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  O PLANEJAMENTO DAS ATIVIDADES DIDÁTICAS DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NOS ASSENTAMENTOS RURAIS

Suzana Cassia Tardem - Faculdade de Ciências e Tecnologia - UNESP
Maria Peregrina de Fátima Rotta Furlanetti - UNESP

A alfabetização de jovens e adultos no Brasil gira em torno de uma necessidade contínua e imprescindível para sanar a dívida social com 23 milhões de pessoas não escolarizadas, fazendo com que alcancem sua autonomia.

Temos visto na sociedade muitos jovens e adultos com uma necessidade grande em retornar os estudos, pois o mundo está em crescimento acelerado exigindo cada vez mais pessoas qualificadas. Também nos “assentamentos rurais” essa necessidade se faz presente, pois em minha experiência, constatei que o estudo proporciona a essas pessoas jovens e adultas, além de maiores condições de lidar com a terra, inclusão às exigências do mundo contemporâneo possibilitando-lhes autonomia e responsabilidade, aumentando assim a capacidade destes em lidar com as transformações da sociedade como um todo, econômica e culturalmente.

Acredito que o educador (a) de jovens e adultos tem uma grande importância na vida do aluno, visto que este não teve oportunidade de estudar na idade adequada e agora busca uma melhoria em sua vida.

Vários fatores já afastaram esse aluno da escola, por isso é preciso que agora receba motivação por parte do educador (a). È importante que o educador (a) faça um planejamento das atividades didáticas voltado para a necessidade do educando (a) e considerando o conhecimento que ele já possui.

Segundo a Proposta Curricular para Educação de Jovens e Adultos a educação básica de adultos começou a delimitar seu lugar na história da educação do Brasil, a partir da década de trinta, e com o fim da Segunda Guerra Mundial, ela passa a ganhar destaque dentro da preocupação geral com a educação elementar comum.

A educação rural começa a surgir no final do Segundo Império, com o advento das novas culturas agrícolas principalmente o café, que necessitavam de um mínimo de qualificação para saber lidar com elas. Mas é em meados do século XX, também em 1930 que passam a existir programas de escolarização considerados relevantes para a população do campo. Como por exemplo, o Oitavo Congresso Brasileiro de Educação, que buscava:

Uma educação primária, que objetiva: I) o desenvolvimento da personalidade (objetivo individual); II) a integração do educando na sociedade brasileira em geral (objetivo nacionalista); III) a formação do sentimento de solidariedade humana (objetivo humano); IV) o ajustamento ao ambiente regional em que se desenvolva a vida do educando (objetivo vocacional) (THEIRRIEM, 1993, p.19).

Em 1947 foi lançada a Campanha de Educação de Adultos onde se pretendia alfabetizar em três meses e sintetizar o curso primário em dois períodos de sete meses. Com o sucesso inicial da campanha foram criadas várias escolas supletivas, porém na zona rural não foi conseguido sucesso e então a campanha cessou-se.

No início dos anos sessenta, o educador pernambucano Paulo Freire, introduziu uma pedagogia que caracterizou os principais programas de alfabetização e educação popular da época, culminando no Plano Nacional de Alfabetização, mais tarde interrompido pelo golpe militar.

Segundo Furlanetti (2001), os militares implantaram em 1969, uma campanha centralizada, utilizando uma cartilha e um mesmo material pedagógico para todo o Brasil, o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Tal fato ocasionou um retrocesso, pois muitos estavam preparados para um grande movimento de alfabetização na linha de Paulo Freire.

A proposta de alfabetização de adultos de Paulo Freire consiste principalmente na frase: “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, ou seja, deve-se levar em consideração principalmente a leitura de mundo que o aluno possui, suas experiências de vida, seu conhecimento da realidade.

Desde o começo, na prática democrática e crítica, a leitura do mundo e a leitura da palavra estão dinamicamente juntas. O comando da leitura e da escrita se dá a partir de palavras e de temas significativos à experiência comum dos alfabetizandos e não de palavras e de temas apenas ligados à experiência do educador.(FREIRE, 1986, p.34).

Hoje em dia, busca-se recuperar a prática de um método de alfabetização popular criado há anos. Procura-se redescobrir o sentido do trabalho com o povo através da educação, dentro de uma nova realidade, social e cultural. A proposta de Paulo Freire deve ser sempre ajustada, inovada e criada a cada situação. “Um trabalho pedagógico de criar através do fazer solidário, deve começar pela própria coragem de se recriar a cada vez”.(Brandão, 1983, p74).

