COM O CADERNOS DE PESQUISA DA FUNDAÇÃO CARLOS CHAGAS NA DÉCADA DE 1970

Vera Ribeiro dos Santos - Mestranda em História da Educação da USF (Universidade São Francisco)

Maria Gabriela S.M.C. Marinho - Orientadora

PROPOSTA DA PESQUISA: O Núcleo de Pesquisas sobre Gênero, da Fundação Carlos Chagas desde o início da publicação do periódico da instituição, Cadernos de Pesquisa, contribui com inúmeros artigos. Analisar a constituição de estudos de gênero e a relação com o Cadernos de Pesquisa é o objetivo desse trabalho. Inicialmente identifica-se o contexto do movimento feminista das décadas de 1960 e 1970 como articulador dos primeiros estudos sobre mulheres no Brasil, a organização das ciências sociais e a formação de centros de pesquisas. No segundo capítulo argumenta-se sobre “campo de pesquisa”, “comunidade científica” e a importância dos periódicos de divulgação científica. Em seguida, através de análise dos artigos publicados no periódico em questão, na década de 1970, observa-se a presença feminina no mercado de trabalho, com destaque para as diversas representações em torno da carreira do magistério, como um dos temas principais dos artigos publicados.

O processo de urbanização que se tornou mais intenso no Brasil a partir da década de 1950 acentuou a desigualdade da sociedade brasileira, gerando um pólo extremamente desenvolvido e moderno nos centros urbanos. Mantinha, por outro lado, grande parcela população que não tinha acesso aos benefícios do desenvolvimentismo e do crescimento econômico, localizada nas periferias das cidades e nas zonas rurais.

A implantação dos governos militares nos anos de 1960 cerceou as liberdades individuais, liberdades de associação e organização da sociedade civil como um todo. Sindicatos, partidos políticos, associações de classe foram fechados e colocados sob a tutela do Estado, a censura sobre os órgãos de imprensa foi estabelecida. Prisões e tortura foram métodos utilizados durante o endurecimento do regime, a partir de 1968.

Apesar do regime de exceção, a sociedade civil esboçou reação durante a década de 1970. Para Rosemberg, “Apesar desse arbítrio, principalmente a partir dos anos 70, foram emergindo nas grandes cidades, manifestações de organização da sociedade civil que tem agora como pólo aglutinador, o local de moradia.” (1984, p. 76).

O movimento feminista - que teve início na década de 1960 -expandiu-se na década de 1970 e adentrou a década de 1980, marcado pela luta para recuperação dos direitos civis. Incorporou a luta política sob a bandeira da redução do custo de vida, demanda por creches, questionando também o arrocho salarial. (BLAY, 1988).

Para Sarti (1988, p. 39) o movimento de mulheres encontrou nas camadas médias urbanas campo fértil para propor mudanças de comportamento e mudanças ideológicas.

Ecoou enquanto uma proposta radical de politizar o privado, repensar e reinventar as relações mais fundamentais, na família, no dia-a-dia, nos hábitos mais naturalizados. Mas desenvolveu-se segundo as circunstâncias próprias procurando considerar a heterogeneidade da situação da mulher brasileira (SARTI, 1988, p.39).

O movimento feminista da década de 1970 pleiteava melhor distribuição dos equipamentos de infra-estrutura e bem estar urbano que pudessem significar melhoria na qualidade de vida. Questionava o Estado e sua função social de promotor do bem-estar social, isto é, o responsável por criar programas de creches populares, escolas, oferta de saúde para a população.

O Movimento de Mulheres desenvolveu-se aliado às camadas médias urbanas e aos movimentos populares. As mulheres das camadas médias urbanas reivindicavam direitos feministas enquanto que as mulheres das camadas mais baixas pleiteavam os serviços públicos que significassem melhoria na qualidade de vida. No entanto, o ponto de convergências dessas mulheres estava relacionado a lutas pelos direitos civis que uniu mulheres de diferentes classes sociais.

