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  A FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES: UM DESAFIO REFLETIDO NA AUTO – OBSERVAÇÃO

Sonia Fátima Leal de Souza. Escola da Rede Municipal de Educação de Três Lagoas – MS.

O presente artigo relata a experiência com a formação em serviço que vem sendo desenvolvida, desde o ano 2.000, junto aos professores de uma escola da Rede Municipal de Educação de Três Lagoas - MS, na qual atuo na função de supervisora escolar. Neste trabalho, em cujo processo tenho registrado paulatinamente, busco refletir os avanços obtidos com os docentes em sua prática pedagógica uma vez que, desde o momento em que desencadeamos a reflexão das ações buscamos a transformação no seio da escola em que atuamos.
Essa experiência encontra-se sustentada nas orientações teóricas de Telma Weisz, por meio do PROFA – Programa de Formação de Professores Alfabetizadores, seguindo a linha construtivista. A abordagem surgiu em decorrência do final do regime militar, onde os educadores do país se mobilizaram em busca de uma educação transformadora, social, econômica e política.
Em meados dos anos 80, a pesquisa sobre a psicogênese da língua escrita chegou ao Brasil e emergiram vários interesses dos educadores sobre a psicologia genética, que visa à compreensão dos processos de desenvolvimento na construção do conhecimento.
Reconhecemos a importância da participação do aluno na construção dos seus saberes e na intervenção do professor para a aprendizagem, pois no entendimento que o aluno possa ser sujeito de seus conhecimentos, o professor também se lança como sujeito do conhecimento do aluno em um complexo contextualizado e coletivo. É esta, portanto, a linha de trabalho desenvolvido em uma escola da Rede Municipal de Educação de Três Lagoas/MS.
A referida escola encontra-se numa região periférica e possui características comuns às demais escolas públicas espalhadas pelo país. Há muitos problemas de ordem social que refletem na aprendizagem dos alunos: pais separados, com famílias desestruturadas, situação econômica, abaixo da linha da pobreza, muitos aviltados da sociedade, desemprego ou subemprego dos componentes familiares, numerosos membros na família e uma grande gama de analfabetos funcionais. Há também uma miscigenação diversificada de religiões, valores éticos e políticos. Esta realidade não muda os direcionamentos de uma educação popular para todos, sustentada na pedagogia da autonomia, da esperança, tanto defendida pelo imortal Paulo Freire.
A Pedagogia da Autonomia está fundada no respeito à dignidade humana, na própria autonomia dos alunos e na ética. A amorosidade entre o educador e aluno, a convivência pautada pela curiosidade e a postura sócio-histórica-cultural demanda os princípios para o respeito à dignidade humana, pois como diz Paulo Freire: “O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros.” (FREIRE, 2004, p.59). A melhor maneira, pois, de defender alguém, de transformar e por ela lutar é convivendo com ela, testemunhar a sua vivência, a sua exclusão, assumindo a responsabilidade, a obrigação de libertá-los da opressão, da ignorância e da submissão.
Só oferecemos uma educação autônoma aos nossos alunos por meio de uma prática inerente à busca, indagação, pesquisa e em sua formação permanente. Assumir-se como pesquisador, exigindo a construção do respeito aos saberes dos alunos, com criticidade, exemplos, aceitação, amorosidade, inclusão, reflexão crítica sobre a ação, reconhecimento da identidade cultural, senso crítico e bom senso, ética, humildade, alegria, esperança, curiosidade, análise e intervenção adequada, competência profissional, comprometimento, liberdade e autoridade, tomada de decisão e ação política e ideológica, com a visão de que o aluno está sendo formado para viver em uma determinada sociedade. Essas atitudes construídas com os alunos oportunizam a enfrentar a sociedade plural.
As análises críticas que fazemos em nossas salas de aula oferecem subsídios para os alunos interpretarem as mazelas da sociedade? Este questionamento nos remete a agir com prática reflexiva e reflexão sobre a prática. Acreditamos que com atitudes e atos políticos, a escola poderá reverter esta sociedade classista e de exclusão social, em uma escola inclusiva que respeita a diversidade e oportuniza o conhecimento a todos, respeitando suas possibilidades, limites e pré-requisitos da realidade e atuam com a filosofia da escola. Queremos uma sociedade transformadora, igual e justa para todos.
Visando essa sociedade, surgiu o presente projeto, tendo como tônica a preocupação do desenvolvimento da competência dos educadores e conseqüentemente, a melhoria da qualidade do ensino e aprendizagem, pois consideramos que a qualidade de uma escola está na aprendizagem e sucesso alcançado por seus alunos.
