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  ANALOGIAS NA REVISTA DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA CIÊNCIA HOJE DAS CRIANÇAS?

Leandro Londero da Silva [llondero@bol.com.br]
Naida Lena Pimentel [naidalp@terra.com.br]
Eduardo Adolfo Terrazzan [eduterrabr@yahoo.ufsm.br]
Núcleo de Educação em Ciências, Centro de Educação - Universidade Federal de Santa Maria – UFSM

1 – INTRODUÇÃO

A divulgação científica está cada vez mais presente no cotidiano das crianças, sendo feita de diversas formas, como, por exemplo, programas de televisão (O Mundo de Beakman, Minuto Científico, Globo Ciência, Ciência Travessa), e publicações em revistas (Disney Explora, Dever de Casa, Lição de Casa, Recreio, Ciência Hoje das Crianças).
Essas revistas, objetivando divulgar a produção científica, procuram veicular textos com linguagem familiar e informal, acessível ao público infantil. Nelas, nota-se que os textos tratam com naturalidade o conhecimento científico mediante a abordagem de aplicações da tecnologia, aparatos tecnológicos e de fenômenos presentes no cotidiano das crianças.
Um fator extremamente relevante a ser levado em conta, na hora da elaboração de qualquer texto de divulgação científica, diz respeito à linguagem utilizada.
Na literatura, encontramos autores que afirmam ser fundamental o uso de analogias visando tornar as exposições mais claras e atraentes aos leitores. Mora (1998), por exemplo, constatou, com base em uma análise de diversos livros e artigos de ciências, que os textos de divulgação científica que melhor atendem ao objetivo de informar e atrair o leitor, reúnem um ou vários dos seguintes recursos: apoio na história e na tradição, referência à cultura popular, uso de ironia e humor, uso de analogias e metáforas, vínculo com o cotidiano, entre outros. Estes recursos são também apontados por Massarani (1999) como relevantes para serem levados em conta na elaboração de um texto de divulgação científica. Esta autora, argumentando sobre a produção de textos de divulgação científica, afirma:
“Como em qualquer publicação de divulgação científica, é crucial que, em uma revista para crianças, não se usem jargões científicos. É fundamental também o uso de analogias com situações simples do cotidiano da criança” (Massarani, 1999, grifo nosso).
Para Gouvêa (2000) a linguagem utilizada no texto de divulgação científica tende a se aproximar da linguagem do cotidiano, apoiando-se em metáforas e analogias para tornar as exposições mais claras.
Encarnação (2001) também afirma que comparações são recursos bastante utilizados, na tentativa de tornar artigos e matérias mais leves e palatáveis para as crianças.
Portanto, as analogias podem ser úteis para facilitar a compreensão de assuntos, conceitos ou fenômenos, na medida em que utilizam situações já conhecidas ou mais familiares para favorecer a compreensão de situações não conhecidas ou menos familiares, mediante comparações.
Este trabalho partiu das considerações mencionadas anteriormente e da constatação da ausência na literatura consultada, de pesquisas que analisem as apresentações analógicas em textos de divulgação científica destinados ao público infantil.

2 – OBJETIVOS E QUESTÕES NORTEADORAS

Neste trabalho, concentramos o foco de estudo no mapeamento e na análise das apresentações analógicas encontradas nos artigos publicados na revista Ciência Hoje das Crianças.
Quatro questões que nos parecem relevantes permearam este estudo. São elas:
? Qual a freqüência de utilização de analogias nos artigos da revista?
? Qual o grau de explicitação das relações analógicas e das limitações das analogias?
? Em que medida os análogos utilizados podem ser considerados familiares às crianças?
? Qual a forma de apresentação das analogias utilizadas nos artigos?

