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  VIVENCIANDO A CONSTRUÇÃO DE JORNAL NA ESCOLA

Maria Angélica Pitanga de Macêdo Silva - Secretaria de Educação/Prefeitura do Recife – PR

A escola, ambiente onde encontramos diversas formas de nos expressarmos, de discutirmos, de dialogicidade, traz-nos muitas experiências no tocante ao ensino e à aprendizagem. No contexto escolar estão presentes diferentes maneiras de se trabalhar a leitura e a escrita, por exemplo. Nesse local, desde cedo, as crianças entram em contato com distintos materiais e metodologias que dão suporte ao trabalho que envolve os atos de ler e escrever. Dentre os materiais que são utilizados para promover o exercício da leitura, destaca-se o livro, que é o mais utilizado nas escolas. Além da leitura, esse recurso didático estimula o falar, a oralidade, o diálogo, a escrita, a discussão entre os alunos e os professores. A revista e o jornal também merecem destaque, mas estes não são tão explorados no dia-a-dia escolar. O jornal, por exemplo, é um ótimo recurso, já que é um suporte que traz diversos gêneros textuais em seu corpo. Por isso, nesse relato de experiência, abordaremos tal recurso como importante material a ser discutido e vivenciado no cotidiano da escola. Este relato é fruto de uma experiência desenvolvida na Escola Municipal Sítio do Berardo, uma das escolas da Prefeitura do Recife.
O presente trabalho, para ser explicado e compreendido melhor, está dividido em três partes. Na primeira, enfatizamos os gêneros textuais, a construção de textos e a utilização de jornal na escola, destacando as abordagens de Marcuschi (1997) no que se refere aos gêneros; de Bakhtin (1997) levando-se em consideração a abordagem enunciativo-discursiva e de Pontual (1999) e Souza (2002), que destacam o uso do jornal na escola. Na segunda, enfocamos o trabalho com jornal no ambiente escolar, descrevendo as atividades realizadas com esse meio de comunicação e as etapas didáticas vivenciadas na produção do jornal da Escola Municipal Sítio do Berardo. Na última parte, apresentamos os resultados advindos dessa experiência.

