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  A CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA DO JOVEM GAY A PARTIR DE PRÁTICAS DE LETRAMENTO VIRTUAL

Sílvio Ribeiro da Silva – PG – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

Introdução

Neste trabalho, trazemos à tona uma discussão sobre a identidade formada através da mídia digital, buscando compreender como o processo de construção de identidade é desenvolvido na interação entre o internauta e os textos veiculados na seção Tema do site e-jovem.com destinado a jovens gays. Pretendemos, também, investigar até que ponto os textos apresentados na seção em observação propiciam um processo de identificação do jovem gay durante a interação, contribuindo para moldar sócio-historicamente sua identidade, favorecendo ou não um processo de estereotipificação.

Para desenvolvimento do trabalho, escolhemos 05 textos da seção Tema, onde aparece o editorial da página, coletados no dia 07 de junho de 2005. Esses textos tratam de mudanças que ocorrem na adolescência do gay e as implicações dessas mudanças no comportamento e no relacionamento do jovem com os outros. Assim, buscaremos, a partir de aspectos lingüísticos e sócio-culturais, depreender e categorizar as escolhas lexicais que evidenciam o tipo de relacionamento que o editor do site estabelece com o internauta e as escolhas que mostram as imagens de jovem gay que o site quer construir.

Nossa intenção em realizar um estudo sobre a construção de identidade se deve ao fato de ela ter se tornado um tópico central nas discussões de várias ciências, uma vez que uma das mudanças mais importantes em várias sociedades contemporâneas está diretamente relacionada à compreensão política de que a experiência humana não é limitada a um grupo étnico particular, a uma raça, a um gênero, a um modo de expressão da sexualidade (cf. Moita Lopes, 2002).

1- Identidade Sexual e Identidade de Gênero – recortes teóricos

O conceito de identidade é relativamente novo na história da humanidade. Surge no Iluminismo e vai conquistando espaço na medida em que as discussões sobre a individualidade ganham importância. No início, se pensava em um "eu" monolítico e imutável. Depois, veio a idéia de um sujeito que se estrutura a partir de relações com outras pessoas. Por último, há a concepção de indivíduo pós-moderno, na qual a identidade não é fixa ou permanente. A pessoa tem identidades múltiplas e as "veste" de acordo com o papel que exerce em um determinado momento: estudante, trabalhador, pai/;mãe, marido/esposa, por exemplo (Giddens, 2002).

O conceito de identidade de gênero e sexual foi iniciado por Stoller e Money há quatro décadas. Os trabalhos pioneiros destes autores ampliaram a forma de pensar a relação homem/mulher, os conceitos de masculino/feminino, homossexualidade, transexualidade e o reducionismo biológico e psicológico (Moreira, 1995).

Identidade sexual é a persistência, unidade e continuidade da individualidade de uma pessoa como homem, mulher ou ambivalente, em maior ou menor grau, especialmente como é vivenciada em termos de autoconsciência e comportamento. Papel sexual é tudo que uma pessoa diz e faz, para indicar aos outros ou a si mesma o grau em que é homem, mulher ou ambivalente; inclui, mas não se limita, à excitação e resposta sexual; o papel sexual é a expressão pública da identidade sexual, e a identidade sexual é a experiência particular do papel sexual (Money & Ehrhardt, 1972 apud Money & Tuker, 1981, p. 12).

Silva (1999) define identidade de gênero como o conjunto de traços construídos na esfera social e cultural por uma determinada sociedade, definindo quais os gestos, os comportamentos, as atitudes, os modos de vestir, falar e andar, de forma semelhante para homens e mulheres. Para este autor, só existem dois tipos de gênero – masculino e feminino. As identidades de gênero tendem a estar em consonância com o sexo biológico do sujeito, porém não são estruturas fixas, encerradas em si mesmas; pelo contrário, podem e estão continuamente se renovando, em ebulição e a cada momento podem ser novamente moldadas de outras formas. Elas também são impostas pelo processo de socialização, que impede construções singulares. Apesar de não serem uma condição para a formação das identidades sexuais, elas estão intimamente ligadas à escolha afetiva e sexual do sujeito.

