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  A RAZÃO E A EMOÇÃO NA CORRESPONDÊNCIA ENTRE PROFESSORA E ALUNOS

Sheyla Pinto da Silva - Secretaria Municipal de Educação de Campinas –SME - GEISH / Faculdade de Educação - UNICAMP

A troca de correspondências entre alunos do Ensino Fundamental, é uma atividade comum no Programa de Orientação Sexual da Secretaria Municipal de Educação de Campinas em São Paulo.

Ela é organizada pelos professores do programa com o objetivo de promover a troca de informações sobre a temática da Sexualidade Humana, amizades e integração entre os alunos de escolas diferentes, muitas vezes localizadas bem distantes umas das outras.

As cartas são escritas por eles de forma simples, com temas, conversas e “falas” próprias dos adolescentes. Acontecem tanto entre meninos e meninas, quanto entre meninas e meninas e meninos e meninos.

Os professores mostram as formas de redação para escrever uma carta, auxiliando também durante a redação da primeira carta que o adolescente escreve, que deverá conter sua apresentação e seu interesse na correspondência. Nas cartas seguintes, depois do primeiro contato feito, os alunos vão definindo melhor seus interesses e a conversação vai tomando novos rumos.

O conteúdo das cartas quase sempre gira em torno do que os adolescentes conversam durante os debates em sala de aula. Às vezes, alguns escrevem assuntos que extrapolam a intimidade. Quando isto acontece, o adolescente pode chegar a contar o fato ao seu professor, que interfere então, junto ao professor do outro adolescente, para que este lhe esclareça o objetivo da correspondência.

Um dos aspectos interessantes desta atividade, é a forma como os adolescentes escolhem seus correspondentes, sobrescritando nos envelopes das primeiras cartas :

“ Para um menino de quinze anos da 8ª série “ ; “Para um menino de 13 anos, moreno e simpático” ; “Para uma menina da 7ª série que tenha olhos verdes”; “Para um adolescentes da 6ª série da escola (nome da escola) ... que seja fofinho e carinhoso”.

A forma de procurar um correspondente, pode não ser a ideal, pois, na maioria das vezes, os adolescentes desejam os que têm perfil centrados nos estereótipos sociais. Esta é mais uma questão que deve ser trabalhada pelo professor em sala de aula, se constituindo em um tema : o preconceito e a discriminação.

Também é desta forma que o adolescente mostra seu interesse pelas meninas ou meninos, define seus valores, suas preferências, seu interesse amoroso e de amizades, tem aguçada a curiosidade natural que o faz entrar em comunicação com outros adolescentes iguais a ele, encontrar-se a si próprio, ultrapassando desta maneira diversos níveis de amadurecimento.

O vínculo afetivo

Estas cartas se constituem em momentos de intimidade entre os adolescentes, pois, segundo Masters & Johnson ( 1986 : 239 ) :

“... a intimidade significa algo mais interior ou mais profundo. A intimidade pode ser definida como um processo no qual duas pessoas que se importam uma com a outra compartilham, o mais livremente possível, a troca de sentimentos, pensamentos e ações.”

Pode-se esperar que este tipo de intimidade, possa influenciar os relacionamentos de um adolescente com o outro, podendo haver a possibilidade de um desenvolvimento mais rápido da habilidade em obter cada um, um juízo de si mesmo. “À medida que o adolescente estabelece com ele mesmo, um processo de auto conhecimento e auto aceitação, ele auxilia a própria identificação de suas necessidades e sentimentos.

Na página seguinte encontramos ( 240 ) :

“As pessoas que não gostam muito de si mesmas ou que sentem vergonha de quem são, freqüentemente têm dificuldades de estabelecer e manter intimidades porque estão preocupadas em tentar provar-se aos outros, ou em tentar conquistar reconhecimento ou respeito.”