A primeira pauta de reivindicação relacionava-se ao mundo do trabalho, ou seja, problemas específicos das mulheres trabalhadoras, com estreita relação com a esquerda marxista.

Nesse período surgiram Grupos de Mães (vinculados a Igreja Católica) e diversas associações como Associações de Amigos de Bairros. As mulheres tinham participação ativa nestes agrupamentos. O exílio a que foram submetidas algumas mulheres e líderes do movimento feminista possibilitou o encontro com outras feministas européias e norte-americanas.

Fazem parte do movimento de mulheres tanto os agrupamentos femininos que ainda não se colocam a questão da própria emancipação e cuja origem se prende a reivindicações gerais, quanto os grupos feministas que se constituem em função desses objetivos de emancipação, a partir de concepções que nem sempre se assemelham (ROSEMBERG, 1984, p. 76).

O ano de 1975 se tornou um marco, pois representou o início de uma mobilização política mais intensa, no qual a questão da democratização da sociedade brasileira se sobrepôs a assuntos específicos das mulheres. Entretanto, dentro deste universo, prevaleceram assuntos referente às mulheres trabalhadoras, em detrimento dos temas relacionados a outros setores de mulheres (COSTA, BARROSO e SARTI, 1985, p. 06).

Segundo Blay (1988), tratava-se de um processo de dessacralização da família, provocando debates sobre o privado, permitindo que as discussões sobre a vida doméstica tornam-se alvo de debate. O movimento feminista provocou uma revisão nos conceitos do corpo, nas relações de gênero e na participação na vida pública.

Embora o movimento feminista da década de 1970 mantivesse uma diversidade, a unidade permaneceu, principalmente pela luta contra o autoritarismo. Havia perspectivas e motivações distintas, no entanto uma unidade característica da década de 1970 foi mantida. No final da década de 1970, com o avanço do programa de abertura política, o movimento feminista assume um discurso específico, onde a pauta de discussão passa a tratar das relações de gênero.

A unidade que existia nos anos de 1970 passa a se configurar como muito difícil de se manter, tendo em vista a grande diversidade de propostas dos diversos grupos femininos. Na pauta das reivindicações a temática da violência assume papel relevante com a formação de Centros de Defesa dos Direitos da Mulher e com as primeiras Delegacias da Mulher. O retorno das feministas exiladas no início dos anos de 1980 trouxe politização para os debates aumentando a tendência feminista no movimento de mulheres.

As primeiras mulheres que escreveram sobre a questão feminina no Brasil estavam ligadas ao movimento feminista. Esses escritos sobre mulheres na segunda metade da década de 1970 foram determinados por um:

(...) esforço de dar visibilidade à mulher como agente social e histórico, como sujeito, pelo empenho em desvendar sua opressão e demonstrar que uma abordagem destas questões é pertinente, traz contribuições importantes ao entendimento da sociedade; busca legitimar a mulher como objeto de estudo (COSTA, BARROSO E SARTI, 1985, p. 6).

Os anos de 1980 marcaram uma mudança significativa na trajetória do movimento de mulheres esvaziando os grupos que tinham como bandeira o combate à opressão feminina e permitindo a organização de grupos em torno de uma política de estudos sobre a mulher. Organizaram-se centros de pesquisa com esse tema, principalmente na área das ciências humanas. Foram criados centros de estudos junto a universidades, e a industria editorial viu explodir diversas publicações com o tema mulher e relações de gênero. (SARTI, 1988, p. 44).

Quem assumiu a responsabilidade de escrever neste período, segundo Costa, Barroso e Sarti (1985), estava sob o crivo de dois lados: de um lado a comunidade acadêmica e as agências de financiamento que constantemente exigiam provas que a produção era científica e não se restringia a denúncia militante e do outro lado, para as militantes feministas era necessário provar que a produção referia-se a empenho de causa e não um processo de construção pessoal.

Com o processo de abertura política dos anos finais da década de 1970 foi possível criar outros espaços de discussões políticas de interesse geral, colocando na pauta de debates novas inquietações tais como situação de classe das mulheres, bem como trabalho doméstico.

