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  JOVENS LEITORES E SUAS ESCOLHAS DE LEITURA: DOIS ESTUDOS

Mariana Costa Lopes da Silva - Universidade Federal de Minas Gerais/Faculdade de Educação - UFMG/FaE

Dupla Delícia
O livro traz a vantagem de a gente poder
estar só e ao mesmo tempo acompanhado
Mário Quintana

Este artigo analisa comparativamente duas pesquisas: a tese de doutorado de Zélia Versiani Machado, realizada na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, intitulada “A literatura e suas apropriações por leitores jovens” e uma pesquisa realizada na Inglaterra, intitulada “Children’s Reading Choices” (Crianças e suas escolhas de leitura). O tema de ambas as pesquisas são os jovens leitores: crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, e suas escolhas de leitura .

Cada pesquisa utiliza metodologias diferentes. O principal recurso metodológico da pesquisa brasileira é a entrevista semi-estruturada; diferente da pesquisa inglesa, que utiliza questionários para realizar um grande levantamento em toda Inglaterra, sobre as escolhas de leitura dos jovens leitores.

O foco desse recorte é a infância/adolescência. Algumas dimensões de análise foram selecionadas do trabalho original, respeitando esse foco: “Roald Dahl/Pedro Bandeira”, “Livros em série” e “O romance na adolescência”.

Como resultado do diálogo entre os diferentes autores e a reorganização das idéias através das dimensões de análise, foram gerados novos questionamentos: “Por que o gênero aventura é o preferido?” “O que esses livros dizem a respeito das crianças que os lêem?” Questionamentos que permitem novas reflexões acerca dos jovens leitores e suas escolhas de leitura.

Introdução

Este artigo é um recorte do meu trabalho de monografia do curso de Pedagogia/Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (Silva, 2004). Trabalho este que buscou analisar comparativamente dois estudos sobre as escolhas de leitura por jovens leitores; um realizado no Brasil e outro na Inglaterra. Com o objetivo de escrever esse artigo, enfatizei a relação infância e literatura abordada no trabalho monográfico. Este trabalho é também fruto de uma ponte realizada entre experiências pessoais e o trabalho acadêmico.

A narrativa pessoal, o projeto de contar uma vida, é uma resposta ao problema humano de autoria, ao desejo de fazer sentido e preservar a coerência sobre o curso de nossas vidas. Nossas identidades pessoais parecem muito relacionadas ao processo de ligar; fazer uma ponte entre a memória do nosso passado e a antecipação do futuro, para conseguir o que Stephen Crites (1971) chama “a continuidade da experiência através do tempo”. O desafio da narrativa que enfrentamos como narradores, é o desejo de continuidade que dá sentido às nossas vidas por inteiro.
(Ellis e Bochner, 2000: p.746)

Através de um intercâmbio promovido pela Cooperação Internacional da UFMG, estudei durante um semestre na Universidade de Leeds - Inglaterra. Busquei a orientação do Professor Roger Beard, que me auxiliou apresentando-me trabalhos recentes realizados na Inglaterra sobre literatura infanto-juvenil. Entre esses trabalhos, estava a pesquisa “Children’s Reading Choices” (Crianças e suas escolhas de leitura). Analiso e comparo essa pesquisa com a tese de doutorado de Maria Zélia Versiani Machado intitulada “A literatura e suas apropriações por leitores jovens”, realizado no Grupo de Pesquisa do Letramento Literário/GPELL (FaE/UFMG).

Busca-se um aprofundamento no tema das escolhas e preferências de leitura por jovens (10 a 14 anos), levando em conta os diferentes contextos dos países no qual foram realizadas as pesquisas, as diferentes metodologias, e conclusões. Embora sempre refletindo sobre a literatura infanto-juvenil, o que permeia e predomina nas pesquisas escolhidas são os jovens e suas escolhas. São eles que escolhem os livros, são entrevistados e as pesquisas são construídas em cima de suas respostas. Nesses trabalhos, a cultura infanto-juvenil não é silenciada. Pelo contrário, é destacada e valorizada.

Literatura infanto-juvenil e Educação

“O significado da literatura existe não como um conteúdo que pode ser abstraído e resumido, mas uma experiência. É uma área participatória. Pelo processo de leitura, escapulimos de nossa orientação normal de tempo marcada pela distração e pela superficialidade para o domínio da duração. Somente nesse estado estamos preparados para questionar nossa origem e destino e de nos conceber como almas” (Birkets, 1994: p.32).

