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  GUERRA X LIVRO

Luciana Savaget

Eu costumo abrir as minhas palestras, rendendo uma homenagem aos nossos não leitores. Que neste momento estão do outro lado do mundo. Como testemunhas involuntárias, mas do que isso, como vítimas inocentes de uma guerra. Que como toda guerra não tem sentido.
Se as crianças do Iraque, da Palestina, Israel, Afeganistão, do Paquistão, do Sudão ou melhor da África, Colômbia, e do Brasil....Tivessem tido a chance de sonhar, através de nós fazedores de sonhos, escritores infantis, essas guerras teriam certamente dificuldades em acontecer.
Assim como também não existiria essa guerra que está bem próxima de nós, nas ruas das grandes cidades, como na cidade em que vivo, o Rio de Janeiro. Se as crianças que hoje seguram metralhadoras, traficam e se prostituem também tivessem a oportunidade de sonhar conosco fazedores de sonhos, a violência poderia não existir. Por que a palavra é a poderosa arma. O dialogo faz refletir. A cultura e educação são fundamentais para dar uma vida digna as pessoas.
Por isso o nosso papel de escritores infantis e multiplicadores de incentivo a leitura, é muitas vezes mais importante do que podemos imaginar. Com a leitura exercitamos a palavra.
É claro que não depende só de nós, mas depende muito de nós vencermos essa luta do sonho que os livros nos trazem, contra a violência.
A palavra é uma poderosa arma contra a violência. Justamente aquelas que escolhemos tão cuidadosamente quando escrevemos nossas histórias, ou transcrevemos os nossos sonhos.
E é como escritores que nos sentimos mobilizados no Brasil, para combater a nossa guerra, que é tão violenta quanto à de qualquer pais.
O livro é a nossa poderosa arma. Porque é através deles que exercitamos o sonho, a fantasia.

“O Homem só envelhece quando os lamentos substituem os seus sonhos.” E nós escritores infantis, temos uma profissão especial somos “fazedores de sonhos.”
Desde pequena quando tive contato com os livros, as histórias começaram a me envolver. Quando eu li o conto de um poeta solitário que cruzou o deserto a procura da mulher dos seus sonhos, a de um gênio grande, de um olhos só que podia viajar no tempo e atender os nossos desejos impossíveis, de paraísos onde a tristeza não chega, de princesas felizes e infelizes, de tapetes mágicos... Me lembro até hoje a emoção que senti, ao ter certeza de que nós pessoas de carne e osso, também podíamos ir a lugares distantes, inalcançáveis, imagináveis que estão descritos nas páginas dos romances.
Os livros existem e passei a ter certeza de que podemos vivê-los intensamente. Eles ajudaram a minha formação profissional e agora, recentemente, lancei: Operação Resgate em Bagdá, que é fruto dessas minhas leituras da infância.
Quando foi deflagrada a guerra contra o Iraque, eu entrei em desespero, porque ninguém pensou, além das mortes, dos atentados, da destruição de uma cidade, estavam sendo destruidos os contos mágicos.
Na cidade de Bagdá nasceram os grandes personagens do livro As Mil e Uma Noites, como o famoso marujo, Simbad. Suas aventuras aconteciam nos Rios Tigre e Eufrates, Aladim nasceu em Bagdá, muitos dos “finais felizes” das histórias contadas por Sherazade, terminam naquela cidade.
Foi no oriente, naquele pedacinho do mapa que nasceu a civilização. A antiga Mesopotâmia. A Babilônia capital do famoso Nabucodonosor, que reinou entre 605 e 562 a C. Nesse período, o império babilônio alcançou seu apogeu em riquezas e histórias.
O resgate dessa magia na educação, no dia-dia afetado pelo videogame real que a televisão transmite e nós assistimos quase obrigatoriamente, destruindo a fantasia fundamental para a sobrevivência humana como o pão que nos alimenta, e esse encantamento tão importante descrito nos livros, onde encontraremos a nutrição indispensável para a formação dos adultos de amanhã. O livro é o nosso precioso objeto da memória.
Realmente alguns contos de fadas estão repletos de bruxas ameaçadoras que comem crianças, de madrastas más que envenenam suas enteadas bonitas, de país frágeis que deixam seus filhos abandonados nas florestas..
Mas nem por isso as histórias deixam de ser mágicas.
Neste meu recente livro: Operação Resgate em Bagdá eu tento mostra que a cruel realidade pode conviver com os sonhos.
Como jornalista e escritora infantil eu juntei as minhas duas profissões e resolvi contar as atrocidades de uma guerra, pedindo emprestado esse fascínio dos livros.
Nasceu a SIRF- Sociedade Internacional de Resgate à Fantasia, com a ajuda dos seus associados, espalhados pelo mundo, nós fomos nas zonas de conflito e terror, onde as bombas destruíram o patrimônio de um país: Aladim nos emprestou o seu famoso tapete voador, Simbad, revoltado com o incêndio e a destruição da biblioteca onde estavam todos os seus mapas de viagem, teve uma atuação importante, como conhecia como a palma da sua mão os rios Eufrates e Tigre ele atacou pelas águas e os contadores de história locais foram por terra. Uma operação rápida, apenas com um dos nossos homens feridos, mas que foi um sucesso. Conseguimos resgatar