A identidade de gênero começa com a percepção de que se pertence a um sexo e não a outro. Esta percepção será dada inicialmente pelo processo de socialização enfatizado pelos pais, posteriormente pelos amigos, escola etc., e por aquilo que a cultura vai definir como papéis masculinos e femininos. O núcleo da identidade de gênero dá a convicção de que a atribuição do sexo foi correta. Ela impõe-se antes dos dois anos de idade e vai persistir até a idade adulta, quando a escolha do objeto sexual do sujeito estará mais ou menos definida (Silva, op. cit.).

Observa-se que os sujeitos podem exercer sua sexualidade de diferentes formas, eles podem viver seus desejos e prazeres corporais de muitos modos. Suas identidades sexuais se constituiriam, pois, através das formas como vivem sua sexualidade, com parceiros(as) do mesmo sexo, do sexo oposto, de ambos os sexos ou sem parceiros(as). Por outro lado, os sujeitos também se identificam, social e historicamente, como masculinos e femininos e assim constroem suas identidades de gênero. É evidente que estas identidades (sexuais e de gênero) estão profundamente inter relacionadas. A linguagem e as práticas muito freqüentemente as confundem tornando difícil pensá-las distintamente. O que importa aqui considerar é que – tanto na dinâmica do gênero como na dinâmica da sexualidade – as identidades são sempre construídas (Louro, 1997, p. 26-27).

Ainda não está adequadamente estabelecido o quanto é possível haver uma plasticidade no estabelecimento da identidade de gênero ou o quanto essa é uma característica inata. Ainda não se sabe ao certo qual (ou se realmente existe) o limite de idade a partir do qual não podem mais ocorrer modificações, mas acredita-se que a partir dos 6 anos já exista uma constância no gênero estabelecido. No entanto, uma identidade de gênero estável só é atingida na vida adulta, sendo expressa de forma mais clara e perceptível no contexto da identidade sexual, que nem sempre corresponde à identidade desenvolvida durante a infância. Os dados sugerem que mudanças de gênero após esse período são muito difíceis, pois implicam em um processo de desaprender o gênero original e aprender um novo. Portanto, é importante ressaltar as dificuldades decorrentes de uma situação de mudança do sexo com o qual a criança possivelmente já esteja identificada.

No caminho de construção da identidade, muitos jovens se descobrem gays. Para muitos, o caminho entre a descoberta e a aceitação é longo e doloroso. Muitos deles acabam por se sentir completamente “por fora” do mundo no qual vivem (cf. Mussem, 1969).

Quando nasce uma criança, diz-se que ela é homem ou mulher, a partir do que apresenta em termos de genitália externa. Mas o ser mulher, bem como o ser homem, só começa com o reconhecimento de si mesmo ou a formação da identidade pessoal, passo inicial da estruturação da personalidade. A identidade de uma pessoa constrói-se após o nascimento, num processo simbiótico com as figuras parentais, em interação com o meio, até expressar-se como individualidade em atitudes e sentimentos sobre o eu. Um importante componente do processo de construção da identidade é a identidade sexual.

A identidade sexual, ou identidade de gênero, refere-se à percepção que a pessoa tem de si, como sendo homem ou mulher ou alguma combinação dos dois. Ainda que não se tenha determinado as causas, não há duvidas de que a variação de identidade de gênero e de orientação sexual não é resultado de fatores como experiências passadas ou forma de criação.

2- O Site e-jovem.com

O site foi colocado no ar no ano de 2001. Segundo seu editor, o jornalista Deco Ribeiro, cerca de 80% do público que acessa o site tem entre 14 e 21 anos. Os 20% restantes ficam preenchidos por internautas de outras faixas etárias.

Deco Ribeiro diz que o objetivo principal do projeto de criação do site foi atingir o público jovem e adolescente em uma página voltada à sexualidade. O e-jovem.com não é simplesmente um site que fala de sexualidade, mas um site que fala de sexualidade adolescente, para adolescentes e escrito, em sua maioria, por adolescentes – e adolescentes gays.

A motivação para criação do site surgiu pelo fato de que por muito tempo, na opinião do editor, os adolescentes gays tiveram de se virar sozinhos com a sua sexualidade. Não havia como encontrar outros gays da mesma idade, trocar experiências, conversar. Muitos cresciam sem saber direito se eram gays, bissexuais, transexuais. A internet trouxe, pela primeira vez, a oportunidade de pôr esses garotos e garotas em contato uns com os outros. Navegando pela internet e encontrando esses garotos em salas de bate-papo e fóruns, era fácil perceber que todos tinham as mesmas dúvidas, os mesmos conflitos.