3 – METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO

Para o desenvolvimento deste trabalho, selecionamos a revista de divulgação científica Ciência Hoje das Crianças publicada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Adotamos como critérios para a seleção o da revista veicular majoritariamente artigos de divulgação científica e a disponibilidade de todos os exemplares publicados até fevereiro de 2004.
Lançada em dezembro de 1986, a revista é publicada há dezoito anos, com periodicidade mensal que vem se mantendo constante há quinze anos.
Um dos objetivos da revista é o de estimular a curiosidade das crianças em relação a fenômenos, fatos e métodos das ciências. Ela é elaborada para a faixa etária de sete a quatorze anos. Em geral, os artigos publicados são produzidos por pesquisadores e professores da comunidade científica brasileira.
Inicialmente mapeamos as apresentações analógicas mediante a leitura dos textos que compõem cada exemplar, visando responder a primeira questão norteadora deste trabalho. Lemos cento e quarenta e três números, correspondentes ao período de dezembro de 1986 a fevereiro de 2004, perfazendo um total de 1.022 textos.
Organizamos as apresentações analógicas mapeadas em quadros-síntese, incluindo as situações alvo e análoga contidas no texto original, bem como as relações analógicas pretendidas. Um extrato destes quadros encontra-se em no anexo I.
Após, agrupamos as apresentações analógicas segundo as “áreas temáticas” focalizadas pela revista: Ciências Humanas e Sociais, Exatas, Biológicas, da Terra, Saúde, Meio Ambiente, Tecnologia, Cultura, Lingüística (Letras e Artes) .
A seguir, realizamos um mapeamento da freqüência das apresentações analógicas por anos de publicação, com o intuito de obtermos informações sobre a freqüência das apresentações ao longo do período analisado.
Em continuidade, procuramos responder a segunda questão norteadora. Para isso analisamos o grau de concordância das analogias com o modelo TWA (Teaching with Analogies). Este modelo foi desenvolvido por Shawn M. Glynn (1991) e modificado por Harrison e Treagust (1994) e surgiu de uma análise crítica e comparativa sobre a forma como as analogias são apresentadas em diversos livros didáticos.
Decidimos analisar as apresentações analógicas nos textos, à luz deste modelo, porque sua estruturação enfatiza que o essencial é a compreensão não apenas das relações analógicas pretendidas, como também a dos limites de validade da analogia utilizada.
Segundo o modelo TWA, para uma utilização adequada de analogias, deve-se procurar seguir uma seqüência de seis passos, a saber:
1º Passo – Apresentação da “situação alvo” a ser tratada.
2º Passo – Apresentação da “situação análoga” auxiliar.
3º Passo – Identificação das características relevantes do análogo.
4º Passo – Estabelecimento das correspondências entre o análogo e o alvo.
5º Passo – Identificação dos limites de validade da analogia utilizada.
6º Passo – Esboço de síntese conclusiva sobre a “situação alvo”.
Registramos os dados em uma tabela e os analisamos qualitativamente. Utilizamos uma escala qualitativa na qual buscamos graduar a concordância de cada apresentação analógica, com os passos do modelo TWA. Nesta escala, utilizamos a letra “C” para indicar a concordância da apresentação com o passo do modelo, “NC” para indicara não concordância, e “P”, para indicara concordância parcial. Um extrato desta tabela encontra-se no anexo II.
A seguir, procuramos responder as duas últimas questões norteadoras. Para isso, as apresentações analógicas foram classificadas em cinco categorias. Uma delas é a que foi proposta por Queiroz (2000), a qual se refere ao tipo de analogia utilizada em relação a área de origem do análogo utilizado; as outras quatro foram propostas por Curtis & Reigeluth (1984) e se referem à forma de apresentação de analogias em textos.
Categoria proposta por Queiroz (2000):
1. Analogias internas à própria área do conhecimento (categoria redefinida) – recuperam conceitos e fenômenos já trabalhados anteriormente.
Categorias propostas por Curtis & Reigeluth (1984):
2. Tipo de relação analógica (estrutural, funcional, estrutural-funcional) – se o análogo e o alvo compartilham atributos estruturais e funcionais ou ambos. A relação é dita estrutural quando análogo e alvo apresentam a mesma aparência física. A relação é dita funcional quando análogo e alvo apresentam funções similares. A relação é dita estrutural-funcional quando combina relações estruturais e funcionais;
3. Formato da apresentação (verbal, pictórica-verbal) – A apresentação é dita verbal quando é expressa somente em palavras. A apresentação é dita pictórica-verbal quando é expressa por palavras e ilustrações do análogo;
4. Posição do análogo em relação ao alvo – O análogo pode ser apresentado no início, durante ou no final da instrução;
5. Nível de enriquecimento (simples, enriquecidas, estendidas) – Uma apresentação analógica é dita simples quando o análogo se conecta ao alvo por meio de expressões do tipo ‘é como’, ‘pode ser comparado a’, ‘é semelhante a’. Por outro lado, uma apresentação analógica é dita enriquecida quando alguns dos atributos compartilhados são explicitados. Uma apresentação analógica é dita estendida quando várias correspondências de um único análogo são usadas para ensinar mais de um alvo ou quando vários análogos eram usados para explicar um único alvo.
Finalmente, analisamos os resultados obtidos.