Não só o ensinar a ler e a escrever, o educador popular tem a missão de ajudar na criação das condições de surgimento, e apoiar as condições de fortalecimento dos movimentos populares. Estes por sua vez, são lugares de educação política do povo. “O trabalho da educação popular envolve participação e presença, criação de espaços de reflexão da ação popular, troca de conhecimentos, oferta de informações necessárias ao povo”.(Brandão, 1983, p.99).

Paulo Freire acredita que o dado fundamental das relações de todas as coisas no mundo é o diálogo que conscientiza o homem. Seguindo estes princípios, no livro “Pedagogia da Autonomia”, apresenta saberes que são necessários à prática educativa. Saberes estes que vão sendo elaborados na prática formadora consciente.

Dessa maneira propõe que o educador trabalhe a rigorosidade metódica, ensinando a pensar certo. O educador deve ser pesquisador, pois ensino e pesquisa estão completamente ligados. Não deve esquecer do respeito e estímulo à capacidade criadora do educando, considerando o que ele já tem opinião formada e o que ele próprio cria. Assim, é dever respeitar os saberes com que os educandos chegam à escola e também discutir a relação entre esses saberes e os conteúdos a serem ensinados.

Ensinar exige ainda, a disposição a mudar e a aceitar o diferente, e escutar o aluno. “O educador que escuta aprende a difícil lição de transformar o seu discurso, as vezes necessário ao aluno, em uma fala com ele.” (FREIRE,1996, p.128 )

O programa básico de alfabetização que Paulo Freire desenvolveu com camponeses teria que assumir, como um ponto de partida, a capacidade de conhecimento que estes camponeses tinham sobre o seu contexto e o contexto do mundo e sua habilidade para expressar aquele conhecimento através de sua própria linguagem.

Sabemos que o direito à educação é universal, mas na realidade isso não acontece. Existem muitos grupos excluídos da educação, como por exemplo, as pessoas que vivem no campo. Não somente as crianças, mas também jovens e adultos, que por diversos motivos não foram alfabetizados: seja pela inexistência de escolas no meio rural, pela falta de transporte que os levem as escolas urbanas ou pelas condições de vida em que se encontram onde são levados a trabalhar em casa ou na roça desde muito cedo.

A escola do campo enfrenta vários problemas que precisam de resolução, tais como: ter uma infra-estrutura adequada; professores qualificados que trabalhem devido a uma escolha, sua e da comunidade; e ainda adequar currículos e calendário escolar com a realidade diária do campo.

Não basta ter escolas no campo, queremos escolas do campo, ou seja, queremos escolas com um projeto político-pedagógico vinculado às causas, aos desafios, aos sonhos, à história, e à cultura do povo trabalhador do campo.(CONFERÊNCIA NACIONAL, 1998, p. 11).

Por isso, que hoje vários movimentos buscam melhorias para a escola do campo, na tentativa de alcançar a liberdade e o cumprimento dos direitos e deveres. “Não podemos deixar passar a oportunidade de cobrar uma dívida histórica para com a população do campo. Não podemos pensar em uma educação para a liberdade quando privamos um povo de seus direitos”. (Conferência Nacional, 1998, p.35).

Segundo a Declaração de Hamburgo, a educação de pessoas jovens e adultas vem apresentando um crescimento acelerado. Entretanto a formação destas pessoas ainda é para poucos e os cursos não atendem a demanda das várias culturas. Uma pessoa não escolarizada não tem o interesse de estudar em uma escola que não integra o que se aprende com sua vivência e que não é capaz de construir laços que dão sentido ao aprendizado anteriormente aprendido. “A alfabetização, concebida como o conhecimento básico, necessário a todos num mundo em transformação em sentido amplo, é um direito humano fundamental”. (Declaração de Hamburgo, 1999, p.23).

Diante disso é essencial que seja feito um planejamento das atividades didáticas voltado para as reais necessidades das pessoas jovens e adultas que vivem no campo, a fim de despertar-lhes interesse pelo estudo.

O ato de planejar consiste em um estudo consciente para decidir, executar e avaliar as práticas pedagógicas para que se possa alcançar os objetivos partindo da realidade do grupo. Antecipando os caminhos a serem seguidos e preestabelecendo um determinado período.