O site tem uma média de 30 mil acessos por mês segundo seu editor, sendo que cerca de 95% dos que acessam são do sexo masculino. O e-jovem.com está prestes a se tornar entidade, realizando encontros formais em várias cidades do Brasil as quais acabam por criar seus próprios núcleos de participantes.

É interessante observar que a página do site é bastante colorida. O que nos chamou a atenção foi o fato de a cor rosa ser a escolhida para o fundo da página . A escolha por essa cor, hipotetizamos, foi feita já alusivamente ao fato de os gays serem considerados “paródia” de mulheres e a cor rosa ser bastante feminina .

3- O Corpus de Trabalho

Os textos que fazem parte do corpus de análise neste trabalho foram coletados na seção Tema, onde aparece o editorial do site. Os textos dessa seção são chamativos para o “consumo” do site, uma vez que a maioria explora assuntos que estão latentes no dia-a-dia dos jovens gays. O estímulo dado pelos títulos dos textos da seção é consolidado a partir do momento em que o internauta, com a possibilidade de encontrar respostas e orientação para suas dúvidas e tendo necessidade de informação, passa a “consumir” cada vez mais o site.

De maneira geral, os textos da seção Tema são informativos, prescritivos e interativos, uma vez que, além de informar, têm por função apresentar um discurso procedimental, com a pretensão de orientar o internauta em sua conduta perante alguns pontos. Como mostraremos na análise dos dados, os textos são escritos em linguagem bastante informal e fluida, com uma grande proximidade da oralidade e com expressões marcadoras de elocução, além de expressões próprias do cotidiano do jovem, numa espécie de “bate papo” pessoal do editor com o internauta, estabelecendo-se com isso uma interação forte entre esses participantes do evento discursivo.

São os seguintes os títulos dos textos que compõem nosso corpus de estudo: a) Dormindo com o Inimigo (texto 1); b) Circle Jerk (texto 2); c) Tem que Usar (texto 3); d) Difícil Orgulho (texto 4); e) Os Cinco Passos, ou Como Agarrar seu Amigo Hetero (texto 5) .

4- Um Olhar Analítico sobre os Dados

Para atingir nosso objetivo proposto, buscaremos analisar as escolhas lexicais que trazem preceito de conduta, tais como as diretivas realizadas através do imperativo e de normas, regras e técnicas que denotam prescrição; escolhas que denotam afetividade (diminutivos), escolhas que estabelecem um diálogo mais íntimo (você, nós, a gente) e as escolhas que trazem outras vozes para dentro da voz do editor do site.

4.1. Uso de diretivas indicativas de normas e regras a serem seguidas

Percebemos que a maioria dos textos apresenta marcas lexicais indicativas de que postura o jovem gay deve seguir. Essa indicação é feita mediante variadas maneiras de prescrição que, de certa forma, acabarão por dirigir os passos do jovem.

(1) Texto 1
(2)
... E você pode ir dando uns toques...

...Tenha sempre em mãos...

... acompanhe sempre...

Não tenha vergonha...

Notamos que algumas vezes o editor distancia-se do internauta colocando-se num nível superior de conhecimento e de experiência em relação ao assunto sobre o qual está tratando .

(2) Texto 2

O que eu vou fazer aqui é te dar uns toques pra você driblar esse tipo de situação.

(3) Texto 3
(4)
Eu não sei vocês, mas eu respiro aliviado de só ter de tirar a camisinha, jogar fora e ver meu pau limpinho...

Em outras vezes, o editor busca mais aproximação com o internauta, em demonstrações de afetividade e solidariedade, através de escolhas lexicais que modalizam sua atitude frente ao internauta.

(5) Texto 1
(6)
Já ouviu falar de “Ame-o ou deixe-o?” Você não pode se deixar. Se ame.

No resto a gente te ajuda.

Nos cinco textos em análise neste trabalho, o editor sempre usa itens lingüísticos – grupos nominais – que denotam, de forma explícita, o teor prescritivo que é pretendido no texto em desenvolvimento. São escolhas lexicais indicativas de diretrizes e receituários, tais como técnicas, conselhos ou receitas.

(7) Texto 1
(8)
O que eu vou fazer aqui é te dar uns toques pra você driblar esse tipo de situação. Pode chamar de um Guia de Sobrevivência em Casa... Vamos lá!

