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  O CURSO DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES KADIWÉU E KINIKINAU: LIMITES E AVANÇOS DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA INTERCULTURAL

Prof. MsC. Doutorando Giovani José da Silva – UFG/ Capes

Prof. MsC. José Luiz de Souza – Escola Municipal Indígena “Ejiwajegi” – Pólo e Extensões

Ocupantes da maior área indígena do Centro-sul brasileiro, os índios Kadiwéu (autodenominação Ejiwajegi) vivem em um território com aproximadamente 538.536 ha no município de Porto Murtinho, em pleno Pantanal, Estado de Mato Grosso do Sul. De acordo com o Censo Kadiwéu , de 1998, realizado pela Prefeitura Municipal de Porto Murtinho, nessa área vivem 1.348 indígenas de três etnias: Kadiwéu, Kinikinau (autodenominação Koinukonoen) e Terena, com predominância da primeira, distribuídos em cinco aldeias: 954 índios na aldeia Bodoquena, 195 na aldeia São João, 88 na aldeia Tomázia, 74 na aldeia Campina e 37 índios na aldeia Barro Preto. Até o ano 2000, a escola oferecia apenas a primeira etapa do Ensino Fundamental. Atualmente, a população em idade escolar é atendida pela Escola Municipal Indígena “Ejiwajegi” – Pólo e pelas extensões instaladas em cada aldeia, mantidas pelo poder público municipal. A Escola – Pólo, situada na aldeia Bodoquena, e a Extensão Aquidabã, na aldeia São João, atendem crianças, adolescentes e jovens da Educação Infantil ao Ensino Médio. A Escola-Pólo e todas as extensões possuem professores indígenas nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Essa conquista só foi possível através do Curso Normal em Nível Médio, ocorrido entre os anos de 2002 e 2004.

A história do Curso Normal em Nível Médio para Formação de Professores na Reserva Indígena Kadiwéu iniciou-se através das reivindicações das próprias comunidades indígenas, desejosas de contar com profissionais índios habilitados para administrarem os trabalhos nas unidades escolares localizadas nas aldeias. Dessa forma, a Prefeitura de Porto Murtinho, através da Secretaria Municipal de Educação, Esporte e Lazer, realizou o Encontro Preparatório ao Curso de Formação de Professores do Território Indígena Kadiwéu, em julho de 2001. Desse Encontro participaram, além dos indígenas, representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai), do Conselho Estadual de Educação de Mato Grosso do Sul (CEE/ MS), da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul (SED/ MS), da Câmara de Vereadores de Porto Murtinho, do Conselho Municipal de Educação de Porto Murtinho e do Comitê de Educação Escolar Indígena de Mato Grosso do Sul (CEEI/ MS). Das discussões que se seguiram a partir do Encontro, elaboradas pela equipe de trabalho que vinha acompanhando o processo pedagógico desenvolvido em terras dos Kadiwéu desde a I Etapa de Capacitação Continuada, em 1999, e chefiada pelo professor Giovani José da Silva, é que surgiu o Projeto ora analisado. As instituições que compareceram ao referido encontro se apresentaram inicialmente como parceiras no projeto, mas abandonaram-no ao longo do tempo, exceção feita ao CEE/ MS.

Sem parceiros institucionais , tal como ocorrido em outros cursos, enfrentou-se os mesmos problemas e dificuldades, principalmente financeiras, no início e durante toda a execução do projeto. Se as dificuldades e problemas enfrentados foram semelhantes a outros cursos de formação de professores indígenas, em dois pontos o Projeto Kadiwéu e Kinikinau se diferiu. Em primeiro lugar, o Curso teve todas as etapas desenvolvidas na Escola Municipal Indígena Ejiwajegi – Pólo, na aldeia Bodoquena, a maior da Reserva, ou seja, o cotidiano da comunidade pôde ser enfatizado nas aulas, bem como as paisagens formadas pelos cursos de água, fauna e flora. Em segundo lugar, foi um Curso Normal em Nível Médio para Formação de Professores Indígenas elaborado, executado e mantido quase que exclusivamente por recursos municipais, através da Secretaria Municipal de Educação, Esporte e Lazer de Porto Murtinho — SEMEEL. A Prefeitura Municipal de Porto Murtinho investiu R$ 30.000,00 (trinta mil reais) ao longo dos 26 meses de duração do Curso. Na fase final, porém, esgotadas as possibilidades de se conseguir a captação de outros recursos municipais, recorreu-se ao Programa Fome Zero Indígena. Através de uma parceria com as Secretarias de Estado de Educação e de Trabalho, Assistência Social e Economia Solidária foram investidos pouco mais de R$ 40.000,00 (quarenta mil reais), destinados, sobretudo, ao pagamento de salários atrasados dos professores ministrantes e de passagens terrestres.

