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  ANIMAIS PERSONAGENS NAS OBRAS DE CLARICE LISPECTOR

Carla da Costa Silva - Universidade Federal Fluminense - UFF


Este trabalho tem como proposta central analisar três obras de Literatura Infantil da autora Clarice Lispector, que são O Mistério do Coelho Pensante (1967), A Mulher que Matou os Peixes (1969), e A Vida íntima de Laura (1973), e desenvolver nesta análise um confronto entre essas obras, abordar os pontos semelhantes, enfocar a representação de animais como personagens presentes nas histórias, os traços marcantes e a narrativa da autora. As conclusões deste trabalham apontam para a presença na Literatura
Infantil escrita por Clarice Lispector de uma narrativa criativa e instigante.
Iniciaremos este trabalho partindo de análises individuais de cada obra, observando a representação de animais, sua aproximação com o leitor e os recursos utilizados para isso e, após a análise dessas obras, faremos algumas comparações quanto à estrutura narrativa, e o desfecho das histórias em questão.

O MISTÉRIO DO COELHO PENSANTE

O livro O mistério do Coelho Pensante, narra a história do Coelho Joãozinho, que fugia todos os dias de sua casinha porque nela não havia comida, mas o grande mistério do livro é que não havia espaço para o coelho fugir e, partindo deste fato, o livro, então, gira em torno dessa dúvida: como o coelho fugia. Essa obra tem como principal interlocutor Paulo, o filho da autora / narradora Clarice Lispector, que conta escreveu este livro aos seus filhos, que tinham um coelhinho.
Observamos nesta história que Clarice Lispector é, em muitos casos, autora e narradora, e este fato pode ser percebido não somente através das ilustrações do livro (que apresentam ilustrações de uma personagem como mãe do menino Paulo), mas também ao longo da narrativa, como por exemplo, no trecho: “Quando você descobrir, me conta porque já estou cansada, meu bem, de só comer cenoura” e, por vezes, Clarice apresenta-se também como personagem, pois se relaciona inteiramente com a história. Dessa forma, nessa obra Clarice Lispector é autora e narradora e, podemos concluir que desempenha o papel de personagem, por ser a mãe de Paulo, que tinha um coelho, o qual aprontou muitas confusões.Essa análise nos é possível através da “conversa” com os pais dos pequenos leitores na parte final do livro “É capaz de você descobrir a solução, porque menino e menina entendem mais de coelho do que pai e mãe. Quando você descobrir me conta...”.
No início do livro, o personagem Joãozinho, que é o Coelho, é caracterizado como um animal que não poderia ter muitas idéias (um personagem que não usa a razão), ”Veja bem: eu nem disse muitas idéias, só disse algumas. Pois olhe, nem de algumas achavam ele capaz”, mas o coelho sabe muito bem como farejar idéias e é por isso que ele fica mexendo o nariz; mexe tanto que chega a ficar vermelho.Logo no desenvolvimento da narrativa a narradora muda a sua opinião e relata que o coelho é esperto para coisas que ele precisa, mas gradativamente a narradora leva o leitor a concluir que este coelho é mais esperto do que ela mesma pensava, a ponto de comparar as idéias do coelho com idéias de uma criança: ”Dessa vez Paulo, foi uma idéia tão boa que nem mesmo criança, que tem idéias ótimas, pode adivinhar”.
Em relação aos personagens, nessa obra, o coelho é o principal, já que é em torno dele que gira a obra. Paulo, filho de Clarice - personagem -, também é um personagem da obra, bem como são as demais crianças, que não têm nome, mas aparecem sempre que o coelho foge.
A linguagem é simples, mas há forte pontuação. Nesse caso, Clarice Lispector, contudo, explicita, na própria obra, que se deve ler as entrelinhas, o que evidencia que a sua obra tem um significado mais amplo do que aparenta ter. Evidencia-se assim, que a obra destina-se também aos pais dos pequenos leitores.
O mais relevante nessa obra é o fato de o coelho ser pensante por usar a imaginação pra fugir, o que, aliás, é característico na obra de Clarice. O coelho encontrava a sua liberdade e seguia a sua natureza quando fugia, ou, até, “fugia através da imaginação”. É importante observar também que, ao comparar a criação dos filhos humanos e dos filhos coelhos, Clarice evidencia a dificuldade de se conciliar a natureza (natureza humana, natureza animal) e as limitações, o sentir e o pensar.O coelho Joãozinho não parava de fugir, mas ele fugia porque, apesar de ter comida, ser bem cuidado, ter carinho, era de sua natureza procriar, “namorar” e ele não podia ir contra a sua natureza; ela era mais expressiva.
O final da história, Clarice, seguindo suas características, deixa suspensa a solução quanto o mistério da fuga do Coelho Joãozinho, mais uma vez, a interpelação faz o leitor refletir ao final do livro, sobre a misteriosa fuga do Coelho pensante.