A correspondência poderá possibilitar ou não que o adolescente estabeleça intimidades com o outro. Ele poderá não gostar do que vê dentro de si, e poderá, separar o que gosta e o que não gosta, chegando até a fazer planos e tentar mudar. Às vezes, poderá nem perceber que precisa mudar e isto pode impedi-lo de conseguir ter um bom relacionamento com o outro.

“... um dos passos-chave em desenvolver um relacionamento íntimo é a auto exposição, a disposição de contar ao outro o que está pensando e sentindo. A maioria das pessoas começa o processo de auto exposição gradualmente, porque não existe certeza de que o outro estará interessado no que você tem a dizer, e porque leva um certo tempo para determinar se o outro merece confiança. Em lugar de revelar de uma vez seus mais caros sonhos e mais arraigados temores, as pessoas geralmente desenvolvem a franqueza pessoal num relacionamento, quando sentem reciprocidade e vêem sinais de contínuo interesse no outro” ( Idem, pág. 243 ).

As cartas se constituem desta forma, uma maneira gostosa, íntima e muito comprometedora de se manter ou de construir vínculos e laços afetivos; mesmo que os correspondentes não venham a se conhecer ou a comunicação seja rompida, o que foi escrito e, ou lido, ficará para sempre como um momento único e infinito, seja na memória de quem a leu ou na de quem a escreveu.

Ao presenciar e participar desta atividade tão prazerosa, como professora do Programa de Orientação Sexual da Secretaria Municipal de Campinas, SP, fui amadurecendo a idéia de também escrever e manter correspondência com os alunos de outras escolas.

A carta inicial

Para iniciar a troca de correspondência com os alunos, conversei com alguns professores do programa, para ver se eles estariam dispostos a levar e trazer semanalmente estas cartas. Dos oito professores contatados, somente quatro aceitaram a incumbência. Os demais alegaram ser mais uma preocupação e não quiseram se comprometer.

Elaborei, então a primeira carta, a qual chamei de “carta inicial” e entreguei uma para cada um dos quatro professores. Nesta carta inicial, me apresentei e disse que o meu objetivo era o de “bater um papo” com eles, estabelecendo interesses comuns para debates e conversas.

Foi com enorme ansiedade que esperei chegar a primeira resposta, o que acabou logo acontecendo com a carta de uma adolescente de 14 anos, da 7ª série de uma escola pública do Jardim Londres em Campinas.

O conteúdo desta carta foi uma surpresa, pois, nela, a adolescente pedia uma sugestão sobre o que deveria ser feito para que ela conquistasse seu amado.

Surpresa, foi também, uma outra carta de um aluno do ensino médio. Uma das professoras a trouxe de uma escola estadual de um seu aluno que nunca participou de aulas de educ. sexual.

Outra, foi a idade dos alunos que responderam às cartas, pois, devido a uma das professoras lecionar também no ensino noturno, recebi resposta de dois alunos e uma aluna de trinta e seis anos.

De um total de 1 310 alunos ( dos quatro professores ), somente nove alunos se sentiram motivados a iniciar a correspondência. Eles tinham idades variadas: 14 (01 aluno), 16 (02), 18 (01), 19 (01), 21 (01) e 36 (01) anos. Entre estes, dois alunos não declararam a idade. Recebi dezoito cartas, no período de um ano letivo em que durou a comunicação.

Os medos ... as duvidas

Na carta inicial, procurei não dirigir o assunto para nenhum tema da sexualidade em particular, ou para alguma especificidade. Daí, talvez a minha ansiedade pelo conteúdo das cartas respostas, pois, ele passou a ser uma incógnita.

“... eu sou A ... fiquei sem estudar durante 4 anos ... apesar de não ser mais a mesma coisa, de ser outras pessoas e alguns professores novos, eu fiz amizades e pequei firme nessa nova missão, luto bastante sempre de cabeça erguida com muito amor, carinho e dedicação ... estudo dia e noite ... gostaria que você me falasse sobre você, sua vida, sua carreira ... aqui vai algumas perguntinhas : o que você faz na vida ? você é feliz ? porque ? o que você acha da gravidez na adolescência ? como se pode prevenir ? o que você acha do estupro e abuso sexual ? porque ? você é casada ? há quantos ? como se chama seu marido e seus filhos ? o que você acha do mundo atual ? assinado : A ... “

“... oi ... eu sou a R ... Eu sou morena clara, sou casada tenho um filho de 13 anos que se chama ... eu tenho trinta e seis anos. Sou cabelelera. Tenho um salão na rua ......... gosto muito de passiar nas horas vagas.”

