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LEITURA E INTERLOCUÇÃO NA SALA DE AULA


Neusa dos Santos Tezzari - Universidade Federal de Rondônia/ UNIR - Universidade de São Paulo/ USP


Este trabalho, orientado pelo referencial teórico-metodológico da pesquisa etnográfica, utilizou, como principal instrumento de coleta de dados, a observação participante. Foram realizadas observações, no Ensino Fundamental, de aulas de Língua Portuguesa e de Técnicas de Redação, na cidade de Porto Velho, Rondônia, com o objetivo de compreender como se dão as situações de leitura, considerando-se os materiais veiculados em sala de aula, os modos como são lidos, quais as implicações deste modo de ler na constituição de alunos leitores.
Num primeiro momento, foram registradas, num diário de campo, as cenas observadas; a seguir, retomou-se o texto ampliando-o com as reflexões sobre o vivido e o sentido a respeito das cenas. A partir dois registros ampliados das falas das professoras, dos alunos e da equipe de apoio, com suas visões sobre as ações, as aulas e a escola, foi possível ampliar os saberes sobre a leitura que, de fato, se efetiva na sala da aula.
Dentre esses saberes, destacam-se: o suporte de prestígio da escrita que possibilita a leitura na sala de aula é o livro didático, na sua forma tradicional ou apresentado em outras formas (folhas mimeografadas, impressas ou xerocopiadas); predominam, como práticas comuns, a cópia de textos na lousa e da lousa, a oralização dos textos, a utilização dos textos como pretexto para o ensino de gramática e a produção de texto pela produção, desacompanhada de um assistência aos alunos.
As professoras observadas dedicam-se a seu modo, sentem-se desvalorizadas, reconhecem que não dão conta de realizar um trabalho com a leitura que propicie a constituição de alunos leitores, avaliam negativamente o seu próprio trabalho e têm muita dificuldade em acessar os materiais que elas consideram legítimos para a sala de aula.
Além da internalização de uma imagem negativa de si mesmas, elas interiorizam, também, uma imagem negativa de seus alunos, o que determina a natureza das relações que estabelecem.
Há uma imagem negativa também dos conteúdos da área da linguagem, cuja conseqüência é um tempo e um espaço cada vez menor para a leitura na sala de aula.
Na análise feita, foram identificados fatores que contribuem para a dificuldade da escola em constituir leitores, como a carência de materiais de leitura em variados suportes e em todas as possibilidades de manifestação da Língua Portuguesa, o espaço físico inóspito, a falta de verdadeiras salas de leitura e de verdadeiras bibliotecas e de investimentos para o futuro professor, na sua formação teórica e prática em leitura.
A despeito da importância das urgências citadas, há uma maior que não depende de investimentos financeiros nem d mudanças curriculares na graduação: a afetividade, que se traduz num conjunto de ações sutis, vindas no gestual, no tom de voz, no modo de estabelecer e manter a relação com os alunos, em que a leitura se faz presente, por meio da paixão do professor.

 
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