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  ALFABETIZAÇÃO DE ALUNOS DE CLASSES POPULARES:
UM PROJETO EM CONSTRUÇÃO


Josiane de Souza Soares – PROALFA – UERJ

(...)
Queremos um país onde não se matem crianças
Que escapem do frio, da fome, da cola de sapateiro.
Onde os filhos da margem tenham direito à terra.
Ao trabalho, ao pão, ao canto, à dança,
Às história que povoam nossa imaginação,
Às raízes de nossa alegria.
Aprendemos que a construção deste país não será obra apenas
de nossas mãos.
Nosso retrato futuro resultará da desencontrada
Multiplicação dos sonhos que desatamos.
Pedro Tierra.

Este trabalho tem como objetivo relatar a experiência de construção de um projeto voltado à promoção da leitura e escrita com jovens e crianças em situação de risco social. Esta ação é integrante do PROALFA – Programa de Alfabetização, Documentação e Informação – que, por sua vez, constitui-se como um programa de extensão da Universidade do Estado do Rio de Janeiro direcionado ao aprofundamento das discussões e práticas em alfabetização, visando à compreensão e ressignificação dos usos escolares da leitura e da escrita, de modo, a favorecer o acesso de todos a estes bens culturais.

Nessa perspectiva, o PROALFA desenvolve 5 ações, sendo estas: Projeto I – Classes de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos; Projeto II – Apoio Educacional à Enfermaria Pediátrica do Hospital Universitário Pedro Ernesto; Projeto III – Ciclo de Estudos em Alfabetização; Projeto IV – Acervo Especializado em Alfabetização Emília Ferreiro; Projeto V – Alfabetização de Alunos de Classes Populares.

O Projeto V, foco desta exposição, teve início em abril de 2004, resultante de uma parceria entre o PROALFA e a 1a Vara da Infância e Juventude da cidade do Rio de Janeiro, configurando-se enquanto parte integrante de um projeto desenvolvido pela 1a Vara intitulado Trabalhando a Cidadania. Este, por sua vez, caracterizava-se como um desdobramento de uma outra atividade, Almoçando com o Juiz, que trazia semanalmente jovens que viviam nas ruas para um almoço na cantina do Juizado, sob acompanhamento do próprio juiz e de equipe técnica fixa.

Alguns adolescentes participantes deste projeto eram integrados a estágios dentro de diferentes setores da própria instituição. Foi a partir da inserção dos jovens nestes espaços, que surgiu a necessidade da realização de uma iniciativa que buscasse a promoção da alfabetização junto a esta população. Desta forma, através da solicitação da 1ª Vara, o PROALFA deu início ao Projeto de Alfabetização de Jovens das classes populares com o objetivo de oferecer uma oportunidade educativa para jovens e adolescentes que devido à vivência nas ruas romperam o vínculo com a escola. No início o trabalho contava com a participação de três adolescentes, as aulas ocorriam no espaço da 1a Vara, duas vezes na semana com duração de duas horas. Configurando-se dessa forma até o final de 2004.

No início deste ano, porém, o projeto sofreu algumas modificações: as aulas passaram a acontecer no espaço da Universidade, através de uma parceria com o CEMASI Ayrton Senna, o público foi ampliado, passando a ser constituído por 8 (oito) alunos com idades entre 17 e 10 anos de idade, as aulas passaram a ocorrer 3 (três) vezes na semana.

Assim, desde quando iniciamos o projeto com os jovens da 1ª Vara pudemos perceber que este público com o qual estamos trabalhando vem nos impondo novos desafios. O primeiro deles é lidar com os nossos próprios medos e preconceitos. Pois os alunos que aqui se encontram têm histórias e experiências de vida que às vezes vão de encontro aos nossos valores. Sabemos que um educador deve possuir uma sensibilidade para trabalhar com a diversidade, visto que seu público é constituído por sujeitos que trazem consigo diferentes bagagens culturais, mas estes meninos trazem à tona uma realidade que conhecemos apenas pelas notícias de jornais ou pela televisão e, da qual, algumas vezes queremos nos distanciar.

Temos, então, em nossa sala de aula, meninos que ao encontrarmos nas ruas, nos causam medo, meninos que ao entrarem num ônibus pensamos na possibilidade de serem assaltantes, meninos que quando os vemos nos sinais de trânsito fechamos as janelas dos nossos carros.

É interessante notar, no entanto, que mesmo pertencendo a essa sociedade que se sente amedrontada com esse “tipo” de menino, jamais sentimos medo deles, sentimos, sim, medo da nossa incompetência em lidar com eles.

FREIRE (2001) nos fala que ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação, é ele também que nos diz que quando entro em sala de aula devo estar sendo um ser aberto à indagação, à curiosidade, às perguntas dos alunos, a suas inibições. Assim, é procurando ouvir as histórias que os estes alunos trazem, procurando saber as expectativas que tem em relação ao projeto, as idéias que tinham ou têm sobre a escola, que estamos tentando desenvolver um trabalho que seja significativo, no sentido não só de respeitar a realidade dos educandos, mas de promover um diálogo entre os conhecimentos derivados desta e os nossos.

Se até esse momento temos muitas dúvidas sobre como são estes alunos e sobre o tipo de trabalho que iremos desenvolver, ao menos de uma coisa temos certeza: eles vêm carregados de descrença não só nas suas possibilidades de aprender, mas também na própria eficácia da escola.

Todos os meninos, que participam do projeto, estão matriculados no ensino formal ou então, já tiveram um contato com a escola; neste sentido, parece-nos que o modelo de ensino, que eles buscam no projeto, é aquele com o qual tiveram contato durante a sua vivência escolar. Modelo este, que parece não está preparado para tal população, uma vez que quando consegue manter-se nele inserida é marcada pela reprovação. Por outro lado, a busca por esse modelo de ensino, poderia manifestar o desejo que essas crianças e adolescentes têm de inserir-se, de fato, no universo escolar.

O trabalho com essa população vem nos impondo sempre algumas inquietações: qual o sentido da leitura e da escrita para estes jovens? Como promover situações que favoreçam a construção do conhecimento sobre a linguagem escrita? Que caminhos trilharmos para construção de um processo de alfabetização significativos?

O cotidiano sempre nos coloca muitos impasses: se algumas vezes conseguimos realizar atividades que julgamos mais significativas, como a escrita de textos reais, leitura de histórias; vez por outra, temos a cobrança dos alunos por uma escola nos moldes daquela com a qual conviveram ou convivem: querem escrever o alfabeto, fazer cópias, continhas. Pois, acreditam que dessa forma é que se aprende. Ou, então, entendem que dominando esses mecanismos conseguirão responder as expectativas da escola.

É partir de situações como estas que viemos nos questionando sobre as representações que essa população tem da escola: Como é a escola? Para que serve a escola? O que se aprende na escola? Como se aprende na escola? Eu quero estar na escola? Por que quero estar na escola? Por que não estou na escola?

Só não nos questionamos se estas crianças e jovens deveriam ou não estar na escola, pois entendemos que a escola pode e deve ser um espaço de transformação social , um espaço de convivência , diálogo e reflexão sobre as diferenças culturais e sociais, um espaço propício para a discussão e da superação exclusão não só de bens materiais, mas também e, sobretudo, de bens culturais.

Não sabemos ainda que caminhos trilharmos para tentarmos encontrar algumas possíveis respostas, mas entendemos que as indagações são os primeiros passos.

 
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