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  RECONSTRUINDO A CIDADANIA: ADOLESCENTES EXERCENDO DIREITO DE VOZ E VEZ

Claudia Kelly da Silva Miranda Soares - Universidade Ibirapuera
Luana Mayra Bazolli Alves - Universidade Ibirapuera

As reflexões que compõem esta comunicação fazem partem do projeto que teve início em 2004 com treze estudantes - atualmente já são 50 - de 14 a 21 anos que vivem na Vila Inglesa, comunidade que abriga uma população de baixa renda situada nas proximidades da Universidade Ibirapuera.

O projeto objetivou promover junto aos adolescentes atividades que resgatassem a cidadania, discutindo sociedade, auto-estima, inclusão e exclusão social, enfatizando as experiências vivenciadas para que cada participante identificasse os conhecimentos aprendidos e deles se utilizasse. Assim, foi possível abrir espaço para alternativas que lhes propiciem a percepção do seu lugar na sociedade, criando oportunidades de interferir e transformar o contexto em que vivem.

O trabalho nos levou a analisar os textos destes jovens e provocou desafios para o constante estudo, pesquisando teorias e adaptando-as ao desenvolvimento do ensino e da aprendizagem desta clientela.

Neste constante diálogo, buscamos contribuições teóricas e práticas de Colello (2004) que nos encaminhou a refletir sobre a leitura e a escrita compreendida como meio de inserção social e libertação do homem, compondo com Kleiman (2001) nos estudos sobre letramento aqui considerado enquanto conjunto de práticas sociais, com implicações importantes na construção e nas relações de identidade.

O processo de interlocução com estes autores e a experiência com o projeto provocou inquietações e questionamentos: como podem alunos freqüentar anos de escolaridade e não se apropriar competentemente da língua escrita? Como podemos instrumentar estes jovens a participar da sociedade contemporânea?

A sociedade em que vivemos, hoje construída com base em conhecimentos e valores cada vez mais excludentes, principalmente em relação à apropriação da língua escrita, levou-nos a buscar Bakhtin (2003) que defende o estudo da linguagem na perspectiva da enunciação que ressalta a natureza social da produção.

Encontramos em Freire (1997) importante contribuição que pautou nossos trabalhos com uma proposta educacional conscientizadora, possibilitando estabelecer a ponte entre os saberes dos adolescentes, analisando seus conhecimentos, dúvidas, questionamentos e, principalmente, respeitando a visão critica de mundo de cada um.

Fomos nos conscientizando da importância de dar voz a este grupo e parafraseando Colello (2004) buscamos na oralidade o desenvolvimento da consciência metalingüística, promovendo a aprendizagem significativa. Desenvolvemos uma série de dinâmicas baseando-nos na crença de que o uso da oralidade forma sujeitos falantes que caminharão em busca de igualdade, pensando e agindo criticamente. Pela dialogicidade, promovemos debates com temas polêmicos selecionados pelos jovens e adolescentes.

As dinâmicas utilizadas em grupo, como recurso didático, contribuíram para o aprendizado, aflorando comportamentos de liderança, evidenciando iniciativas e desenvolvendo processos de pensamento através de argumentações e justificativas coerentes. Estas dinâmicas favoreceram o auto-conhecimento, e, principalmente, o resgate da auto-estima.

Ao longo do projeto, fomos desenvolvendo uma pesquisa de cunho qualitativo em que pela linguagem, na linguagem e com a linguagem os feixes de sentidos Bakhtin (2003) foram se construindo e através do estudo das produções textuais pudemos conhecer e compreender a visão de mundo dos adolescentes, seus anseios e suas necessidades.

No processo evolutivo da escrita dos adolescentes, utilizamos a estratégia de revisão textual, refletindo com eles sobre as concepções acerca da estrutura textual, considerando aspectos relativos ao nível de informatividade Rocha (2003) do texto, à ortografia, à concordância, enfocando que o processo de reflexão acerca desses aspectos está intimamente ligado à compreensão de que se escreve para um interlocutor.