Somos sabedores de que a formação inicial de professores não é suficiente para sustentar práticas pedagógicas qualitativas na escola; os professores com os quais atuo encontravam-se pouco instrumentalizados - sem o hábito de leituras, sem experiências de escrita; as ações desenvolvidas consistiam em atividades rotineiras e tradicionais, faziam pouca ou nenhuma leitura, além do planejamento da aula, nada escreviam e os resultados obtidos em sala de aula encontravam-se aquém dos pretendidos, dificultando a propagação de boas práticas entre seus alunos. Práticas estas que mister se faz ressaltar tão importantes na construção do saber.
Contudo, os referidos professores apresentavam grandes insatisfações a respeito da situação com que se deparavam; encontravam-se sem parâmetros, mas aspiravam por melhoras. Devo mencionar que esse foi o ápice que me impulsionou em busca de caminhos alternativos, a fim de propiciar-lhes meios para aquisição do conhecimento e romper com essa situação incômoda, infrutífera. O caminho, certamente, seria oportunizar aos educadores momentos de crescimento profissional, considerando a necessidade de minimizar as deficiências no processo de ensino e aprendizagem.
Estabelecemos, então como um caminho essencial a seguir, a possibilidade de oferecer aos professores encontros e discussões a respeito das ações pedagógicas, nas quais todos pudessem participar. Num clima de comprometimento, segurança, respeito e responsabilidade é que iniciei as primeiras ações alicerçadas na tematização da prática, prática reflexiva e auto-observação.
Assim, conduzidos pelo desejo de mudança e posteriormente, pela aplicabilidade do PROFA- Programa de Formação de Professores Alfabetizadores e sua dinâmica construtivista em sala de aula, fomos perseguindo o domínio da competência, que cada dia mais, emergiam em busca de novos conhecimentos. Foi pautada na auto-observação, delineando-se, dessa forma, os objetivos a serem alcançados por estes estudos, sem se esquecer do desejo de promover as transformações culturais, pessoais, profissionais e sociais dos educadores envolvidos que trabalhamos a formação em serviço.
Entendemos que se a escola quiser que o professor trabalhe numa abordagem construtivista, capaz de promover em seus alunos hábitos de análise, reflexão e criticidade de seus pensamentos, de expressar suas idéias e fazê-los pensar, é imprescindível que a capacitação continuada de seus professores tenha estas características. Introduzir novas formas de fazer modifica, certamente, a maneira como se pensa, por isso é necessário que o caminho percorrido seja o da reflexão em cada atividade que se pretenda realizar. Com o pensamento voltado ao aperfeiçoamento profissional dos educadores, preconizamos, inicialmente, a elaboração de um memorial de cada componente do grupo de estudo, objetivando conhecer a história de sua alfabetização e suas aspirações.
Utilizando as reflexões oriundas desse memorial, bem como leituras relativas à formação continuada, promovemos discussões e entendemos, naquele momento, que a capacitação consiste num projeto particular e pessoal, um encontro consigo mesmo, um olhar para o seu próprio interior, fazendo aflorar o interesse, a vontade e a necessidade de se auto-desenvolver, se auto-observar para se auto-conhecer, conforme diz Macedo: “Estamos voltados ‘para fora’. Buscamos externamente boas respostas ou boas formas de ensinar melhor. A prática reflexiva supõe voltar ‘para dentro’ de si mesmo ou do sistema do qual somos parte”. (2003, p.92).
Este foi o ponto de partida significativo para o grupo, pois contrariando os modelos de formação baseados no paradigma tradicional de informar teorias e depois colocá-las em prática, fizemos suscitar sua identidade histórica de dentro para fora, praticando a reflexão na ação. Essa idéia fica acentuada com Pimenta, quando afirma: “O [...] profissional não pode constituir seu saber-fazer, senão a partir de seu próprio fazer. Não é senão sobre essa base que o saber, enquanto elaboração teórica, se constitui”. (1999, p.26).
A teoria não é concebida pelos professores de forma superficial ou passiva, não se consegue conhecer a teoria apenas no senso comum, modismos ou até mesmo contemplando-a. É importante que o professor pesquise, conheça, leia, instrumentalize-se no conhecimento sobre a teoria pois, as teorias educacionais são reflexos de pesquisas, bem como de experimentações. Exige-se que o objeto em estudo seja tomado pelo sujeito e vivido por ele. É conhecendo o fenômeno que poderemos transitar entre teoria e prática, atingindo o encontro de duas vertentes, cuja especificidade é a de que a teoria deve ser suficiente à pratica, se não for, deve-se aprofundar na ação na experiência e cobrir as lacunas que a teoria deixar, uma vem ao encontro da outra, cuja solução para algum desencontro é ir além, transpor as ações à luz das teorias.
Não negamos em hipótese nenhuma a teoria, ela tem seu valor junto à prática. Segundo Libâneo:

As investigações recentes sobre formação de professores apontam como questão essencial o fato de que os professores desempenham uma atividade teórico-prática. É difícil pensar na possibilidade de educar fora de uma situação concreta e de uma realidade definida. A profissão de professor precisa combinar sistematicamente elementos teóricos com situações prática reais [...].(l999, p.267).

O conhecimento do professor que reflete sobre sua prática, não é formado tão-somente na experiência concreta, restrita à sala de aula, mas é nutrido pela ciência objetiva das teorias educacionais, pois são estas que dotam os sujeitos de ponto-de-vista variados, em uma ação contextualizada, oportunizando-lhes desvendarem os problemas internos e externos à sua ação, tais como: contextos históricos, culturais, econômicos e sociais da sociedade, da escola e de si próprio, para que dessa forma possam atuar, intervir e transformar-se.
É salutar para a escola o entendimento de que a formação continuada em serviço ocorra em comunidade coletiva, a reflexão deve, pois, focalizar além de ações pedagógicas, as condições sociais em que sua ação ocorre. É imprescindível que os professores reconheçam que seus atos são fundamentalmente políticos, portanto, devem carregar traços democráticos, críticos e emancipatórios. É nesta abordagem política e historicamente cultural que a capacitação ocorre, delineando o papel da escola, com a visão de qual sociedade queremos, se pretendemos, então formar nossos alunos com criticidade, numa filosofia de transformação social, preparando-os para viver numa sociedade plural, heterogênea, cheia de conflitos de desigualdade e de exclusão ou se negamos esta finalidade da escola. São com estes princípios que queremos os educadores refletindo sobre as condições concretas do sistema educativo.
Esta análise assinala que o professor produz conhecimento a partir da sua prática, desde que faça reflexão intencional sobre ela, problematize com a comunidade escolar os resultados obtidos, sustentada na teoria e, portanto, como pesquisador de sua prática.
Considerando estes princípios teoricamente apreendidos por todos nós, traçamos algumas etapas para a implementação imediata dos estudos. Para isso, contamos com diversos parceiros: recebemos apoio da UFMS - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, da Semed (Secretaria Municipal de Educação); estabelecemos parcerias com diversos profissionais de área específica, em muitos momentos necessários dos estudos em pauta, firmamos compromissos com profissionais, como psicóloga e assistente social para atuação no campo de limites, indisciplina e auto-estima tanto com profissionais como de alunos.
Ações abordadas com essas parcerias vieram ao encontro dos nossos anseios. Profissionais de diversas áreas contribuíram nesses estudos reflexivos, com oficinas e seminários abordando diversos temas, tais como: a importância dos gêneros textuais para a escrita, com isso foi desenvolvido o rigor da escrita em diversos tipos de textos, bem como a coerência e coesão, além dos aspectos gramaticais, desvios existentes na escrita, recursos lingüísticos e relação de sentido entre as palavras; a área de Artes também foi contemplada, pos consideramos importante o entendimento das diversas linguagens. Temos conhecimento que é imprescindível um projeto comum na Instituição, pois vivemos numa sociedade plural dentro da escola, desta forma, comungamos com o apoio de uma Assistente social que orientou pais, alunos e professores com assuntos ligados à educação: A Família na Escola, Educação dos Filhos, Escola e Comunidade - um espaço de todos, de forma contextualizada, discutida e refletida na ação. Na alfabetização, traçamos um roteiro de estudos para realizar a tematização da prática, com uma professora de 1ª série da escola; a mesma desenvolveu uma aula prática e realizou atividades de textos, interpretação, reescrita, revisão e trabalhou o enfoque no sistema de ler e escrever juntamente com as demais professoras. A seguir realizamos a reflexão sobre a prática, isto veio sustentar a prática pedagógica em destaque.
É neste prisma que apresentamos a prática reflexiva fundamentada pela teoria construtivista juntamente com todas as adversidades existentes no contexto escolar que estamos intervindo e transformando a cada dia o fazer político pedagógico da escola.
É importante salientar que a educação se faz, se constrói em parcerias e na construção de um projeto interdisciplinar a partir da consolidação de idéias que envolvam todo segmento social e escolar. Mister se faz relatar que os funcionários, a direção, os pais, professores e alunos são atores e protagonistas que envolvem todos os estudos reflexivos.
Projeto interdisciplinar para nós, que é muito importante citar são ações fundamentadas em um pensar “inter” é uma questão de atitude, pois a nossa dificuldade em assumir uma postura interdisciplinar é notória, pois fomos educados a pensar e conviver numa escola compartimentalizada na era tecnicista.
Ao ocorrer as ações, através de uma união de forças, pensamentos voltados ao espírito de inovação, uma vontade intensa de tornar a escola ativa, viva e dialógica, os professores e direção comprometidos com uma educação crítica, iniciou na visão da comunidade, o senso de participar, de se fazer presente, de se integrar, com isto a escola ganhou vida, alegria, implantação de uma arrojada banda musical, projeto de poesias, danças, teatro, musicalidade, projetos de literatura-infantil: vivendo com Monteiro Lobato, Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, Branca de Neve, até projetos do memorial da cidade, visita a monumentos históricos, projetos artísticos e palestras envolvendo a comunidade externa, a família participando, opinando e vivenciando os momentos históricos do bairro dentro da escola. Estes projetos nos permitiram visualizar uma educação em sua totalidade, foi a ousadia da Gestão escolar demonstrada como uma nova forma de pensar a educação.