O Curso Normal em Nível Médio – Formação de Professores para Educação Infantil e Educação nos anos iniciais do Ensino Fundamental – Projeto Kadiwéu e Kinikinawa tratou-se de um Curso Normal, específico em Nível Médio, que habilitou 15 professores indígenas Kadiwéu, 02 índios Kinikinau, além de 02 Terena e 01 não-índia, para atuarem em Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental. O Conselho Municipal de Educação de Porto Murtinho autorizou o funcionamento do Curso por meio da Deliberação nº. 13/03/CME, sendo que o Reconhecimento encontra-se no momento em tramitação. Este Curso atendeu a uma única turma, composta inicialmente por 29 cursistas, tendo ocorrido as primeiras aulas em janeiro de 2002 e o término em fevereiro de 2004, na Escola Municipal Indígena “Ejiwajegi” – Pólo, aldeia Bodoquena. O Curso visou satisfazer o conjunto de necessidades específicas da formação de professores das etnias Kadiwéu e Kinikinau, a partir de uma abordagem curricular diferenciada, específica, multilíngüe e intercultural, o que atendeu aos pressupostos legais com relação à formação de profissionais de Educação Escolar Indígena. Desnecessário dizer que houve a valorização das línguas indígenas, bem como, dos costumes e tradições Kadiwéu e Kinikinau.

O Curso foi oferecido em Etapas e estruturado em áreas de conhecimento, a saber: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias (Comunicação e Expressão, Cultura Corporal do Movimento, Expressão Artística, Informática Básica, Língua Estrangeira Moderna – Espanhol, Línguas Indígenas e Literaturas, Lingüística, Literatura Comparada); Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias (Biologia e Programa de Saúde, Física, Matemática, Química); Ciências Sociais e suas Tecnologias (Antropologia Cultural, Geografia, História); e Gestão Pedagógica (Didática, História e Filosofia da Educação, Psicologia Educacional, Sociologia e Política Educacional) todas transversalizadas pelo componente Prática Curricular. As Etapas foram categorizadas em Intensivas (janeiro e julho de 2002 e 2003 e janeiro de 2004) e Intermediárias (fevereiro a junho e agosto a dezembro de 2002 e 2003), além de uma Etapa Intensiva de Recuperação, ocorrida em fevereiro de 2004. O Curso se completou em 3.320 horas, incluindo 800 horas de Prática Curricular. Nas Etapas Intensivas, os alunos participavam em conjunto de atividades desenvolvidas pelos professores do Curso e nas Etapas Intermediárias elaboravam trabalhos, individualmente ou em grupo, estagiavam em salas de aula e liam as obras indicadas, bem como realizavam experimentos e pesquisas. Foram oferecidas, inicialmente, 50 (cinqüenta) vagas para os Kadiwéu e Kinikinau e se apresentaram candidatos 22 indígenas Kadiwéu, 03 indígenas Kinikinau, 02 indígenas Terena e 02 não-indígenas (a esposa e a enteada do chefe do Posto Indígena Bodoquena, da Funai), tendo havido a desistência de 01 Kinikinau, 01 não-indígena e 05 Kadiwéu, além do falecimento de 02 cursistas Kadiwéu durante o Curso, vítimas de um acidente automobilístico, ocorrido em julho de 2003.