4 – RESULTADOS E ANÁLISES

4.1 – Freqüência geral de apresentações analógicas
Nos 143 números da revista, encontramos um total de 88 artigos que utilizam o recurso analógico, e, neles, 136 apresentações analógicas.
Constatamos que alguns autores utilizaram várias delas em um mesmo texto, para explicar conceitos diferentes.
4.2 - Freqüência de apresentações analógicas nas áreas temáticas
A tabela abaixo apresenta a porcentagem de apresentações analógicas utilizadas por áreas temáticas da revista, em relação ao total de apresentações mapeadas nos artigos que fazem uso deste recurso.

Tabela 1 – Freqüência das apresentações analógicas por “área temática”

Área
Freqüência
f
%
Ciências Biológicas 74,0 54,5
Ciências Exatas 36,0 26,5
Ciências da Terra 2,0 1,5
Ciências da Saúde 8,0 6,0
Meio Ambiente 7,0 5,0
Tecnologia 5,0 3,5
Cultura 2,0 1,5
Lingüística (Letras e Artes) 0,0 0,0
Ciências Sociais e Humanas 2,0 1,5
Total 136,0 100,0

Considerando o número de apresentações analógicas presentes por áreas temáticas, a observação da Tabela 1 evidencia que a área de Ciências Biológicas é aquela que aparece o maior percentual de apresentações analógicas (54,5%), em seguida aparece as Ciências Exatas (26,5%). Os menores índices de utilização foram constatados nos temas relacionados a Cultura, Ciências da Terra e Sociais e Humanas, sendo que não mapeamos nenhuma apresentação para textos que fazem referência a Lingüística.
4.3 – Freqüência de apresentações por ano de publicação
A tabela abaixo apresenta os índices absolutos e relativos das apresentações analógicas por ano de publicação, em relação ao total de apresentações mapeadas nos artigos que fazem uso deste recurso.
Esperávamos encontrar um certo aumento na freqüência de uso de apresentações analógicas com o passar dos anos, porém, isto não se verificou. Observando a Tabela 2 é fácil constatar que o número de apresentações analógicas varia de maneira não uniforme ao longo do período investigado, sendo que a maior freqüência de utilização de apresentações analógicas ocorreu em 1995 onde mapeamos 30 apresentações.

Tabela 2 – Freqüência das apresentações analógicas por ano de publicação

Ano
Freqüência
f %
[1986/1989] 3 2,20
1990/jan. 1996 9 6,7
1991 fev. a dez. 1 0,73
1992 2 1,46
1993 0 0,00
1994 11 8,08
1995 30 22,05
1996 12 8,82
1997 6 4,41
1998 16 11,76
1999 3 2,20
2000 2 1,46
2001 14 10,30
2002 11 8,08
2003 15 11,02
fev. 2004 1 0,73
Total 136 100,0

4.4 – Grau de concordância das apresentações analógicas com o modelo TWA
O resultado da análise das apresentações analógicas encontradas nos textos à luz do modelo TWA, encontra-se no Quadro 1, que mostra o grau de concordância delas com os passos propostos pelo modelo.
Tabela 1 – Grau de concordância das apresentações analógicas com os passos do modelo TWA