1. Gêneros textuais, construção de textos e jornal

A escola é um local onde podemos encontrar diversas formas de se trabalhar conteúdos de inúmeras áreas de conhecimento, e, para que sejam vivenciadas distintas temáticas, os professores utilizam metodologias e materiais os mais diferentes possíveis para atrair a atenção dos alunos, instigando-os e estimulando-os a quererem participar das aulas com entusiasmo e, conseqüentemente, aprender cada vez mais e também ensinar com suas experiências.
Um dos materiais utilizados nas salas de aula são os livros que estão recheados de gêneros textuais, os quais são, segundo Marcuschi (2002:19), “entidades sócio-discursivas e formas de ação social incontornáveis em qualquer situação comunicativa”. É interessante abordar ainda que os mesmos podem ser mudados com o auxílio de muita imaginação e criatividade. Sobre isto, o autor afirma que “os gêneros não são instrumentos estanques e enrijecedores da ação criativa”, eles “caracterizam-se como eventos textuais altamente maleáveis, dinâmicos e plásticos”. Bakhtin (1997) afirma que os gêneros são tipos “relativamente estáveis” de enunciados elaborados pelas mais diversas esferas das atividades humanas. Por isso, não apresentam formas estruturais fixas.
O trabalho com gêneros no ambiente escolar é fundamental para o desenvolvimento de vários aspectos, entre eles estão o cognitivo, cultural e social. Cada gênero tem sua peculiaridade, sua especificidade, assim como nós, mas o mais importante são as funções que o mesmo abriga, a saber: comunicativa, cognitiva e institucional.
Os gêneros textuais apresentam grande diversidade, são inúmeros, podemos citar alguns deles: telefonema, carta pessoal, romance, bilhete, reportagem jornalística, aula expositiva, reunião de condomínio, horóscopo, receita culinária, bula de remédio, lista de compras, cardápio de restaurante, instruções de uso, outdoor, inquérito policial, resenha, edital de concurso, conversação espontânea, seminário, carta eletrônica e bate-papo na internet. Percebe-se diante de todos esses exemplos, que o trabalho com gêneros pode ser algo diversificado e riquíssimo se for bem explorado pelos profissionais da área de educação.
A proposta de se trabalhar na escola com os gêneros é de suma importância, pois “é impossível se comunicar verbalmente a não ser por algum gênero, assim como é impossível se comunicar verbalmente a não ser por algum texto” (MARCUSCHI, 2002:22). Compreende-se, dessa forma, que constantemente fazemos uso dos gêneros porque os mesmos têm propriedades sócio-discursivas. Cada exemplo de gênero apresentado acima tem sua função em situações comunicativas, vejamos algumas: Se uma empresa quer apresentar um determinado produto para os consumidores ela poderá utilizar um outdoor; caso alguém esteja morando fora do Brasil e queira comunicar-se com os seus familiares, poderá escrever e enviar uma carta pessoal; se um professor quer explicar aos alunos sobre a leptospirose ele fará uma aula expositiva. Como podemos perceber são inúmeras situações, cada qual com um propósito, com uma finalidade e, conseqüentemente, com a utilização de um gênero específico.
Segundo Bronkart (1999 apud MARCUSCHI, 2002:29), “a apropriação dos gêneros é um mecanismo fundamental de socialização, de inserção prática nas atividades comunicativas humanas”. Diante disso, a escola precisa proporcionar aos alunos uma grande diversidade de gêneros orais e escritos, abrangendo as várias esferas de circulação, para que se apropriem das características de cada um deles e saibam, nos momentos adequados, utilizá-los com segurança. É importante frisar, no entanto, que não basta “expor” diferentes gêneros textuais. Estes devem ser explorados pelo professor, tanto no momento de produção oral ou escrita como no momento de leitura de textos. Dessa forma, é fundamental que se vivenciem na escola os gêneros textuais que circulam no mundo fora dela, estimulando-se a leitura em diversos portadores de textos e as discussões das idéias, informações e intenções dos autores em cada texto. Ou seja, é de fundamental importância que a escola amplie o acesso ao mundo letrado levando para as salas de aula os vários suportes tecnológicos da comunicação utilizados nas vivências sociais, a exemplo das revistas e dos jornais. Com isso, a instituição escolar estará “cumprindo um papel importante na busca da igualdade de oportunidades” (BRASIL, 1998:151).