O que favoreceu legitimação para uma problemática científica relativa a mulher e posteriormente ao gênero foram os movimentos sociais das mulheres. Para COSTA “o emergir de uma nova área de estudos tem no feminismo um parâmetro simbólico” (1988, p. 64). Para esta autora a produção de escritos sobre mulheres no período de 1975 a 1985 correspondeu à necessidade “de recuperar a presença das mulheres na história do mundo social e da suplantar o viés sexual imperante nas diferentes abordagens” (1988, p.64).

A década de 1970 iniciou-se pelo fracasso da luta armada. A derrota deixa marcas em toda parte, gerando um clima de desalento e de impotência. Em entrevista a Costa duas mulheres (Walnice e Iara) descrevem esse período: “Aliás, acho que em 72,73 não tinha mais nada, tinham matado todo mundo. Acabou... sobrou alguma coisa? Nada mesmo. Não gosto nem de lembrar, sinto um horror” (1988, p.65).

A luta das mulheres na década de 1970 se constituiu em um modelo de movimentação social com característica de questionamento da ação estatal, ou seja, na distribuição de bens de consumo coletivo. Os anos de 1980 marcaram uma mudança significativa na trajetória do movimento de mulheres esvaziando os grupos que tinham como bandeira o combate à opressão feminina e permitindo a organização de grupos em torno de uma política de estudos sobre a mulher. Organizaram-se centros de pesquisa com esse tema, principalmente na área das ciências humanas. Foram criados centros de estudos junto a universidades, e a industria editorial viu explodir diversas publicações com o tema mulher e relações de gênero. (SARTI, 1988, p. 44).

A consolidação do movimento feminista deu-se a partir do ano de 1978 no quadro das forças políticas no país. Os grupos feministas aumentam significativamente por todo o país, penetrando nas associações profissionais, partidos e sindicatos, reconhecendo a mulher como sujeito social. Para SARTI (1988), o momento de expansão do movimento feminista foi também o momento de explicitação das contradições e dos conflitos internos e com isto a dificuldade de manter a unidade no movimento das mulheres.

A comunidade científica do país também sofreu com o regime de exceção instaurado a partir de 1964, com fechamento ou esgotamento de muitas instituições e o afastamento de uma parte dos cientistas sociais. Este é o contexto onde novas instituições e novos programas de pesquisas foram criados, formados por gerações mais jovens. Este movimento ganhou corpo nos últimos anos da década de 1960, dentro do quadro de expansão do sistema educacional e da pesquisa pós-graduada no país.

Centros de Pesquisa.

Na década de 1960 e 1970 foram formados centros de estudos e pesquisas em História, Política e Ciências Sociais no Brasil com investimentos de fundações estrangeiras, principalmente norte-americanas. Dentre os diversos centros de pesquisa criados nesse período, podemos citar como os mais significativos o IUPERJ (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), CPDOC (Centro de Pesquisas e Documentação de História Contemporânea do Brasil) e a Fundação Carlos Chagas.

A Fundação Carlos Chagas (FCC) é uma entidade de direito privado reconhecida como de utilidade pública, tanto no âmbito federal, como estadual e municipal. Entidade criada em 1964 como órgão especializado em exames vestibulares principalmente para a área biomédica. Em 1968 passa a prestar serviços no processo de seleção (concursos) em todo o território nacional, tanto para empresas privadas quanto para órgãos públicos.

Em 1968 a FCC passou atuar no campo da pesquisa educacional, tendo como base de análise os resultados dos exames de seleção e educacionais, nas informações sócio-econômicas e educacionais dos questionários que precediam a prova dos exames. Em 1971 constituiu-se o Departamento de Pesquisas Educacionais (DPE), que passou a desenvolver projetos de pesquisa, na área de políticas de alfabetização e do ensino de 1º e 2º grau, educação da criança de 0 a 6 anos , trabalho, educação, gênero, infância. O resultado destas pesquisas seria publicado nos Cadernos de Pesquisa. Existe uma intensa colaboração entre os pesquisadores da FCC com outros órgãos de pesquisa no país, o que garante troca permanente de informação.