Neste sentido, além da revisão coletiva, quando um determinado texto era discutido por todos, também ocorria a interação verbal em duplas, momento em que as produções eram trocadas e havia espaço para a intervenção da escrita do outro. Posteriormente, de posse das críticas, e através da corrente da comunicação verbal Bakhtin (2003) que fornece à palavra a luz da sua significação, eram incentivados a reescrever seus textos .

“Nossa, vou mudar um monte de coisas”.

“Leia meu texto com carinho. Olha que esse texto é bem diferente do outro!”.

No decorrer do processo os adolescentes foram verbalizando suas conquistas:

“... não adianta nada, aí você chega lá e na hora da entrevista, você até sabe, mas não fala direito o que você quer falar. Agora estou expressando meu pensamento e escrevendo bem melhor”.

“É! A gente até sabe, mas enrola tudo.... Com estas coisas que estamos aprendendo eu já estou esperto... Nem mostro pro “cara” que estou nervoso. É só chegar lá e pronto”.

“Estou aprendendo muita coisa que na escola não aprendi. Adoro vir aqui”.

No decorrer dos encontros, outro recurso utilizado embasou-se nas idéias de Pennac (1993), através da leitura diária para os educandos afirmando que o distanciamento do adolescente em relação à leitura se dá quando “o livro deixa de ser vivo”, quando se passa do prazer – leitura ao pé da cama antes de dormir -, à obrigatoriedade – ficha de leitura na escola. O resgate disso não tem receita mágica, mas suas experiências concluem que é possível ler por prazer.

Mergulhamos nessa desafiadora experiência e escolhemos o livro de Agatha Christie, O caso dos dez negrinhos, por aproximar-se do perfil dos adolescentes visto que optaram pelo gênero suspense. A leitura feita em capítulos como Pennac (1993) sugere, foi desenvolvendo uma escuta cuidadosa e o resgate do prazer de ler constatado pela procura do livro na biblioteca e mesmo a busca de outras obras da autora.

Embora este projeto esteja em andamento, muitos resultados estão aflorando, pois os jovens e adolescentes procuram defender seus pontos de vista, sugerir temas, trazer novas idéias, reformular suas concepções, defender posições, argumentando e exercendo seu direito de vez e voz

O tema em foco refere-se à violência ora vivenciada, ora contatada através de diferentes meios: baseamo-nos em textos jornalísticos, crônicas, contos, entre outros.

E como produto final desta dinâmica construíram um compêndio em que todos puderam deixar seu registro e uma grande fronha onde expressaram seus sonhos, seus desejos, suas fantasias, idealizando assim, um mundo sem violência... um mundo melhor...

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, M. – Estética da criação verbal. 4ª edição, São Paulo, Martins Fontes, 2003.

CHRISTIE, Agatha. O caso dos dez negrinhos; tradução de Leonel Vallandro. São Paulo, Globo S.A., 1939.

COLELLO, Silvia Mattos Gasparian. Alfabetização em questão. 2ª edição, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2004.

FREIRE, Paulo , Pedagogia da Autonomia - Saberes necessários `a prática educativa. São Paulo, Brasil: Paz e Terra (Coleção Leitura), 1997. Edição de bolso.

FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. 22ª ed. São Paulo: Cortez, 1988.

FREITAS, M.T.A. A abordagem sócio histórica como orientadora da pesquisa qualitativa. Cadernos de pesquisas, n.116, 2002, p.20-39.

FREITAS, Maria Tereza. JOBIM e SOUZA, Solange. KRAMER, Sônia (Orgs.).São Paulo, Cortez, 2003. – (Coleção Questões de nossa época; v.107)

PENNAC, Daniel. Como um romance; tradução de Leny Werneck. Rio de Janeiro, Rocco, 1993.

ROCHA, Gladys e Val, M. da Graça Costa (org.). Reflexões sobre práticas escolares de produção de texto: o sujeito-autor. Belo Horizonte, Autèntica/ CEALE/FAE/UMG, 2003.

 
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