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  LEITURA: DELEITES E ANGÚSTIA - UM ESTUDO COMPARATIVO DO UNIVERSO SIMBÓLICO DE JOVENS E ADULTOS LEITORES HABITUAIS E NÃO HABITUAIS

Edleuza Ferreira da Silva
USP/FE - Mestranda em Cultura, Organização e Educação

AS MOTIVAÇÕES DA PESQUISA

Esta comunicação individual apresenta os resultados parciais da pesquisa para dissertação de mestrado intitulada: Leitura: deleites e angústias. Um estudo comparativo do universo simbólico de jovens e adultos leitores habituais e não habituais, desenvolvida na Universidade de São Paulo, na Faculdade de Educação, na linha de pesquisa em Cultura Organização e Educação, sob a orientação do professor, doutor e livre-docente Marcos Ferreira Santos

O tema-problema desta pesquisa está pautado pela aparente antagonia que a leitura provoca em dois grupos de jovens e adultos com os quais lido e aos quais observo, desde o ano de 2001. Um grupo é formado por alguns usuários da Biblioteca Municipal Paulo Setúbal, no município de São Paulo, mais conhecida como a Biblioteca Municipal de Vila Formosa, aos quais nomeio leitores habituais, porque, aparentemente, procuram pela leitura e demonstram prazer em ler. O outro grupo é composto por alunos do Cursinho Comunitário Pré-Vestibular Sagrado Coração aos quais nomeio leitores não habituais, porque, também aparentemente, parecem manter certa aversão à leitura, procurando-a apenas em momentos angustiantes de absoluta obrigatoriedade.

Trabalho atualmente como coordenadora pedagógica voluntária do cursinho, onde também sou professora de redação dos jovens e adultos que lá estudam, o que me avaliza a confirmar que a aparente angústia que eles apresentam em relação à leitura, principalmente a de obras literárias, vem se configurando como real constatação. Quanto aos usuários da biblioteca, minha aproximação foi intensificada quando ministrei oficina de leitura a um grupo de jovens e com nove meses de trabalho na seção de empréstimo de livros e mediação de leitura. Nesses meses tive a oportunidade de fazer um levantamento das obras mais requisitadas, e por quem, além de promover conversas informais com os freqüentadores mais assíduos. Ocasiões essas de enorme valia para confirmar que a leitura para muitos deles é realmente um deleite.

Os motivos que me levaram a intuir a comparação entre esses dois públicos são: o fato de serem moradores da mesma região, terem formação escolar equivalentes – quase todos concluíram o ensino médio nas mesmas escolas estaduais do distrito de Vila Formosa ou dos distritos próximos -, alguns deles são alunos do cursinho e também freqüentadores da biblioteca, são de classe econômica baixa ou média-baixa.

A convivência com os dois grupos de leitores: um que procura a leitura por prazer e outro que a exerce por obrigação, despertou meu interesse pelo estudo do universo simbólico desses dois grupos no sentido de levantar quais são os fatores que levam os usuários da biblioteca a buscarem, espontaneamente, a leitura e o porquê que a maioria dos alunos do cursinho só lêem com o propósito utilitarista de passarem no vestibular.

Outro ponto impulsionador da investigação é o fato de esses jovens e adultos alunos do cursinho já terem saído do sistema de ensino obrigatório e serem considerados aptos a prosseguirem com o estudo superior, apresentando dificuldades das mais elementares às mais complexas com a leitura e a escrita. Já o fator instigante para a observação sobre o interesse pela leitura dos jovens e adultos leitores habituais da biblioteca é qual o interesse que os move para a leitura dessa ou daquela obra literária.

Esta pesquisa leva em consideração que a maioria, para não dizer a totalidade, dos programas de incentivo à leitura, bem como dos estudos acadêmicos e os programas desenvolvidos por instituições governamentais, ou não, têm sempre se voltado para o público infanto-juvenil. Mas, existe um público jovem e adulto interessado por um maior, e melhor, contato com a literatura, que precisa de apoio e tem procurado por isso.

A pesquisa limita-se a investigação do interesse pela leitura de obras literárias, classificadas nas bibliotecas com a numeração 800 (oitocentos) e F (efe) para literatura juvenil.

LEVANTAMENTO DO UNIVERSO DA LEITURA: os métodos de investigação e material analisado

Iniciei a investigação com o levantamento das obras literárias de classificação 800 e F mais solicitadas para empréstimo pelos usuários da Biblioteca de Vila Formosa, nos meses de férias escolares: novembro e dezembro-2004 e janeiro e fevereiro-2005.

Com esse levantamento será possível a investigação das obras mais retiradas, saber quem as retirou, idade, sexo e grau de escolaridade. Podendo, ainda, se verificar quais autores e obras são mais requisitados.