A instrução oferecida acima diz respeito a que postura o jovem deve tomar para se livrar de situações “embaraçosas” em casa com a família. Certamente o jovem seguiria as “instruções” dadas por esse guia, especialmente se se visse perante uma situação de desespero gerada por conflito em casa com os pais. Percebemos que o site acaba por querer propor dirigir a vida do jovem, a fim de que este acate os ensinamentos que lhe são propostos para a construção de sua identidade.

(9) Texto 2
(10)
Caso o clima esquente demais ou alguém esteja abusando e você não queira prosseguir, um simples: “este não é um lugar apropriado para isso”, ou “não foi isso que combinamos”, basta. Se não bastar, levante-se e troque de lugar ou ate mesmo saia do recinto. Deixe claro para os presentes que é OK alguém levantar e sair se pintar uma vergonha ou algum incômodo.

No recorte anterior, a proposta é a solução de um problema a partir de uma instrução na qual até o discurso a ser proferido pelo jovem é indicado. Seguindo o que é proposto, o problema estará resolvido.

No texto do qual foi retirado o recorte acima (texto 2), fala-se sobre o Circle Jerk, uma prática de masturbação em grupo. O site sugere que o jovem convide amigos ou não para a prática da atividade. Achamos que essa sugestão pode ser perigosa caso o jovem convide para sua casa outros jovens que ele não conhece. Com isso, notamos a indicação de uma prática irresponsável .

(7) Texto 5

DICA: só evite beijo nessa primeira vez. Beijar homem é uma coisa complicada pra heteros. Envolve mais afetividade que tesão.

No recorte acima, percebemos, mais uma vez, a garantia de sucesso se o jovem seguir o que é proposto, instigando-o a se identificar com tudo o que está sendo apresentando. Como podemos observar, o jovem parece ser “programado” para seguir as regras e comportar-se exatamente de acordo com o modelo proposto.

(8) Texto 4

... se você gay quiser namorar antes de ir morar sozinho/a, na maioria dos casos terá de enganar seus pais...

(9) Texto 5

Preparados para o segredo do milênio? “Como ficar com aquele amigo hetero gatinho que você sempre sonhou?” Divirta-se!

O uso dessas diretivas acima, através do emprego de imperativo e de demais formas que dão ênfase à força ilocucionária, inserem ao discurso um caráter procedimental que tende a prescrever e proscrever ao jovem gay o que ele deve ou não fazer.

Nos recortes mostrados acima (em especial o recorte 9), podemos perceber estratégias discursivas em tom conversacional, com uma informalidade bem presente numa tentativa de maior aproximação com o público jovem. Escolhas lexicais como segredo e sonhou, por exemplo, dão o tom pretendido para o convite ao desconhecido, por isso mesmo instigante. Os jovens, sem perceber, acabam por acatar passivamente as prescrições que parecem lhes dar a garantia de sucesso absoluto e inquestionável.

Segundo Fowler (1979), o uso do imperativo envolve uma assimetria de poder que tende a contribuir para a instauração de um exercício de controle através da criação das posições subjetivas de comandante – editor – e comandado – internauta. A presença constante desse modo verbal parece mostrar que, em virtude de o editor do site ser detentor de mais experiência e conhecimento, ele acaba por ser também detentor de mais poder e que os jovens internautas, em tese, são sujeitos passivos e vulneráveis que acatam ordens prescritas.

Da forma como o site conduz as posturas que devem ser adotadas pelo jovem, acaba por impedir a total liberdade de escolha que as pessoas devem ter. A liberdade concedida ao jovem não passa de um doutrinamento, de um controle que impõe a ele normas especiais de comportamento.

Vejamos mais alguns usos das diretivas:

(10) Texto 5

Ponha sexo na conversa de vocês.

(11) Texto 4

...tenha orgulho e seja feliz ou abaixe a cabeça e seja infeliz.

(12) Texto 2

... distribua as revistas, ponha pra rodar o filminho no computador ou abra aquela pasta secreta de fotos e aperte o play de seu vídeo.

No exemplo abaixo, o editor do site coloca de modo explícito a sua autoridade sobre o internauta, usando, como sempre, o imperativo, demonstrando um alto grau de afinidade com suas proposições.

(13) Texto 5

Preciso falar mais alguma coisa ainda?? Precisa. Tome a iniciativa. Só isso. Vai, sem medo. É só partir pro abraço. Estica o braço e pousa a mão no colo dele...