A MULHER QUE MATOU OS PEIXES

O Livro infantil A mulher que matou os peixes apresenta características peculiares, pois há nele uma explícita confissão da autora Clarice Lispector, que no livro é além de narradora, personagem: a confissão de que matou os peixes.Mas durante a leitura, a autora envolve o leitor num universo tão agradável para justamente mostrar que não cometeu esse ato propositalmente e que merece receber o perdão.
A narrativa é intercalada em primeira pessoa, já que Clarice é personagem e conta que matou os peixes “Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu. Mas juro a vocês que foi sem querer. Logo eu! que não tenho coragem de matar uma barata ou outra”.e é também em terceira pessoa, quando ela remete sua fala a respeito dos variados tipos de bichos. Nessa obra, Clarice Lispector trata de uma questão importante que é a falta de tempo, o cotidiano do ser humano, e que, na verdade, essa foi a causa da morte dos peixes, pois por ter outras tarefas, Clarice esqueceu-se de algo tão importante que era alimentar e trocar a água dos peixes vermelhinhos .O animal peixe, tão comum tanto nas grandes cidades, quanto nas cidades do interior, e ao mesmo tempo tão frágil, leva o leitor a se comover com a história, e oscilar sua opinião quanto a culpa ou não da morte dos peixes, pois ao mesmo tempo que Clarice deixou que os peixes morressem, esta a todo momento na história, tenta provar sua afetividade por animais, relatando seu contato e carinho por animais de outras espécies .
Toda a narrativa relata fatos e presença de outros animais que servem para justificar o amor da narradora pelos animais, bem como evidencia que ela não teve culpa.A autora deixa em aberto a finalização do livro, tirando de si a resposta quanto sua culpa ou não, e deixando este desfecho para o leitor, que através das interpelações da autora e personagem “Eu peço muito a vocês que me desculpe. Dagora em diante não ficarei mais distraída. Vocês me perdoam?.

A VIDA ÍNTIMA DE LAURA

O obra infantil A vida Íntima de Laura, apresenta uma narrativa sobre a personagem Laura, que é uma galinha muito simples, simpática, que vive no quintal de Dona Luisa, é casada com o galo Luis, tem um pescoço muito feio, é burra e só tem uns pensamentozinhos e sentimentozinhos. Além disso, Laura tem medo de pessoas, porque pensa que vão matá-la.Logo no início do texto, observamos a aproximação do narrador com o leitor, que apresenta-se no seguinte diálogo: “Vou logo explicando o que quer dizer vida íntima. É assim: vida íntima quer dizer que a gente não deve contar a todo mundo o que se passa na casa da gente”, e ainda “Pois vou contar a vida íntima de Laura”.
Quanto ao destinatário, este participa e existe na obra; por diversas vezes a autor /narradora o faz perguntas, estabelecendo um diálogo com ele, e /ou pede algo: “Viu como é difícil?”ou “Se você conhece alguma história de galinha, quero saber. Ou invente uma bem boazinha e me conte”.
Estabelece-se, por meio dessas interações dos leitores, com muita propriedade, uma certa aproximação ou cumplicidade entre o autor /narrador e o destinatário. Além disso, a leitura torna-se interessante porque o pequeno leitor ativa a sua imaginação, seja para responder as perguntas, seja para testar os acontecimentos ou, neste caso, para inventar uma história de galinha.
Em relação ao ponto de vista, a autora/ narradora revela, em alguns trechos, a sua opinião, seu estado de espírito e, até, suas experiências: “Quando eu era do tamanho de você, ficava horas e horas olhando para as galinhas. Não sei porquê”.; “Vai sempre existir uma galinha como Laura e sempre vai haver uma criança como você. Não é ótimo? Assim a gente nunca se sente só.”Acrescenta também a autora /narradora, sempre que possível, juízos de valor, na obra: “...Laura tem o pescoço mais feio que já vi no mundo. Mas você não se importa, não é? Porque o que vale mesmo é ser bonito por dentro. Você tem beleza por dentro?” e ainda “Você sabe que Deus gosta de galinha? E sabe como é que eu sei que Ele gosta? É o seguinte: se Ele não gostasse de Galinha, Ele simplesmente não fazia galinha no mundo. Deus gosta de você também, senão Ele não fazia você”.