GRAU DE CONCORDÂNCIA
COM OS PASSOS DO
MODELO TWA

PASSOS

1

2

3

4

5

6

f

%

f

%

f

%

f

%

f

%

f

%

Contempla

129

95

134

98,5

34

25

22

16

2

1,5

78

57

Contempla parcialmente

3

2

1

0,75

17

12,5

31

23

4

3

5

4

Não contempla

4

3

1

0,75

85

62,5

83

61

130

95,5

53

39

Com base nos dados contidos na Tabela 1 vemos que:
• a expressiva maioria das apresentações analógicas seguem o passo 1 (95%) e o passo 2 (98,5%) do modelo (respectivamente, introduzir o conceito alvo e o conceito análogo);
• o passo 3 do modelo (identificar as características relevantes do análogo) é contemplado em apenas 25% das apresentações analógicas;
• o passo 4 é contemplado em apenas 16% e o passo 5 NÃO é contemplado em 95,5%. Isto mostra que a grande maioria das apresentações analógicas utilizadas não fazem uma discussão aprofundada dos elementos envolvidos nas relações analógicas, o que é preocupante, pois favorece a transferência de características que não são equivalentes de um domínio para o outro;
• a retomada final do alvo (passo 6) ocorre em um pouco mais da metade das apresentações analógicas (57%).
4.5 – Categorização das apresentações analógicas de acordo com os critérios propostos por Queiroz (2000)
Na categoria “analogias internas à própria área do conhecimento” proposta por Queiroz (2000), encontramos 29 apresentações, correspondendo a 21,5%, ou seja, 78,5% referem-se a análogos extraídos da vivência cotidiana das crianças. Levando-se em conta que para uma analogia funcionar bem o análogo deve ser familiar ao leitor, surpreendeu-nos que a publicação analisada, destinada a crianças, apresente aquele percentual, que, no caso nos parece bastante elevado.
4.6 – Categorização das apresentações analógicas de acordo com os critérios propostos por Curtis & Reigeluth (1984)
A tabela 3 apresenta as freqüências das apresentações analógicas nas diversas categorias e subcategorias de cada critério segundo Curtis & Reigeluth (1984).

Tabela 3 - Freqüência das apresentações analógicas de acordo com quatro das categorias propostas por Curtis & Reigeluth (1984)

Critérios

Classificação

Freqüência

f

n

%

Total/%

Relação analógica

Estrutural

48

136

35,0

100

Funcional

63

46,5

Estrutural-funcional

25

18,5

Formato da apresentação

Verbal

121

136

89,0

100

Pictórico-verbal

15

11,0

Posição do análogo em relação ao alvo

Antes

20

136

15,0

100

Durante

74

54,0

Depois

42

31,0

Nível de enriquecimento

Simples

108

136

79,5

100

Enriquecida

24

17,5

Estendida

04

3,0

De acordo com os dados presentes na Tabela 3, as freqüências das apresentações analógicas estruturais (35%) e funcionais (46,5%) são superiores à das apresentações analógicas estruturais/funcionais (18,5%). Acreditamos que as analogias estruturais/funcionais exploram mais os conceitos/fenômenos presentes nos textos, pois nelas existem mais relações a serem estabelecidas. Um exemplo representativo das apresentações analógicas estruturais/funcionais identificadas nos textos é reproduzido a seguir:
“As plantas têm um líquido chamado seiva, que é feito, em boa parte, por água. A seiva circula nas plantas assim como o sangue circula no nosso corpo, passando por dentro de tubos. Nos animais, esses tubos são as veias e artérias. Nas plantas, são os vasos condutores, que têm nomes engraçados: os vasos pelos quais a seiva sobe são chamados xilemas e aqueles pelos quais a seiva desce, floemas” (Esquibel, 1996).
Das 136 apresentações analógicas encontradas, 89% foram classificadas como verbais e somente 11% como pictóricas-verbais. Apesar da revista utilizar uma grande quantidade de imagens, poucos são os textos que as utilizam como constituintes de analogias.
Apesar de haver um predomínio de analogias apresentadas na forma verbal, estas, na maioria dos casos, restringem-se a uma simples descrição da situação tratada, ficando a cargo dos leitores o estabelecimento das devidas correspondências e identificação de limitações.
O uso mais freqüente de apresentações analógicas pictórico-verbais poderia estimular os leitores à “visualizarem” as analogias e conseqüentemente a estabelecerem relações analógicas favorecendo a compreensão das analogias. Porém, concordamos com Carneiro (1997) quando afirma que o uso excessivo de imagens não traduz por si só os conhecimentos.
Abaixo, reproduzimos, a título de exemplo, uma das apresentações analógicas pictórico-verbais mapeadas.