“... meu nome é D. ... tenho 19 anos curto muito estudar quando estou com vontade. Eu vou adorar trocar cartas com você ... fazendo perguntas de O.S.Eu trabalho numa oficina auto sou mecânico lá”.

“Sou M ...do supletivo sou morena clara olhos castanhos escuros tenho 18 anos gosto de passiar, dançar, escutar música adoro conversar e fazer amigos, trabalho, entrego pronfletos nos sinaleiros sobre moveis para escritorio ganho 10 reais por dia tenho um metro 1.65 de altura minha sintura é 38 ou 36 eu calso 35 ou 34 gostaria de conhece-la.”

Alguns se sentiram à vontade, foram logo falando dos seus problemas ou de alguma situação que estavam passando no momento:

“... nossas mães proibiu a gente de namorar-mos pessoas que amamos muito e somos correspondidas mas não podemos ficar mais juntos por esse motivo. Estamos sentindo a falta deles. Sua carta chegou no momento exato. Conto com você, sem mais obrigado.

Valeu !!! J e P”

Na “fala” dos adolescentes, a angústia dos males de amor :

“... o que eu faço, pois eu fiquei com um rapaz que se chama ... eu fiquei com ele na festa ... ele adorou ... disse o amigo dele. Mas ele não se aproxima mais de mim e eu estou completamente apaixonada por ele. O que eu faço ? Espero resposta rápido”. C.

Alguns escreveram sobre o que gostam e o que não gostam :

“... eu odeio pessoas invejosas, orgulhosas, de duas caras. Eu sou calma, pasciente, luto por tudo que quero, adoro ajudar as pessoas que precisam ... participo de grupo de jovens, vou a celebrações, missas, faço minhas obrigações dentro de casa e sou caseira, não gosto de sair muito de casa. Sou de uma família simples que luta com a vida que afinal não é fácil.... sou amiga, adoro guardar segredos, sou sincera, queta, sou uma pessoa que se preocupa com os mais pobres, rezo por eles ...”

“... não sou curiosa nem chata ... sou feliz porque Deus mora dentro do meu coração ... dizem que o mundo está perdido, mas quem está perdido são as pessoas, pois o mundo só guia. É só as pessoas mudarem seus comportamentos e esquecerem um pouco da fama, ganância e dinheiro e pensa mais em Deus e no próximo que o mundo fica melhor e com igualdade para todos.”

As cartas pareceram bastante sinceras, tranqüilas e foram escritas de maneira simples e direta, mostrando a forma como os alunos pensam e falam. Uma das cartas me chamou a atenção pelo seu conteúdo, é a carta do aluno F. que não fazia parte do Programa de Orientação Sexual. Ele nunca se referia a si próprio e sim ao amigo ou à namorada deste.

“... acho bacana ser jovem, mas, com os problemas que os jovens estão passando atualmente já não tenho tanta certeza disso ... fico assustado com tudo que vejo atualmente ...começando com a administração deste país a terminar no pensamento humano.

... uma das minhas dúvidas é se uma mulher fica grávida através do método coito interrompido, isto porque tenho uma amiga de 17 anos que tem relação com o namorado freqüentemente e utiliza deste método para se prevenir, eu vivo com medo dela engravida.. já a orientei mas ela me assegurou de que é seguro, será que eu ou ela está com a razão ?

sobre ereção, é possível um homem que transe uma noite inteira ou mesma mantenha relação com uma mulher sem ter ereção ? pois o que me passaram é o seguinte toda hora em que ele vai gozar ele prende, mas como isso ocorre ...é possível ?