Quadro I – Cursistas participantes do Projeto Kadiwéu e Kinikinawa, atuantes em sala de aula em 2003/2004

Nome

Etnia

Aldeia

Séries atendidas em 2003  e 2004

Gilberto Pires

Kadiwéu

Bodoquena

3ª. série e 5ª. a 8ª. séries

Inácio Roberto

Kinikinau

São João

2ª. série e 5ª. a 8ª. séries

Juciney da Silva Rufino

Kadiwéu

Tomázia

1ª. e 2ª. séries

Jurandir Faustino Francisco

Kadiwéu

Bodoquena

5ª. a 8ª. séries

Juvenil Cruz

Kadiwéu

Bodoquena

5ª. a 8ª. séries

Laércio Barbosa Victor

Kadiwéu

Bodoquena

4ª. série e 5ª. a 8ª. séries

Martina de Almeida

Kadiwéu

Bodoquena

1ª. série

Nemias da Silva

Kadiwéu

Bodoquena

3ª. série e 5ª. a 8ª. séries

Odenil Matechua Leite

Kadiwéu

Barro Preto

1ª. a 4ª. séries multisseriado

Osmar Francisco

Kadiwéu

Bodoquena

5ª. a 8ª. séries

Rosaldo Albuquerque Souza

Kinikinau

São João

1ª. série

Solange Marques Felix

Terena

Bodoquena

Educação Infantil e 4ª. série

Valdomiro da Silva Marcelino

Kadiwéu

Tomázia

3ª. e 4ª. séries

Valmir Almeida

Kadiwéu

Bodoquena

1ª. série

Levando-se em consideração que alguns cursistas já atuavam em sala de aula, a programação do Curso considerou a experiência e as competências que todos, inclusive os que ainda não eram professores, já possuíam, propiciando durante o Curso de Formação de Professores espaços para a reflexão e a aprendizagem de novas abordagens e habilidades. Dessa forma, esperou-se que além das habilidades cognitivas adquiridas no Ensino Médio, os cursistas, ao final das Etapas, estivessem aptos a ministrar aulas na Educação Infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental e a prosseguir os estudos em Nível Superior, caso assim o desejassem. O currículo foi organizado a partir de eixos fundamentais, pensados, discutidos e elaborados pelos próprios indígenas – Ambiente, Idioma e Sociedade. Ambiente – tratou do conhecimento e compreensão das questões referentes à terra, água, flora e fauna, em seus aspectos de uso e apropriação, auto-sustentação, biodiversidade, legislação, além dos aspectos culturais e históricos e sua relação com a sobrevivência física e cultural das atuais e futuras gerações das etnias Kadiwéu e Kinikinau; Idioma – além de ser aceito como elemento de coesão étnica dos grupos, foi tratado como instrumento de produção e reprodução do conhecimento e dos valores tradicionais das sociedades Kadiwéu e Kinikinau, principalmente para a Educação das gerações mais novas, em suas representações oral e escrita, garantindo, assim, a efetivação da comunicação em todas as suas modalidades, entre seus pares e com a sociedade não-indígena; Sociedade – foi entendida como o locus no qual a cultura, perpetuamente ressignificada, é revitalizadora e dinamizadora das identidades étnicas Kadiwéu e Kinikinau. Foi o ponto de partida para o estabelecimento do processo educativo intercultural, estimulando o entendimento e o respeito entre pessoas de diferentes etnias.

Dada a sua peculiaridade, o projeto apoiou-se nos princípios metodológicos da produção e apropriação do conhecimento, da totalidade, do multilingüismo, da interculturalidade e das especificidades indígenas, que partiram dos ethos Kadiwéu e Kinikinau. Dessa forma, os objetivos gerais do Curso foram:

1. Formar professores Kadiwéu e Kinikinau em Nível Médio nas áreas de atuação em Educação nos anos iniciais do Ensino Fundamental e na Educação Infantil;

2. Proporcionar o ensino diferenciado, específico, intercultural e multilíngüe, por meio de estudos e vivências dos conhecimentos tradicionais e atuais das sociedades Kadiwéu e Kinikinau e do acesso às informações e conhecimentos universais sistematizados pela humanidade, tanto de sociedades não-índias como de outras sociedades indígenas, de forma a atender as peculiaridades da Educação Escolar Indígena nos contextos Kadiwéu e Kinikinau.

