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  UMA INFÂNCIA SEM LIMITES

Silvana Cássia Cândido Oliveira - Prof. de Ed.Especial - EMEI Fadinha Azul - SME - Campinas
Elaine Ferraresi Serediuk – Prof. EMEI Fadinha Azul – SME Campinas SP


RESUMO: Este relato irá destacar a trajetória de um trabalho de inclusão na educação infantil de uma pequena criança deficiente visual, como também descreverá a importância da integração dos profissionais envolvidos. O trabalho desenvolvido buscou garantir possibilidades de expressão e a interação com o outro, e isso contribuiu para que as crianças percebessem que a comunicação pode acontecer através de diferentes linguagens. Desta forma, o registro do que faziam passou a ser então significativo, extrapolando o “fazer pelo fazer”.

1 - EDUCAÇÃO ESPECIAL EM CAMPINAS

A Educação Especial vem se construindo junto a Secretaria Municipal de Educação de Campinas desde 1989, na perspectiva de uma política de educação com ações que visam efetivar inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais no processo desenvolvido no ensino regular.
Atualmente, a Educação Especial dentro da SME atua no âmbito da Educação Infantil, Educação Fundamental, EJA-I e EJA-II (Educação de Jovens e Adultos) e na Educação Profissional, atendendo alunos com necessidades educacionais especiais (Deficiências, Dificuldades de Comunicação e Sinalização diferenciadas, Condutas Típicas e Altas Habilidades) para garantir, não só a permanência física, mas também contribuir para que possam desenvolver seus potenciais, respeitando suas diferenças e atendendo suas necessidades dentro do Projeto Pedagógico da Unidade Escolar.Esse trabalho acontece através da atuação de Professores de Educação Especial nos serviços de atendimento educacional especializado, como: atuação nas escolas regulares, salas de recursos, classe hospitalar, professor referência e atendimentos domiciliares.

¨ Professor Referência no NAED – *Atualmente atendendo as orientações da política de descentralização da PMC em Núcleos de Ação Educativa Descentralizado – NAED - a Educação Especial conta com um professor neste local que é o responsável pela organização da Educação Especial na região. São cinco regiões com cinco professores referências eleitas pelo grupo.

¨ Professor de Educação Especial na Escola – Atuação direta com a equipe escolar, com os educandos e a família no processo de ensino e aprendizagem, oferecendo apoio pedagógico e formação sobre inclusão, tendo como referência o projeto pedagógico das escolas e suas articulações com os serviços de atendimento educacional especializado.

¨ Sala de Recursos
Ø Deficiência Auditiva
Ø Deficiência Visual
Serviço de natureza pedagógica, conduzido por professor especializado que complementa o atendimento educacional realizado em classes comuns da rede regular de ensino. Esse serviço acontece em salas diferenciadas dentro das escolas regulares, dotados de equipamentos e recursos pedagógicos adequados às necessidades educacionais especiais dos alunos. Pode ser realizado individualmente ou em pequenos grupos, em horário contrário ao da escola regular, estendendo-se também a orientações à professores e familiares.

¨ Classe Hospitalar
Ø Hospital Mário Gatti
Serviço destinado a prover um atendimento educacional especializado às crianças que se encontram impossibilitadas de freqüentar as aulas em razão de tratamento de saúde que implique em internação hospitalar ou atendimento ambulatoriais. Nesse hospital existe uma brinquedoteca que é o caminho utilizado pelos profissionais para realizarem atividades diferenciadas e o acompanhamento pedagógico (dependendo do tempo de internação) em conjunto com a Escola de origem da criança através de contato com o Professor de Educação Especial e do Professor da sala. Esse trabalho tem como objetivo, dar continuidade ao processo de desenvolvimento e ao processo de aprendizagem de alunos matriculados em escolas regulares, contribuindo para seu retorno e reintegração no grupo escolar; e desenvolver currículo flexibilizado com crianças, jovens e adultos não matriculados no sistema de ensino, facilitando seu posterior acesso à escola regular.