 

Figura 1 – Exemplo de analogia Pictórica-verbal (Pinto, 1999)

A tabela 3 evidencia que 15% das apresentações analógicas veiculam o análogo antes do conceito/fenômeno a ser tratado, 54% durante e 31% depois.
Quanto ao nível de enriquecimento, constatamos que 79,5% são analogias do tipo simples, 17,5% enriquecidas e somente 3% estendidas. Abaixo, reproduzimos um trecho de um texto, dos poucos que encontramos, no qual o autor utiliza uma analogia estendida.
“O tempo todo, nossos músculos estão trabalhando: quando levantamos da cama, quando colocamos a mochila nas costas, quando corremos atrás do ônibus, quando pulamos, quando chutamos uma bola - ufa! Deu até canseira! Ao se contraírem e relaxarem, os músculos botam nosso corpo em movimento! Para entender melhor como eles funcionam, vamos fazer uma comparação com um carro! O que um automóvel precisa para andar? Combustível, em primeiro lugar. Além disso: um motor, pneus e uma carroceria. Com o corpo humano é a mesma coisa. Quer dizer, quase. A final, ninguém bebe gasolina, nem tem uma carroceria no lugar das costas! O motor em nosso corpo são os músculos. O combustível para este motor é a energia que conseguimos a partir dos alimentos que comemos. Usando essa energia, os músculos entram em funcionamento. Os ossos, então, fazem o papel dos pneus e da carroceria, pois dão suporte aos músculos” (Pinto, 1999).
Este trecho também representa um bom exemplo de apresentação analógica que contempla boa parte dos passos do modelo TWA. A autora, além de introduzir a “situação alvo” a ser tratada (funcionamento dos músculos) e a “situação análoga” auxiliar (motor de um automóvel em movimento), explicita correspondências entre o análogo e o alvo, identifica limites de validade da analogia utilizada e esboça uma síntese conclusiva sobre a “situação alvo”, não reproduzida neste trecho, além de ser acompanhada de ilustrações do análogo.

5 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entre os 1.022 textos lidos, encontramos somente 88 que fazem uso de analogias, correspondendo a 8,5% do total, o que consideramos um baixo índice de utilização. Porém, devemos lembrar que não consideramos o número de páginas, ou seja, os textos diferem em extensão, alguns sendo mais sucintos e outros mais extensos.
No entanto, não podemos afirmar que o uso mais freqüente de analogias poderia tornar as explicações mais claras para as crianças, pois, de acordo com Massarani (1999), referindo-se a um artigo sobre a química da maionese escrito por Londres (1997), mesmo usando analogias e desenhos explicativos o assunto é bastante complicado.
O fato de não mapearmos nenhuma apresentação analógica nos textos que fazem referência a Lingüística nos é surpreendente, uma vez que analogias são figuras de linguagem.
Verificou-se que a grande maioria das apresentações analógicas utilizam análogos extraídos da vivência cotidiana das pessoas, o que era de se esperar.
De acordo com a análise do grau de concordância com o modelo TWA, pode-se inferir que a maioria dos autores não explicita as correspondências entre análogo e alvo nem identifica as limitações das analogias: das 136 apresentações analógicas catalogadas, em apenas 1,5% delas os autores identificam tais limites, propiciando, assim, que os leitores estabeleçam correspondências que não são equivalentes entre análogo e alvo. Este fato nos leva a crer que os autores não consideram relevante identificar os limites de validade das analogias, ou acham que tais limites são óbvios.
A partir dos resultados obtidos, podemos inferir que as analogias têm sido pouco exploradas, quanto ao seu potencial didático, deixando assim de contribuírem tanto quanto poderiam para a aprendizagem dos leitores.
Uma das contribuições deste trabalho diz respeito à avaliação de textos que fazem uso de analogias publicadas em revistas. Como a revista Ciência Hoje das Crianças tem sido utilizada pelos professores como material de apoio em aulas de ciências, eles, utilizando as contribuições do presente trabalho, podem avaliar quais textos necessitariam mais de suas contribuições pessoais para atenderem aos objetivos propostos, ao serem utilizados .
Há necessidade de novas pesquisas que investiguem a influência de textos que fazem uso de analogias na aprendizagem das crianças. Portanto, este trabalho pode ser um ponto de partida para novos estudos a serem realizados neste campo.