A Metodologia Interdisciplinar supõe (re) invenção de caminhos. Cada investigador cria um tipo, um qualitativo de trabalho que deve ser único, respondendo à estratégia de conhecimento que pretende obter. A grande vantagem da postura interdisciplinar é poder trabalhar com a diversidade, especialmente no campo educacional (mais especificamente, na formação de professores). (MELLO, 2004 p.27).

Este entrosamento, esta atitude particular, contudo, comunitária, conjugada com APM-Associação de Pais e Mestres, Conselho Gestor e todos segmentos da escola consiste no trajeto de nossa vivência histórica como “seres interdisciplinares”. Este clima familiar, envolvendo pessoas, diversidade de pensamentos, valores e saberes complexos nos aproximou da apropriação do conhecimento.
Entretanto, foi preciso fundamentar a tomada de atitude, a coragem de mudar, de romper com a tradição objetiva, da reprodução para transformar o ato pedagógico de forma significativa, preparando o aluno para enfrentar as desigualdades e dificuldades da vida social. Somos este ato interdisciplinar. Segundo Ivani Fazenda:

É necessário despojar-se de preconceitos,questionar os valores arraigados no consciente, e transcender à busca do ser maior que está dentro de nós mesmos. É sentir-se livre para poder falar e, principalmente, ouvir. Ouvir você e o outro. È assim que concebo o ato de educar. É assim que entendo o educador interdisciplinar. Fazenda (1979, p.63).