Ao planejar o educador (a) deve considerar o conhecimento do meio em que a escola se insere e dos alunos, selecionar os conteúdos e as atividades, os recursos de ensino e os instrumentos de avaliação. Existem alguns critérios para seleção dos conteúdos, tais como: significância, utilidade, maturidade, interesse, validade.

O processo de planejamento da ação educativa é a passagem da teoria à prática, a transformação dos fins educacionais teóricos em objetivos de ensino específicos, a parte mais cheia de dificuldades e, ainda assim, a primordial. (CRUZ, 1983, p.30).

Assim sendo, o planejamento é uma ferramenta imprescindível para guiar o professor, além de evitar a desconexão de assuntos que geralmente acaba dispersando os alunos. O planejamento é uma atividade de reflexão acerca das nossas opções e ações para pensarmos sobre o rumo que devemos dar ao nosso trabalho.

Alguns elementos compõem o processo de ensino, tais como: objetivos (para quem ensinar), conteúdos (o que ensinar), os alunos e suas possibilidades (a quem ensinar), os métodos e técnicas (como ensinar) e a avaliação, que está relacionada aos demais.

O caminho do planejamento inicia-se com a seleção dos objetivos e após o desenvolvimento das fases próprias a esse tipo de trabalho, fecha-se com a aplicação dos resultados da avaliação.

A avaliação também faz parte do planejamento, esta deve ser constante, avaliando tanto o desenvolvimento de cada aluno, quanto a dinâmica do grupo, que indicará ao educador (a) as modificações necessárias para que melhore o rendimento do grupo e o objetivo final se cumpra. Um reexame (avaliação) de seus elementos permitirá que sejam corrigidas suas deficiências ou aperfeiçoadas suas qualidades.

Sempre é possível atualizar o conteúdo do plano e aperfeiçoa-lo em relação aos progressos feitos no campo de conhecimentos, adequando-o às condições de aprendizagem dos alunos, aos métodos , técnicas e recursos de ensino que vão sendo incorporados na experiência cotidiana.

O planejamento de ensino tem entre suas finalidades: - evitar a improvisação; - prever e superar as dificuldades; - organizar antecipadamente o trabalho didático; - organizar o tempo do trabalho; - evitar a extensão exagerada de alguns assuntos e a síntese excessiva de outros; - conduzir os alunos ao alcance dos objetivos.

O planejamento escolar também ajuda a facilitar a preparação das aulas, ou seja, selecionar o material didático em tempo hábil, saber que tarefas educador (a) e aluno(a) devem executar, replanejar o trabalho frente a novas situações que aparecem no decorrer das aulas, como vimos no caso das educadoras dos assentamentos, no decorrer das aulas, o planejamento vai obrigatoriamente passando por adaptações em função das situações docentes específicas. Ainda que se saiba da importância do planejamento, no caso dos assentamentos houve muitos fatores que não permitiram às educadoras executarem totalmente o que foi planejado, como o caso de uma educadora que relatou que não pode seguir o plano anual pois na falta de transporte nos assentamentos não era possível reunir todos os alunos na sala de aula e seu plano envolve muito trabalho em grupo. Agora porém ela já está seguindo, pois já tem transporte há quatro meses e está dando resultado. Segundo a educadora com um planejamento sistematizado o andamento da aula é melhor porque fica mais fácil para trabalhar sendo possível dar interferências e acrescentar algo novo se preciso for.

O educador deve escolher um tema para o seu plano de aula que leve em consideração o grupo de alfabetizandos, seu potencial didático, como seu lugar e as possibilidades que todos esses fatores oferecem.

Utilizando a metodologia de Paulo Freire, partindo do princípio de que ensinar não é transferir conhecimentos, mas criar as possibilidades para sua construção, através do diálogo e troca de experiências entre educador (a) e educando(a), onde um não sabe tudo e o outro não desconhece tudo, todos têm algo para aprender e para ensinar. Ninguém educa ninguém e ninguém se educa sozinho, há um ato de compartilhar experiências.

Na alfabetização de jovens e adultos do campo, as aprendizagens referem-se ao “saber fazer”, destacando as atividades que busquem e construam a sua autonomia, com um conhecimento que inclua compreensão, expressão oral, escrita, operações numéricas usuais.

