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DA CULTURA DA ORALIDADE À CULTURA DA IMAGEM: UM ESTUDO SOBRE AS MUDANÇAS NO PARADIGMA DO CONHECIMENTO

Andréia Cristina Attanazio Silva - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

O presente trabalho traz um recorte da análise de quatro entrevistas realizadas com jovens leitores de mangá, Histórias em Quadrinhos japonesas que têm se configurado como um fenômeno de comunicação de massa. Tais entrevistas se sucederam no âmbito do projeto “Infância, Juventude e Indústria Cultural: sociedade, cultura e mediações” , que tem por objetivo investigar os sentidos que crianças e jovens produzem sobre o mencionado impresso da Indústria Cultural nipônica. Nessa circunstância, o conceito de mediação perpassa o nosso estudo, posto que significa tudo que vem da cultura e que interfere na relação dos sujeitos com a leitura.
A investigação está fundamentada nas contribuições dos Estudos Culturais Latino-Americanos, que têm grande representatividade em Jesús Martín-Barbero, Néstor García Canclini, Guillermo Orozco Gómez, dentre outros. Este referencial teórico nos permite aprofundar o conhecimento disponível a cerca do consumo cultural dos jovens e, ainda, o modo como este consumo interfere na construção da subjetividade no mundo contemporâneo.
A pesquisa está organizada metodologicamente através de um estudo que tem uma abordagem qualitativa de cunho etnográfico, contando com a realização de entrevistas individuais semi-estruturadas com jovens leitores de mangá. Mediante a análise dessas entrevistas, o grupo de pesquisa pode perceber que a falta de clareza a respeito do campo de estudo propiciou o levantamento de hipóteses equivocadas sobre o seu objeto, o que permitiu que este estudo inicial se constituisse em uma fase exploratória. Esta inadequação estava na suposição de que a aproximação de crianças e jovens à leitura do material supra citado seria determinada pelos mesmos fatores que levam os leitores aos livros escritos, sem considerarmos a possibilidade deste encontro estar sendo orientado pela relação dos sujeitos com as imagens.
Além disso, também fomos surpreendidos, através do exame dos depoimentos, com a constatação de que o consumo de um produto da cultura nipônica está, necessariamente, vinculado ao consumo dos outros produtos dessa mesma cultura, havendo, então, uma circularidade entre consumo de mangás, animês - desenhos animados japoneses - e videogames.
Diante deste novo contexto, o projeto focalizará esta prática cultural (leitura das HQs japonesas) segundo a imersão dos sujeitos na cultura da imagem. Através deste recorte, a pesquisa tem se proposto a pensar estratégias que amenizem o distanciamento entre esta cultura e a cultura letrada, sendo possível, então, fornecer elementos que possam suscitar alternativas para se romper com o antagonismo existente entre a escola e as experiências juvenis da atualidade.
Neste artigo, pretendo discutir que as veiculações do conhecimento/informação têm ocorrido, ao longo da história da cultura ocidental, sob diferentes suportes, tendo sofrido mudanças, portanto. Primeiramente, o saber era propagado e solidificado através das narrativas orais. No decorrer dos anos, foi notório uma alteração neste paradigma, na medida em que houve uma crescente hegemonia da cultura grafocêntrica. Porém, ainda assim, no mundo pós-moderno, as novas formas de percepção e leitura são regidas por uma outra dimensão, que é a cultura da imagem.
Principiando a reflexão, penso ser necessário apontar que, neste ensaio, a tradição da oralidade e, posteriormente, a hegemonia da escrita terá foco sob o prisma da cultura grega. A razão por esta opção está na interpretação de que foi através desta cultura que se formaram as bases para o que conhecemos hoje por Cultura Ocidental.
Nessa perspectiva, Antônio Jardim (2002) destaca que “é também na Grécia que se inicia esse per-curso que fez com que hoje possamos nos entender, ainda que em parte, como ocidentais para além de uma compreensão meramente geográfica” . Em suas palavras, Jardim deixa claro que ser ocidental, para além de uma localização espaço-temporal simplesmente, nos remete a uma determinada forma de pensar e agir sobre o mundo, influenciada pela própria estruturação do pensamento. Assim, a Grécia Antiga, a partir de seus valores e princípios, foi uma sociedade que teve significativa parcela de contribuição na composição do modo pelo qual se organiza o pensar no ocidente.