Já os objetivos específicos podem ser assim resumidos:

1. Propiciar aos indígenas a aquisição de conhecimentos básicos nas áreas da Pedagogia Escolar;

2. Fornecer aos cursistas novos instrumentos de produção de conhecimento, pelo exercício da pesquisa, da experimentação, da leitura e da sistematização e pelo manejo de novas tecnologias;

3. Instrumentalizar os professores Kadiwéu e Kinikinau para elaborarem, executarem, avaliarem e revisarem projetos político-pedagógicos das escolas onde estão inseridos, de acordo com as tradições de suas comunidades;

4. Dar continuidade ao processo de preparação dos cursistas Kadiwéu e Kinikinau para a vida comunitária, incluindo as habilidades necessárias para enfrentarem criticamente as situações provocadas pelo contato com a sociedade não-índia, tendo em vista o direito à autonomia sócio-econômica e cultural;

5. Estimular e valorizar, através do processo escolar, as tradições, crenças, modos de ser e de viver dos Kadiwéu e Kinikinau, que são a base da sua educação, com vistas ao fortalecimento das identidades étnicas dos referidos povos;

6. Suprir a demanda de professores Kadiwéu e Kinikinau habilitados, para atenderem as escolas de suas comunidades;

7. Produzir materiais didático-pedagógicos e literários específicos para os contextos Kadiwéu e Kinikinau.

Os professores-ministrantes do Curso já possuíam certa experiência com as etnias Kadiwéu e Kinikinau, pois eram praticamente os mesmos que entre 1999 e 2000 haviam se responsabilizado pelas capacitações continuadas dos professores indígenas em exercício da função docente (Quadro II). Os maiores problemas enfrentados por esses ministrantes estiveram relacionados à questão do uso da língua indígena para a instrução e não somente como um componente curricular, tendo em vista serem todos não-índios e a maioria da clientela falante de pelo menos uma língua indígena (Kadiwéu, Kinikinau ou Terena). A definição de um sistema de conceitos (Ótimo, Bom, Regular e Insuficiente), pensado pelos próprios indígenas (a partir dos conceitos Ele, Bom e Agele, o que ainda não está Bom, em língua Kadiwéu), inicialmente gerou problemas aos ministrantes, acostumados a quantificar em números e notas o desempenho de seus alunos nas cidades. O quadro de professores-ministrantes do Curso não contou com a presença daqueles profissionais “especialistas” nas questões educacionais indígenas, ou seja, não havia doutores, apesar dos convites efetuados a uma profissional da área de Lingüística com tal título e que já havia realizado pesquisas na área indígena dos Kadiwéu, mas o convite foi sequer respondido. No entanto, os profissionais que participaram já possuíam experiências anteriores com as sociedades indígenas (Kadiwéu e Kinikinau) desde 1999, quando foram iniciadas as Etapas do Curso de Capacitação Continuada de Professores da Área Indígena de Porto Murtinho. Dessa forma, no quadro de professores ministrantes não havia um lingüista com experiência nos idiomas Kadiwéu (família lingüística Guaikuru) e Kinikinau (família lingüística Aruak).

Quadro II – Corpo Docente do Curso Normal em Nível Médio – Projeto Kadiwéu e Kinikinawa