ANÁLISE

Analisando os livros em questão, podemos observar que, tanto em O mistério do coelho pensante, A mulher que matou os peixes, quanto em A vida íntima de Laura, há uma interpelação a voz que narra (que conta cada história) a cada passo, interpela o leitor infantil, a ele dirigindo-se com questões ou observações variadas, sobre personagens, gostos e expectativas.Esta interpelação pode ser observada logo no início das duas três narrativas, levando-nos a perceber a busca de uma aproximação e este efeito de aproximação entre narrador e leitor só é possível na medida em que o autor da obra infantil compreende que não basta apenas falar sobre criança, utilizar fatos que agradem crianças “É preciso mais do que isso: colocar-se ao lado do leitor, ver o mundo através dos seus olhos ajudando-o a ampliar esse olhar nas ampliadas direções”(AGUIAR,2001)
.
No início do texto O mistério do coelho pensante, o leitor é interpelado.Cria-se assim, uma aproximação com a matéria narrada, seus personagens e acontecimentos, como uma familiarização com a matéria da história, causando no leitor uma expectativa, uma vez que, partindo desta interpelação, o leitor já passa a fazer parte da história, e se aproximar do narrador.Observemos fragmentos dessa aproximação nos livros analisados:
“Pois olhe Paulo, você não pode imaginar o que aconteceu com aquele coelho” (O mistério do coelho pensante)
Mesmo no caso de O mistério do coelho pensante em que o texto apresenta a narradora contando a história a um receptor determinado e no meado (que é Paulo), as observações e questões a ele apresentadas facilmente podem ser absorvidas através de identificação por parte de outros leitores infantis.
Assim, quando a narradora faz referência a Paulo, ela, nesse momento, se aproxima de cada leitor, como se referisse a todas as crianças, pois estas poderão se identificar com Paulo, seja pela curiosidade, pela fascinação em descobrir o mistério do Coelho, ou simplesmente por seu interesse em conhecerem um pouco mais sobre o animal em questão. Partindo desta identificação, toda criança leitora se coloca no lugar desse menino da história, no lugar do Paulo, recebendo os acontecimentos e as perguntas como um discurso especificamente dirigido a crianças e a ela, como se cada criança fosse um pouco “Paulo”. Da mesma forma em A vida íntima de Laura:

“Vou logo explicando o que quer dizer vida íntima. É assim: vida íntima quer dizer que a gente não deve contar a todo mundo o que se passa na casa da gente, pois vou contar a vida íntima de Laura”. (A vida íntima de Laura)

Inicia-se a narração sobre a vida íntima de Laura e essa aproximação faz com que o leitor logo se aproxime do autor / narrador, entendendo que ele, leitor, não é qualquer pessoa e, então, não há problema algum em contar a vida íntima de Laura para ele.
Nos livros em questão, animais classificados como burros inicialmente ao longo do texto apresentam essa concepção modificada, O mistério do coelho pensante, o animal protagonista é mais inteligentes que os humanos (adultos e crianças): “Dessa vez, Paulo, foi uma idéia tão boa que nem mesmo criança, que tem idéias ótimas, pode adivinhar”.
Em A mulher que matou os peixes, ocorre, bem como em A vida íntima de Laura, e O Mistério do Coelho Pensante a fusão de focos narrativos.O ponto de vista é subjetivo, já que Clarice além de contar suas experiências, revela o seu estado de espírito “Estou com esperanças que, no fim do livro vocês já me conheçam melhor e me dêem o perdão...”.
O destinatário é de fundamental importância nessa obra, não só porque dialoga e interage, durante toda a narrativa, mas porque o livro conduz a um desfecho em que é o leitor que vai decidir se deve perdoar ou não a mulher que matou os peixes “Vocês me perdoam?”.
As três obras infantis em questão trabalham animais como personagens, trazendo além das características narrativas, animais como um diálogo de maior proximidade do leitor infantil. No livro, A formação do Leitor Literário, Colomer (2003) faz uma referência quanto à utilização de animais em literatura infantil, ressaltando os fatos dos animais fazerem parte da vida das crianças e pertencerem ao seu imaginário “Os animais mantêm boa identificação com as crianças” (COLOMER, 2003).