Memória e saber: a oralidade em foco

A Grécia Antiga se constituía em uma sociedade ágrafa. Desse modo, teve uma cultura marcada pelo valor da oralidade como forma de se relacionar com o conhecimento. Assim, tradições, valores e descobertas não tinham outro canal de infiltração no bojo da sociedade em questão, se não fosse pela via da oralidade, onde havia uma possibilidade fiel de propagação das informações.
Eric Havelock, em seu texto “A música suprema é a filosofia” (1996), nos leva a refletir que, por ser um veículo que carrega, dentre outras, a missão de prosseguir com a difusão do conhecimento, a oralidade não poderia se utilizar de meios de pouca expressão e penetração social. Para tanto, ela chama como suporte a musicalidade como sendo o moinho gerador da construção do saber. Em outras palavras, indicando que a música “é a mestra e também a tradição da Grécia” , Havelock nos aponta que ela é o fio condutor da consolidação do conhecimento e que se constitui em memória forte e presente, sem receber, logicamente, a dimensão técnica hoje existente.
Nesse sentido, cabe pontuar que a palavra música, em grego, tem como significante o vocábulo mousiké. Este vocábulo é a fusão do termo mousi, que significa memória, com o sufixo ké, que representa o ofício da música. Com isso, pode-se perceber que a música, numa Grécia não-letrada, exerce um papel primordial, sendo o caminho por onde o texto se verbaliza, entrando na vida social e incorporando os discursos dos sujeitos. Esta constatação ganha força se pensarmos que, uma vez cantada a música, não se consegue, com facilidade, desgarrar o seu texto da melodia, o que faz com que o canto permaneça na memória.
Dessa forma, o texto vibra com um vigor e uma energia que o eternizam, posto que a música é a grande articuladora da memória, sendo, portanto, fonte de palavra. Ainda assim, considerando que a vida se edifica e se organiza através da memória, a música é também fonte de vida, posto que trás ao presente a história que torna possível a sua continuação.
Imbricado nesta discussão, Havelock nos apresenta a figura do poeta como sendo aquele que dá movimento ao conhecimento através da poesia, na medida em que ele constitui o alicerce através do qual há a perpetuação desta memória viva. Diante disso, por intermédio de uma cultura fincada na oralidade, é o poeta quem evoca a arte da memória, que propicia a construção de uma outra arte, que é a arte do saber. Neste contexto, o poeta é a ferramenta através da qual há a aproximação do saber à poesia. Nas mãos do poeta, aquilo que estaria fadado ao esquecimento torna-se memorável.
A partir deste modo circular de se relacionar com o conhecimento, os homens produziam em cada diálogo novos sentidos para o que estava sendo contado. Assim, Jobim e Souza e Gamba Junior sublinham que “a presença do falante e do ouvinte garantia a compreensão e o controle da verdade.” Tendo como base a oralidade, a verdade era produzida através dos encontros entre os homens e seus pares, sendo os sujeitos os próprios construtores da ciência.
Era pela oralidade, então, que o saber era conduzido de geração para geração, na qual o poeta exercia a função primordial de difundi-lo e solidificá-lo, sendo através do discurso oral que se fazia emergir as bases do conhecimento. No âmbito dessas questões, é notório que a oralidade esteve presente de forma decisiva na cultura da Grécia Antiga no que concerne à transmissão e ao fortalecimento do conhecimento.

