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  HISTÓRIA DE VIDA E NARRATIVAS DE ESCOLARIZAÇÃO

Elizeu Clementino de Souza - Programa de Pós-graduação em Educação e Contemporaneidade da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e Faculdades Integradas Olga Mettig (FAMETTIG)

Busco neste trabalho refletir sobre a fertilidade das narrativas (auto) biográficas da trajetória de escolarização e suas relações com a formação inicial de professores, centrada em práticas de leitura e escrita das histórias de vida em formação. Apresento princípios que sustentam a opção pelo trabalho com a abordagem biográfica (Josso, 2002), no campo de um projeto experiencial. Procuro conceituar pesquisa narrativa, epistemologia da formação e pressupostos epistemológicos da abordagem experiencial - história de vida - frente ao papel estabelecido à formação do ponto de vista do sujeito e das implicações como dispositivo autoformação. Tenciono sistematizar os percursos do trabalho no contexto da formação docente e, por fim, os critérios utilizados para análise do corpus - narrativas - no contexto da investigação/formação.

Neste trabalho proponho refletir sobre a fertilidade das narrativas de formação e suas relações possíveis com a formação inicial, tomando como base experiências desenvolvidas num projeto específico de formação inicial de professores, no espaço do Departamento de Educação - Campus I - da Universidade do Estado da Bahia.
Em trabalho anterior (Souza, 2001) discuti e sistematizei aspectos teórico-metodológicos relacionados à origem e utilização da história de vida nas Ciências Sociais, especificamente na área educacional, partindo da caracterização da história de vida, tendo em vista a apresentação da trajetória e dos movimentos construídos, desde os anos 20, sobre a origem deste método/técnica de investigação. Também situei e referendei a opção pela abordagem qualitativa de pesquisa, por entender que as narrativas da história de vida, enquanto abordagem experiencial (Josso, 2002) permite melhor compreender a singularidade e as trajetórias de formação pessoal/profissional, como uma das possibilidades de utilização para a formação inicial de professores. E ainda porque as narrativas (auto) biográficas podem ser compreendidas como movimento de investigação/formação mediante sua utilização num projeto de formação de professores.
Neste seminário busco apresentar princípios que sustentam a opção pelo trabalho com as narrativas (auto) biográficas do itinerário escolar, no campo de um projeto experiencial, e suas implicações como dispositivo de formação e autoformação no processo de formação inicial de professores. Nesse sentido, procuro conceituar pesquisa narrativa, os percursos da construção do trabalho no contexto do estágio supervisionado e, por fim, os critérios e procedimentos adotados para análise das fontes no contexto do projeto de formação.
Por essa questão, parece-me fundamental apresentar o percurso de construção da utilização da abordagem experiencial de formação, bem como esclarecer e definir conceitos que se constituem como operativos para este trabalho, inicialmente, sobre pesquisa narrativa, com base em Benjamin (1993) e Larrosa (1994 e 1995) e, em seguida, apresentar os conceitos de “abordagem experiencial”, “experiência formadora” e “recordações-referências”, tomando como base as sistematizações construídas por Josso (1988 e 2002), no sentido de ampliar as possibilidades de trabalhar as narrativas como procedimento tanto de investigação, quanto de formação.

PESQUISA NARRATIVA: “abordagem experiencial” e formação inicial de professores.