Neste item, procuro dialogar com vários teóricos sobre a importância fundamental do ato de ler como experiência estética na formação humana. O professor Antônio Cândido de Melo e Souza afirma que a literatura é organizadora da mente e da sensibilidade humanas, e sua força está na ordenação da palavra. Num mundo marcado pela destruição, desilusão, é preciso restaurar a dimensão humana da literatura como formadora e iniciadora de valores.1.

Não é difícil enxergar a “destruição e a desilusão” que marcam o mundo de hoje. Vivemos em um mundo pós-moderno, marcado pelo relativismo. As crianças não têm muitas estruturas sólidas em que se apoiarem, pois “tudo que é sólido desmancha no ar”. (Berman, 1986: p.8). A literatura pode contribuir na tarefa de formar seres humanos livres? “A superação da alienação não se limita apenas aos aspectos econômicos, mas envolve as dimensões políticas, morais e estéticas, abrangendo a emancipação de todos os sentidos e atributos humanos”. (Kramer, 1994: p.38)

Paulo Freire afirma que “(...) transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador” (Freire, 1996: p.56). Se retirarmos do livro aquilo que é essencialmente dele, a possibilidade de um encontro, do envolvimento, da sedução e prazer, retiramos também a experiência. As crianças são roubadas da possibilidade de uma experiência. Para Benjamin, a narrativa promove o encontro consigo mesmo e com o mundo, e a fonte da narração é a experiência. Sabemos que muitas professoras encontram na literatura infantil um meio eficaz para desenvolver técnicas de leitura. Utilizar a literatura com um fim pragmático, utilitarista, como meio de fazer exercícios gramaticais, sintáticos, ou tirar uma lição de moral, empobrece a experiência educativa. “(...) o declínio da experiência gera a degradação da arte de narrar, e mais do que isso, a transformação da linguagem em instrumento, meio, coisa, mercadoria” (Kramer, 1994: p.47).

Brasil e Inglaterra: Dois estudos

As pesquisas a serem analisadas pertencem ao campo de pesquisas denominado Teoria da Recepção, focalizam o jovem leitor, sua relação com o texto, e não o texto em si.

• “Children’s Reading Choices (Crianças e suas escolhas de leitura)

O projeto “Children’s Reading Choices” (Crianças e suas escolhas de leitura), foi realizado na Inglaterra, na Faculdade de Educação da Universidade de Nottingham, nos anos de 1994/1995. O projeto foi realizado por um grupo de quatro pesquisadores, sendo coordenado por Hall & Coles (1995) e financiado pelo grupo de empresas W.H. Smith plc. Com o objetivo de pesquisar as escolhas voluntárias de leitura de crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, esse estudo veio dar continuidade a um projeto semelhante realizado em 1971, conduzido pela Universidade de Sheffield, sob a direção de Frank Whitehead, em que se buscava descobrir a quantidade e o tipo de leitura voluntária das crianças, que tipo de satisfações buscavam nos livros e revistas e que fatores influenciavam suas escolhas. Foi recomendado, naquela época, que pesquisas com o mesmo objetivo fossem realizadas a cada década, para acompanhar as mudanças ocorridas.

O método de pesquisa escolhido foi o mesmo de 1971, mas com alguma alteração nas perguntas, já que algumas delas não faziam sentido para a nova realidade. Um levantamento nacional foi realizado através de questionários enviados a 110 escolas primárias e 59 de ensino médio. 7976 adolescentes de 10, 12 e 14 anos responderam a esses questionários. Posteriormente, 1% desse total foi convidado a participar da fase das entrevistas. Os objetivos dessa nova pesquisa eram de coletar pistas para uma melhor compreensão da natureza complexa da leitura nos anos noventa e fornecer informações aos pais, professores e o comércio de livros, com o intuito de melhorar a promoção da leitura. O questionário, sendo quase uma réplica do modelo de Whitehead, também poderia fornecer dados para uma comparação entre os dois estudos.