Em sua segunda carta, o mesmo tema retorna :

“ ... adorei suas respostas apesar de termos uma linguagem completamente diferente mas nada que não possa entender ... mas, lendo sua carta me surgiu outras dúvidas ... será que existe homem sem ser em casos excepcionais, que consegue uma noite inteira manter relação sem ejacular... isso acontece com um amigo meu, sempre que ele dorme com a namorada me conta e eu lhe pergunto e aí gozou ? tome cuidado hein um filho pode estar por vir, mas ele logo me responde clero que você sabe que eu não gozo, segundo ele toda hora que ele vai gozar ele pensa em algo e pronto tchau ejaculação, tudo bem isto é normal uma vez, duas mas a noite inteira será ???

Na terceira :

“... comentando com uma amiga minha sobre você o seu trabalho mostrando sua carta, ela me pediu que lhe perguntasse uma dúvida que ninguém consegue esclarecer, sabe o que acontece é o seguinte o seu namorado de vez em quando ele brocha. Ela fica revoltada se perguntando como isso ocorre e mais isso aconteceu umas par de vezes, sabe ele tem ereção mas na hora da penetração ele perde e nada e nem ele sabe responder o porque e alega que isso acontece somente com ela, que já teve outras transas e nunca aconteceu, será que tem como me esclarecer para que eu possa tranquilizá-la ?”

Em outra carta ele pede :

“... que você me envie ... material sobre ( verrugas genitais ou condiloma acuminado ) isso porque vou ter que apresentar um seminário para este bimestre, por favor quebre essa pra mim. Ah, gostaria que você também escrevesse uma carta pode ser em meu nome, mas, não pra mim pois por pura coincidência tenho um amigo com o tal condiloma e está meio assustado, então que você com esse seu jeitinho especial elabore uma carta para ele tranquilizando e indicando alguns métodos ao qual ele pode se previnir, o nome dele é ... é meu melhor amigo por sinal ... “

Este aluno mostra-se desinibido, mas, de uma certa forma, achou na correspondente uma abertura para diminuir sua ansiedade, esclarecendo suas dúvidas e a de seus amigos, sendo que isto pode ser considerado como uma demonstração de confiança no que lhe escrevo :

“... você deve ser uma mulher fantástica ...”

É claro que ele deve achar isso mesmo, pois sou eu que vou (segundo ele) resolver seus problemas, falando abertamente sobre temas tabus, que ele nem sequer pode pensar em levar para sua família ou discutir entre os amigos, pois estão todos na mesma situação de ignorância.

A vergonha de falar é uma constante :

“... mas olha estou super contente em saber que posso contar com você para o que quiser principalmente em dúvidas que surgem e que por vergonha ou até mesmo pelo momento ao qual estamos vivenciando não podemos esclarecer certo ! “F.

Os problemas descritos por F. são vividos intensamente por ele ; dizem respeito à afirmação da virilidade, da potência sexual, da ejaculação etc. ... as situações mostram dúvidas e falta de informações sobre o corpo, doenças sexualmente transmissíveis e as dificuldades na vivência da sexualidade. Esta situação mostra a dificuldade das famílias e a falta de uma proposta pedagógica em nossas escolas sobre a discussão da temática da sexualidade, pois estas informações deveriam ter sido obtidas nas diversas séries escolares, já que este aluno cursa o segundo ano do 2?grau.

A amizade e o desabafo

“... fiquei interessada em te conhecer, poder discutir com você por carta

algumas vezes, porque é sempre bom nós conhecermos pessoas

novas, principalmente uma pessoa com o seu entendimento, pois você é

professora e sabe como manejar os adolescentes.” E

O ser professor me concede, segundo a visão destes adolescentes e alunos, um caráter especial, de compreensão e de entendimento de tudo. Isto vem de certa forma, clarificar o que se ouve aqui e acolá atualmente, no que diz respeito à relação entre professor e aluno, quanto a esta estar deteriorada pela falta de diálogo e compreensão de um e de outro.