Cadernos de Pesquisa da Fundação Carlos Chagas.

O Cadernos de Pesquisa é publicado desde 1971 sem nenhuma interrupção, primeiramente de forma trimestral até o último trimestre de 1996 (número 99), tornando-se quadrimestral a partir de 1997 (número 100). De 1979 a 1998 foram co-editados pela Cortez Editora e a partir de 1999 editados pela Editora Autores Associados responsável pela comercialização do periódico. O corpo de leitores das publicações da Fundação Carlos Chagas é formado por pesquisadores, estudiosos, professores e estudantes de graduação, pós-graduação, ainda atingindo gestores de políticas públicas e educacionais, segundo pesquisa da própria instituição.

Desde a primeira edição, ou seja, de 1971 até o último quadrimestre de 2000 o Cadernos de Pesquisa da FCC publicou mais de 750 artigos sobre os mais diversos temas referente ao debate educacional.

A historiografia e a escrita sobre mulheres.

A história das mulheres apareceu como campo definível nas últimas décadas do século XX, conforme afirma Scott (1992). Para se referir ao fenômeno do esforço de trazer a tona à participação feminina no concurso da história.Scott (1992) chama de “movimento”, com o intuito de distinguir a ação atual de escrita das tentativas anteriores de escrever sobre as mulheres.

A origem dos escritos femininos está relacionada aos movimentos feministas da década de 1960, quando “as ativistas feministas reivindicavam uma história que estabelecesse heroínas, prova da atuação das mulheres, e também explicações sobre a opressão e inspiração para a ação” (Scott, 1992 p. 64). Essa tendência aponta para uma aproximação entre política e intelectualidade.

A historiografia das últimas décadas do século XX trouxe à tona homens e mulheres que estavam a margem do poder, tais como, operários, mulheres e crianças, abrindo espaços para uma história ampla, enquanto homens, mulheres e crianças possam se enxergar e se perceber enquanto sujeito histórico (BURKE, 1997).

Segundo a historiadora Maria Odila Silva Dias:

(...) a percepção de processos históricos diferentes, simultâneos, a relatividade das dimensões históricas, do tempo, do espaço, progresso e a evolução, diversificaram os focos de atenção dos historiadores, antes resistentes ao processo de acumulação de riquezas, do poder e à história política institucional (DIAS, 1988, p.14)

O que possibilita às classes dominadas sobreviverem dentro dessa estrutura e a reação cotidiana que subverte a ordem estabelecida, embora não seja de forma duradoura. Para De Certeau (2003) os grupos subalternos reagem (consciente ou inconscientemente) aos processos de dominação. É uma grande teia de papéis sociais informais, intermediações e sutilezas, de resistência, de luta, de contestação, de improvisação. Buscar a contribuição dos grupos sociais afastados do poder implica em reconstruir as múltiplas formas de organização de sobrevivência e de resistência. O espaço social desses grupos é o espaço entre a esfera pública e a esfera privada.

Os primeiros escritos sobre as mulheres pelos historiadores sociais supunham as mesmas como parte de uma categoria homogênea e universal. Descreviam as mulheres como biologicamente femininas mesmo estando em contextos diferentes. Enquanto mulheres possuíam uma mesma identidade, uma mesma essência, desconsiderando o processo histórico de construção dessas mulheres (AGUIAR, 1997).

Esta forma de caracterizar a mulher como uma identidade universal foi amplamente usada pelo movimento feminista, firmando o antagonismo entre homem e mulher. No final da década de 1980, com o desenvolvimento dos estudos culturais sobre as “diferenças“, os historiadores passaram a refletir sobre a impossibilidade de se construir uma categoria universal de mulher, ficando claro a impossibilidade de se estabelecer uma identidade comum.