Com os alunos do cursinho, que tiveram como primeira semana de aulas, uma semana completa de aulas de leitura, intelecção, interpretação de textos e redação, pude coletar depoimentos, por escrito, cujo tema era “Eu e a Leitura”, no qual os alunos foram obrigados a desenvolver um texto em que contando como foi seu relacionamento com a leitura. Foram feitas três versões para o mesmo texto. A primeira foi elaborada na primeira aula, no primeiro momento, sem nenhuma orientação prévia. Apenas lhes foi dito que deveriam produzir um texto, de no mínimo dez linhas, desenvolvendo o tema mencionado. A aula transcorreu com noções sobre ortografia, acentuação e pontuação. Na segunda versão para o mesmo tema os alunos foram orientados a corrigir seus textos segundo as orientações ministradas naquela aula. Era necessário que reescrevessem o texto fazendo as devidas alterações. A terceira versão foi feita após serem introduzidas noções sobre frase, oração, período, coesão, coerência, concordância, regência, enfim, toda a sorte de regras da gramática normativa, os alunos foram orientados de como deveriam estudar e consultar a gramática. Além disso dois textos lhes foram dados para leitura, antes de elaborarem a terceira versão: o Sermão da Sexagésima, do Pe. Antônio Vieira, as três primeiras partes e o texto A importância do ato de ler, de Paulo Freire. Nesta terceira versão eles foram orientados a redigir o seu texto nos moldes do de Paulo Freire.

Oitenta e oito alunos entregaram os textos, sendo que apenas 53 deles realizaram as três versões do mesmo tema. O restante dos alunos entregou apenas uma produção ou duas.

Analisando essas produções tenho feito o levantamento das imagens que os alunos criam para descrever suas dificuldades com a leitura e como essa descrição se desenvolve no transcorrer das três versões.

O que propiciará uma comparação entre os dois grupos, mais compatível com os rigores da metodologia é entrevista que será realizada com indivíduos dos dois grupos, os alunos do cursinho e os usuários da biblioteca. Nesse momento serão selecionados dentre os leitores habituais da biblioteca, os que leram a maior variedade de obras e a maior quantidade de livros no período mencionado e, dentre os leitores não habituais dos alunos de 2005, serão selecionados os que declaram as maiores dificuldades com a leitura.

DELEITE E ANGÚSTIA: busca de sentido na leitura

A análise parcial do material recolhido tem apontado para alguns pontos importantes: a Biblioteca Municipal de Vila Formosa efetuou mais de seis mil cadastros de usuários para empréstimo no ano de 2004. Nos anos de 2003 e 2004, consagrou-se entre as três mais freqüentadas bibliotecas do município de São Paulo, segundo dados estatísticos da Secretaria Municipal de Cultura. A leitura de obras classificadas como 800, literatura, é a que alcança o maior número de empréstimo diário nas estatísticas da biblioteca, principalmente aos finais de semana prolongados. O que aponta para uma forma de lazer que a população de baixa-renda, ou não, pode e tem usufruído, afinal, o empréstimo é gratuito.

Em conversas, de caráter informal com alguns leitores habituais da biblioteca, alguns depoimentos registram que a leitura é para eles um prazer do qual não abrem mão e alguns deles tecem um carinho todo especial pela biblioteca, freqüentando-a desde a infância. Esses encontram na literatura o deleite e a apreciação do belo, tão em falta no nosso cotidiano.

Os leitores não habituais do cursinho têm na leitura um algoz que os impede de avançar na empreitada rumo à admissão no vestibular. A maioria não atina que as deficiências com o vocabulário, as dificuldades com a gramática, os problemas com a intelecção e a interpretação dos textos estão imbricados na sua dificuldade com a leitura. Se não se lê direito como desvelar os segredos, os símbolos, a magia, as informações e a intertextualidade que o texto literário oferece? Isso os angustia. Observo que entre os leitores habituais da biblioteca, há os que também tratam a leitura como um instrumento de finalidade específica: provas de vestibular, provas escolares, concursos etc. E que dentre os leitores não habituais do cursinho, há os que têm grande interesse pela aquisição da boa leitura e pela aproximação desse prazer de ler.

O interesse e o desinteresse pela leitura podem estar ligados à capacidade de simbolização desses jovens e adultos:

Como prática simbolizadora, as artes e suas obras são a mais perfeita tradução da construção humana. Significa e aponta um sentido, reclama-nos um olhar uma ação. O olho e a mão de uma corporeidade em processo. Ação da imagem ou, ainda, imaginação.

Mas, não podemos esquecer que a escassez de programas voltados para o estímulo da leitura para jovens e adultos é fator que agrava o desestímulo à leitura os mesmos, que na maioria das vezes só leram, por obrigação, enquanto freqüentaram a escola.

Algumas ações pontuais foram promovidas nas bibliotecas, como oficinas de leitura, de literatura, encontros com escritores, nos anos de 2003 e 2004. Mas a divulgação desses eventos foi precária e o número de vagas limitado.

A cidade de São Paulo merece, por parte da Secretaria Municipal de Cultura, uma ação grandiosa e elaborada para as bibliotecas municipais incentivando da leitura para pessoas, com hábito de leitura, ou não, de todas as idades. Afinal é nas bibliotecas que encontramos os maiores e mais completos acervos literários à gratuitamente à disposição da população.

 
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