O que existe, talvez, seja a vergonha e o sentimento de medo e insegurança do professor em estabelecer um clima de amizade e vínculo afetivo. O clima de cordialidade e o falar a mesma língua, estabelece o vínculo que freqüentemente é esquecido entre as relações que acontecem dentro da escola, pois a correria diária do professor, o dar “conta” de suas atribuições, o faz esquecer dos aspectos afetivos que deveriam constar naturalmente da convivência diária com seus alunos e com os demais participantes do sistema educacional.

A sexualidade está presente todo o tempo :

“... você perguntou se eu estou trabalhando muito, no momento não ... fico muito feliz por ter escrevido para mim ... estou ficando com J., é uma pessoa adorável e muito legal” M.

Em outra carta M. diz :

“... você perguntou se o J. é jóia, mais não estou mais com ele, porque ele é muito iguinorante demais, tudo bem mais valeu o tombo que eu levei. Pois arrumei uma pessoa maravilhosa ele estuda no colégio que eu estudo ... conheci a mãe e o pai dele ... você precissa ver o respeito que o meu namorado tem com os pais dele e o carinho que tem comigo, estou muito feliz ... encontrei minha alma gêmea que é o C.”

A carta do Aluno D. foi uma das que mais me tocou :

“Profª é com muito carinho que pego na minha caneta para lhe dar as minhas notícias e receber as suas. Desculpe-me por não ter escrevido antes, por causa do tempo curto que tenho de fouga ... profª familia mesmo não tenho mais tenho a minha tia que é mais do que uma mãe para mim. A minha historia vem desde pequeno quando a minha mãe separou do meu pai, gravida de mim, eu so vim conhecer meu pai com nove anos de idade, fiquei morando com ele uns dois meses, isso é o que lembro. Depois fui morar com meus avós na Bahia ... afinal de conta já morei com tantas gente que não me lembro mais...

Voltando ao assunto eu morei com eles até os 16 anos depois eu voltei para Campinas morar com a minha tia. A minha mãe ficou braba quando eu fui morar com a minha tia, eu só fui morar com ela porque eu acho que eu só ia atrapalhar A minha mãe se casou de novo e tem mais dois filhos ... e o meu padrasto ele é legal, mais o problema e a minha mãe eu já sofri muito quando era pequeno até depois de grande eu sofria por que eu morando com a minha tia eu tenho mais liberdade para viver, mais eu não cupo a minha mãe eu sei que ela já passou poriço antes, ela não tem nenhum estudo.

Antes de definir se eu ia ou não morar com a minha tia ela me tratou bem quando eu fui pela primeira vez, depois que eu vim da Bahia ...ela nem quis olhar para minha cara eu ... ela me tratou como uma pessoa estranha nem olhou para minha cara. Quando ela fez isso meu coração partiu pequei e fui embora chorando.

Resolvi ir aprocura do meu pai só com o indereço velho que eu tinha ... sai no Domingo e fui para São Paulo, quando cheguei lá ele estava saindo no portão quando ele me viu ele ficou bastante alegre e eu também, eu não vou esquecer nunca esse dia.

Depois ele me deu uma foto da minha irmã que eu não conhecia até uns meses atrás ... fiquei bastante feliz de saber que tinha uma irmã ... Ela é mais velha do que eu um ano.

Resolvi escrever para ela lá no Belém do Pará. Foi legal quando recebi a resposta ela perguntando da minha vida, coriosa de saber tudo. Daí pra ca a minha vida mudou não sei se foi para melhor o para pior.

... resolvi ir até lá apesar de não conhecer a minha vó também ... sai daqui no Sábado eu fui de avião só com o indereço ... foi 4 horas de avião mais 10 horas de onibus, lá no certão de marabá. ...Foi muito bom conhecer a minha vó e também uns tios que não tinha pensado que isistia. Fiquei apenas um dia e meio lá, mais fiquei com muita saudade.