6 – Referências Bibliográficas

CARNEIRO, Maria Helena da Silva: (1997). ‘As imagens no livro didático’. In: Anais do I Encontro Nacional de Pesquisa em Ensino de Ciências, Águas de Lindóia/BRA: Instituto de Física da UFRGS. (CD-Rom).

CURTIS, Ruth V.; REIGELUTH, Charles M.: (1984). ‘The Use of Analogies in Written Text’. In: Instructional Science, v.13, p.99-117.

ENCARNAÇÃO, B.: (2001). ‘O relato de uma relação possível e de muito entusiasmo’. In: Ciência e Ambiente, n. 23, p.99-113.

ESQUIBEL, M. A.: (1996). ‘A água e as plantas’. In: Ciência Hoje das Crianças, ano 9, n.60, p. 8-10.

FERREIRA, M. de J. M.: (2001). ‘O uso da revista Ciência Hoje das Crianças em aulas de ciências e a produção de textos científicos’. In: Anais da 53ª Reunião Anual da SBPC, Salvador/BRA: Universidade Federal da Bahia. (CD-Rom)

HARRISON, Allan G.; TREAGUST, David F.: (1994). Analogies: avoid misconceptions with this sistematic approach. In: The Science Teacher, s.v., 40-43.
http://fairway.eer.purdue.edu/fre/asee/fie95/2b4/2b43/2b43.html

LONDRES, H.: (1996). ‘Maionese: emulsão também se come’. In: Ciência Hoje das Crianças, ano 9, n.61, p. 8-12.

MASSARANI, L.: (1997). ‘Científicos de manãna’. In: Asociación Venezolana Para el Avance de la Ciencia, n.35, p. 34-37.

MASSARANI, L.: (1999). ‘Textos Científicos para Crianças’. In: Almeida, Maria José P. M. de; Silva, Henrique César (Orgs.), Atas do II Congresso de Leitura do Brasil, p.61-73. Campinas/BRA: Unicamp.

MASSARANI, L.: (1999). ‘Reflexões sobre a divulgação científica para crianças’. In: Anais do XXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Rio de Janeiro/BRA, <http://www.intercom.org.br/paper/xxii-ci/gt11/11c04.PDF>. (Acesso em 13/02/2003).

MORA, A. M. S.: (1998). ‘La divulgación de la ciencia como literatura’. Ciudad de México: Universidad Autónoma de México.

PINTO, V. S.: (1999). ‘Eles têm a força’. In: Ciência Hoje das Crianças, ano 12, n.95, p.8-11.

QUEIROZ, Glória Regina Pessôa Campello: (2000). Professores artistas-reflexivos de física no ensino médio. Rio de Janeiro/BRA: Programa de Pós-Graduação em Educação, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. (Tese de Doutorado).

SOUSA, Guaracira Gouvêa; BARROS, Henrique Lins de: (2001). ‘Transformações do texto científico em texto de divulgação: o caso da Ciência Hoje das Crianças’. In: Anais do III Encontro Nacional de Pesquisa em Ensino de Ciências, Atibaia/BRA: Instituto de Física da UFRGS. (CD-Rom).

SOUSA, Guaracira Gouvêa: (2000). A divulgação científica para crianças. Rio de Janeiro/BRA: Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro. (Tese de Doutorado).