No recorte a seguir, percebemos, pela força ilocucionária da diretiva, além da autoridade do editor sobre o internauta, a sugestão para a prática do alcoolismo .

(14) Texto 5

O que fazer? Cachaça nele! Você conhece aquele ditado “c* de bêbado não tem dono”? Pois então... Nada demais, claro! Não é pro cara capotar – ou você! Basta sufocar o racional e deixar vocês dois mais safados um pouquinho.

Além da alusão à prática do alcoolismo presente nesse recorte, achamos não ser adequado o site sugerir que o jovem beba e dê bebida a seu amigo pelo fato de, caso eles não fiquem só na masturbação, a perda da razão, sugerida pelo editor, possa fazer com que os jovens, movidos pelo desejo e por essa perda de razão, deixem de usar preservativo, expondo-se ao risco de contração de doenças, inclusive AIDS.

Outra consideração que achamos por bem fazer com relação ao recorte 14 diz respeito ao fato de a diretiva acabar por colocar em questão o estereótipo de um jovem que sozinho não consegue um objetivo, não tem vontade nem gosto próprios, uma vez que precisa que alguém diga o que deve fazer para que ele consiga o que almeja, fazendo, talvez, até algo de que não gosta . Além disso, percebemos a revelação de uma total desconsideração do outro enquanto sujeito dotado de desejo, de prazer recíproco e voluntário que deve existir numa relação.

No recorte 15, a seguir, gostaríamos de chamar a atenção para o final do texto, quando o editor, nas considerações finais sobre o que o jovem deve fazer para conquistar o amigo hetero, expõe o internauta a uma situação de risco, tendo em vista que o amigo pode ter atitudes homofóbicas. O editor parece querer deixar claro que não seria louco o suficiente para usar as técnicas que ele mesmo sugere.

(15) Texto 5

Gostaram? Agora é com vocês – ou com quem for louco o suficiente pra tentar isso na prática e arriscar levar um soco... :)

Além do que já colocamos sobre o recorte 15, gostaríamos de considerar que a escolha lexical louco parece ter a intenção de minimizar a proposta absurda feita pelo editor. A expressão agora é com vocês busca eximi-lo de responsabilidades caso aconteça algo inesperado.

A partir dos exemplos com o uso do imperativo, podemos perceber que por ser o editor o detentor do conhecimento e da experiência, sua relação social de poder sobre o internauta aparenta ser tão legitimada que parece não haver nenhum problema em seu exercício, uma vez que as diretivas prescrevem não só o comportamento do jovem internauta, mas também determinam até mesmo os limites e as possibilidades de pensamento, conceitos e valores que devem ser assimilados.

No exemplo a seguir, o editor usa escolhas léxico-gramaticais prescritivas que deverão ser interiorizadas pelo jovem para nortear a sua vida em relação à conquista do amigo hetero.

(16) Texto 5

Só isso. Não se trata de “Como abusar do seu Amigo Hetero”, mas sim de “Como ajuda-lo a Sentir Mais Prazer com Você”. Sim, porque qualquer pessoa, por mais hetero que seja, só não sente prazer com alguém do mesmo sexo por razões psicossociais – em outras palavras, por puro preconceito. Passando essa barreira, ele vai estar bem mais livre para se entregar ao prazer... e ninguém melhor que um amigo para conduzi-lo nesse processo.

É possível perceber a intenção do editor de fazer com que o jovem vá em busca apenas do prazer. Pensamos que atitudes como essa acabam por fazer com que o estereótipo de que o gay é um sujeito que só pensa em sexo fique cada vez mais evidente. Achamos que a atitude do editor do site não ajuda em nada a fazer com que o gay seja melhor aceito socialmente, uma vez que, “atacando” um amigo hetero, poderá fazer com que esse amigo, que talvez não o via com os estereótipos tão comuns, passe a vê-lo.

Além disso, achamos que o editor parece querer evidenciar que só são válidos o sentimento e o juízo de valor do jovem gay, desconsiderando os valores identitários, possivelmente já definidos, do heterossexual.

Apesar de acharmos que a maioria das diretivas usadas pelo editor não é muito eficiente para ajudar o jovem na descoberta de sua sexualidade, alguns recortes merecem atenção por serem, na nossa opinião, usados de maneira positiva.

(17) Texto 3

TEM QUE USAR CAMISINHA!!!