1)- 2725- Fadas encantadas
2)- 480- Reis
6)- 927- Princesas solteiras
7)- 1221- Princesas noivas, prometidas em casamento.
8)- 500- Princesas casadas
9)- 260- Rainhas
10)- 622- Dançarinas
11)- 5.222- Personagens não identificados

Total: 12.022

È tanta noticia ruim diariamente, e passamos muita vezes ao largo e indiferentes, que eu quis contar a história de uma guerra de verdade com a ajuda dos personagens das Mil e Uma Noite. Quis mostrar também com este livro o importante papel da palavra. Porque nós fazedores de sonhos, escritores, professores, multiplicadores da leitura, temos uma missão muito mais ampla, portanto, do que apenas contar histórias. Através da imaginação, do sonho escondido nos corações dos pequeninos, nós temos um desafio que é a nossa missão maior: nutrir e enriquecer esta infância que ameaça desaparecer. Ajudar a transformar este mundo, fazer nascer uma sincera cumplicidade e invadir, no bom sentido, o mundo mágico da criança. Estou certa de que a inocência é o antídoto mais eficaz contra a violência.

Estou de partida para o meu Iraque imaginário, não para aquele país destroçado pelos mísseis e por uma guerra inútil. Mas esse Iraque que acredito existir, porque a palavra, a escrita surgiu ali. Se os homens prestassem mais atenção na Palavra, talvez provaríamos que a guerra é inútil.
Eu tenho que encontrar a lâmpada de Aladim, que na confusão se perdeu na tempestade. Este objeto pequeno e aparentemente inofensivo é uma ameaça a todo o planeta. Como sabemos, o gênio que habita dentro dela, é um mercenário, não tem ideologias políticas e nem sociais. Ele agrada a qualquer um que possa tirá-lo do confinamento.
Qualquer esfregadinha em suas laterais, não importa a pessoa, ele se bandeará para o lado do falso proprietário. E é capaz de tudo: do bem e do mal. Isso é aterrorizante! O mundo está correndo risco grave se ela cair em mãos inimigas não sei o que pode acontecer.

Convido a todos presentes a se filiarem nesta sociedade que criei: A SIRF - Sociedade de resgate a Fantasia. Ela já existe há muitos séculos perdemos as contas e nesses anos todos temos conseguido vitórias incríveis.
Mas graças a colaboradores incansáveis, os professores e escritores de literatura infantil, conseguiremos salvar, as fadas, os príncipes, as princesas, os reis e as rainhas que ainda habitam o nosso mundo da imaginação. Porque nós também já fomos crianças.
Como escreveu o argentino Jorge Luis Borges, “As Mil e Uma Noites não morreram... continuam crescendo, ou recriando-se. E o infinito tempo do livro continua o seu caminho”.

 
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