Anexo I

EXTRATO DE QUADRO-SÍNTESE DO LEVANTAMENTO DAS APRESENTAÇÕES ANALÓGICAS
IDENTIFICADAS NA REVISTA CIÊNCIA HOJE DAS CRIANÇAS

 

PERÍODO ANALISADO

Dezembro de 1986 a Fevereiro de 2004

Código da Apresentação Analógica

Autor(es)

Ano

Número

Data

Página(s)

Txt/Fig/Leg

Seção

Conceito/

Temática/

Assunto

Situação apresentada,

Sugerida ou

Subentendida

Situação análoga

ou analogia

utilizada

Relações analógicas

Pretendidas

CHC79

Carlos Fernando S. Andrade, Luciana Urbano dos Santos e Rejane Cristina Brassolatti

1998

N. 80

Maio

p. 20

Txt / Fig

A batalha contra os pernilongos Transmissão do vírus da dengue Um pernilongo pousando na pele de uma pessoa, retirando o sangue do seu organismo. Uma injeção para tirar sangue

Injeção / Pernilongo

Agulha / aparelho bucal do pernilongo

CHC92

Verônica Salerno Pinto

1999

N. 95

Setembro

p. 10 - 11

Txt / Fig

Eles têm a força Funcionamento dos músculos Os músculos de uma pessoa trabalhando Automóvel composto de um motor com combustível, pneus, e uma carroceria.

Automóvel / Corpo Humano

Motor / Músculos

Combustível / Energia dos alimentos

Pneus, carroceria / Ossos

 

Anexo II

 

EXTRATO DA TABELA DE ANÁLISE DAS ANALOGIAS IDENTIFICADAS NA
REVISTA CIÊNCIA HOJE DAS CRIANÇAS SEGUNDO O MODELO TWA

 

Escala qualitativa

 

(C) Contempla os passos do modelo

(P) Contempla parcialmente os passos do modelo

(NC) Não Contempla os passos do modelo

 

N. de Ordem

Código da Analogia

Ano

N.

Data

Página(s)

Passos

1

2

3

4

5

6

01

CHC01

Não informa

01

Não informa

Não informa

C

C

P

P

NC

NC

02

CHC02

Não informa

08

Não informa

Não informa

C

C

C

C

NC

C

03

CHC03

Não informa

10

Não informa

06

C

C

C

C

NC

C

04

CHC04

1990/1991

19

Dez/Jan

07

C

C

NC

P

NC

C

05

CHC05

1990/1991

19

Dez/Jan

10

C

C

NC

NC

NC

NC

06

CHC06

1990/1991

19

Dez/Jan

11

C

C

NC

NC

NC

NC

07

CHC07

1990/1991

19

Dez/Jan

11

C

C

NC

NC

NC

C

08

CHC08

1990/1991

19

Dez/Jan

11

C

C

NC

NC

NC

NC

09

CHC09

1990/1991

19

Dez/Jan

16

C

C

NC

NC

NC

C

10

CHC10

1990/1991

19

Dez/Jan

16

C

C

P

P

NC

C

11

CHC11

1990/1991

19

Dez/Jan

16

C

C

NC

NC

NC

NC

12

CHC12

1990/1991

19

Dez/Jan

16

C

C

P

P

NC

C

13

CHC13

1991

22

Jun/Jul

14 - 16

C

C

NC

NC

NC

C

14

CHC14

1992

28

Ago/Set

05

C

C

C

C

NC

NC

15

CHC15

1992

29

Out/Nov/Dez

03

C

C

NC

NC

NC

C

16

CHC16

1994

35

Jan/Fev

04 - 05

C

C

NC

P

NC

C

17

CHC17

1994

35

Jan/Fev

04 - 05

C

C

NC

P

NC

C

18

CHC18

1994

37

Abril

25

C

C

NC

NC

NC

C

19

CHC19

1994

39

Jun

04

C

C

NC

NC

NC

P

20

CHC20

1994

39

Junho

16

C

C

NC

NC

NC

C

21

CHC21

1994

39

Junho

25

C

C

NC

P

P

NC

22

CHC22

1994

39

Junho

25

C

C

NC

P

NC

NC

23

CHC23

1994

41

Ago/Set

03

NC

C

NC

P

NC

C

24

CHC24

1994

41

Ago/Set

13

C

C

NC

NC

NC

NC

25

CHC25

1994

42

Out

03

C

C

NC

NC

NC

P


 
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