A minha irmã veio comigo. Fiquei mais feliz ainda só de pensar que não foi só eu que minha mãe deixou para traz ...Ela veio afim de estudar e arrumar emprego, mais passou um meis e nada dela procurar um imprego, arrumei um serviço onde eu trabalho ...mais ela não quis. Até a mãe ela não quis ver sendo que ela não conhecia, só conhecia o pai que ficou com ela quando ela era mais nova ... Profª eu vou ficando por aqui que eu vou voltar a escrever mais sobre mim e porque não da tempo quando pego pra escrever e muito pouco tempo ... Eu vou terminar na próxima carta a minha estoria. D “

Nesta carta de D. é visível a necessidade de contar sua história, de descobrir e afirmar sua identidade. A procura desta identidade pode ser definida como um dos momentos importantes na vida do adolescente, por que isto faz parte da etapa do processo evolutivo marcado pela necessidade de organização ou estruturação do indivíduo que, resumidamente chama-se de processo de identificação. É o indivíduo à procura de uma consciência sobre si mesmo como um “ser no mundo “ ( Ferreira,1985).

Este momento é vivido fundamentalmente no período da adolescência, onde o indivíduo precisa reconhecer-se a si próprio, nas três dimensões da identidade : o que eu penso que sou, o que os outros pensam que eu sou e o que eu penso que os outros pensam que eu sou.

As respostas

Se na espera às respostas da carta inicial tudo foi uma incógnita, a grande indagação depois foi : corresponderei à amizade e confiança a mim depositada ? como terminará esta correspondência ?

As respostas foram trabalhadas em cima das informações mais urgentes, e depois dos sentimentos e da alegria em poder me corresponder com eles.

Muitas foram as perguntas e o interesse pela minha vida pessoal. Quanto às suas próprias indagações procurei apontar alguns caminhos sobre os quais eles poderiam refletir, sobre riscos, perdas, ganhos e suas conseqüências.

“... será bom se você puder conversar com sua mãe para conhecer os motivos da proibição do namoro ; conhecendo-os você poderá argumentar contra eles ... saber se estes motivos são verdadeiros e depois ponderar se você deve brigar para esclarece-los ... levante os pontos positivos e negativos de cada motivo de sua mãe ... pense no fundo do seu coração se você não está sendo teimosa só para contrariar sua mãe ou se ela tem implicância com ele por causa de alguma situação que ela conhece ... se depois de tudo isto ainda achar que vale a pena ... vá fundo pois, estará sabendo dos riscos e a opção será sua ... lembre-se que ela pode estar falando para o seu bem, querendo protegê-la e que isso pode gerar algumas mágoas ... os filhos também fazem isso quando decidem resolver suas vidas sozinhos. “

Nas respostas às questões e desabafos, apontei alguns caminhos mas, as ponderações e decisões teriam que ser de cada um. As respostas às questões referentes a DSTs, AIDS, ou funcionamento do corpo puderam ser mais objetivas :

“... mais informações e auxílio para fazer os exames necessários nos endereços abaixo ... estes serviços são gratuitos e altamente confiáveis, além de serem sigilosos, isto é, as pessoas não contam a ninguém sobre quem você é, onde mora ou trabalha.”

“... deve procurar um médico ou posto de saúde o mais rápido que puder, para não deixar as verrugas se alastrarem muito, porque vai ficando mais demorado e difícil o tratamento. Não se esqueça também que você não deve transar com ninguém enquanto estiver assim, senão passa para o outro a sua doença.”

“... foi isso, imagine se fosse AIDS que é mais difícil de tratamento ... “

“... para que existe a camisinha ... você sabe ou já pensou sobre isso ? ... não basta saber usar e não usar ... “

Para as informações que percorreram as escritas das cartas, recorri a textos de revistas, jornais e livros. Para as mais minuciosas, ao Centro de Orientação e Apoio Sorológico, ao Centro Corsini, aos Centros de Saúde, e a médicos e psicólogos.