Contrapondo-se a esta mulher vitimizada emergiu a idéia da mulher rebelde. Estudo que possibilite superar a dicotomia entre a vitimização ou a rebeldia feminina é necessário para que se possa escrever uma história que abarque as diversas dimensões de sua experiência histórica. Para Soihet(1977), o interesse crescente pela mulher como sujeito histórico deve-se a dois fatos contemporâneos, ou sejam, o movimento feminista e a preocupação com a desconstrução das representações em relação à mulher.

Entre meados e o final da década de 1970 a escrita da história das mulheres ampliou seu campo de questionamento, documentando todas os aspectos da vida das mulheres. Para Scott com a ampliação dos olhares a história das mulheres afastou-se da política e ganhando contorno da construção de um novo campo de saber, principalmente pela emergência de autoridades intelectuais reconhecidas. (SCOTT, 1997, p.64).

A década de 1980 o referencial de análise dos escritos sobre mulheres passa a ser o conceito de gênero, afastando definitivamente da política, conquistando seu próprio espaço dentro da produção acadêmica. A construção do campo de estudos sobre mulheres segue a seguinte trajetória, ou seja, “uma evolução do feminismo para as mulheres e daí para o gênero, ou seja, da política para a história especializada e daí para a análise” (SCOTT, 1997, p. 65)

Segundo Piscitelli (1999, p. 49) o conceito de gênero que está sendo usado no Brasil como instrumento de análise para os estudos sobre mulheres ou de mulheres constitui um avanço teórico importante. O conceito de gênero se firma contrapondo-se ao conceito de sexo. No final da década de 1980 a distinção entre natureza e cultura se faz presente na pauta dos estudos sobre e de mulheres, se contrapondo a explicações universais.

A partir do final da década de 1970 o conceito de gênero é usado para questionar a diferença sexual. Os estudos sobre gênero demonstram a necessidade de rejeitar o caráter fixo e permanente de oposição de mulher x homem (feminino x masculino). Segundo Scott (1991, p.03) existe um desafio teórico, ou seja, análise não só das relações entre experiências masculinas e femininas no passado, mas também relativas à ligação da história do passado e às práticas históricas atuais. Para esta historiadora, gênero é um elemento constituinte das relações sociais percebidas a partir das diferenças entre os sexos, e ao mesmo tempo uma forma de significar as relações sociais de poder. Para Soihet (1999, p.103): “As mudanças na organização das relações sociais correspondem sempre a mudanças nas representações de poder, mas a direção da mudança não segue necessariamente um sentido único”.

Sohiet argumenta que a noção de resistência é de fundamental importância para os estudos sobre mulheres, citando E. P. Thompson por seus trabalhos relativos ao cotidiano e as manifestações de resistência. O olhar sobre o cotidiano permite a reconstrução de experiências concretas das mulheres nas sociedades (1999, p.102).

Para Lauro (2001, p.478) homens e mulheres constroem de formas próprias e diversas suas identidades, muitas vezes em discordância às proposições sociais de seus tempos e nas relações sociais de poder, todos são, ainda que de modos diversos e desiguais, controlados e controladores, capazes de resistir e de submeter.

Artigos publicados no Cadernos de Pesquisa na década de 1970 sobre mulheres.

Nessa década, os artigos publicados no Cadernos de Pesquisa abordaram antagonismos entre papéis femininos e papéis masculinos, papéis sociais e papéis sexuais, divisão sexual do trabalho. Havia uma forte tendência para análise de dados quantitativos, cruzando elementos de classe, gênero e escolarização. Identificavam-se contradições do sistema capitalista, em especial o processo de proletarização de homens e mulheres. Analisavam as representações sociais construídas a partir da relação entre os sexos, questionando o caráter de vocação das profissões ditas femininas (sexismo das profissões), como o magistério. Incluíam os processos discriminatórios, confrontando diferenças biológicas, estereótipos culturais e processos históricos. Outro aspecto analisado nos estudos dessa década é o que contrapunha o espaço público (destinado ao homem) ao privado (destinado às mulheres).