Para Benjamin (1993) a figura do narrador vem, cada vez mais, se distanciando de nosso cotidiano, tendo isso consequências na capacidade singular de falar/escrever sobre nossas vivências e experiências cotidianas. Experiência e narração estão imbricadas, porque a primeira constitui a fonte implicada/distanciada das vivências de um verdadeiro narrador. Isto porque, “... o narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes...” (1993, p. 201). Isto implica entender a crise que se legitima à “faculdade de intercambiar experiências” (p. 198). Para Benjamin as experiências são as fontes originais de todos os narradores, as quais são construídas e socializadas no cotidiano entre as pessoas, através de aprendizagens extraídas de vivências particulares e/ou coletivas.
Emerge daí a necessidade de compreender, com base na abordagem experiencial das narrativas (auto) biográficas, o papel estabelecido à formação do ponto de vista do sujeito aprendente e “pormo-nos a ouvir qual é o lugar das histórias de vida singulares” (Josso, 2002, p. 28), mediante aprendizagens ao longo da vida através das próprias experiências individual/coletiva. Desta forma, a “aprendizagem experiencial é utilizada, evidentemente, no sentido de uma formulação teórica e/ou de uma simbolização” (idem, p. 28).
Aprendizagem experiencial e formação se integram porque estão alicerçadas numa prática, num saber-fazer pelas experiências. Tomo os conceitos de “experiência formadora ”, “aprendizagem experiencial ” e “recordações-referências ” (Josso, 2002), por entender que os mesmos ajudam-me a melhor entender as narrativas e suas implicações no processo de investigação-formação e (auto) formação. Uma vez que as narrativas assumem e desempenham uma dupla função, primeiro no contexto da investigação, configurando-se como instrumento de recolha de fontes sobre o itinerário de vida do(a) professor/professora em processo de formação inicial/continuada e, em segundo lugar, no contexto de formação de professores, constituem-se como significativo instrumento para compreensão do desenvolvimento pessoal e profissional.
No processo de escrita e leitura das narrativas dos atores sociais da pesquisa pude entender melhor, a partir do conceito de experiência formadora, o que cada um elegeu como atividade significativa de sua vida, articulando-se com experiências diversas e, surgem, efetivamente, no momento de construção da narrativa um constante embate, as vezes paradoxal entre o passado e o futuro e os questionamentos contextuais vividos no presente.
A organização e construção da narrativa de si implicam colocar o sujeito em contato com suas experiências formadoras, as quais são perspectivadas a partir daquilo que cada um viveu/vive e das simbolizações e subjetivações construídas ao longo da vida. Por isso, “... para que uma experiência seja considerada formadora, é necessário falarmos sob o ângulo da aprendizagem...” (idem, p. 34). Em tese, caberia entender os sentidos e significados que são vinculados ao processo de interiorização/exteriorização eleitos por cada um para falar de si, das suas aprendizagens, dos valores construídos e internalizados em seus contextos social e histórico, dos comportamentos, posturas, atitudes, formas de sentir e viver que caracterizam subjetividades e identidades.
Na medida em que emergiu tanto para mim, quanto para o grupo trabalhar a escrita da narrativa do itinerário escolar como possibilidade de formação, pude perceber, através das experiências desenvolvidas e articulando-as com o trabalho desenvolvido por Josso (2002), que aprender pela experiência possibilita ao sujeito, através de recordações-referências circunscritas no percurso da vida, entrar em contato com lembranças, sentimentos e subjetividades. O mergulho interior possibilita ao sujeito construir sentido para a sua narrativa, através das associações livres do processo de evocação, num plano psicossomático, com base em experiências e aprendizagens construídas ao longo da vida.
Entendo que a opção pelas narrativas (auto) biográficas do itinerário escolar – vivência escolar – do grupo pesquisado implica em tornar a própria história narrada o núcleo do estudo, o que demanda entrar em contato com diferentes memórias, representações, subjetividades e narrativas que o processo identitário comporta.
As discussões construídas sobre uma nova epistemologia da formação (Nóvoa, 1992) tematizam sobre uma teoria da formação do adulto, por este possuir uma visão retrospectiva e prospectiva de sua vida . A formação vincula-se, segundo Nóvoa (1988), ao conceito de reflexividade crítica, porque ninguém forma ninguém e também porque a “formação é inevitavelmente um trabalho reflexivo sobre os percursos de vida” (p. 116). Nesta mesma perspectiva outros autores têm trabalhado com as histórias de vida, diários biográficos, narrativas de formação e adotam, além da reflexividade, outros aspectos e questões relativas à subjetividade e à importância de se ouvir a voz do professor (Goodson, 1992 e 1994), ou compreender o sentido da investigação-formação (Josso, 1988 e 2002) numa teoria da atividade do sujeito que aprende a partir da sua própria história.
Catani et al. (1997) entendem que o trabalho com história de vida, memória e autobiografia tem contribuído na pesquisa educacional e na formação para a construção de uma “contra-memória”, através da produção de relatos autobiográficos, os quais possibilitam desconstruir imagens e representações sobre a prática docente, os fundamentos teóricos da prática e, desta forma, contrapor-se à memória oficial disseminada pelas políticas de formação e pela literatura pedagógica que vem estruturando o trabalho docente.
Desta forma, compreendo que a formação não se limita e nem se esbarra no espaço instituído e tido como legítimo para tal, seja nos curso de magistério ou nas faculdades e/ou universidades através das licenciaturas. Corroboro a idéia apresentada por Catani ao afirmar que a formação acontece no decurso da vida, vincula-se ao processo de escolarização e mesmo antes, também porque não se esgota com a conclusão de um curso, estende-se com o ingresso na profissão e prolonga-se como processo formativo ao longo da vida pessoal/profissional.
As experiências que venho desenvolvendo desde 1993, quando comecei a trabalhar com formação de professores na Universidade do Estado da Bahia, vem marcar a opção e a necessidade de aprofundamento do trabalho com a abordagem autobiográfica no processo de formação, delimitando um espaço fértil de compreensão das implicações da escrita da narrativa da vivência escolar, no que se refere às reflexões construídas sobre o itinerário escolar e a trajetória inicial de formação intelectual, como possibilidade formativa.