Também enviei xerox de outros materiais para leitura, como poesias, músicas, notícias de jornais sobre assuntos variados, recomendei que assistissem filmes, enviei notícias sobre lugares para lazer onde o gasto poderia ser a passagem do ônibus. Também foram remetidos a eles, endereços de lugares para acompanhamento e apoio á drogadição, à gravidez na adolescência, atendimento sexual e psicológico a adolescentes masculinos, e outros interesses como por exemplo, folhetos de inscrição em seleção para cursinhos de estudos na área técnica, empregos, como fazer um currículo, passar por uma entrevista etc. ...

A curiosidade dos professores

Enquanto as cartas iam e vinham, notei que os professores que serviram de carteiros, ficaram curiosos quanto ao seu conteúdo. Várias vezes fui inquirida sobre o que os alunos poderiam estar me contando; afinal que intimidade e animação era essa se eles eram os seus professores e não sabiam de nada do que estava acontecendo ? Alguns ... assim distraidamente me passavam algumas informações para ver o que eu poderia acrescentar a elas :

“... sabe o ... me perguntou sobre você ... ele pediu pra trazer rápido esta carta ... ele é meio assim ... o pessoal da escola fala muito dele ... até os amigos dele ... tadinho ... ele tá angustiado ... não arruma namorada e o pessoal caçoa dele ... vê o que você pode fazer ... “

“... aquela menina é uma graça ... ela quase foi estuprada pelo padrasto ... eu acho que ela foi, só não quer dizer ... é muito religiosa ... nas cartas ela não fala só em Deus ? “

“... trouxe esta carta ... olha ... aquela menina é trabalhadora demais ... de casa para o trabalho ou para a escola ... escreveu a carta na minha aula ...eu não li ... “

Despedida

Com o passar do ano letivo, lá para outubro as cartas foram chegando devagar. Considerei que era hora de parar. Escrevi então uma carta de despedida. Agradeci pela amizade e confiança. Com a chegada do final de ano, precisávamos pensar em tudo que conversamos e trocamos durante um bom tempo. Eu estaria torcendo para que conseguissem caminhar superando ainda mais os limites que aparecessem e que eu sabia que ainda seriam muitos tanto para eles como para mim também; que nada vem pronto, e que nossas histórias de vida se cruzavam e nos faziam vencedores ...

Muito ainda poderia ser dito e escrito sobre esta pesquisa. Mas, o tempo ( ah ... o tempo ! ) me impede de continuá-la... devo terminar por aqui.

Foi muito bom estabelecer amizades com os alunos, alguns adolescentes, outros não.

Em alguns momentos foi difícil responder às questões, tive que pesquisar sobre elas, ir atrás de textos para xerox, de pessoas que pudessem me ajudar e arranjar tempo ( de novo o tempo ) para escrever. Acho que o mais importante foi o sentimento de prazer que ficou para mim e acho que para os que me escreveram.

O prazer de poder conhecer, de saber que não é tão difícil obter respostas. No entanto, não se pode ter a ilusão de que só o que está escrito pode fazer alguma diferença para quem lê. Esta escrita para ter um significado e dar prazer, precisa ter por trás, saltando aos olhos, o sentimento daquilo que se quer dizer.

Me senti muitas vezes surpreendida com o que li. Com o que nas entrelinhas eu pude “ler” de angústia e de conformismo, de rebeldia ou de medo; a necessidade de falar, de contar, esteve presente todo o tempo, mesmo não havendo o conhecimento fisico de quem estava do outro lado do vínculo que nasceu, a partir da palavra escrita. Me vi suspensa no ar, por não poder entender o que escapou à minha compreensão; o que “li” foi apenas a mínima parte do todo do mundo.

Como Ítalo Calvino :

“Enquanto espero que o mundo não-escrito se torne mais claro, sempre há uma página escrita aberta diante de mim, onde posso voltar a mergulhar : faço-o sem demora e com a maior satisfação, porque ali, pelo menos, mesmo que só compreenda uma pequena parte do todo, posso alimentar a ilusão de que mantenho tudo sob controle.”

Referência bibliográfica :

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