Muitos dos estudos desta década (1970) foram produzidos por pesquisadoras com presença no movimento feminista, o que confere aos artigos um tom de denúncia que, ao mesmo tempo, sugerem posturas novas a serem tomadas pelas pessoas envolvidas. Isto pode ser observado no texto de Rosemberg, A mulher na Literatura Infanto Juvenil: revisão e perspectivas (1975), onde analisa a representação da mulher na literatura infanto-juvenil :

Os resultados são claros, coerentes. A responsabilidade é brutal.

As implicações destes resultados são bastante sérias: para os responsáveis pela produção (escritores, editores), para os educadores (pais, professores, pedagogos, bibliotecários) e para o psicólogo que estuda a aprendizagem de papéis sexuais.

São estudos que analisam a divisão sexual como categoria social, mostrando que os papéis destinados às mulheres e homens são produtos de construções históricas e, portanto produtos sociais, com uma base material concreta. A divisão sexual do trabalho estabeleceu tradições, ordenando tarefas femininas e masculinas. A referência para a falta de equilíbrio nas relações de trabalho manifesta-se na qualificação das tarefas e nos salários.

O mundo da casa (privado) é o lugar por excelência da mulher e a entrada na esfera pública é feita através do trabalho, nas profissões ditas femininas, marcadas pelas representações do feminino no cotidiano.

Essas representações do feminino presentes no cotidiano moldam a forma como a mulher é tratada no mundo do trabalho, quer seja pelos superiores, quer por sua própria percepção do real e das condições femininas. Tais representações moldam o fazer cotidiano do trabalho feminino, o tipo de trabalho que, por sua vez, determina a vida social como um todo. A escola como instância de reprodução dos papéis femininos também foi temática de estudo.

O aumento das mulheres nos cursos universitários a partir da década de 1970 também são temas dos pesquisadores. À medida que a mulher ocupa espaço nas universidades e escolhe algumas carreiras específicas, como magistério ou secretariado, por exemplo, acontece um rebaixamento salarial, e desvalorização dessas mesmas carreiras. Essas discussões sobre o público e o privado e sobre o mercado de trabalho permanecem como referência para os estudos que se desenvolveram na década de 1980.

Michel Apple (1988) insere nas discussões a questão da proletarização do magistério, discutindo classe e gênero e também os espaços de rebeldia em contraposição à fatalidade da submissão histórica pela qual as mulheres eram descritas. Para Apple há um nexo muito claro entre as funções de comando (para homens que exercem um papel de racionalizar o processo educativo) e as funções exercidas pelas mulheres dentro da educação – docência. Estabelece com esta dinâmica uma divisão sexual do trabalho dentro do sistema educacional.

Os artigos publicados na década de 1970 refletiram um momento significativo da sociedade brasileira em busca de espaço de abertura e de reivindicação na restituição dos direitos cíveis.

A temática trabalho nos artigos publicados no Cadernos de Pesquisa da FCC na década de 1970.

A participação de mulheres no mercado de trabalho é determinada, diferentemente do homem, por fatores restritos ao privado, ou seja, ela é determinada também por limitações de ordem familiar: crianças pequenas, ausência do companheiro e necessidade de ajudar em casa, etc. A ausência de mecanismos que possibilitem à mulher exercitar um trabalho extradomiciliar é definitiva na sua opção de trabalho. O aumento significativo de mulheres no mercado de trabalho na década de 1970 resultou, segundo Amado e Bruschini, “não apenas da necessidade econômica e das oportunidades oferecidas pelo mercado, em conjunturas específicas, mas também, em grande parte, das alterações demográficas, culturais e sociais que vêm ocorrendo”

Os baixos salários dos homens, a necessidade de ajudar a família economicamente, a possibilidade de aumentar a renda familiar são fatores que vêm contribuindo para a expansão feminina no mercado de trabalho.

Nos artigos publicados pelo Cadernos de Pesquisa da FCC a temática trabalho esteve presente ao longo da década de 1970, principalmente cruzando elementos referentes à educação e a inserção no mercado de trabalho.

Trabalho Feminino – Trabalho de Professora.