• A literatura e suas apropriações por leitores jovens

A tese de doutorado de Maria Zélia Versiani Machado intitula-se “A literatura e suas apropriações por leitores jovens”. Ela explica que seu “(...) trabalho quer saber, em suma, o que lêem e como se relacionam com as práticas de leitura literária os jovens que se encontram hoje na fase que corresponde à pré-adolescência ou à adolescência” de 10 a 14 anos (Machado, 2003: p.8). Para a realização dessa pesquisa, Machado utiliza recursos como observação e entrevistas em duas escolas de contextos sociais e econômicos diferentes: a Escola Balão Vermelho, localizada num bairro de classe média alta – Mangabeiras - e a Escola Municipal Antônio Sales Barbosa, localizada em bairro popular - Barreiro - ambas em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Machado escolhe essas duas escolas por seu envolvimento no projeto pedagógico de incentivo à leitura literária Giroletras, “um complexo de atividades que se desenvolvem no decorrer do ano, que têm como culminância uma feira anual de livros, organizada pela instituição Balão Vermelho desde 1995 (...) e que difere de outras de natureza semelhante por se basear na crítica infantil” (Machado, 2003: p.31). Utiliza também o recurso de observação para sua pesquisa, recolhendo registros de atividades escolares, registros de aulas, conversas com a bibliotecária, professoras, textos biográficos, jornais, anotações, resenhas... Assim, os jovens que participariam das entrevistas foram escolhidos segundo o critério da diversidade de nível de formação do leitor. As entrevistas tinham formato semi-estruturado, e as perguntas que orientaram a autora foram: como os jovens escolhem o que lêem? O que lêem os alunos? Como lêem o que escolhem?

Dimensões de análise

As duas pesquisas têm diferentes categorias de análise de seus dados. A seguinte análise será pautada sobre as diferenças e semelhanças encontradas entre os trabalhos. Cada pesquisa apresenta dados e análises não realizadas na outra. Por isso, o que apresento a seguir é um recorte de ambos os trabalhos. Nesse artigo optei por apresentar três das oito dimensões do trabalho original: “Roald Dahl/Pedro Bandeira”, “Livros em série” e “O romance na adolescência”.

• Roald Dahl/Pedro Bandeira

Uma categoria que é comum nas duas pesquisas é denominado “evidência contemporânea de autor nacional” na pesquisa brasileira. No Brasil foi destacado o autor Pedro Bandeira, com 18 referências nas falas de 6 leitores, sendo que 5 eram ao seu nome, 5 às coleções e 8 aos títulos dos livros. Machado explica esse “sucesso” entre os jovens leitores pelos livros estarem em “sintonia com o interesse de meninos e meninas, em histórias fáceis, que agradam os jovens da comunidade de leitores, quase como unanimidade eletiva” (p. 220). Entre os títulos citados estão: “A droga da obediência”, “A droga do Amor” e “A marca de uma lágrima”, livros que têm aventura e romance como tema principal. Onze dos livros de Pedro Bandeira são indicados pela Fundação Nacional da Literatura Infanto-Juvenil/FNLIJ para crianças de 4ª serie (1995/1999).

O leitor Daniel, da Escola Balão Vermelho, descreve assim sua interação com os livros de Pedro Bandeira: “(...) um negócio do Pedro Bandeira, que ele escreve bem pra caramba! Ele prende na leitura, sabe? (...) Eu acho duas coisas: Um é o tema que eu gosto pra caramba, e o outro é o jeito de escrever dele. (...) Ele vai contando aos poucos, vai contando aos pouquinhos e você fica querendo saber, sabe? Por exemplo, você, se fosse contar tudo de uma vez, assim, ia perdendo a graça. E ele vai contando aos pouquinhos... você vai querendo ler mais, ler mais pra saber” (Machado, 2003: p.145). Por esse diálogo, percebemos o mistério, o suspense que prende o leitor à obra. Machado explica esse fenômeno por “autores que conseguem, de tempos em tempos, fazer da autoria, aliada a determinados modelos de produção, uma orientação das escolhas dos leitores de uma dada geração” (Machado, 2003: p.220).