Entretanto, para que o trabalho com leitura e escrita de diversos gêneros aconteça de fato no contexto escolar, faz-se necessário que o professor seja, antes de tudo, leitor e crítico. É preciso que o mesmo já tenha um bom relacionamento com os gêneros, saiba escolher os que mais lhe interessa e saiba apreciá-los para, a partir daí, ele poder realizar uma prática constante de leitura e, conseqüentemente, de escrita com os seus alunos, abordando inúmeros suportes textuais. Sobre este assunto, o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998:141) coloca que “é de grande importância o acesso, por meio da leitura pelo professor, a diversos tipos de materiais escritos, uma vez que isso possibilita às crianças o contato com práticas culturais mediadas pela escrita. Comunicar práticas de leitura permite colocar as crianças no papel de ‘leitoras’, que podem relacionar a linguagem com os textos, os gêneros e os portadores sobre os quais eles se apresentam: livros, bilhetes, revistas, cartas, jornais etc.”. Dessa forma, podemos perceber o quanto a formação de leitores depende de quem os está formando, da sua experiência com a ‘palavra’. Segundo Pontual (1999:33), “todos os professores precisam ser leitores e entendedores da ‘palavra’, pois somente assim poderão oferecer ao educando a possibilidade de desenvolver sua capacidade de compreensão e redimensionamento da existência”. Os professores que lêem os diversos portadores de textos, por exemplo, mantêm-se informados sobre vários assuntos do contexto social, cultural, político, econômico e também formam-se, ampliando ainda mais os seus saberes, podendo, nesse sentido, contribuir para um processo de ensino-aprendizagem mais rico com seus alunos, informando-os e formando-os também.
Dentre os portadores de textos, um dos que mais se destacam é o jornal, visto que este é um meio de comunicação popular e que circula diariamente nas comunidades. Esse veículo de massa abrange gêneros textuais diversificados, a saber: classificados, notícias jornalísticas, propagandas, receitas, cartas, horóscopo, entre outros. Dessa maneira, esse suporte contribui, consideravelmente, para a ampliação do conhecimento da população não apenas em termos de informações locais, nacionais e mundiais, ou seja, uma visão de mundo, mas também no que se refere aos gêneros textuais e suas características. O contato das pessoas com o jornal, além disso, amplia o vocabulário, contribui para um falar adequado às situações de uso da língua e, conseqüentemente, escrever melhor, pois esse meio de comunicação diário conduz à prática da leitura e à formação do leitor. No entanto, questiona-se: o que é ser leitor? De acordo com Pontual (1999:18), “ser leitor é poder entender e ampliar a compreensão do mundo, é estar em permanente relação com o eu/outro. É a descoberta de si através do que se projeta no texto, é enfim poder ler-se no outro que está no texto que, às vezes, é diferente e outras, igual”.
Quando praticamos o ato de ler não estamos apenas aprendendo e nos enriquecendo com novos conhecimentos, mas estamos de certa forma dialogando com o autor do texto e produzindo novas idéias, idéias próprias. Segundo Bakhtin (1997:123), o diálogo é uma das formas mais importantes da interação verbal. Entretanto, o autor afirma que “pode-se compreender a palavra ‘diálogo’ num sentido amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja”. O livro, por exemplo, caracteriza-se como um elemento da comunicação verbal. “Ele é objeto de discussões ativas sob a forma de diálogo e, além disso, é feito para ser apreendido de maneira ativa, para ser estudado a fundo, comentado e criticado no quadro do discurso interior [...]. Além disso, o ato de fala sob a forma de livro é sempre orientado em função das intervenções anteriores na mesma esfera de atividade, tanto as do próprio autor como as de outros autores”. O jornal, assim como o livro, possibilita o diálogo com inúmeros autores.
Outra questão a ser destacada é que o jornal “por ser um material diário, oferece a possibilidade de informação atualizada, por isso a utilização do jornal tem de ser viabilizada pelo professor de maneira muito responsável, pois vale lembrar que, mesmo tentando ser isento de algum critério de valor, o jornal representa, de certa forma, o momento histórico-social e, por isso, ele não deve fechar-se em opiniões, mas possibilitar ao leitor a reflexão e o questionamento” (PONTUAL, 1999:31).
Diante do que foi exposto, percebe-se a importância de se diversificar o material de leitura a ser utilizado pelos alunos, dessa forma, o professor estará contribuindo para o desenvolvimento do ato de ler e escrever. O livro didático tem seu destaque, mas é preciso utilizar outros portadores textuais, como revistas e jornais. No dizer de Pontual (1999:12), “o universo de leitura é ampliado e não apenas o livro é objeto e veículo para especulações e conhecimento, mas também toda a forma de transmissão de comunicação. Nesse sentido, o jornal passa a ter importante papel na prática pedagógica”. Quando bem explorado pelo professor, o jornal torna-se rico material didático diário, informando e sendo formador de opiniões, através de suas reportagens que levam o aluno/leitor a se ver em seu conteúdo que traz textos da comunidade na qual está inserido. E, “por dar prioridade aos fatos sociais que ocorrem em determinada sociedade, o jornal constitui excelente material didático para o ensino de leitura e produção de texto” (SOUZA, 2002:58). Essa ligação do jornal com a escola, da realidade empírica com o ensino sistematizado, torna o processo de ensino-aprendizagem mais rico, mas, primordialmente, permite que haja a contextualização do currículo escolar, inserindo o educando na vida.