A prática da alfabetização tem que partir exatamente dos níveis de leitura do mundo, de como os alfabetizandos estão lendo sua realidade, porque toda leitura do mundo está grávida de um certo saber. Não há leitura do mundo que não esteja emprenhada pelo saber, por certo saber. (FREIRE, 2001, p.134).

O principal objetivo nesse nível de ensino é que o educando busque a sua autonomia. Uma autonomia que possibilite o poder de optar, de decidir, de ser ativo em sua comunidade. Não se esquecendo de que os jovens e adultos têm condições de participar da construção do plano didático e até controlar sua execução, deste modo eles ganham mais consciência e controle sobre seus conhecimentos e atividades.

Estamos desenvolvendo o trabalho de acompanhamento das educadoras de Educação de Jovens e Adultos nos assentamentos São Pedro e Nova Conquista do município de Rancharia. Nestes assentamentos o trabalho de criação de salas de aula do campo iniciou-se com o PRONERA - Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária, que foi criado em abril de 1998, com o objetivo de proporcionar educação aos jovens e adultos assentados em comunidades rurais mediante processos de reforma agrária.

Programa este de iniciativa do Governo federal que busca o

Compromisso com a promoção da justiça social por meio da democratização do acesso à educação na alfabetização e escolarização de jovens e adultos, formação de educadores para as escolas de assentamentos e formação técnico profissional de nível médio e superior. (ANDRADE, 2004, p.5)

Ou seja, levar a educação a pessoas que a ela não têm acesso, não só alfabetizando como também instruindo, através da formação de educadores dos próprios assentamentos, pois são pessoas compromissadas com a comunidade, e que são capazes de entender as reais necessidades do campo mediante o desenvolvimento de metodologias específicas que levem em conta o contexto em que está inserido.

Hoje em dia o PRONERA foi extinto destes dois assentamentos, mas seguindo essa mesma meta, as educadoras recebem a orientação pedagógica durante a HTPC – Hora de Trabalho Pedagógico e Coletivo, desde 2003.

Estas orientações acontecem semanalmente, graças à colaboração do ITESP – Instituto de Terras do Estado de São Paulo, que fornece o transporte para a cidade de Rancharia, através da Assistente Social, Aparecida de Jesus Rosa e da estagiária que é aluna da UNESP - Universidade Estadual Paulista, Viviane Cristina Fernandes. Além desta, há a participação de duas bolsistas da UNESP; Vânia Ferreira Fernandes e Suzana Cássia Tardem, com a supervisão da Professora Doutora Maria Peregrina de Fátima Rotta Furlanetti, que nos passa as principais orientações e tira nossas dúvidas para que possamos melhor acompanhar o trabalho das educadoras.

Comecei a participar das reuniões com as educadoras dos assentamentos no dia dezenove de agosto de dois mil e quatro. Paralelamente a essas reuniões que aconteciam toda quinta – feira, participamos toda quarta – feira na UNESP – Universidade Estadual Paulista, de um grupo de estudo com a orientadora Fátima Rotta. Estes encontros foram importantes para conhecer os diferentes trabalhos realizados pelas educadoras de Jovens e Adultos que estão levando a educação a diferentes espaços seja no campo ou na cidade, realizando-se assim uma troca de experiências.

Neste espaço houve a oportunidade de tirar dúvidas, pegar livros que foram importantes para uma melhor compreensão da parte teórica da Educação de Jovens e Adultos e conhecer o que está sendo feito em relação à mesma.

Foram apresentados os trabalhos que estão sendo realizados nas salas de aula, e ouvidas as sugestões para possíveis melhorias nas salas de aula e o relacionamento professor - aluno.

As reuniões foram também, momentos de distribuição de tarefas e organização dos eventos como a Capacitação dos Alfabetizadores de Jovens e Adultos, o III Seminário Regional de Educação de Jovens e Adultos e os Fóruns realizados.

Através de tais reuniões pude começar a ver de perto o trabalho com Educação de Jovens e Adultos e toda responsabilidade que este trabalho envolve.

Estas reuniões têm por objetivo passar orientações pedagógicas para as educadoras do campo baseando-se na metodologia de Paulo Freire, sob a forma de entrega de materiais e relato das atividades desenvolvidas em sala.

Acompanhamos o desenvolvimento do planejamento diário das aulas e do Plano Anual que constitui tarefa necessária ao trabalho das educadoras. Através destes as aulas foram organizadas antecipadamente na tentativa de responder aos anseios dos educandos e selando com eles um compromisso.