Letras no papel: o discurso hegemônico

Apesar de a cultura oral ser bem difundida na sociedade da Antiga Grécia, Havelock nos aponta que Platão, grande filósofo grego que viveu entre os anos 429 e 347 a.C., denunciou que houve um tempo em que o conhecimento passou do concreto ao abstrato das representações. Dessa maneira, a música, que é, por excelência, poética, deixou de ser o centro da experiência daquilo que é memorável, dando lugar a uma nova forma de lidar com o conhecimento que em muito se distancia de uma época em que era preciso cantar para não esquecer. O canto deixou de ser a condição do não esquecimento.
No lugar da música como reunião de todas as possibilidades de memória, entra em cena um discurso que não ocorre pela via da oralidade. Toma foco, então, um discurso que acontece por meio de manchas de tinta no papel, que recebem a forma de letras negras. Discurso este que, já na sua própria forma conceitual, faz referência à mudança que está sendo proposta, na medida em que carrega em sua terminologia uma alusão às duas primeiras letras do alfabeto grego: alfa e beta; um discurso alfabético, portanto.
Desse modo, o conhecimento teve seu eixo modificado, passando a ser regido pela língua escrita. Entra-se assim, numa nova era, em que há uma forte predominância de um novo paradigma do saber, na qual se presencia a passagem da cultura oral para a cultura escrita.
Neste novo panorama, a música é abandonada como sendo fonte de saber, perdendo seu caráter de instrumento perpetuador da memória, e a filosofia sobe no palco da dinâmica do cotidiano grego, alterando de forma significativa a sua experiência de vida . Nesta nova estrutura que se institui, do poeta é retirada a sua posição de enunciador do conhecimento, deixando de ser o diferencial na proclamação do saber. Por conseguinte, também a poesia foi atingida pelo demérito causado pela difusão do mundo escrito.
A esse respeito, Havelock nos mostra que “em Platão a mente poética foi identificada com ‘opinião’, a disposição mental da maioria” . Com isso, o conhecimento e as experiências transmitidas pelo poeta passaram a ser entendidas como pensamentos do senso comum. Suas falas se transformaram em conversas esvaziadas de saber, sem requerer valor e a importância de antes. Neste sentido, a possibilidade de documentação do conhecimento adquiriu um lugar de destaque, encerrando na sua própria aparência física uma conotação tão formal, que permitiu que qualquer outra informação, que não esteja enquadrada nestes moldes, seja encarada como uma mera opinião, não sendo merecedora, portanto, de nenhuma credibilidade e relevo.
Logo, a documentação adquire um peso inigualável que garante, por si só, uma confiabilidade gratuita de seus leitores, contraindo grande poder de encerramento do saber, que se torna superior à forma originária do poeta. Como um desdobramento deste fato, qualquer ciência que era apenas falada, e não escrita, não era concebida enquanto tal. Nestes novos tempos, o saber tem que receber o aval da cultura escrita para que possa ser difundido. Em decorrência disso, passou-se a apontar “a mentalidade da massa como uma disposição mental hostil ao pensamento” , tendo em vista a proposta de que só pensa, produz e filosofa quem tem o domínio do código escrito.
Com uma infiltração cada vez mais veloz e voraz da filosofia no campo social, cada vez maior também foi o sucessivo distanciamento entre o saber e o homem, o que pode ser percebido pelo surgimento do livro como um local sagrado onde o conhecimento estaria instituído, sendo um objeto criado para conter a posse da informação, proporcionando uma exteriorização da memória em relação aos sujeitos. O livro, então, adquiri o privilégio exclusivo de cultuar a sabedoria, que sai, não das palavras seguramente pronunciadas pela boca de um poeta, mas, nesta conjuntura, das suas frias e secas páginas.
Assim sendo, é evidente o abismo cultivado entre o conhecimento sinalizado como senso comum e o dito saber científico, cabendo a seriedade à palavra escrita, sendo a voz, diante de tanta formalidade, menosprezada. Por esta razão, pelo fato de a escrita estar ocupando um posicionamento mais elevado em analogia com a oralidade, foi criado, inclusive, um templo para depositar e guardar com pompa e esplendor as tais misteriosas letras no papel. A esse templo foi dado a denominação de biblioteca.
Sendo a poesia alvo de desvalorização e inferiorização em relação à filosofia, que tem o apoio da escrita como uma suposta detentora de poder, Havelock destaca que a linguagem desta última é denunciada como

“uma linguagem que insiste em esvaziar os eventos e ações da sua imediaticidade [referindo-se a linguagem poetizada] a fim de rompê-los e reordená-los em categorias, impondo desse modo a regra do princípio em lugar da intuição feliz, e detendo de um modo geral a ação veloz da reação instintiva e colocando em seu lugar a análise racional como o modo básico de vida.”

Nesta citação, está explícito que, no idos de Platão, o filósofo é o único que detém a autoridade para pensar abstratamente sob as bases da escrita, a partir de preceitos formais e conceituais de compreensão do mundo, indo de encontro àqueles que, segundo ele, se limitam a uma alternativa restrita de fazê-lo. Diante disso, pode-se notar que se faz presente uma hierarquia, onde a já mencionada relação de poder é imposta por aqueles que possuem o instrumento dominante e que, por este motivo, são encarados como possuidores de uma verdade absoluta e inquestionável.
A filosofia, que trouxe a escrita como suporte do que pode ser memorável, em detrimento do caráter mnemônico da música, estabeleceu uma hierarquia entre a escrita e a oralidade, em que há uma crescente perda da narrativa, saindo de foco a troca pessoal e o contato humano. A escrita passa a ser o discurso hegemônico e o homem é substituído pelo objeto livro. Neste universo, foi instaurada uma nova organização do sistema educacional, que contribuiu para que estas concepções se tornassem “‘a forma suprema de educação’, transcendendo e eliminando o método poético anterior” .