CONCLUSÃO

O final dos três livros em questão possui no seu enlace uma “estrutura” que se diferencia dos finais clássicos das histórias infantis em que os personagens “viveram felizes para sempre”.Nas obras de Clarice, o final não é fechado, pautando uma regra interpretativa para o leitor ao longo do texto.Clarice Lispector, não fugindo das suas características também presentes na sua obra para adultos, conduz o leitor infantil a um final em ele continua a ser interpelado, para que busque suas próprias conclusões. No caso do Mistério do coelho pensante, uma vez que o mistério não é totalmente esclarecido ao final do texto, o próprio texto deixa o leitor tirar sua conclusão:
“Você me pediu para descobrir o segredo da fuga do coelho. Tenho tentado descobrir do seguinte modo: fico franzindo meu nariz bem depressa. Só para ver se consigo pensar o que um coelho pensa quando franze o nariz”

Ou ainda com a seguinte interpelação: “Se você quiser descobrir o mistério, Paulinho, experimente você mesmo franzir o nariz para ver se dá certo” levando os leitores a aprofundarem a resposta, apelando para a criatividade deste leitor.
Em A vida Intima de Laura, a finalização não revela se Laura vai ou não ser comida e as conclusões ficam a critério do leitor, que interpreta e finaliza a sua maneira com a interpelação final, quando o narrador pede para saber alguma história de galinha, concluímos que há a busca do estreitamento de uma aproximação com o leitor que deverá agora, ao fim da leitura, sentir-se mais próximo da realidade do mundo das galinhas, mesmo no caso em que o leitor não tenha tanto contato assim com esse tipo de animal por ser de um a grande centro urbano, por exemplo, a autora ainda diz” Invente uma( história) bem boazinha e me conte”, levando o receptor a desenvolver sua criatividade e participação na história que não se encerra ali no livro, vai além...
Quanto ao final, a autora encerra com uma frase que leva-nos à conclusão quanto a Laura “Laura é bem vivinha”, este termo pode levar-nos a conclusões sobre a morte ou não de Laura, acreditando que Laura realmente não morreu,, ou que Laura não é fruto de uma ficção, mas sim real, bem vivinha. Esta afirmação é feita de forma bem sutil e leva o leitor a tirar suas conclusões.
Analisando estas três obras, podemos verificar o destaque do tratamento humanizado dos animais, seus comportamentos, idéias, níveis de aproximação com o leitor e a presença de animais e sua importância na Literatura Infantil, importância esta de se aproximar do leitor através da sua identificação com os animais; a importância de trazer para o mundo do leitor o mundo animal, englobando seus hábitos, sua cria, alimentação, moradia, ressaltando sempre o valor de cada animal e sua espécie.
O tratamento de animais em obras literárias decorre desde as fábulas que são narrativas (de natureza simbólica) de uma situação vivida por animais, que alude a uma situação humana e tem por objetivo transmitir certa moralidade. A apresentação de uma exemplaridade espelha a moralidade social da época. Essa moral é fechada, inquestionável. A não-mudança implementada pelas fábulas retrata uma preocupação com a manutenção da ordem estabelecida. A fabulação ou afabulação é a lição moral apresentada através da narrativa. O epitímio constitui o texto que explicita a moral da fábula, sendo o cerne da transmissão dos valores ideológicos sociais.Este tipo de texto já aparece no século XVIII a.C., na Suméria. Nascido no Oriente, vai ser reinventado no Ocidente pelo grego Esopo (Séc. V a.C.) e aperfeiçoado, séculos mais tarde, pelo escravo romano Fedro (Séc. I a.C.) que o enriqueceu estilisticamente. Entretanto, somente no século X, começaram a ser conhecidas as fábulas latinas de Fedro.Ao francês Jean La Fontaine (1621/1692) coube o mérito de dar a forma definitiva a uma das espécies literárias mais resistentes ao desgaste dos tempos: a fábula, introduzindo-a definitivamente na literatura ocidental. Embora escrevendo para adultos, La Fontaine tem sido leitura obrigatória para crianças de todo mundo.
Clarice, nas obras analisadas, não trabalham um texto com a moral fechada e inquestionável como a fábula, pelo contrário, as soluções finais ficam a critério do leitor e suas obras infantis também não retratam animais como inofensivos e indefesos, mas como bichos que possuem suas preferências, que embora sejam caracterizados como burros- na própria obra infantil analisamos esta caracterização- se mostram inteligentes e importantes, seja pelo carinho e afeto, como no Mistério do coelho pensante, ou em A vida íntima de Laura em que Laura, embora fosse muito feia, tinha sua importância, pois colocava muitos ovos, o que a fazia diferente das outras galinhas.Em A mulher que matou os peixes, embora a história central seja a de dois peixinhos vermelhinhos, que aparentemente são animais inofensivos, há uma profusão de outros animais com histórias tristes ou alegres, e todas valorizando as relações entre o ser humano e outras espécies.
Os três livros analisados são obras de grande relevância na literatura infantil, uma vez que trabalham o imaginário, o prazer da leitura, um rico conteúdo de informações, levando o leitor a um universo criativo e ao mesmo tempo participativo, dialogando a todo momento com o receptor e com diferente pontos de vista para a apresentação dos acontecimentos, não se distanciando,em momento algum, de características presentes em outras obras escritas por Clarice Lispector.

 
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