Relato aqui os assuntos abordados que considerei mais importantes e sugestões de atividades oferecidas.

Um dos temas principais é o desenvolvimento sustentável, pois no campo as pessoas têm condições de plantar e colher o que precisam para se alimentar. Foi elaborado então um “Projeto Alimentação”, utilizando para este fim, principalmente os livros do curso “Alimente-se bem com R$1,00”, doados pelo SESI, criador do curso, às salas de aula. Este projeto enfatiza a educação alimentar, tema que torna possível trabalhar diversas atividades, inclusive a interdisciplinaridade.

Este projeto teve como objetivos – levar o aluno a valorizar uma boa alimentação – saber preparar receitas adequadamente – identificar diferentes tipos de vitaminas, sais minerais e suas funções – utilizar corretamente as medidas – compreender a importância de utilizar alimentos de safra na safra – prevenir-se de doenças transmitidas pelos alimentos – saber conservar corretamente os alimentos – utilizar-se da horta domestica – compreender as influencias da culinária brasileira.

Dentro das atividades é possível citar: a história da culinária; as receitas dos livros; o cálculo de quanto a pessoa vai gastar para fazer uma receita ou para dobrá-la e principalmente a tabela de classificação dos alimentos.

A tabela de classificação dos alimentos é um assunto rico para ser trabalhado e envolve as diversas disciplinas. O trabalho começa com a lista de alimentos usados em casa, e destes verifica-se o que é produzido no próprio assentamento e o que é comprado, mas que poderia ser plantado.

Desta lista pode-se fazer a classificação em: verduras, legumes, cereais, origem animal e frutas. Torna-se possível trabalhar com a ordem alfabética, o alfabeto móvel, e também matemática, ciências, historia e geografia.

Exemplo de como trabalhar a educação alimentar em diversas disciplinas: matemática - elaboração de problemas, medidas utilizadas na receita; ciências - vitaminas, alimentação para diabéticos, para hipertensos, higiene; história - origem de alguns alimentos; geografia - onde ficam esses lugares.

Um detalhe a ser lembra do é que a ordem alfabética é importante ser aprendida, pois facilita na vida diária, como, por exemplo, procurar um nome na lista telefônica.

Outra possibilidade é a produção de compotas e conservação de doces e salgados, que pode viabilizar uma atividade remunerada para a comunidade.

Para encerramento da atividade referente à alimentação foi sugerida a produção de um mural da boa alimentação. A avaliação deverá ser feita continuadamente, ou seja, ocorrerá em todos os momentos, levando em consideração a participação, o interesse, reações diante das dificuldades, avanços alcançados, etc. A duração terá em média três meses.

Atividades diversificadas que foram trabalhadas, e que estão relacionadas com a realidade dos alunos:

- Nome dos alunos – construção de palavras com as famílias silábicas de cada nome; construção do alfabeto móvel; dominó dos nomes.
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- Trabalho com rótulos – texto descritivo (descrição do produto); interdisciplinaridade.
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- Cartazes – examinar um cartaz, conversar sobre o que está escrito, o significado do desenho que busca chamar a atenção para alguma coisa; elaboração de cartazes para a sala de aula.
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- Lista de presença – importante que seja assinada pelos alunos, para que treinem a letra, reconheçam seu nome e a importância de assinar um documento. Foi sugerido que colocassem na lista de presença, o número do lote em que moram, para trabalhar também com a matemática.
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- Carta – uma das educadoras relatou que fez uma atividade em sala, onde os alunos deveriam escrever uma carta a algum colega de sala. Uma aluna se emocionou ao ler a sua, e disse que nunca havia escrito uma carta antes.
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- Ditados populares – por ser de conhecimento de todos, os alunos aprendem melhor. Fica interessante usá-los no mínimo duas vezes por semana, e fazer cartazes para ficarem expostos.
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- Material dourado – criado pela médica e educadora Maria Montessori foi direcionado para trabalhar com crianças, porém pode ser usado também com adultos, pois nele as relações numéricas abstratas passam a ter uma imagem concreta, facilitando a compreensão por parte dos adultos. Ótimo meio de ensinar as operações matemáticas e desenvolvimento do raciocínio. Através dele é possível trabalhar também com jogos.
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Atividades interessantes que foram realizadas em datas comemorativas:

- Na época das eleições uma educadora elaborou uma urna, fazendo uma caixa com isopor e as teclas. Discutiram sobre a importância da eleição. Foi feita uma lista com nomes e números de falsos candidatos a prefeito e a vereador e treinaram o voto. Os alunos escreveram cartas onde expressaram seus pensamentos quanto à eleição.
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- Na “Festa do Folclore”, foi realizado um jogo: sorteava-se uma pessoa que deveria se levantar e contar uma história, depois foi eleita quem contou a melhor história. Os alunos fizeram um desenho sobre o valor da família, pois nesta festa estavam todos reunidos. As crianças cantaram músicas de roda e desenharam sobre as lendas que ouviram. A culinária foi retirada do livro “Armazém do Folclore”.
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- Trabalho com panfletos informativos no dia do combate a AIDS.
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- No natal fizemos uma HTPC diferente. Com a discussão de texto sobre o natal no qual incluía a origem do Papai Noel e da árvore de natal e o significado de alguns símbolos natalinos. Em seguida fizemos trabalhos manuais que são possíveis de realizar com os alunos e até mesmo para decoração da sala e de suas casas.
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Durante o ano foram observados alguns problemas enfrentados pelas educadoras, como a falta de transporte que faz com que muitos alunos faltem à escola por morarem longe; problemas de visão; o serviço na roça que principalmente em dezembro e janeiro, faz com que os alunos faltem devido ao cansaço. Destaca-se dessa maneira, a importância de se adaptar o calendário escolar às condições climáticas e fases do ciclo agrícola e contextualizar a organização escolar, os currículos e metodologias de ensino às características da vida e cultura rurais. Garantindo assim o direito à educação para a população do campo, compreendida como estratégia de inclusão social para o desenvolvimento sustentado.

Para terminar gostaria de deixar uma mensagem de um depoimento de Paulo Freire que assistimos sobre “Reforma Agrária e Educação”. Aconteceu quando ele dava uma aula de conclusão à um grupo de jovens educadores populares em uma fazenda reivindicada pelo MST quando um moço com voz ativa no movimento falou à todos:

“Um dia pela força de nosso trabalho e da nossa luta, cortamos o arame farpado do latifúndio e entramos nele, mas quando nele chegamos, descobrimos que havia outros arames farpados, como o arame da nossa ignorância e então percebi melhor ainda naquele dia que, quanto mais ignorantes e inocentes diante do mundo, tanto melhor para os donos do mundo. Quanto mais sabidos para os donos do mundo, mais medrosos os donos do mundo ficam”.

Paulo Freire deixou ainda um “recado para os novos professores: Vivam por mim, já que eu não posso viver a alegria de trabalhar com crianças e com adultos que com sua luta e sua esperança estão buscando ser eles mesmos e elas mesmas”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Márcia Regina et al. A educação na reforma agrária em perspectiva: uma avaliação do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária. São Paulo: Ação Educativa; Brasília: PRONERA, 2004.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é método Paulo Freire. São Paulo: Brasiliense, 1983.

CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE A EDUCAÇÃO DE ADULTOS, nº1, 1997, Alemanha. Declaração de Hamburgo: agenda para o futuro. Brasília: SESI/UNESCO, 1999. 67p.

CONFÊRENCIA NACIONAL: Por uma educação básica do campo. Texto base. Brasília, 1998. 44p.

CRUZ, Edna Chagas. “Princípios e critérios para o planejamento das atividades didáticas”. In: Didática para a escola de 1º e 2º graus. PARRA, Nélio (coord.). São Paulo: Pioneira, 1983, p.29 a 48.

Educação de Jovens e Adultos: proposta curricular para o 1º segmento do ensino fundamental. RIBEIRO, Vera Maria Masagão (coord.). São Paulo: Ação Educativa; Brasília: MEC, 1997.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1986.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, Paulo. Política e educação. São Paulo: Cortez, 1997. (Questões da nossa época, v.23).

FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. São Paulo: Unesp,2001.

FURLANETTI, Maria P. F. Rotta. Formação de professores alfabetizadores de jovens e adultos, O educador popular. Tese de Doutorado. Faculdade de Ciências e Filosofia, Universidade Estadual Paulista. Marília, 2001.

THEIRRIEM, Jacques; DAMASCENO, Maria Nohe. Educação e escola no campo. Campinas: Papirus, 1993.

 
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