¨ Atendimento Domiciliar
Serviço destinado a viabilizar, mediante atendimento especializado, a educação escolar de alunos que estejam impossibilitados de freqüentar as aulas em razão de tratamento de saúde que implique permanência prolongada em domicílio, com o objetivo de dar continuidade ao processo de desenvolvimento e ao processo de aprendizagem de alunos matriculados em escolas regulares, contribuindo para seu retorno e reintegração no grupo escolar; e desenvolver currículo flexibilizado com crianças, jovens e adultos não matriculados no sistema de ensino, facilitando seu posterior acesso à escola regular.
Atualmente, a Equipe de Educação Especial em conjunto com toda a Rede Municipal de Educação de Campinas, vem realizando estudos e pesquisas para se constituir uma Política de Atendimento Educacional Especializado da Secretaria Municipal de Educação.


2 – RELATO DE EXPERIÊNCIA

Como já foi dito, em todas as escolas municipais, há esta preocupação com a Inclusão das crianças portadoras de deficiências, e, portanto, a dinâmica dos trabalhos acabam se tornando bem específicos. Este Relato de Experiência dirá respeito a um trabalho de inclusão, de uma criança deficiente visual, realizado no ano de 2004, na Escola Municipal de Educação Infantil “Fadinha Azul”, localizada na periferia de Campinas. Reservaremos sua identidade em todo o relato, sendo possível identificá-la apenas como “J”.
A deficiência da aluna em questão é decorrente de uma toxoplasmose, que a mãe contraiu na gravidez, ocasionando para ela uma má formação do globo ocular direito e a ausência do globo ocular esquerdo. Seu rosto também apresenta algumas manchas, devido a toxoplasmose, que se assemelham a “queimaduras”, causando, no início uma certa repulsa em quem vê. Assim, usando o olho direito consegue visualizar apenas focos de luz. Seu primeiro contato com a escola foi aos 4 anos (2003), pois até então vivia apenas “escondida” pela família por medo ou vergonha do que os outros falariam de sua filha. As pessoas não estão acostumadas com o “diferente”, por falta de um contato mais efetivo ou simplesmente por desconhecerem as deficiências que elas apresentam causando ora curiosidade, ora um incômodo.
Por isso, foi realizada inicialmente uma sensibilização com a família onde lhes foi apresentada a proposta de trabalho. E este trabalho de parceria (família-escola) se efetivou quando a aluna passou a freqüentar a escola, dando-nos também votos de confiança. Houve a necessidade de uma adaptação de todos (os profissionais, alunos, espaço) a ela e dela àquele ambiente tão diferente do que conhecia até então.
Por muitas vezes, o trabalho desenvolvido na escola mostrou ao professor de educação especial que superar os conhecimentos adquiridos no curso universitário através de atualizações das formas de intervenção, em qualquer que seja a deficiência que os alunos apresentem, só contribuiria para o trabalho pretendido. Percebeu-se que a necessidade de buscar uma integração e informação com outros profissionais específicos das deficiências existentes na escola seria o ponto de partida. Assim iniciou-se uma investigação sobre as possibilidades e limitações da deficiência desta aluna em relação ao que poderia realizar nos trabalhos em sala de aula.
É bom salientar que o trabalho do profissional de educação especial não deve acontecer isoladamente do trabalho que o professor desenvolve em sala. Esse trabalho de parceria traz contribuições a todos: as crianças (deficientes ou não) da sala, aos profissionais e a toda escola, já que o objetivo maior é que não aconteça a exclusão de ninguém, tanto no âmbito pedagógico como no social. O trabalho em parceria foi sendo construído a partir da troca de experiências, de alguns conhecimentos prévios, tentativas e também de muitas dúvidas e juntas, foram buscando formas para que o trabalho acontecesse da melhor maneira possível.
O título “UMA INFÂNCIA SEM LIMITES” foi escolhido justamente para reafirmar que os limites não podem ser obstáculos que impeçam as crianças com deficiência de viver plenamente a sua infância, visto que os limites encontrados na maioria das vezes são dados pelo outro e não por elas mesmas.