Novas formas de percepção no mundo pós-moderno: a cultura da imagem

Em meados do século XX, o mundo iniciou uma fase de globalização da cultura, mediante o crescente avanço tecnológico. Televisões com maior diversidade de canais e programações, cinema, computadores, Internet, aparelhos de vídeo, jogos eletrônicos, outdoors… As inovações da tecnologia têm proporcionado uma vasta rede de suportes que permitem que a produção de conhecimento ocorra não apenas sob as bases da cultura escrita, mas também fincada numa emergente cultura que tem como agente predominante a imagem.
Para discutir esta questão, apresentarei como ponto de partida os depoimentos dos entrevistados da pesquisa já mencionada anteriormente, que ressaltam o quanto as formas de percepção e construção de saberes são peculiares deste espaço-tempo em que vivemos, o que modifica também as relações que se estabelecem entre os sujeitos e seus pares.
Antes, porém, é necessário retomar ao recorte do objeto de nossa investigação, já explanado em um outro momento desta reflexão. Na fase designada como estudo exploratório, o grupo de pesquisa se deparou com o fato de que a leitura do mangá não era mediada pelos mesmos eixos que norteavam a leitura de livros que se utilizam da linguagem verbal, sendo a leitura dessas histórias em quadrinho, em contraposição, uma leitura de imagens, posto que, segundo os jovens entrevistados da pesquisa, “mangá sem imagem não é mangá” .
Além disso, também penso ser imprescindível realçar que a motivação para a focalização deste objeto se deu na constatação de que

“No que se refere aos mangás, embora somente agora venham tendo mais visibilidade na mídia, sua recepção por crianças e jovens no Brasil é significativa, haja vista a venda pela Conrad – editora que detém 47% do mercado nacional do gênero – de, em média, 200 mil exemplares mensais de mangás que estão disponíveis tanto em bancas de jornais, como em livrarias, havendo algumas que se dedicam exclusivamente à venda das HQs japonesas.”

Sabendo que a leitura do mangá tem por fundamento uma leitura imagética e estando cientes de que a motivação da pesquisa se encontra na grande repercussão desse gênero literário, é possível compreender desde então, o processo de construção de um novo paradigma que está se sobrepondo ao paradigma da escrita.
Caroline , uma das jovens entrevistadas, nos trás alguns indícios para se pensar esta temática:

Caroline: Eu sou televisiva.
Pesquisadora: De repente a pessoa não é… Não sei…
Caroline: É. Provavelmente a pessoa não é televisiva, mas aí, o problema é dela e de quando ela nasceu.

Em seu depoimento, a menina nos mostra que seu gosto e opção estão de acordo com a sua imersão no contexto social e no tempo histórico do qual faz parte. Caroline nos diz que a televisão é de seu tempo, de seu momento histórico, contrapondo-se ao tempo de outras pessoas de gerações precedentes a sua, que eram mais receptivas a outras formas de estímulos. Em conformidade com este posicionamento, João, também entrevistado pelo grupo, deixa claro que estas preferências de leitura estão situadas numa dada sociedade e que os recursos através dos quais se viabilizam as mensagens irão variar de acordo com esta localização no espaço-tempo.

João: Cavaleiros do Zodíaco foi um desenho que marcou época da minha geração, em grande parte. (…) O que eu acho que chamou a atenção do mangá aqui no Brasil, principalmente, é que ele faz uma lembrança dos desenhos japoneses que passaram pra gente.
Pesquisadora: Como é que você se sente quando você está lendo o mangá?
João: Ah, eu sinto prazer porque eu… poxa eu lembro do desenho que eu vi na minha infância, sabe?

