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  GRUPO DE TERÇA DO GEPEC: OBSERVAÇÕES SOBRE O E OS GRUPOS QUE SER FORMAM

José Paulo Mendes da Silva

O Grupo de Terça como uma das atividades do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada – GEPEC – da Faculdade de Educação da UNICAMP, possui uma história de produção científica e ações conjuntas com professores da rede pública e particular de ensino, que participam de um espaço para troca de saberes e conhecimentos constituídos/tecidos ao longo da formação e prática profissional. A heterogeneidade do grupo, a dinâmica diferenciada no funcionamento dos encontros e o comprometimento dos sujeitos enriquecem as discussões e promovem a negociação das tensões marcando o fortalecimento do mesmo.
Os grupos, com suas características, tensões e polaridades é definido por Sartre (apud Lapassade, 1977) da seguinte forma:

O grupo, com efeito, define-se não como um ser, mas como um ato. Este último é um ato do grupo sobre si mesmo: o grupo se trabalha incessantemente; uma práxis comum virada para o exterior, só é práxis de um grupo se aqueles que a efetuam juntos estabelecem uns com os outros as relações que constituem o grupo.


Observamos que dentro do GT do GEPEC diversos grupos se formam, seja pelas suas particularidades como suas especificidades.
Sueli P. Luz elencou 20 aspectos que compõe as relações entre os grupos no GT do GEPEC, configurando um caleidoscópio de informações, ao mesmo tempo desconcertante por levantar questionamentos que inicialmente parecem isolados, mas se apresentam comuns a todos os participantes, hipnotizante dado o envolvimento dos grupos e reflexivo, desconstruindo pré-conceitos para reconstruir novas idéias.
O número de participantes fixos e variáveis se caracteriza pela própria história de vida dos participantes do GT do GEPEC.
Rosaura Soligo apresenta um depoimento que traduz a pluralidade e a heterogeneidade do grupo, como se observa a seguir:

Tenho aprendido muita coisa no grupo de terça. Mas o que por ora quero destacar é que aprendi, pela experiência, que um grupo pode ser plural. Muitas vezes ? quase sempre, na verdade ? o coletivo põe embaixo do tapete as singularidades, as individualidades. Pasteuriza. Mascara. Sugere uma unidade que nem sempre existe. O que me parece é que o Grupo de Terça tem se constituído num espaço de aprendizagem exatamente porque não há compromisso com a unidade de pensamento, com o consenso, com o posicionamento coletivo. Não que essas sejam características negativas num grupo. Muito ao contrário. Em geral, essas são as características que marcam e sustentam os grupos. No sindicato, no partido, no movimento social, na militância de todos os matizes é assim que é. A questão é que a heterogeneidade própria do Grupo de Terça e a opção pela pluralidade não parecem comportar um perfil típico dos grupos mais convencionais. Assim, o ponto forte do Grupo de Terça do GEPEC pode também ser a sua fragilidade.

Foi instituído, a partir de fevereiro de 2005, o registro das reuniões do grupo em um “caderno de registros”, adotando uma sistematização que visa retomar as falas e contribuições dos componentes do GT do GEPEC, constituindo um elemento rico para análise e produção científica.
A dinâmica apresentada a priori e seu desenvolvimento a posteriori, configuram as características do GT do GEPEC, que através da circularidade de diversos temas apresentados para investigação elencou as características da escola e o trabalho docente.
O movimento observado entre os participantes do GT do GEPEC envolve: sentimento de resistência; de exclusão pela própria universidade que não os vêem como alunos (efetivos e reconhecidos) de uma formação continuada; de exclusão pela sociedade que discrimina o professor como um trabalhador para a construção da mesma; de exclusão dentro da própria escola em seus diversos níveis hierárquicos (o próprio professor hierarquiza sua relação com os alunos pela falta de reflexão da sua própria história de vida associada a sua prática docente); as intervenções e tensões provocadas pelas mudanças políticas/partidárias, que refletem nas ações dentro das escolas; as ações positivas relatadas que pela falta da prática e da própria baixa estima profissional não são registradas; a falta de autonomia para a ação docente; os questionamentos sobre o autoritarismo para o uso do HTPC, com questionamentos críticos e políticos já apontados por Adriana Dickel .
Sobre a fala dos professores ser reconhecida como conhecimento científico, as reuniões do GT do GEPEC destacam que através dos registros sistemáticos da sua práxis é possível o respaldo acadêmico. Os registros traduzem os anseios e a busca do professor por soluções aos seus problemas que deixam a sua caverna para serem expostos e respaldados pela identificação de outros professores que apresentam os mesmos problemas.
Liana Arrais Serôdio destaca um desses momentos em seu registro, como observamos a seguir:

Ao chegar, tensa, afinal tinham se passado 12 anos da última vez que a UNICAMP abrigou minhas buscas de conhecimento, me deparo com um prédio cuja forma é metáfora de minha emoções: “Onde estou indo? Que lugar é esse? Ôps, parece que já estive aqui... É por esse lado?” Finalmente cheguei a uma pequena sala ao final e à direita de um dos corredores e com uma vitrine! Através dela, você enxerga se é ali mesmo que quer ir atrapalhar (muito) tendo que abrir e fechar a porta para enxergar. Lá dentro, a sala apertada tinha uma mesa, em volta da qual todos se sentavam em igualdade de acomodações! Isso me pareceu inusual e interessante! “Bom começo”, pensei.[...] “Peguei os assuntos pelo caminho”, lembro que pensei. Agora sei que esse é um dos grandes fascínios do GT do GEPEC: está sempre a caminho, pelos caminhos, nos caminhos, abrindo caminhos e também nas margens dos caminhos.

Analisando a autoria dos textos, levantou-se diversos questionamentos: Quem pode ser considerado autor do texto (mesmo que individual)? Afinal, qual a importância da autoria?
Nesse contexto, Laura Noemi Chaluh relata:

Este ano (2004) vivenciei como é que se produz um texto coletivo. Tivemos a possibilidade de fazer um texto, no caso, sobre o Mestre Ignorante de Jacques Ranciére. Como já é costume no grupo foi proposto fazer dos textos individuais um texto coletivo. A idéia foi que cada participante do grupo que tinha trabalho escrito decidisse que fragmentos, idéias, conceitos queria que ficassem no texto coletivo.

A autoria coletiva se caracteriza por dar voz e autonomia para a construção de um texto, nesse caso, sobre o pensar e o fazer pedagógico que apesar das características individuais apresentam pontos comuns dentro de uma coletividade. Não se configura como o livro elaborado por um único autor, na qual a sua voz é conquistada em determinado espaço.
Se as reivindicações dos professores passam pelo reconhecimento e pelo resgate da auto-estima, quais as alternativas que a Universidade lhes oferece? O GEPEC se apresenta como uma dessas possibilidades, quando abre um espaço para que os professores falem e possam ser ouvidos como o Grupo de Terça.

 
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