Tais ações permeadas pela participação coletiva requer uma intencionalidade política, uma visão manifestada na dialética da sala de aula por meio de trabalhos solidários, sob as mais adversas influências, porém despojadas e estimulantes, valorizando a capacidade plural de olhar o fazer cotidiano das ações políticas e pedagógicas, nos quais debruçamo-nos na qualificação de todos envolvidos no processo de ensino aprendizagem.
Após o primeiro passo, que foi a análise conjunta dos memoriais, os quais consistiam de identidades do pessoal, sua origem, sua formação inicial, como foram alfabetizados, os marcos que ficaram e os que não foram resultantes de uma boa lembrança, fomos delineando as próximas etapas. A seguir realizamos reuniões para desenvolver seminários, envolvendo leituras com uma diversidade de temas, que subjazem teoria e prática educacional. Associamos aos estudos reflexivos sessões de vídeos estimulantes às discussões tais como: Avaliação, História da Educação, Paulo Freire, Emília Ferreira, Corrente do Bem, Nenhum a Menos, até a idéia de tematizar a prática utilizando gravação em vídeo, da ação em sala de aula, com um professor da escola. Surgiu o plano de gravarmos minha própria ação, enquanto supervisora escolar. Ser objeto de análise e reflexão veio suscitar maior aceitação e tranqüilidade no grupo, pois pudemos realizar, após, outras gravações com demais professores.
Já implementadas estas etapas, discutimos e reformulamos no grupo a Proposta Pedagógica da Escola, marcando o pensamento desejado por todos nós e produzimos com autonomia a filosofia política da escola. Naquele momento, tal decisão coletiva foi de trabalhar o pedagógico em busca de uma escola inclusiva, democrática e, utilizando uma pedagogia construtivista. Isto implicaria numa série de práticas emancipadoras, como o real sentido da avaliação.
Na visão construtivista, avaliar não significa deixar o aluno jogado à própria sorte, com o modismo que não pode corrigir, ou mesmo ensinar. É importante destacar a figura do educador pela ótica do observador, e da avaliação para replanejar em função das não aprendizagens. Diagnosticar o aluno com escritas espontâneas para conhecer o nível de escrita dele, é uma forma riquíssima de avaliar, para planejar intervenções adequadas ao nível e possibilidades dos alunos. Comumente unem-se duplas de alunos com níveis de escrita próximos uns dos outros, para que eles possam avançar de forma coletiva.
É importante relatar, que na escola inclusiva, o professor avalia todas as possibilidades dos alunos, para propiciar meios de fazê-los receber ajuda pedagógica, possibilitando, superar suas dificuldades de aprendizagem.
A avaliação é realizada também sobre o trabalho do professor, e se necessário for, a Escola oferece subsídios pedagógicos a ele, objetivando a superação da não aprendizagem e evitando o fracasso escolar. Contudo, veio somar com a nossa trajetória construída em alicerces que envolveram idéias comuns, coletivos e permeados pela construção do saber de todos que perfazem o cotidiano escolar. Segundo Contreras, a reflexividade emancipatória perpassa por quatro fases de reflexão.(l997) Esta foi uma ação que trouxemos para direcionar nossos estudos reflexivos. São elas:
Descrever: O que estou fazendo
Informar: Que significado tem o que faço?
Confrontar: Como cheguei a ser ou agir desta maneira?
Reconstruir: Como poderia fazer as coisas de um modo diferente?
Essas fases foram um suporte para a autonomia política intelectual dos professores. Com a tematização da prática, a reflexão não se limita apenas às ações da sala de aula, é sim há um olhar investigativo desde o planejamento, objetivos e intervenções da atividade proposta, enfim o que consta no viés político da manifestação dialética da ação na atividade em aula.
Na fase descrever, o que o professor está fazendo é o traço objetivo do que ele quer efetivamente do seu aluno; é descrever a sua atuação e o retorno que seu aluno produzirá. Como ele será capaz de entender, interpretar e aplicar este conhecimento construído.
A reflexão desencadeia o Informar. Que significado tem o que faço? O que os alunos estão aprendendo com esta intervenção, com esta atividade? São requisitos para o planejamento da aula. Estas discussões nos grupos são riquíssimas, pois permitem o olhar crítico de todos os componentes do grupo.
A fase confrontar Como cheguei a ser ou agir desta maneira? Requer uma volta ao passado às discussões do registro memorial, pois o saber que carregamos é historicamente construído.
Alguns relatos contidos no memorial:
“Eu era uma criança muito danada, não deixava ninguém quieto, no segundo dia de aula minha professora N. estava carimbando nos cadernos a “abelha” representando a vogal a, eu passei a mão no caderno do meu colega e manchou, a professora se levantou e rasgou minha orelha, onde sangrou muito”.
Outra colega de trabalho; relatou:
“A matéria que eu menos gostava era matemática, porque parecia que eu era a mais forçada a aprender e não tinha para mim, o atrativo esperado...”
É importante destacar que o memorial nos forneceu parâmetros para conhecer a reflexão que os professores fizeram de sua identidade histórica. A professora X mencionou:
“Nesta viagem no tempo, relembrar professor, escolas, amigos, dificuldades, método de ensino, nos faz avaliar o que somos hoje. Será que nós educadores mudamos a maneira de ensinar?
É com este pensamento voltado para a reflexão que consideramos que a formação continuada é um investimento pessoal em prol da qualidade de ensino e melhoria do processo de ensino e aprendizagem.