Diante dessa discussão, pode-se trazer a reflexão de Jobim e Souza e Gamba Junior que, a esse respeito, nos indica que, “o turbilhão de estímulos visuais e sonoros que nos atravessa cotidianamente anuncia a necessidade de atualizarmos nossos conceitos sobre leitura e escrita, incorporando a experiência com as novas imagens-signos.”
Com essa revolução tecnológica e cultural, há a necessidade de estarmos atentos a novas formas de percepção de mundo que se instauram na sociedade contemporânea, o que provoca também mudanças na produção de conhecimento, no acúmulo de informações e, ainda, na maneira com a qual se traçam redes de identificação e relacionamentos. Caroline, ao ser indagada sob o tempo que vem se dedicando à leitura dos mangás, respondeu que começou a lê-los em decorrência de sua assistência aos animês, ficando, a partir deles, motivada a discutir suas impressões com outros fãs do mesmo programa. Porém, a menina nos conta que este contato não aconteceu através de uma presença física do seu interlocutor. Segundo ela,

Isso foi na Internet porque as pessoas que eu conhecia não gostavam muito de mangá. Não gostavam de desenho animado japonês também. Aí, na Internet, eu entrei, fiz parte de um grupo…

O fato de Caroline não dispor de amigos que não tivessem a mesma apreciação às HQs e aos animês não a impediu de trocar experiências e opiniões, visto que ela tinha ao seu alcance um meio de comunicação virtual que supria a ausência de alguém com quem ela poderia compartilhar suas idéias. Através da fala de uma outra leitora entrevistada, também pude perceber que o lugar que a televisão/imagem vem ocupando no cotidiano de crianças e jovens é, em grande parte, em função, dentre outros aspectos, da própria mudança da organização da estrutura familiar. Em resposta à pesquisadora que perguntou o que a levou à leitura dos mangás, Juliana exclamou:

Eu assisto o animê, mangá (…) desde os meus cinco anos de idade, que minha mãe trabalhava e aí a televisão era minha babá.

Como já foi pontuado anteriormente, no mundo pós-moderno contemporâneo, a maneia de se produzir conhecimento sofreu transformações ao longo dos anos. Esta alteração foi acentuada pela sucessiva transformação dos modos de produção capitalista. As novas formas de disposição dos bens materiais, cada vez mais incisivos no meio social, promovem um dinamismo no bojo da sociedade e impõem uma velocidade no ritmo de viver e de pensar dos sujeitos, o que promove uma alteração em suas rotinas cotidianas e, logicamente, na relação com os fatos e informações. José, sujeito de nossa investigação, nos mostra o quanto esta agilidade está presente na leitura dos mencionados impressos da cultura nipônica:

O esquema dos mangás é diferente dos quadrinhos americanos pela estrutura da página. Assim, os personagens não têm que ficar enquadrados no quadrinho, não tem uma regra assim. Aí, o desenhista vai, extrapola em tudo e fica uma coisa bem dinâmica. Assim, você lê e acaba sendo uma espécie de, de... Você tá vendo um filme.
Quando eu fiz um curso de Mangá lá no Chile, ele [o professor] falava: “Mangá é o cinema no papel”. Que é tudo cinematográfico, as tomadas… É bem cinematográfico, é como se você tivesse lendo um cinema, aí é bem legal de ler, é bem divertido...

Seguindo as mesmas concepções de José no que concerne ao dinamismo existente nos quadrinhos japoneses, também Juliana explicita sua identificação com uma modalidade de leitura que requer uma cadência maior. Nesta circunstância, ela tece uma comparação entre o mangá e o texto escrito, demonstrando então, sua intimidade para com o primeiro e seu desafeto em relação ao segundo.

O texto escrito convencional é normalmente muito lento. Tudo é passado com muita lerdeza, é menos dinâmico, você não tem uma coisa que… “óh”! (…) você vai ter que ler tudo com muita calma. Você não pode pegar, assim como eu faço com o Mangá, pegar… ler todas as folhas, ver as imagens, sentir as imagens e depois partir pra leitura; eu vou ter que partir direto pra leitura, não tem preparação, eu não posso me preparar pra entrar na leitura, eu vou ter que sair lendo. Esta é pra mim a diferença.
Porque as pessoas preferem ir ao cinema do que ler um livro? Porque lá tá a ação, tá tudo…