São livros que conquistam os jovens pela ação, sem muitos detalhes, pois como diz o leitor Daniel: “Até um certo ponto eu gosto [de descrições], mas não lembro qual livro que eu li, que tinha... estava fazendo tanto detalhe... detalhe... detalhe, que eu enchi o saco. (...) Eu pulava as partes que estavam falando detalhe... assim... no livro, e passava pra frente.” (Machado, 2003: p.146). Corrêa parafraseia Fonseca, afirmando que “um caso não é um caso, mas uma amostra ou um exemplo que se repete socialmente” (2003: p.57). Conseqüentemente, a fala de Daniel representa muitos jovens e seu amor pelo gênero aventura. Já dizia Monteiro Lobato em 1941, “O necessário é que se façam histórias movimentadas, bem escritas, simples e que tenham, obrigatoriamente, os seguintes elementos: ação, ação e ação. Somente. Nada de descrições, de pregações de moral, de ensinamento forçados”.

Na pesquisa inglesa, o “autor nacional em evidência”, é Roald Dahl (ver informações na nota explicativa número 2). O livro The BFG é o mais citado, com 267 menções. Sete dos dez mais citados são livros de Roald Dahl, e dez dos quinze mais citados. O mais notável é que seus livros são títulos individuais, ou seja, não são inseridos em uma série de livros, que normalmente atraem muito os jovens por serem leituras padronizadas, com narrativa semelhante e sem muita diferença notável entre eles.

Roald Dahl também apareceu como o autor favorito quando as crianças responderam a pergunta “Você tem um autor ou uma série de livros favorita?”. Dos 7976 pesquisados, 65% disseram que tinham um favorito, e 25% do total responderam que Roald Dahl era o seu favorito. Os livros de Roald Dahl são também classificados como aventura e, por isso, o gênero aventura surge como o favorito e o mais lido entre os jovens. Outro dado interessante é que o livro “The Witches” (As bruxas), terceiro colocado na pesquisa inglesa, foi um dos indicados para a 4ª série, nos anos de 1995/1999 pela FNLIJ

• Livros em série

Foi constatado na pesquisa inglesa que as crianças gostam muito de ler livros em série. Por livros em série chamo aqueles que têm uma continuação, com trama narrativa parecida, mesmo gênero literário... Na Inglaterra, são os favoritos a série Point Horror e as histórias de Enid Blyton. Respectivamente, histórias de terror/suspense e histórias de aventura. A Série Point Horror é caracterizada por vários livros de diferentes autores, mas todos têm adolescentes como personagens principais, alguma relação amorosa, e algo sinistro e misterioso acontecendo em que acabam se envolvendo. São as crianças de 12 anos ou mais que gostam dessa série. Vinte e oito títulos da série Point Horror aparecem entre os cem livros mais citados.

Enid Blyton é uma autora mais antiga da década de 1890 e que já passou por várias censuras na Inglaterra. Seus livros chegaram a ser banidos das bibliotecas. Entretanto, as crianças continuam a ler seus livros. O que chama a atenção são os personagens - crianças e adolescentes - que se distanciam do mundo adulto para resolver algum mistério. Cada série possui vários livros com os mesmos personagens, se envolvendo em diferentes aventuras. Roald Dahl aparece em primeiro no ranking dos preferidos, a série Point Horror em segundo e os livros de Enid Blyton em terceiro. No levantamento de 1971, Enid Blyton era a autora mais popular, citada assim por 1604 crianças, comparadas com 498 em 1994. O gênero preferido é mais uma vez confirmado, a aventura.

Machado não salienta as séries, em sua pesquisa, mas elas aparecem nos dados coletados. Livros em série são chamados de coleções e as mencionadas entre os alunos são: Vôo Livre, Os Karas (4 citações), Vaga-Lume e Calafrio. No universo pequeno de crianças e adolescentes entrevistados, é significativa a referência às coleções de livros. Esse fator pode ser explicado pela continuidade da história, que não oferece surpresas desagradáveis ao leitor, que já sabe o que esperar e procura continuar a ler o que gosta.