Nome

Etnia

Aldeia

Séries atendidas em 2003  e 2004

Gilberto Pires

Kadiwéu

Bodoquena

3ª. série e 5ª. a 8ª. séries

Inácio Roberto

Kinikinau

São João

2ª. série e 5ª. a 8ª. séries

Juciney da Silva Rufino

Kadiwéu

Tomázia

1ª. e 2ª. séries

Jurandir Faustino Francisco

Kadiwéu

Bodoquena

5ª. a 8ª. séries

Juvenil Cruz

Kadiwéu

Bodoquena

5ª. a 8ª. séries

Laércio Barbosa Victor

Kadiwéu

Bodoquena

4ª. série e 5ª. a 8ª. séries

Martina de Almeida

Kadiwéu

Bodoquena

1ª. série

Nemias da Silva

Kadiwéu

Bodoquena

3ª. série e 5ª. a 8ª. séries

Odenil Matechua Leite

Kadiwéu

Barro Preto

1ª. a 4ª. séries multisseriado

Osmar Francisco

Kadiwéu

Bodoquena

5ª. a 8ª. séries

Rosaldo Albuquerque Souza

Kinikinau

São João

1ª. série

Solange Marques Felix

Terena

Bodoquena

Educação Infantil e 4ª. série

Valdomiro da Silva Marcelino

Kadiwéu

Tomázia

3ª. e 4ª. séries

Valmir Almeida

Kadiwéu

Bodoquena

1ª. série

Ainda assim, foi possível elaborar um livro de textos, escrito e ilustrado por todos os cursistas, independentemente da etnia. Os recursos do Projeto Construindo com as próprias mãos: o ensino de Artes, Geografia e História na escola Kadiwéu, vencedor do 1º. lugar no II Prêmio Mostra PUC- Rio em 2002 permitiu a elaboração de tal obra. Não obstante, os recursos insuficientes, bem como a ausência de parceiros comprometidos com a Educação Escolar Indígena, foram obstáculos à impressão e à publicação. Outro material produzido no âmbito do Curso Normal em Nível Médio que merece ser citado foi a Cartilha EELE WE GODEWIGA GODIGELATEDI (Viver nas aldeias com saúde), que traz como conteúdo informações sobre as DST e AIDS. Tal obra também foi fruto de recursos advindos de projeto, neste caso, o projeto Viver nas aldeias com saúde: conhecer e prevenir Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e AIDS vencedor na 1ª. colocação da categoria Teologia e Ciências Humanas no III Prêmio Mostra PUC-Rio, em 2003. Tal como acontecera com o livro foi possível a elaboração da cartilha, mas, até o momento, não se realizou a impressão e a publicação do material.

O Curso Normal em Nível Médio apresentou limites, como qualquer outro curso de formação de professores indígenas. Um deles é no que tange à compreensão dos conceitos de cada área de conhecimento e à formação pedagógica dos cursistas. A carga horária total não permitiu que se atendesse às necessidades de conteúdo e, ao mesmo tempo, se municiasse o professor indígena com práticas pedagógicas. A carga horária das Etapas Intensivas, por exemplo, foi considerada exaustiva, cerca de dez horas por dia, de segunda a sábado. A presença de indígenas Terena e de não-índios, como alunos, trouxe contribuições e, ao mesmo tempo, problemas durante o Curso. As contribuições foram, sobretudo, no aspecto da diversidade, da troca de experiências e da solidariedade que se manifestou por diversas vezes entre os cursistas. Os problemas ocorreram em função de o Curso não ter sido pensado para outras etnias, além da Kadiwéu e Kinikinau e sequer para não-índios, que tiveram que se adaptar às peculiaridades, especialmente as lingüísticas.

Não se pode também ignorar o fato de que o Curso Normal em Nível Médio teve seu término antecipado. Previsto para se encerrar em setembro de 2004, vários motivos estabeleceram a finalização para fevereiro, sem prejuízo da carga horária total. A falta de recursos financeiros e o contexto do pleito eleitoral foram alguns desses motivos. Como o curso foi projetado com horas além das estabelecidas por lei foi possível, então, a sua redução, mantendo-se um período de recuperação. Em fevereiro de 2004 o Curso Normal em Nível Médio – Formação de Professores para Educação Infantil e Educação nos anos iniciais do Ensino Fundamental – Projeto Kadiwéu e Kinikinawa foi encerrado com a formatura de 20 (vinte) dos 29 (vinte e nove) alunos que iniciaram o Curso, em janeiro de 2002. Os alunos formados foram, em grande parte, inseridos no quadro funcional da Escola Municipal Indígena “Ejiwajegi” – Pólo e Extensões e aguardam a realização de concurso público específico pela Prefeitura Municipal de Porto Murtinho. A partir de maio de 2004, por solicitação da comunidade da aldeia Bodoquena, foi instalada uma sala-extensão da Escola Estadual “João Pedro Pedrossian”, localizada na área urbana do município de Bodoquena. Contando com 14 (catorze) alunos matriculados, as aulas da 1ª. série do Ensino Médio ocorreram nas dependências da Escola-Pólo e foram ministradas por 03 (três) professores não-índios que se deslocavam semanalmente para a aldeia. Atualmente, em 2005, três professores não-índios (Constance Maria Lago Santana dos Santos, Giani Ramona da Silva e José Luiz de Souza) lecionam no Ensino Fundamental e nas duas primeiras séries do Ensino Médio Intercultural.