(18) Texto 1

Combata comentários maldosos

Não tenha vergonha de encarar sua homossexualidade

(19) Texto 4

Viva o orgulho gay e abaixo o preconceito e a ignorância da nação!

4.2. Uso do Diminutivo

Na tentativa de retratar um discurso de envolvimento, com privilégio na afetividade e nos sentimentos com demonstração de afeto entre o editor e o internauta, aparecem os diminutivos em estilo conversacional, uma característica mais comum no discurso feminino, o que nos faz assinalar mais uma marca de estereótipo ligando o gay a traços femininos.

O uso do diminutivo nos faz pensar que o que se pretende é a criação de um cenário em que o internauta imagina compartilhar com o editor dos mesmos desejos, valores e sentimentos. Assim, o editor simula uma simetria com o internauta, tentando conquistar sua simpatia e confiança.

(20) Texto 1

Pô, cara, nada a ver essas piadinhas.

Essa é curtinha e simples.

Só mais uma coisinha antes de terminar...

(21) Texto 2

... ponha pra rodar o filminho no computador...

...uma coisa vai levar a outra rapidinho...

(22) Texto 5

...aquele amigo hetero gatinho...

Basta você sufocar o racional e deixar vocês dois mais safados um pouquinho.

Vai provocando, deixando ele doidinho...

Além de acharmos que uso do diminutivo evidencia o estereótipo de feminilidade ligada ao gay, pensamos que ele também explicita a construção da imagem de um jovem infantilizado, frágil e ingênuo.

4.3. Escolhas Dialógicas

Na tentativa de estabelecer um alto grau de intimidade e informalidade, o editor age como se estivesse num bate-papo informal entre amigos. Para isso, usa recursos de linguagem que garantem o envolvimento e a identificação do jovem com o que está sendo prescrito: como se masturbar, como “ficar” com o amigo hetero, como “driblar” uma situação embaraçosa em casa com a família, etc, considerando o outro um sujeito desprovido de conhecimento e que necessita de alguém para lhe indicar o que fazer.

Apesar de o interlocutor da prática discursiva estabelecida através do site ser desconhecido do editor, este projeta um perfil idealizado de seu público alvo, considerando suas características relevantes, seus anseios e expectativas. Com o uso do pronome “você”, que tem uma função interpessoal, tenta trazer o jovem para dentro do texto, numa tentativa de deixá-lo mais engajado, para garantir a interação.

O pronome “você” aparece em todos os textos; já sua flexão plural aparece nos textos 2, 3 e 5. O texto 5 é o que apresenta maior número de ocorrências dessa flexão. O texto 1 é o que apresenta o maior número de ocorrências do “você” singular.

Vejamos algumas ocorrências do pronome “você”:

(23) Texto 1

Como mudar a cabeça duma família que não sabe que você é gay?

Não é da conta de ninguém o que você faz ou deixa de fazer sexualmente...

Você contando logo, você tem muito mais moral pra coibir os comentários maldosos.

(24) Texto 2

...aceitam numa boa esta prática principalmente se eles entrarem com o pênis e você com a mão.

Antes de mais nada, você precisa de um lugar.

Um lugar tranqüilo, onde você e seus amigos não sejam incomodados e não incomodem ninguém.

(25) Texto 3

Garotos de 14 a 24 anos, que freqüentam as mesmas boates que você, os mesmos chats que você, os mesmos dark rooms que você...

(26) Texto 4

...se essa foi a opção escolhida por você,...

...que você nasce com isso,...

A pior reação de pais “liberais”, pode vir quando você ainda não transou com uma garota,...

(27) Texto 5

“Como Ajudá-lo a Sentir Mais Prazer com Você”.

Só tente fazer isso se você tem segurança na amizade...

Se você teve o bom senso antes e mesmo assim resolveu seguir em frente,...

Não são muitas as ocorrências de “nós” ou “a gente”. O “nós” só aparece nos textos 3, 4 e 5; “a gente” aparece nos textos 1 e 3.

Abaixo colocamos cada uma das ocorrências seguidas de nossos comentários:

(28) Texto 1

Se a gente quer que a coisa mude na sociedade em geral,...

(por exemplo, acompanhe sempre os fatos marcantes pra comunidade GLBT que a gente oferece toda semana na seção News...).

No resto a gente te ajuda.

(29) Texto 3

A gente que vive e convive com adolescentes...

Às vezes a gente olha a camisinha suja,...

E, cá entre nós:...