• O Romance na Adolescência

“É uma história de uma garota de... se não me engano, de 14 pra 15 anos, que tá numa fase assim...de...tá apaixonada, mas os pais tão separados.., o pai mora longe e a mãe não gosta e ela gosta muito também de música, mas a mãe não permite que ela... faça um monte de coisas... assim que... no final, ela acaba conseguindo ficar com o garoto que ela gosta, que é o Gustavo, que é o líder de uma banda.” (Machado, 2003: p.152)

Outro grande gênero preferido são os “romances”. Em ambos os países os livros que tratam de temas amorosos, amadurecimento, relacionamentos, etc. são muitos lidos. Entre esses livros, os adolescentes brasileiros ressaltaram: “O primeiro amor de Laurinha”, “Luciana Saudade”, “Luana adolescente, lua crescente”, “Revolução em mim”, “Balada do primeiro amor”, “Ladeira da Saudade”, “Por um grande amor” e “A marca de uma lágrima”. Na pesquisa inglesa, foi constatado que adolescentes de doze e quatorze anos ou mais, lêem muito livros que tratam de relacionamentos e romance, e que esse é o segundo gênero mais popular entre os adolescentes.

Análise e Discussão

Existem dois tipos de problema: problemas de ignorância (coisas existentes que nós não conhecemos ainda o suficiente, e por isso requerem mais informação); e problemas de confusão (temos informação, mas não entendemos em que tudo resulta). Precisamos buscar esclarecimento na informação existente.
(Wittgenstein apud Hart, 1998: p.141).

O melhor modo de iniciar a abordagem das próximas questões é observando um dado animador. Tanto na pesquisa brasileira quanto na inglesa foram encontradas crianças que lêem e que gostam de ler. Essa constatação nos encoraja a enfrentar as seguintes questões: Por que o gênero aventura é o favorito? O que esses livros dizem a respeito das crianças que os lêem?

• Por que o gênero aventura é o favorito?

Tanto a pesquisa brasileira quanto a inglesa evidenciaram o gosto das crianças pelo gênero aventura. Por essa descoberta, podemos chegar à surpreendente conclusão: em dois países diferentes, com contextos sociais, econômicos e culturais completamente diferentes, os jovens leitores de 10 a 14 anos gostam de ler o mesmo gênero. Não sendo essa afirmação uma mera coincidência, pode nos apontar para reflexões interessantes sobre a Infância.

Cullingford afirma que o conteúdo da aventura/história popular é um reflexo intuitivo do modo de pensar das crianças, suas experiências e necessidades. “Os livros que os jovens leitores gostam são caracterizados pela busca do entretenimento: uma leitura fácil e simples que não requer muita reflexão. O ato de ler deve ser imediatamente recompensador”. Segundo ele, esse tipo de leitura não deve ser desprezado e categorizado como inútil e de má influência para os leitores jovens, pelo contrário, essas histórias são imensamente significantes para os jovens leitores por constituírem uma interpretação do mundo. Elas oferecem uma estrutura e um significado para a vida que as pessoas necessitam. (Cullingford, 1998: p.3)

Percebemos que os livros que a escola indica e os que as crianças escolhem ler são diferentes. Por mais que haja grandes diferenças entre eles, cada um tem seu valor. Segundo Cullingford, os livros favoritos das crianças ajudam a dar sentido à vida delas, por ajudá-las a reconhecer as estruturas, fórmulas e certezas, categorizações e respostas. Enquanto os livros favoritos das crianças são, na maior parte das vezes, versões do que elas fazem no dia-a-dia, as histórias sublinham, destacam um certo ponto ao ritmo normal da vida. Nas experiências caóticas e traumáticas que são vividas na infância, as histórias fornecem um sentido de estrutura e de completude. (1998: p.9)

A autora Judith Armstrong diz que “os personagens dos livros de aventura são maravilhosos sósias interiores do próprio jovem leitor, que se tivesse chance de provar suas qualidades subestimadas pelo adulto, também poderia provar sua coragem e ousadia” (Armstrong, 1995: p.75). A criança busca na fantasia, na imaginação, segurança e conforto num mundo cheio de traumas e desavenças. Os livros de aventura oferecem isso, pois mergulham o jovem leitor numa história simples mas envolvente, mas sempre com a certeza de que no final o herói, vencerá. Cullingford diz que as histórias populares têm um instinto para reconhecer a miséria humana. Existem mais seguranças do que inseguranças no livro de aventura. A maior segurança do livro popular é a maneira como é lido. Livros se tornam para as crianças a superação da solidão, o vídeo portátil, a entrada em amizades que não depende de outras pessoas. Os livros são lidos rapidamente.