Para um grupo especial de formandos, o Curso foi mais do que receber um diploma e estar habilitado a lecionar na Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental: os Kinikinau. Essa etnia foi dada como extinta por antropólogos, entre 1950 e 1960. Conhecidos, a partir de então como índios “ressurgidos” ou “emergentes”, esse povo indígena rejeita esses rótulos e têm buscado, através de lideranças e de professores da própria comunidade, mover-se em espaços que lhes garantam visibilidade e reconhecimento que vão além de uma mera questão de identificação, pois visam também a reconquista de parte do território tradicional do grupo. Os Kinikinau contrariaram as expectativas da iminência de desaparição, utilizando-se da Educação Escolar, dentre outros espaços, como locus de reelaboração, afirmação e legitimação da identidade étnica. Assim, o Curso de Formação de Professores Kadiwéu e Kinikinau constituiu-se um verdadeiro espaço de fronteiras, quer simbólicas e/ ou identitárias. Seja nas aulas de Antropologia Cultural, História ou Geografia, os Kinikinau, mais do que os próprios Kadiwéu, demonstraram o desejo de conhecer, debater e compreender questões relacionadas à etnicidade, à identidade étnica e ao território.

A formatura foi classificada pelo índio Kadiwéu Hilário da Silva, como um momento muito importante para seu povo, em que se mostrou o melhor das duas culturas, a indígena e a não-indígena. Sua fala, durante a cerimônia, ressaltou a elegância dos formandos que tinham os rostos decorados com as famosas pinturas faciais, próprias dos Kadiwéu, exclusivas em rituais. Além disso, a festa foi registrada pela Revista Nova Escola, publicada pela Fundação Victor Civita (Grupo Abril). Na reportagem sobre a festa de formatura, Roberta Bencini, enviada especial para o evento, enfatizou a importância do fato de a comunidade indígena Kadiwéu possuir professores indígenas formados e destacou a presença de professores Kinikinau entre os formandos . Pensa-se, hoje, que com cursos como o concluído, a escola indígena ganha mais autonomia, embora deva existir mais investimento aos estudos pedagógicos por parte dos professores indígenas, já que a imagem que se concebe de um professor, seja ele indígena ou não, é a de pesquisador, que busca em sua comunidade, rica em tradições e cosmologia, os subsídios para aulas que tragam a vivência da comunidade indígena para a escola e somente assim através de uma via que não caminhe pela unilateralidade, permita que o aluno possa se sentir mais próximo do conhecimento e o conhecimento adquirido se aproxime cada vez mais dos ethos Kadiwéu e Kinikinau. Esses índios viveram uma longa história de violência no âmbito escolar. Romper com essa história e encontrar um jeito diferente de fazer Educação em busca da autonomia tão desejada são os desafios que os aguardam.

Bibliografia

BENCINI, R. Escola de índio, professor índio. Finalmente! Nova escola, São Paulo, n. 171, p. 50-53, abr. 2004.

JOSÉ DA SILVA, G. et al. Viver nas aldeias com saúde: conhecer e prevenir DST e AIDS. 2004. (Mimeografado).

JOSÉ DA SILVA, G. et al. Conhecer e prevenir DST e a AIDS: o projeto Viver nas aldeias com saúde entre os índios Kadiwéu e Kinikinau, de Mato Grosso do Sul. In: 8o. EDUCAIDS Encontro Nacional de Educadores na Prevenção das DSTs, AIDS e Drogas, 2004, Guarulhos. Anais do 8o. EDUCAIDS. 2004.

JOSÉ DA SILVA, G.; SOUZA, José Luiz de.; PIRES, Vânia Perrotti da Costa. Construindo com as próprias mãos: o ensino de artes, geografia e história na escola Kadiwéu. 2003. (Mimeografado).

JOSÉ DA SILVA, Giovani, SOUZA, José Luiz de. O despertar da fênix: a educação escolar como espaço de afirmação da identidade étnica Kinikinau, em Mato Grosso do Sul. Sociedade e cultura, Goiânia, v. 06, n. 02, p. 149-156, 2005.

PREFEITURA DE PORTO MURTINHO. Curso Normal em Nível Médio – Formação de Professores para a Educação Infantil e Educação nos anos iniciais do Ensino Fundamental – Projeto Kadiwéu e Kinikinawa. Porto Murtinho: Secretaria Municipal de Educação, Esporte e Lazer, 2001. (Mimeografado).

REVISTA NOVA ESCOLA. São Paulo: Abril. Disponível em: www.novaescola.abril.com.br/ed/171abr04html/repcapa_entrevista.htm Acesso em: 17maio2004.

 
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