Devemos reconhecer sim as limitações decorrentes de suas deficiências, mas não privá-las de viver o que é possível: uma infância feliz, o convívio com outras crianças da mesma idade, as brincadeiras, o faz-de-conta enfim, de vivenciar experiências únicas que facilitarão certamente a superação de obstáculos impostas pela própria vida.
“UMA INFÂNCIA SEM LIMITES” traduz também oportunidades para todas as crianças aprenderem umas com as outras, conhecerem o valor de andar, ouvir, falar, enxergar, de transpor obstáculos e de ser solidário. Elas aprendem a experimentar e a vivenciar novas linguagens e fazer uso delas, pois na Educação Infantil criança deve ter a oportunidade e o direito de entrar em contato com todas as formas de linguagens (gestual, corporal, plástica, oral, musical e a escrita) e é o que estamos procurando oportunizar, interdisciplinarmente, na EMEI Fadinha Azul onde trabalhamos.
A criança que é estimulada e desafiada a fazer uso destas diferentes formas de linguagens, de maneira peculiar, terá a oportunidade de se apropriar de conhecimentos que jamais serão esquecidos. Para isso, o professor tem o importante papel de mediador destas linguagens e acima de tudo, de fazer interpretações e registros das mesmas, para que possa realizar uma avaliação mais significativa do desenvolvimento de cada criança, sem, contudo, priorizar a escrita como a única linguagem possível.
O trabalho proposto pela professora da sala era organizado através da rotina do dia. A primeira coisa que faziam era ir ao parque. Ali existiam algumas regras e duas delas diziam respeito a todos: 1) Acompanhar a J. quando ela quisesse caminhar pelo parque e 2) Nunca deixar o colega sozinho. Assim, as crianças sempre estavam juntas, fazendo amizades e inventando brincadeiras.
Antes do almoço, todas as crianças lavavam suas mãos e se dirigiam ao refeitório. Ali se serviam sozinhos. Quem estava próximo a J. relatavam a ela o cardápio e então, assim escolhia também o que gostaria de comer. No início do ano a J. não conseguia comer sozinha, mas com o trabalho direcionado para que mantivesse o corpo ereto, erguesse o cotovelo e segurando a colher numa posição reta, levaria a boca mais facilmente..
Depois de todas as refeições sempre escovavam os dentes e, só então as crianças iam para a sala. Na escovação J. caminhava até a sua mochila e pegava os objetos necessários: copo e toalha. Em relação a sua mochila foi delimitado um local específico para dependurá-la, que dentre todos os ganchos, o dela seria o primeiro. Cada criança utiliza um dos ganchos, respeitando sempre o da J., que utiliza todos os dias o mesmo, facilitando sua independência e locomoção pela sala.
Sempre se dirigia até o bebedouro sozinha. Saber onde estavam as coisas e o reconhecimento do espaço utilizado já há dois anos facilitava a sua locomoção, evitando que se machucasse. Assim, ela não levava a mão à frente, pois não temia os obstáculos, já que conhecia bem o caminho dos lugares onde queria ir. Para o ambiente externo, no início, usamos um carrinho de boneca para que ela identificasse onde havia os obstáculos e, depois de um tempo, já fazia isso sozinha. Vez ou outra um amigo lhe dava a mão, mas isso não era uma obrigação...era simplesmente companheirismo.
Todas as outras crianças tratavam com naturalidade esta movimentação da J. Notávamos que a sua audição era, e é, a sua principal referência. Dentre todas as atividades que a turma realizava, a RODA era o momento mais importante, pois nesta hora a turma se reunia para conversar, falar sobre os Projetos em andamento, brincar, cantar e ouvir histórias, para decidir e votar, ouvir recados, reclamar e fazer a avaliação do dia. Era na Roda que ambas as professoras esclareciam as dúvidas levantadas pelas crianças em relação a deficiência da J., principalmente sobre sua prótese, desmistificando assim, algumas hipóteses infantis de que, por exemplo, “quando crescesse iria enxergar ou que seu olho iria crescer novamente”.
Uma das regras da roda é que todos podiam dar sua opinião, mas respeitando a vez do colega. Por isso o combinado era: “a gente levanta a mão quando quer falar”. Era na RODA onde também, os ajudantes do dia, contavam os colegas presentes. As meninas contavam as meninas e os meninos vice-versa, registrando na lousa a quantidade e escrevendo seus nomes. É importante salientar quando se refere a “Todos”, inclui-se aí a J. Ela também era ajudante, também contava os alunos, não conseguia ainda fazer os registros usando a escrita dos números, mas fazia, com a ajuda da professora, a quantidade correspondente usando riscos e pregava sempre seu nome lousa.