“A trama é conhecida e familiar. O importante da fórmula é que o herói vence o inimigo, seja lutando uma batalha, vencendo um assassino ou ganhando a lealdade da pessoa que ama” (Cullingford, 1998: p.17). Nas histórias populares, encontra-se conforto e segurança, como uma alternativa ao pensar. De acordo com os padrões literários, essa leitura seria uma leitura escapista, mas para os jovens leitores ela tem um grande valor que não deve ser-lhes retirado. “São um sustento emocional superficial, oferecendo uma distração emocional mais do que envolvendo os sentimentos profundamente; é uma alternativa às dificuldades do dia-a-dia”. (Cullingford, 1998: p.17)

Quanto ao estilo na a literatura popular infantil, segundo Cullingford, usa-se muito o diálogo e, como não há complexidade ou desafio no estilo, a pergunta principal do texto sempre será “e o que vai acontecer agora?” As estruturas textuais são muito simples, acontece o desenvolvimento do problema, até uma intervenção exterior que possibilitará uma solução. Os personagens principais são normalmente crianças, mostrando o quanto são capazes de resolver mistérios, que estão em controle. Há pouca descrição e pouca delineação do personagem. A emoção é o fator principal, e não a reflexão. Isso fica muito claro na fala da aluna Sofia:

“(...) porque, assim, quando eu pelo menos, pego um livro, eu não vou querer saber o que está acontecendo na nossa vida. Quando eu pego um livro, eu quero descansar da vida. Aí vem um livro e fala de violência, de perigo nas ruas, de não sei mais o quê... eu prefiro livros com mais imaginação”. (Machado, 2003: p.143)

“Esse tipo de livro oferece uma alternativa ao mundo que as crianças partilham, mundo de equívocos, injustiças e um sentimento de que não é tão inteligente ou tem sorte como as outras crianças. Os livros populares retiram as crianças desse mundo. Nos livros de aventura, os personagens principais são pessoas com quem acontecem coisas horríveis, mas o lugar secreto e seguro, está na mente da pessoa que os lê. Coisas horríveis acontecem nos livros, mas eles não importam, pois a certeza de um final feliz existe. Eles não oferecem um mundo melhor que o existente, mas oferece o poder de sobreviver a esse mundo. Em vez de uma crítica da realidade, oferecem um escape da realidade. Isso não é uma crítica, as crianças necessitam de um elemento de escape, de fantasia, da experiência sem exigências”. (Cullingford, 1998: p.22-23)

• O que esses livros dizem a respeito das crianças que os lêem?

Como dito anteriormente, os livros populares refletem e reforçam os gostos das crianças mais do que os formam. Eles servem para agradar o leitor, se moldam de acordo com o leitor. Sendo assim, pode-se concluir que os livros populares que as crianças tanto gostam refletem algo da natureza da infância e podem nos dizer algo sobre ela.

Percebemos que as crianças do mundo de hoje não vivem num mundo protegido, sem perigos, mas sim num mundo que muda a todo instante. Sente-se o perigo, as estruturas básicas da família se rompem, e muitas vezes a criança assume responsabilidades do pai ou da mãe. Ou seja, a infância, assim como a família, tem desaparecido. Crianças vestem roupas de adultos, ouvem músicas de adultos, conversam como adultos e são incentivados a pensar como adultos. Apesar disso, percebemos nas pesquisas o grau de envolvimento das crianças com alguns livros. O que esses livros, cúmplices e amigos dessas crianças, podem nos dizer sobre as crianças que os lêem? Mais uma vez, o autor Cullingford nos ajuda nessa interpretação.

“A literatura popular sana uma necessidade geral. As vidas das crianças, apesar das convenções sobre inocência e otimismo, não são uniformemente felizes. Esses livros oferecem um momento de solidão em que não precisam pensar, é a segurança desse tipo de ficção: é excitante, mas ao mesmo tempo seguro, existe medo, mas é controlado. O conforto da leitura não vem de responder questionamentos. Ao contrário da vida das crianças, os livros populares sempre têm um final feliz. Esses livros facilitam a adaptação para a sobrevivência. O prazer está no ato de ler, pois nesse momento não precisa pensar em outras coisas”. (Cullingford, 1998: p.15. 28)

“Ler, em qualquer nível, é uma reinterpretação da experiência”. (Cullingford, 1998: p.30)

Referências Bibliográficas

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