(30) Texto 4

...e porque sendo nós mesmos, é o único meio de sermos felizes.

(31) Texto 5

Todos nós temos um lado racional e um lado emocional...

Fowler (op. cit.) diz que o pronome “nós”, de acordo com seu uso, pode ser inclusivo ou exclusivo, sendo inclusivo quando se refere ao escritor e ao leitor do texto. Essa ocorrência aparece nos exemplos 28, 29 e 30. É exclusivo quando inclui o próprio escritor e as outras pessoas, mas exclui o leitor. Não houve ocorrências dessa natureza no corpus de estudo.

Estendendo essa regra ao pronome “a gente”, temos o inclusivo nos exemplos 28 (primeira ocorrência mostrada) e 29 (segunda ocorrência mostrada). O exclusivo é mostrado nos exemplos 28 (segunda e terceira ocorrências) e 29 (primeira ocorrência mostrada).

4.4. Intertextualidade

Vogth (1980) afirma que a pluralidade de vozes – polifonia – aparece em função da intertextualidade que é trazida para dentro do texto que está sendo construído. Esse recurso oferece ao editor a possibilidade de não trazer para si as responsabilidades sobre tudo o que está sendo dito, atribuindo essa responsabilidade a um enunciador estranho.

Embora as vozes que aparecem nos textos não tenham um produtor explícito, elas acabam não sendo ideologicamente neutras, mesmo que assim aparentem, pois acabam por remeter a uma visão de mundo investida de intenções, uma vez que reveste de novas significações a palavra do outro (cf. Bakhtin, 1997).

(32) Texto 1

Alguém já disse que ‘Toda revolução começa dentro de casa’.

Já ouviu falar de “Ame-o ou Deixe-o”

(33) Texto 3

...tem muito garoto lendo isso e dando risada. “Camisinha pra quê?”, dizem eles, “Não vai acontecer comigo, eu não conheço ninguém com AIDS”.

(34) Texto 4
(35)
E aí se perguntam, “como ter orgulho de ser gay nessas condições?”

(36) Texto 5
(37)
Você conhece aquele ditado "C* de bêbado não tem dono?"

Beaugrande & Dressler (1981) afirmam que a intertextualidade deve ser considerada como fator importante numa pesquisa, seja ela experimental ou empírica, sobre textos, tendo em vista que a multiplicidade de vozes denota idéias e convicções a respeito do mundo. Dessa forma, através da intertextualidade, os escritores demonstram suas crenças, objetivos, posições, passando ideologias que criam imagens e perpetuam estereótipos.

5- Considerações Finais

Neste trabalho, quisemos propor uma discussão sobre a identidade formada através da mídia digital, buscando compreender como o processo de construção de identidade é desenvolvido na interação entre o internauta e textos veiculados na seção Tema do site e-jovem.com destinado a jovens gays.

Tentamos observar o discurso utilizado no site a partir de seu uso social e da interação entre os interlocutores em um dado contexto sócio-histórico-ideológico, embora não tenhamos nos ancorado na perspectiva teórica da Análise do Discurso.

Assim, partindo da observação das escolhas léxico-gramaticais usadas pelo editor do site, verificamos que ele usa diferentes recursos de linguagem para estabelecer uma relação interpessoal com o internauta e para veicular a imagem de gay que se quer construir e a identidade pretendida.

A observação dessas escolhas léxico-gramaticais fez com que pudéssemos identificar a posição de assimetria em que o editor se coloca na relação com o internauta. Aquele, interage de acordo com a posição social e cultural que estabelece para si e para este. Para que isso se efetive realmente, o editor monitora suas falas seguindo regras institucionalizadas, comandando o internauta e fazendo com que ele seja comandando, na crença de que é livre e de que está tomando suas próprias decisões.

As escolhas lingüísticas tendem a mostrar ideologias dominantes, expostas a partir de um discurso procedimental que prescreve regras e normas, orientando o internauta àquilo que deve ou não fazer, controlando suas atitudes e comportamentos.

Essas escolhas reforçam certos estereótipos formando uma estrutura de valores como se fossem verdades únicas que passam a dirigir a vida do jovem, estabelecendo-se, com isso, uma relação hegemônica do site/instituição para com o internauta.

Na tentativa de camuflar essa hegemonia, o editor usa estratégias lingüísticas para eliminar qualquer marcador explícito de poder. Assim, com simulação de informalidade e solidariedade, cria a ilusão de proximidade, de simetria, de compartilhamento de idéias entre os participantes sociais do evento discursivo.