Percurso da construção do objeto de estudo: pensar uma outra lógica apara a formação.

Situar o percurso do trabalho com as narrativas, como uma das possibilidades formativas no estágio supervisionado, é fundamental, na medida em que procurarei apresentar, com base na abordagem experiencial, elegendo como recurso metodológico à narrativa de formação, com um grupo de alunas do Curso de Pedagogia do Departamento de Educação, Campus I, da Universidade do Estado da Bahia, analisar os possíveis movimentos da investigação/formação e do estágio supervisionado referentes à experiência formativa desenvolvida no período de março de 2001 a março de 2002.
A necessidade de buscar/pesquisar o sentido e as implicações das narrativas (auto) biográficas, a partir da abordagem experiencial que venho desenvolvendo com os alunos, potencializou-se através da compreensão do potencial formativo e do conhecimento de diferentes possibilidades de trabalhos construídos em outros espaços acadêmicos com histórias de vida em formação.
Por isso, procuro analisar implicações das narrativas (auto) biográficas no processo de formação de professores. O que ensejo no processo de investigação/formação é que os atores sociais envolvidos com o projeto de formação escrevam e reflitam sobre as narrativas (auto) biográficas do itinerário escolar, relacionando-as com o exercício docente no espaço da Prática Pedagógica, na modalidade de Estágio Supervisionado do Curso de Pedagogia do Departamento de Educação do Campus I da UNEB, da Habilitação em Séries Iniciais do Ensino Fundamental. O trabalho de pesquisa começa com o grupo de alunas matriculados no ano de 2001 na Disciplina de Prática Pedagógica II.
A operacionalização da pesquisa deu-se mediante o planejamento e construção da Memória Educativa - narrativas de formação - das alunas do 7º Semestre do referido curso (Prática Pedagógica II - março a julho de 2001), bem como a elaboração do projeto de Mini-estágio e, conseqüentemente, a ampliação do mesmo para operacionalização do Estágio Curricular para os alunos quando cursaram Prática Pedagógica III – Estágio Supervisionado - (agosto 2001 a fevereiro de 2002), no espaço da Escola Estadual Heitor Villa-Lobos. O desenvolvimento do presente estudo constitui-se da escrita da memória/vivência pessoal/escolar de 33 atores, sendo um homem e 32 (trinta e duas) mulheres em processo de formação e suas relações com as observações/intervenções construídas na prática de estágio sobre a aprendizagem do exercício docente.
Para este trabalho tomo como base de análise e interpretação das fontes – narrativas do itinerário escolar - um sub-grupo de 10 alunos, sendo um homem e 9 (nove) mulheres. A escolha das memórias educativas - itinerário escolar - do sub-grupo pesquisado resultou do exercício metodológico das leituras das narrativas de suas memórias educativas, a partir dos seguintes critérios: a escolha por parte de cada sujeito da necessidade de relatar/narrar sua singularidade; as referências sócio-culturais de formação de cada ator, no sentido de apreender as regularidades/irregularidades históricas; o aprofundamento/recensão das experiências significativas de cada período do itinerário escolar - vivência escolar - considerando a interioridade/exterioridade e a subjetividade de cada narrativa, elegi o processo de rememoração, especificamente em relação às recordações escolares, frente aos episódios do itinerário escolar, no sentido de melhor compreender as recordações referências e suas implicações na narrativa da história de vida de cada sujeito pesquisado.
Com base nestes critérios sobre as narrativas, busco, a partir da análise interpretativa de alguns excertos apreender experiências significativas do itinerário escolar e suas implicações com a formação e (auto) formação, na medida em que procurarei relacionar o estágio e as narrativas de formação, tomando os diários de aula e a observação como uma das fontes principais de análise da abordagem experiencial que venho desenvolvendo sobre a formação inicial de professores.
Descortinar contextos, histórias e memórias através das narrativas implicadas dos sujeitos em formação, frente ao projeto de uma “abordagem experiencial” (Josso, 2002) de narrativas de histórias de vida, leva-me a caminhar, no sentido de apreender marcas e implicações do itinerário escolar e suas relações com a(as) escola(as), frente ao papel exercido por esses lugares/instituições na formação dos atores da pesquisa e compreender os movimentos potencializadores da construção da identidade, saberes e constante aprendizagem do ofício docente, porque esse movimento possibilita um constante processo de investigação/formação e autoformação dos atores envolvidos.