O trabalho com jornal também proporciona inúmeras atividades e, conseqüentemente, o desenvolvimento dos educandos, contribuindo com uma efetiva formação de cidadania, visto que são discutidos e refletidos assuntos do dia-a-dia da comunidade em que estão inseridos. Pontual (1999:44) afirma que “o jornal na sala de aula produz um efeito significativo naqueles que participam de sua leitura. Surge a necessidade de se comentar os fatos, de se opinar, trocar idéias, refletir e abrir-se para discussões”. Todas essa ações/atividades podem ser melhor complementadas com a construção de textos individuais e/ou coletivos. “O trabalho com produção de textos deve se constituir em uma prática continuada, na qual se reproduz contextos cotidianos em que escrever tem sentido. Deve-se buscar a maior similaridade possível com as práticas de uso social, como escrever para não esquecer alguma informação, escrever para enviar uma mensagem a um destinatário ausente, escrever para que a mensagem atinja um grande número de pessoas, escrever para identificar um objeto ou uma produção etc.” (BRASIL, 1998:146).
Quando o professor lê para o aluno, este está em silêncio, mas pensando em muitas coisas referentes ou não ao que está sendo lido. É importante, após a leitura de um texto interessante ou de uma aula criativa e dinâmica, que seja feito um registro individualmente ou de forma coletiva para observar o que os educandos estão aprendendo e o que eles têm para ensinar com suas idéias e experiências do cotidiano. Nessa ótica, podemos observar o quanto a prática de produzir textos é fundamentalmente rica para o processo de ensinar e aprender. Mesmo que o aluno não escreva convencionalmente é interessante que este se aproprie da escrita, e a elaboração de gêneros textuais é uma ótima maneira para que essa apropriação aconteça. “As crianças que não sabem escrever de forma convencional, ao receberem um convite para fazê-lo, estão diante de uma verdadeira situação-problema, na qual se pode observar o desenvolvimento do seu processo de aprendizagem” (BRASIL, 1998:148, 150). Entretanto, vale ressaltar que a prática da escrita precisa ter sentido para quem executa. Existem algumas condições consideradas essenciais para tal prática, entre elas, podemos destacar a seguinte: “propor atividades de escrita que façam sentido para as crianças, isto é, que elas saibam para que e para quem estão escrevendo, revestindo a escrita de seu caráter social”.
Portanto, a construção de jornal no ambiente escolar é um excelente exemplo para se trabalhar a leitura e, sobretudo, a escrita com real sentido para o aluno. Mas, para que o trabalho com jornal aconteça, o professor precisa primeiramente saber como utilizá-lo na sala de aula, explorando bem esse recurso (mostrando-o aos alunos, permitindo que manuseiem, façam leituras coletivas e/ou individuais, pesquisem, conheçam suas características, suas partes), dessa forma, ele poderá avançar com seus alunos em direção a essa construção.
Na construção do jornal, devemos deixar claro que o aluno participará desde a escolha do nome até a elaboração de material. É interessante destacar, no decorrer dessa vivência, os diversos gêneros textuais que se encontram inseridos no recurso pedagógico em questão e que os alunos podem elaborar gêneros diferentes para enriquecer e pluralizar o jornal da escola. O material coletado, quando se trata da escola como um todo, é muito diversificado e em grande quantidade, por isso a atividade dos alunos também terá papel fundamental na escolha do material que irá veicular naquele suporte textual. Todas as turmas precisam ser contempladas de alguma forma. A função do professor, nessa etapa, tem muita importância, visto que o mesmo precisa saber lidar com as situações-problema que poderão vir a ocorrer, principalmente quando tais situações envolvem crianças pequenas. Uma sugestão, nesse caso, é o educador expor na sala de aula ou até mesmo em outro espaço da escola as produções que não foram selecionadas para saírem no jornal. Assim, acontecerá a valorização de todos os trabalhos, sejam eles produções escritas ou ilustrações. Sugestões e idéias também poderão ser levantadas pelos estudantes e estas devem ser levadas em consideração e serem discutidas coletivamente pela turma, pois, assim, os alunos sentir-se-ão, efetivamente, parte integrante da construção do jornal da escola.
A seguir, explicitaremos como se processou toda a experiência vivenciada na construção de jornal na escola.