Diversas correntes argumentam que a vocação da mulher para o magistério é resultado de sua constituição biológica, uma vez que ela é dotada por natureza para cuidar e socializar crianças. Desde o século XIX o ensino primário foi direcionado para as professoras e é considerado como profissão feminina (AMADO e BRUSCHINI, 2001).

A partir da década de 1970, amplia-se a participação da mulher no mercado de trabalho e no magistério também, principalmente em outras esferas do ensino, como o secundário, resultado direto de sua entrada nas universidades. No entanto, esse aumento do contingente feminino no magistério não significou um aumento de mulheres em cargos de comando.

Para Apple (1987), existe uma estreita relação entre o acesso de grande número de mulheres a uma ocupação e a lenta transformação desta. Cai a remuneração, e passa-se a considerá-la de abaixa qualificação, portanto necessitando ser controlada externamente. De certa forma a caracterização das ações de uma profissão define e constrói uma definição de trabalho de mulher.

Esses fatores (salário menor, ideologia da vocação, possibilidade de conciliação do trabalho extradomiciliar com as atividades domésticas) foram determinantes para o processo de feminização do magistério. Segundo Amado e Bruschini, a profissão do magistério, até a década de 1930, era a única profissão respeitável para as mulheres. A partir da década de 1930 a escola normal passou a ser profissionalizante e para freqüentá-la era necessário ter o ginásio, o que melhorou consideravelmente a escolarização das mulheres. Na década de 1940 é dado o direito das mulheres de freqüentar os cursos de Filosofia e os demais cursos somente em 1953 (1988, p. 06).

Para Lauro (2000), a partir da década de 1960 modifica-se o discurso referente ao profissionalismo, ou seja, refere-se a tornar a ação do professorado mais eficaz e produtivo. Tal eficácia era sistematicamente cobrada pelos órgãos centrais.

A proletarização do magistério acontecia através da queda de salários e da organização do trabalho educacional nos moldes da organização fabril (separação entre os que fazem e os que planejam, os que decidem e os que executam). O intenso controle de qualidade pelos órgãos centrais fez com que um significativo quadro de professores se associasse a sindicatos e a incluir pautas de reivindicações salariais.

Como um contraponto às críticas a ideologia da “vocação”, Almeida (1996) nos leva a pensar na permanência das escolhas da mulher em relação ao mercado de trabalho, principalmente em relação ao magistério.

O estudo sobre mulheres e sua presença no magistério, adquire uma nova perspectiva, como aponta Antônio Nóvoa (1992), quando não se separa o eu pessoal e o eu profissional. Estabelecer esta relação abre possibilidades para investigar relações entre o eu pessoal e o eu profissional. Para Nóvoa, nessa perspectiva as professoras são sujeitos de suas histórias, protagonistas de sua prática e nessa ação “se instaura sua essência”.

Na mesma linha de raciocínio, ou seja, de perceber a professora enquanto sujeito histórico, Gatti (1996, p.88) argumenta que “o professor não é uma entidade abstrata, um protótipo idealizado como muitas vezes o vemos tratado na pesquisa, em textos reflexivos em educação, ou em documentos de políticas ou intervenções educacionais”. É preciso compreendê-las nas suas relações sociais, como sujeitos históricos inseridos num contexto social dado, num contexto de classe, num espaço cultural e nas limitações de seu trabalho, imposto, mormente pelo órgão centrais.

As pesquisas da década de 1970 demonstraram os mecanismos de subordinação e desvalorização do magistério e estabeleceram a estreita relação com o grande contingente feminino. No entanto, poucas mostraram alternativas concretas de superação dessa situação amplamente diagnosticada. Poucas reflexões teóricas estabeleceram relações diretas entre educação e a questão das mulheres, principalmente porque neste momento histórico a atuação do movimento feminista estava direcionada a demonstrar a subordinação feminina e o debate do privado X público (mundo doméstico x mundo do trabalho), que prevaleceu nas questões estudadas. No entanto, o grupo de pesquisa sobre gênero da Fundação Carlos Chagas, dado a sua própria natureza de pesquisa no campo educacional, procurou fazer esta ponte.

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