REFERÊNCIAS


BENJAMIN, Walter – O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In.: Obras Escolhidas. Vol. I, Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1993, pp. 198/196.

CATANI, Denice Bárbara; BUENO, Belmira Oliveira; SOUZA, M. Cecília C. C. e SOUSA, Cynthia Pereira de (Org.) – Docência, memória e Gênero: estudos sobre formação. São Paulo: Escrituras Editora, 1997.

GOODSON, Ivor F. – Dar voz ao professor: as histórias de vida dos professores e o seu desenvolvimento profissional. In. NÓVOA, António (Org.) – Vida de Professores. Porto: Porto Ed., 1992, pp. 63-78.

_______________ - Studying the teacher’s life and work. Teaching and Teacher Education, 10 (1), 1994, pp. 29-37.

JOSSO, Marie-Christine – Experiências de vida e formação. Lisboa: EDUCA, 2002.

__________________ - Da formação do sujeito... ao sujeito da formação. In.: NÓVOA, António e FINGER, Mathias – O método (auto)biográfico e a formação. Lisboa: MS/DRHS/CFAP, 1988, pp. 37/50.

LARROSA, Jorge (Org.) – Déjame que te cuente: ensayos sobre narrativa y educación. Barcelona: Editorial Laertes, 1995.

____________________ - Tecnologias do eu e educação. In.: SILVA, Tomaz Tadeu (Org.). O sujeito da educação: estudos foucaultianos. Petrópolis: Vozes, 1994, pp. 35/86

NÓVOA, António – (Org.) Vida de Professores. Porto: Porto Ed., 1992.

SOUZA, Elizeu Clementino de – História de vida e prática docente: desenvolvimento pessoal e profissional. In.: Revista da FAEEBA. Salvador, n.º 16, pp. 169/178, jul./dez., 2001.

 
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