A formação deve estimular uma perspectiva crítico-reflexiva que forneça aos professores os meios de um pensamento autônomo e que facilite as dinâmicas de auto-formação implica um investimento pessoal, um trabalho livre e criativo sobre os percursos e os projetos próprios, com vista à construção de uma identidade, que é também uma identidade profissional. (NÓVOA, 1992 p.25)

É considerando a construção de uma identidade, que valorizamos os relatos do memorial, pois voltando-se às origens, é mais produtivo entender e traçar a identidade profissional. Nesta reflexão, há a contribuição de todos, pois é imprescindível que discutamos momentos históricos, culturais e políticos que fomos alfabetizados, estas são marcas que carregamos e precisamos ter consciência delas, para poder superá-las.
A fase reconstruir nessa perspectiva é vivenciar como poderia fazer as coisas de um modo diferente? Este é o diferencial da capacitação continuada através da tematização da prática, pois com ela reconstruímos nossa ação após refleti-la em comunidade coletiva e com um marco referencial, pelo próprio entendimento das reais necessidades dos domínios da competência. Esta é a trajetória de estudos reflexivos que nosso saber coletivo, com acertos e erros, porém com reflexão emancipatória, crítica e política.
A tematização da prática segundo Telma Weisz “...Trata de olhar a prática de sala de aula como um objeto sobre o qual se pode pensar...” É uma análise que parte da prática documentada para explicitar as hipóteses didáticas subjacentes. Esta documentação da aula em nosso grupo de estudo nos propicia auto-observação. Ao filmarmos a atuação de uma professora em aula analisamos seu planejamento e relatório. Juntos, extrapolamos a idéia de olhar o certo e o errado na aula, fazemos aflorar nas reflexões a compreensão das idéias e as hipóteses que guiam os atos do professor em ação, suas intervenções planejamento e objetivos.
A tematização da prática foi um desafio em nosso meio, pois tivemos que superar o medo, a timidez de sermos observados, analisados, com vários olhares sobre nossa ação, entretanto foi salutar, pois este estudo acentua a primazia da aprendizagem refletida na própria ação.
Aprendizagem esta que acalentamos a idéia construtivista do conhecimento, onde as crianças constroem hipóteses sobre a escrita, lançam mão de tudo que sabem para construir novos conhecimentos, tudo isto de forma contextualizada nas quais os textos têm sua função social. Nesta visão, oportunizar aos alunos leituras de bons textos, jornais, gibis, correspondências, literatura, receitas, enfim, uma grande diversidade de gênero textual seria uma urgência imprescindível para a dicotomia de uma escola que exclui seus alunos. Fomos em busca de uma escola inclusiva, onde os menos favorecidos tinham as mesmas oportunidades de receber e construir informações, transformando-os em conhecimentos.
Esta alavanca de transformação social foi o pré-requisito para consolidar a comunidade escolar à luz de seus saberes. Num processo de formação como este, que ocorre junto à escola em encontros pedagógicos por meio de: oficinas, seminários e discussões e, em outros momentos, de contato mais pessoal, como na hora –atividade. Além disso, há o acesso direto aos livros e apoio permanente; orientando sobre a localização das fontes de informações, mobilizando assim, a construção de novos conhecimentos.
Venho percebendo que os educadores vão, aos poucos, assumindo a prática construcionista. É natural que cada docente possua um estilo de atuação e uma forma particular de apropriar-se dos conhecimentos. Cada um vai rompendo, a seu modo, com a postura tradicional, mas todos têm adotado uma postura de reflexão contínua, sobre o que ensinar, e como ensinar, que conexão estabelecer entre teoria e prática, as dificuldades para se concretizarem experiências inovadoras.
Constatamos nos relatórios de alguns professores que a tematização da prática trouxe várias contribuições positivas às práticas pedagógicas.
“Com a tematização da prática, pude refletir sobre o meu planejamento se está adequado aos reais objetivos da aula proposta e principalmente se o conteúdo em discussão é significativo ou não...”
Um novo olhar sobre prática é relatado pela professora Y.
“ Utilizando a fita de vídeo, com o registro de uma aula, é possível identificar os desvios que ocorrem em sala, sem intenção, porém que urge serem repensados...”
Em virtude destes relatos, observamos mudanças de postura dos professores, bem como da utilização de atividades de análise e reflexão da língua, de cálculo mental, de projetos nas diversas disciplinas tornando-se mais intensivas as intervenções e as significativas problematizações dos assuntos discutidos com seus alunos. Os professores parecem ter mais preocupação com a qualidade ensinando aos alunos realmente o que eles ainda não sabem preocupando-se, acima de tudo com a qualidade e não a quantidade.
Dessa forma, expressamos efetivas mudanças no contexto escolar, pois vimos e observamos no cotidiano da escola, os resultados estatísticos de evasão nos últimos anos, bem como da ação sistemática dos docentes e de seus alunos. Constatamos que a reflexão sobre a prática se articula com o registro escrito de ações, pois emerge momentos tão significativos de aprendizagem, que impulsiona o professor a registrar sua prática. Hoje, os educadores da escola possuem o hábito de registrar as possibilidades de seus alunos avançarem no ensino e aprendizagem, bem como os acontecimentos individuais, propiciando replanejamento para que o aluno aprenda, construindo um referencial para a ação. O ato de escrever sobre algo é uma atitude de reflexão organizada.