A professora trabalhava com atividades diversificadas “os cantinhos”. As crianças escolhiam as atividades que queriam realizar naquele dia. Geralmente brincavam, desenhavam, pintavam, escreviam números e letras, jogavam, brincavam de faz de conta, criavam objetos com papéis, botões, cola e etc... , liam histórias, interpretavam, dançavam e se fantasiavam sempre usando a imaginação.
Durante os cantos, algumas atividades eram sugeridas pela professora e, por isso, todos os alunos teriam um tempo na realização das tarefas propostas e por eles escolhidas. Ficava evidente que alguns conceitos apareciam nesta forma de organização do trabalho: o respeito pelo tempo de cada criança e a responsabilidade da participação. O trabalho com Projetos tornava significativas as atividades propostas, pois procurava sempre respeitar a curiosidade, imaginação e a livre expressão de cada um. O desejo pelo que gostariam de fazer e os processos de descoberta eram preservados com esta forma de organizar o trabalho com a turma. O registro de todo o processo de descoberta eram feitos ora em livros coletivos ora em registros individuais marcados por falas, fotos e relatos do vivido.
As atividades da J. eram pensadas previamente, e foram adaptadas, algumas vezes, com materiais de diferentes texturas. Em alguns momentos a atividade que a Professora de Educação Especial estava desenvolvendo com a J. era um dos cantos propostos para a semana à todos da sala; procurando que as atividades realizadas por J. se aproximassem, ao máximo, da proposta feita a turma . Havia um equilíbrio entre o que era incluir e excluir, ou seja, se fosse feito apenas uma atividade específica para a J., não estaria excluindo os demais? O que era oferecido para os alunos que enxergam a J. também fazia, porque o se pretendia era a sua inclusão, e conseqüentemente, a de todos.
Acreditamos que há muito que aprender, ainda, sobre as formas que as linguagens das crianças deficientes podem assumir e como são os processos de constituição, em cada caso. Segundo (LIMA,2003:23) “é importante ter-se, então, uma postura de escuta, de observação e de cuidadosa análise, sem cair em julgamentos apressados e equivocados, os quais, muitas vezes, se baseiam na idéia (ou preconceitos) de que a crianças pequena, com algum tipo de deficiência, pouco pode fazer ou aprender”.
Ficou evidente que, nesta turma, as crianças não faziam diferença de ninguém... Assim como a própria inclusão permite, a socialização do grupo de crianças e a J. ocorria de forma muito natural e tranqüila.
Partindo do princípio que a inclusão é poder fazer parte de um grupo; é ser respeitado com suas diferenças e limites; é ter espaço para demonstrar suas capacidades... neste sentido J. estava/está plenamente incluída na Educação Infantil, mostrando-se feliz por tudo o que fazia/faz na escola, principalmente pelos amigos que ali conquistou,vivendo à sua forma, uma infância que não lhe impõe limites.

BIBLIOGRAFIA

BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes para a educação especial na educação básica/ Secretaria de Educação Especial – MEC; SEESP, 2001.79p

BRASIL. Ministério Público Federal: Fundação Procurador Pedro Jorge de Melo e Silva (organizadores).

Acesso de alunos com Deficiência às Escolas e Classes Comuns da Rede Regular, 2ª. Ed. Rev.e atualiz. – Brasília: Procuradoria Federal dos direitos do Cidadão, 2004

BRASILIA: MEC, SEESP Saberes e práticas da inclusão: dificuldade de comunicação e sinalização:
Deficiência visual / coordenação geral – Francisca Roseneide Furtado do Monte, Idê Borges dos Santos – impressão Brasília, 2004, 81p. : il (Educação Infantil;8)

LIMA, Elvira Souza A crianças pequena e suas linguagens, GEDH (Grupo de Estudos do Desenvolvimento Humano), 1ª. Edição, SP, 2003

PROJETO – REVISTA DE EDUCAÇÃO ”Projeto de Trabalho”/ Porto Alegre: Projeto, v. 3 n. 4, 2001.

 
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