2. Construção de jornal

A experiência com a construção de jornal foi realizada na Escola Municipal Sítio do Berardo, situada no bairro do Prado e que atende a uma clientela composta por alunos da Educação Infantil (EI), do 1º ano do 1º Ciclo do Ensino Fundamental I (EF I) e da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Essa clientela abrange a população de baixa renda ou até sem renda dos bairros do Prado, Madalena e Zumbi.
Através do trabalho desenvolvido com o Jornalzinho do Berardo (JB) buscou-se trabalhar com mais ênfase gêneros textuais diversificados e também vivenciar uma proposta interdisciplinar, proporcionando um processo de ensino-aprendizagem mais rico, dinâmico e significativo.
De acordo com Goulart (1998:95), “interdisciplinaridade significa uma nova concepção de divisão do saber, frisando a interdependência, a interação, a comunicação existente entre as disciplinas e buscando a integração do conhecimento num todo harmônico e significativo”.
A vivência tida com a construção de um suporte como o jornal, através da interdisciplinaridade e com a diversidade de gêneros que o mesmo apresenta, teve como objetivo precípuo ampliar os conhecimentos dos alunos sobre o jornal, como veículo de informação e formação, estimulando a leitura e escrita, vivenciando a construção coletiva do mesmo e enfatizando a discussão e reflexão de assuntos inseridos no cotidiano da sociedade.
Como já foi comentado anteriormente, o trabalho com gêneros textuais diversificados na escola é de suma importância para o desenvolvimento do indivíduo em diversos aspectos – cognitivo, social, cultural. E o trabalho com jornal não podia ser diferente.
Antes de os professores da escola supracitada começarem a construção do jornal propriamente dita, trabalhou-se muito com os jornais distribuídos no Estado de Pernambuco. Utilizamos o jornal como material artístico, mostrando aos alunos que muitos materiais podem ser reaproveitados, a exemplo do jornal. As reportagens, as fotos, os anúncios entre outros gêneros presentes nesse suporte diário eram discutidos e analisados na sala de aula e fora dela, em outros espaços com atividades coletivas com várias turmas. Esses momentos configuravam-se riquíssimos para a aprendizagem dos alunos, e muitas vezes surpreendíamos-nos com as colocações dos mesmos, principalmente das crianças, já que o trabalho também foi desenvolvido com jovens e adultos. Após esses momentos de discussão e reflexão, principalmente a partir de notícias jornalísticas, os alunos sistematizavam seus conhecimentos com atividades de escrita e de artes, abordando diversas áreas do conhecimento, num processo interdisciplinar.
Com relação à produção de jornal, nos anos de 2003 e 2004 foram elaborados três números do Jornalzinho do Berardo (JB), a saber: o primeiro, que abordou a cultura popular; o segundo, que enfatizou as crianças, seus direitos e deveres e o terceiro, que teve como abordagem principal a água e sua importância.
O trabalho teve início numa turma de Grupo IV da Educação Infantil da escola. A professora e os alunos desse grupo fizeram a escolha do nome do jornal e construíram o primeiro número do Jornalzinho do Berardo, no segundo semestre de 2003, com produções individuais e coletivas dos educandos sobre a cultura popular. Esta foi uma temática vivenciada na escola naquele período, através do Projeto Didático “Cultura Popular: para criar e recriar é só começar”, que teve por objetivo principal vivenciar a cultura popular produzida pelo homem no seu pensar, sentir e agir.
A primeira edição do JB, a princípio, foi feita com a finalidade de apresentar os trabalhos mais interessantes realizados pelos alunos do Grupo IV, no que se refere ao Projeto Didático em questão. Dessa forma, procuramos enforcar as produções escritas e ilustrativas voltadas para a cultura brasileira, como podemos conferir nos exemplos a seguir, extraídos do próprio jornal.