Escrever sobre alguma coisa faz com que se construa uma experiência de reflexão organizada, produzindo para nós mesmos, um conhecimento mais aprofundado sobre a prática, sobre as nossas crenças, sobre o que sabemos e o que não sabemos. Ao escrever para comunicar uma reflexão sobre o que se fez na prática profissional somos obrigados a organizar as idéias a buscar uma articulação entre elas e a avançar no conhecimento sobre o próprio trabalho. Weisz (2003, p. 129)

O registro permite transformação, pois ficar refletindo apenas no pensamento não produz autonomia crítica para encontrar novas ações profissionais.
À medida que os educadores começaram a escrever relatórios sobre a prática da sala de aula, as intervenções que deveriam fazer com cada aluno, para melhor adequar suas possibilidades, e ainda, enumerar os avanços, e planejar problematizações referente a conteúdo, para que pudessem aprender de forma significativa, os docentes foram incorporando neste hábito da escrita um instrumento indispensável para o processo de ensino e aprendizagem, tendo à frente um problema que assume seu papel de agente transformador.
Consubstanciando este trabalho, os educadores tornaram-se leitores, onde foram contagiando-se mutuamente, e de forma bem tímida, compreenderam a importância de um educador ler para si e para seus alunos. Hoje as leituras que perfazem o meio escolar, são de grande diversidade, desde a bíblia, jornal, textos científicos e tantos outros.
É salutar alimentar este crescimento paulatinamente entre os docentes, contudo é um projeto em desenvolvimento e exige constância de acompanhamentos, bem como motivação. Somos sabedores de que a profissão professor não possui boa remuneração, com isto desmobiliza facilmente o profissional numa ação tão árdua e conflitante como exige o cotidiano escolar de qualidade. Cabe a nós ressaltar que o fato de termos na escola um grupo de estudos, possibilitou-nos compreender a importância de “ler” a situação real da relação professor/aluno numa dinâmica social que consiste o ato sedutor do querer, do gostar e do precisar ler fluentemente e significativamente. Neste prisma cito Weisz

Observei uma professora lendo clássicos para crianças de cinco anos e elas achando absolutamente maravilhoso, podendo assim desenvolver o gosto pela boa literatura desde muito pequenas... Ainda Weisz (2003:132) Na medida em que, por inúmeros motivos de ordem política e econômica, este profissional se transformou em alguém que apenas fazia sem precisar pensar, foi se desqualificando profissionalmente e ganhando cada vez menos. Hoje temos um impasse. Para fazer o que se espera dele, o professor precisa ganhar muito mais e ter condições de trabalho adequadas (2003, p.50)