O uso de diretivas (imperativo), diminutivos, pronomes (você, nós, a gente) e de recursos de intertextualidade mostram que o discurso veiculado no editorial do site analisado garante a interação entre o editor e o internauta, fazendo com que este se solidarize e aceite, passivamente, a autoridade daquele, como sendo o que detém o conhecimento, a experiência, e, conseqüentemente, o poder.

Num primeiro momento, parece que todos os jovens gays fazem parte do universo pretendido pela instituição, independente de classe social e econômica, raça, etc. Porém, tendo em vista o fato de que a internet ainda não é de consumo de uma grande parcela da sociedade, especialmente dos que vivem em regiões mais afastadas dos centros econômicos, arriscamos dizer que o site é feito para o jovem estudante, de cor branca, das classes média e alta (nossa suposição fica mais forte quando, na abertura do site, o editor faz referência à psicóloga do jovem. Classe baixa não tem condição financeira para manter terapia).

Apesar de não ser nosso interesse a análise semiótica das fotos e imagens veiculadas no site, percebemos que retratam a figura do jovem gay branco; não há menção a jovens gays negros. Com isso, achamos que o site privilegia uma raça a partir de critérios ancorados no senso comum.

Por conta de todas as normas, regras e técnicas que o site apresenta, pensamos que ele pretende funcionar como um guia para o jovem atribulado por dúvidas a respeito de sua sexualidade. Não somos contra manuais de ajuda, mas não achamos conveniente a forma como o site conduz as posturas do jovem, parecendo querer fazer com que ele se torne dependente de suas prescrições e proscrições, além de querer ser um “porto seguro”. Achamos até curiosa a forma como o editor quer que o jovem encare o site, quando na abertura faz referência à terapeuta do jovem dizendo ser ela desconhecida. Qual a diferença, em graus de desconhecimento, de uma terapeuta e de um site, que só existe no mundo virtual?

É inegável o poder e o papel dos meios de comunicação de massa na produção, circulação e transformação de conhecimento, valores e crenças, bem como na manutenção de preconceitos, imagens e estereótipos, contribuindo para a construção de identidades sociais.

A partir dessas considerações, gostaríamos de dizer que achamos importante um estudo sobre práticas discursivas da mídia, digital ou não, pelo fato de que pode revelar como autor e consumidor podem influenciar e serem influenciados partindo das interações estabelecidas e das imagens edificadas. Um estudo desse tipo pode ser útil para uma melhor compreensão da natureza social do discurso e de sua influência na construção de identidades, uma vez que é através da linguagem que nossas identidades são construídas nas práticas sociais, sendo que estas interferirão nos significados que construímos na/da sociedade.

Não temos certeza de que reação nosso estudo poderia gerar se levado ao público para o qual o site é destinado. Essa consideração se solidifica até porque não se trata de um estudo total do site, mas somente de uma seção dentre as várias que ele apresenta. Porém, pensamos que, se os jovens gays tivessem acesso à análise que aqui fizemos, poderiam tomar consciência de que se pode agir através do discurso e que, sendo as identidades sociais construídas e mantidas através de práticas discursivas, elas também podem ser reconstruídas discursivamente. Assim, pensamos que esse singelo estudo poderia ajudar a tornar mais transparente a ideologia veiculada pelo site (embora não tenhamos feito análise dos textos das outras seções, hipotetizamos que não são muito diferentes dos da seção Tema), fazendo com que os jovens gays tenham uma visão mais crítica do discurso usado, oferecendo a eles o conhecimento necessário para iniciar a mudança em suas próprias práticas discursivas e nas das comunidades onde vivem.

Pensamos que este trabalho poderia ter demonstrado algo mais sobre a construção da identidade do jovem gay se tivéssemos tido oportunidade de entrevistar internautas para que pudéssemos ter uma visão do ponto de vista do interlocutor do site sobre a forma como os textos da seção Tema são colocados. Um estudo futuro poderia ser feito com base nessas entrevistas para investigar que critério é usado para escolha do site e não de outro, já que existem outros destinados ao público jovem gay, que seção é considerada mais interessante e por que, de que forma julgam estar interagindo com o editor, enfim, como reagem diante do que lêem no site e-jovem.com.


6. Referências Bibliográficas

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