O resultado foi tão positivo, que após a divulgação desse recurso, iniciou-se uma discussão com as demais professoras levantando-se a possibilidade de se realizar outro número com a participação de todas as turmas da escola. Quando as professoras se reuniram, foi discutida a relevância de se trabalhar com o jornal na sala de aula, não só o jornal que apresenta fatos da sociedade diariamente, mas também o construído coletivamente com produções dos educandos. Foi decidido também que faríamos o jornal a partir de algum projeto vivenciado na escola. Esta seria uma das formas de apresentarmos à comunidade escolar o resultado de uma temática importante trabalhada num determinado período com alunos e professores.
Assim, após o primeiro exemplar, vimos uma ótima oportunidade para lançarmos a próxima edição do JB, no mesmo ano de 2003. A escola iria vivenciar um outro projeto, intitulado “Criança é vida”. Tal projeto teve como objetivo principal ampliar o conhecimento dos alunos sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, seus direitos e deveres, desenvolvendo o pensar e o agir de cada aluno, numa perspectiva transformadora e de inclusão social. As crianças, principalmente, tiveram a oportunidade de se expressar através de textos coletivos e desenhos. Os gêneros textuais variados estiveram presentes nessa edição, assim como na anterior. Entretanto, nesta edição eles apareciam mais intensamente, tais como: listas, poesia, entrevista, relatos de experiência, adivinhações, músicas. Algumas produções estão expostas abaixo:


 

 

 

 

 

 

 

Cada vez mais a construção do jornal estimulava as produções dos alunos, no que se refere à leitura e à escrita. A cada edição percebíamos que o entusiasmo contagiava aqueles que participavam dessa ação coletiva. Assim, em 2004, construímos a terceira edição. Esta foi a única daquele ano, entretanto, foi a maior em termos de quantidade de material dos alunos e em qualidade de produções. O Projeto “Água, conhecer para preservar” foi trabalhado de forma intensa com as crianças, jovens e adultos. Esse projeto teve como objetivo principal ampliar o conhecimento dos alunos sobre a água, reconhecendo sua importância e utilidades,
desenvolvendo atitudes de preservação ambiental, numa perspectiva de transformação social. Nesse JB introduzimos artigos da internet, pesquisados pelas professoras, já que a escola não dispõe, ainda, desse recurso. Foi uma novidade e algo que só veio a contribuir para o
crescimento qualitativo do Jornalzinho. As produções escritas dos alunos foram ampliando e ficando mais ricas a cada número realizado do jornal. O uso de gêneros distintos também pôde ser conferido nessa edição, como evidenciado a seguir:

Para que a produção dessas três edições do Jornalzinho do Berardo acontecesse foram necessárias algumas ações:

• discussão de temáticas inseridas nos projetos didáticos vivenciados na escola;
• construção de textos coletivos e/ou individuais sobre os assuntos trabalhados;
• elaboração de ilustrações;
• pesquisas na internet de curiosidades que abordassem o tema;
• organização do material construído e pesquisado e seleção dos mesmos;
• digitação dos textos dos alunos e de outros textos;
• xerox reduzida dos desenhos dos educandos;
• impressão do jornal; montagem das ilustrações já reduzidas no jornal;
• reprodução do produto final;
• distribuição para os alunos, comunidade e departamentos educacionais da Rede Municipal do Recife.

São muitas as atividades realizadas na escola para se obter o conteúdo para o jornal, mas todas as etapas vivenciadas são de suma importância para que esse “livro diário” possa ser concretizado.
Após todas as ações descritas anteriormente, o jornal é trabalhado na sala de aula. As professoras lêem, discutem com os alunos os textos criados por eles, assim como os demais conteúdos presentes no jornal (música, poesia, curiosidades, jogos, experiências) e realizam outras atividades a partir dos desenhos e dos diversos gêneros textuais do JB. Esta é uma maneira dos alunos analisarem as produções uns dos outros e valorizá-las.
Percebe-se, dessa forma, que a vivência com o Jornalzinho é algo que acontece durante o seu processo de construção e após o mesmo, com o material em mãos. O trabalho com o jornal não termina na distribuição, há uma continuidade, pois, dessa forma, o aluno/autor/leitor pode apreciar não apenas a sua produção mas a do outro também, valorizando-a e sendo valorizado.
É interessante destacar também a importância da avaliação durante todo o processo de construção do jornal. A observação das práticas e a análise das mesmas são essenciais para o desenvolvimento de qualquer trabalho em qualquer instituição. Na escola municipal em questão os atos de observar, analisar, refletir, avaliar e reorientar a prática estão sempre presentes, pois é através de tais ações que se pode discutir e enumerar os pontos positivos e negativos de determinada atividade e, assim, poder interferir para um trabalho de melhor qualidade na instituição. No dizer de Freire (1996:43) “é pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática”. E, é praticando o discurso desse educador, que pretendemos, cada vez mais, enriquecer o trabalho com o jornal e propiciar uma prática pedagógica mais significativa para os alunos.