O impacto deste foco, é que hoje entendemos que competência e valorização salarial caminham juntos. É importante que toda a sociedade tome consciência desta necessidade. Urge portanto, neste momento, que a educação de qualidade seja sustentada a priori pelos estudos reflexivos da capacitação continuada, e fundamentada pela competência deste profissional nas buscas de equalizar as marcas da sociedade. O que a classe dominante aprende e tem acesso, os dominados têm o direito de saber e de acessar no cotidiano do espaço escolarizado. “a prática reflexiva se bem conduzida, pode ser móvel de transformação”. Macedo (2003)
Estas transformações são evidentes na ação cotidiana do professor que socializa seu saber no contexto escolar, realiza projetos interdisciplinares e propaga conteúdos e ações significativas na comunidade.
Alguns fatores influenciaram os educadores a pesquisarem sua ação dentro do ambiente da sala de aula são eles: experiência, entrevista, conhecimento da realidade da família do aluno, identidade social e cultural da família, dificuldades do aluno avançar na aprendizagem, leitura de mundo e outros. Com isto os professores realizam pesquisa no seu riquíssimo laboratório humano, culminando em relatório científico, as abordagens críticas fornecem mecanismos para superação dos principais problemas.
Situações conflitantes existem, não obstante serem relevantes para a dialética tão importante no processo educacional.
A implementação destes estudos zerou, há cinco anos os índices de evasão, estes rendimentos são significativos devido ser casos alarmantes na extensão a nível de País. Outro aspecto pontual do rendimento foi a volta dos profissionais da escola aos bancos escolares para conclusão de cursos ou mesmos cursando Especialização, e se interessando por cursos que surgem. É crucial observar que houve a superação dos principais obstáculos na realização da aprendizagem através do olhar investigativo entre os educadores. Eles despertaram de um marasmo, estão em constantes transformações, e este é o primeiro sintoma do acordar de um grande sonho tão esperado por nós educadores.
Preconizamos o saber coletivo como indicador de práticas significativas, pautadas no espírito político, social e cultural movidos por um encontro com a cultura do sucesso.
Para assegurar a continuidade, bem como a valorização da capacitação continuada em serviço, a direção da escola reservou dias destinados aos estudos no calendário escolar da Instituição. A supervisora elaborou um projeto de capacitação continuada específico para a Escola, independente dos dias de estudos reservados à Semed (Secretaria Municipal de Educação). Desta forma, foi possível ao longo destes anos garantir a sistemática do processo, pois de acordo com a história destes procedimentos de estudos, cabem a nós educadores nos certificarmos diante desta luta.
O decisivo aspecto que permite a continuidade destes estudos a rigor, é a presença constante e motivadora de um formador mais experiente que une, nutre e consolida os atores envolvidos no processo, seduzindo-os e levantando atitudes positivistas, com o intuito de proporcionar crescimento constante e significativo a todos, sem deixar morrer o entusiasmo e a capacidade de buscar o pensar e o refletir sobre a prática.
O rigor da teorização da vivência é pertinente às perspectivas da seriedade, comprometimento e responsabilidades de todos. No entanto, a figura do coordenador formador é salutar neste processo desencadeando atitudes de respeito e vínculo harmonioso dentro do grupo.
É adequado fundamentar que o formador carrega em sua trajetória modelos externos, se sua atuação, se é bem sucedida, se é democrática, humana e sua competência profissional é realizada de forma comunitária sustentada no pensamento coletivo ou não. Se tem subsídios acalentadores de expectativas das pessoas envolvidas no grupo.
A mediação de um formador se bem realizada, habilita outros profissionais a enfrentarem dificuldades superando todos os desafios e descortinando seguramente novos horizontes. São estas expectativas que se tem do formador do grupo, uma pessoa experiente que se atualiza, administra sua formação continuada e que tenha aspectos de superação, pois esta prática é rompida dos modelos tradicionais de educação, desenvolvendo competências construtivistas de conhecimentos, bem como de práticas reflexivas que até então estavam submersas num universo apenas teórico ou apenas no senso comum da prática.
A vida na escola como se configura hoje, até pela exigência da sociedade, práticas globalizadas mediatizados pela diversidade cultural requer profissionais com domínio de competências e mecanismos de enfrentamento às causas diversificadas que a sociedade nos impõe.
Para combater todas estas realidades dicotômicas, mister se faz um certo rigor na formação continuada dos profissionais da educação. É preciso superar, a ingenuidade, a crítica vazia de pessoas com ações obsoletas, inaplicáveis e cada vez mais insuficientes para os efeitos esperados na educação.
Somos conscientes que entre os múltiplos pensamentos positivistas, permeiam também os que não se adaptam ao grupo, até por questões pessoais ou até mesmo de formação, porém foi o possível ao longo do percurso, irmos aparando as arestas, redefinindo os olhares e fazendo os ajustes necessários aos componentes do grupo, conforme particularidades.
As práticas, atos e ações dos educadores que levaram adiante uma aprendizagem significativa através dos encontros vieram à tona no espaço cotidiano da escola. Essas aprendizagens asseguram a toda comunidade, a reinterpretação de resultados, seu questionamento, possibilitando a incorporação do conhecimento teórico já produzido, sendo esta uma das características positivas da capacitação continuada. As vertentes contraditórias destas reflexões existem, contudo não são superiores às ações coerentes do fazer pedagógico cotidiano.
Vale destacar que os resultados ora abordados nesta experiência foram extremamente positivos para todos os segmentos da escola nela inseridos. Pontos positivos que são indicadores de melhorias nas práticas educativas da construção coletiva do saber, projetando ao futuro à luz destas descobertas que a tematização da prática é uma ação de um cenário novo, porém como centros de análise e pesquisa protagonizando um olhar intencional para sua própria ação, propiciando novas veredas a outros educadores.
Enfim, é necessário propalar que o processo de formação continuada deve ser uma constância, pois o caráter da formação continuada é o caráter de continuidade, não termina, não cessa, persevera contíguo à profissão de educador.

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