Desse modo, é possível que se perceba que a leitura de jovens na atualidade está demandando estruturas textuais condizentes com a multiplicidade de interfaces que lhes estão disponíveis, havendo a exigência de uma intensificação do ritmo dessa leitura. Assim, a página de uma revista que se assemelha às telas de uma sala cinematográfica, propicia ao leitor uma narrativa mais ágil e dinâmica, ganhando vulto e significado. Dando prosseguimento a esta lógica, Jobim e Souza e Gamba Junior destacam que “se, por um lado, o livro exige concentração, um mergulhar atento e intencional nos signos impressos para extrair sentidos da narrativa textual, por outro, a leitura que fazemos das imagens-signos que circulam de forma intermitente requer dispersão.” Nesta perspectiva, sabendo que a leitura das HQs japonesas é uma leitura de imagens e que a pequena quantidade de escrita, embora existente, está em um plano secundário, é coerente afirmar que há, por estas razões aqui expostas, uma possibilidade concreta de repercussão deste gênero entre os representantes da cultura juvenil, o que não ocorre de modo tão acentuado no que diz respeito aos suportes que veiculam a linguagem escrita.
Apesar do que foi discorrido nestas linhas, penso ser, neste momento, plausível enfatizar que não se trata de enunciar, com o surgimento do paradigma da imagem, uma ruptura com o texto escrito e as interfaces que o sustentam. Do contrário, o que pode ser constatado é uma co-existência de diferentes modos de se comunicar, documentar e produzir conhecimento na realidade atual, onde tanto o “velho” quanto o “novo” tem espaço no contexto da arena social. De acordo com Luiz Antônio Marcuschi, “o que se nota é um hibridismo mais acentuado, algo nunca visto antes” , tornando-se cada vez mais necessário estarmos todos abertos a novas formas de lidar com os suportes tecnológicos e as possibilidades que eles nos apresentam, estando também receptivos às maneiras contemporâneas de ver e atuar sobre o mundo.

Considerações Finais

No âmbito dessas questões, cabe uma reflexão acerca do papel da escola nesse contexto em que as novas práticas culturais provocam uma alteração também na construção das subjetividades dos sujeitos. Nesses tempos de mundialização da cultura e universalização dos saberes por meio dos aparatos eletrônicos, que têm como aliado a imensurável abrangência da cultura imagética, a instituição escolar deve estar apta a perceber os novos eixos que norteiam as produções de sentidos das gerações nascidas nas décadas posteriores à revolução tecnológica.
Nesse sentido, há a necessidade de ser resignificar os conceitos e ampliar os valores dos profissionais que trabalham com crianças e jovens da pós-modernidade. Assim, podemos nos fazer as seguintes indagações: Com que modalidades de leitura e escrita a escola deve trabalhar, considerando a emergente cultura da imagem e também a necessidade de sublinhar a importância da linguagem escrita em meio a uma sociedade tão plural e diversa? Que concepções teórico-metodológicas devem orientar as práticas dos educadores? De que forma a escola pode propiciar o acesso de crianças e jovens das classes populares aos variados elementos da tecnologia? Quais devem ser as mediações necessárias para que haja o empenho de jovens na construção do conhecimento, em meio a uma cultura multifacetada como esta em que vivemos?
Mediante estas exigências de uma constante auto-avaliação de suas posturas, a instituição escolar do século XX deve estar em alerta às novas formas de percepção do mundo atual, posto que as bases nas quais o conhecimento é veiculado na sociedade contemporânea ensejam também novas formas de construção de subjetividades, próprias desta cultura tecnológica da pós-modernidade.
Por fim, ressaltando a relevância de se olhar alteritariamente para as experiências do jovem, para que se elimine a barreira que opõe a "cultura da escola" às culturas juvenis, finalizo este ensaio com uma citação de Mead que diz:

“Ao juízo dos ocidentais, o futuro está diante de nós. Ao juízo de muitos povos da Oceania, o futuro reside atrás, não adiante. Para construir uma cultura na qual o passado seja útil, não coativo, devemos localizar o futuro entre nós como algo que está aqui pronto para que o ajudemos e o protejamos antes que nasça, porque, do contrário, será demasiado tarde.”

Referência Bibliográfica

HAVELOCK, Eric. A música suprema é a filosofia. In: HAVELOCK, Eric. Prefácio à Platão. São Paulo/Campinas: Papirus, 1996.

JARDIM, Antonio. A dimensão poética no contexto hegemônico da técnica. In: Revista Concinnitas, Ano 3 nº 3. Rio de Janeiro: UERJ, 2002.

JOBIM E SOUZA, Solange, JUNIOR, Gambá. Novos suportes, antigos temores: tecnologia e confronto de gerações nas práticas de leitura e escrita. In: JOBIM E SOUZA, Solange. Educação @ pós-modernidade: crônicas do cotidiano e ficção científica. Rio de Janeiro: Sete Letras, 2003.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. In:

MARCUSCHI, Luiz Antônio, XAVIER, Antônio Carlos (orgs.). Hipertexto e gêneros digitais. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2004.

OSWALD, Maria Luiza M. B. Infância, Juventude e Indústria Cultural: sociedade, cultura e mediações. Projeto de Pesquisa. UERJ/CNPq, 2005.

 
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