3. Considerações finais

O jornal, tido como “livro popular diário”, é um meio de comunicação que cada vez mais vem ganhando destaque nas escolas. O trabalho com esse “livro diário” no contexto da Escola Municipal Sítio do Berardo vem, a cada dia, contribuindo para um efetivo processo de ensino-aprendizagem. Tanto professoras quanto alunos aprendem uns com os outros num processo coletivo e de diálogo, onde é discutido constantemente o jornal como meio de vivenciar a leitura e a escrita de forma sistematizada, criativa e interdisciplinar no ambiente escolar.
O Jornalzinho do Berardo (JB), material concreto dessa vivência, trouxe bons resultados para o desenvolvimento das crianças, jovens e adultos da escola em questão. Através da prática interdisciplinar, conteúdos foram discutidos e refletidos pelos corpos discente e docente, o que contribuiu para um processo pedagógico mais dinâmico e significativo.
Ainda, no que se refere ao aspecto pedagógico, percebe-se que os educandos desenvolveram algumas competências através do trabalho com jornal. Algumas delas foram: respeitar a produção do outro; ouvir; ter atenção; identificar gêneros textuais diferentes; conhecer o jornal como meio de comunicação diário; produzir textos individuais e/ou coletivos de diversos gêneros; realizar leitura de diversos textos; discutir e refletir sobre a forma de organização do jornal.
A distribuição desse jornal para alunos, comunidade e rede foi importantíssima, pois os alunos/autores/leitores sentiram-se valorizados ao verem suas produções sendo lidas e vistas por outras pessoas. Um exemplo claro da valorização do trabalho dos alunos e das professoras, com relação a esse jornal, foi a publicação do exemplar de número 2 no livro “Educação Infantil: ponte de cidadania”, elaborado pela Diretoria Geral de Ensino/Secretaria de Educação/Prefeitura do Recife e distribuído para os professores da Rede Municipal.
Enfim, a E.M. Sítio do Berardo acredita que as atividades pedagógicas que foram desenvolvidas durante todo o processo de construção do JB, desenvolveram o pensar e o agir de cada educando. Diante disso, o trabalho com esse veículo de comunicação continuará sendo desenvolvido no âmbito dessa unidade escolar, para possibilitar cada vez mais um processo educacional de qualidade numa perspectiva transformadora e de inclusão social.

4. Bibliografia

BAKHTIN, Mikhail. (Volochinov, 1929). Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Michel Lahud e Yara
Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 1997.

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (Coleção Leitura)
GOULART, Iris Barbosa (org.). A Educação na perspectiva construtivista: Reflexão de uma equipe interdisciplinar. Petrópolis/RJ: Vozes, 1998.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. “Gêneros textuais: definição e funcionalidade” in DIONISIO, Angela Paiva; MACHADO, Anna Rachel e BEZERRA, Maria Auxiliadora (orgs.). Gêneros textuais & ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.

PONTUAL, Joana Cavalcanti. O jornal como proposta pedagógica. São Paulo: Paulus, 1999.

SOUZA, Lusinete Vasconcelos de. “Gêneros jornalísticos no letramento escolar inicial” in DIONISIO, Angela Paiva; MACHADO, Anna Rachel e BEZERRA, Maria Auxiliadora (orgs.). Gêneros textuais & ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.

 
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