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  JOVENS CURIOSOS INDAGAM SOBRE O PORQUÊ DAS COISAS

Edith Chacon Theodoro - CRP

“A pedra fundamental é a curiosidade do ser humano.
É ela que me faz perguntar conhecer, atuar, mais-que-perguntar, re-conhecer”.
Paulo Freire

Tudo começou com uma sensibilização em sala de aula gerada após a leitura deste belíssimo conto de João Carrascoza publicado na revista Nova Escola.
Texto poético, filosófico que desperta mil reflexões e discussões. Daqueles que os professores gostam porque é interdisciplinar, intertextual etc e tal ... Ele serve para introduzir qualquer assunto. Magnífico para uma primeira semana de aula. É um dos meus coelhos tirados da cartola.
Conversa vai, conversa vem, entramos no tema da primeira unidade escolar: Lendas. E como “Todo texto é um mosaico de citações, todo texto é uma retomada de outros textos”(Julia Kristeva), partimos das curiosidades dos povos primitivos, que necessitavam explicar o inexplicável por meio das lendas, para as curiosidades dos alunos. A quantidade de perguntas foi imensa! É como se estivessem adormecidas aguardando um momento para explodir.
Alunos provocados e extremamente curiosos. Professora intrigada e encantada com a diversidade das perguntas:


Como a explosão do Big Bang foi originada? Um cego sabe o que é uma cor? Por que há vento? Como Deus nasceu? Por que estou aqui no mundo? Para onde vou depois de morrer? Por a chuva cai em gotas, e não tudo de uma vez? Por que a vida é justa com poucos e tão injusta com muitos? Será que existe inferno?

E agora? Como respondê-las? Que passos seguir? Professora e alunos movidos pelas mesmas necessidades. Busca de explicações, pesquisas, dúvidas, levantamento de hipóteses, muitas vozes, muita leitura, mais perguntas. Desejo desperto. Curiosidade aguçada pelo desejo de aprender e de ensinar.
Aulas mais dinâmicas, mais agitadas, mais instigantes. Brincou-se um pouco, poetou-se muito e a pesquisa científica marcou sua presença. Jovens nada apáticos, mas sim cientistas, filósofos e, principalmente, poetas em busca do segredo da vida.

ETAPAS:

1. Leitura do texto “O segredo do casco da tartaruga”.
Objetivos:
• ler para estabelecer relações com outros textos e/ou idéias;
• explorar o texto em busca de efeitos produzidos no leitor;
• despertar no aluno, a busca da curiosidade despertada pela “leitura” do texto;
• questionar o seu conhecimento e modificá-lo.

O ato de ler ativa uma série de ações na mente do leitor e por meio delas, ele extrai informações. Essas ações são denominadas estratégias de leitura. Na leitura do conto “O segredo do casco da tartaruga”, procuramos enfocar os seguintes procedimentos:
a) inferência
b) levantamento de hipóteses
c) leitura compartilhada
d) análise e discussão do texto
e) relações com outros aspectos do conhecimento
f) reconstrução do texto lido

Este texto provocou e despertou inúmeras discussões, pois cada leitor pôde entender sua mensagem de acordo com seus esquemas cognitivos e seu conhecimento de mundo. Ao final das discussões, uma pergunta lhes foi lançada :

Qual é a sua maior curiosidade? Elabore-a em forma de pergunta.

2. Elaboração de perguntas
Assim, como o garoto do texto, nossos alunos também manifestaram desejo de expressar suas curiosidades. Escreveram numa papeleta suas perguntas, que foram digitadas e compartilhadas por todos.

3. Levantamento de hipóteses (muitas vozes, palpites, sugestões,...) sobre algumas possíveis respostas.

4. Convite para a elaboração de uma pesquisa com o objetivo do aluno saciar a sua curiosidade.

5. Orientação para elaboração da pesquisa mais formal utilizando diferentes fontes:
• dicionário,
• livros,
• enciclopédias,
• internet,
• entrevistas com pessoas

6. Orientação acompanhada de roteiro e cronograma.

7. Ida à biblioteca da escola para complementação de dados.

Neste percurso, algumas dúvidas geraram um certo desconforto e outras perguntas surgiram: “Onde pesquisar?” “Não encontro a resposta para a minha pergunta.” “Não consigo encontrar minha resposta nesse livro!” “Achei a fonte, mas não consigo entender a resposta” “Posso mudar de pergunta?” “Quanto mais pesquiso, mais dúvidas tenho...”
Aqui, cada aluno teve uma reação diante dos obstáculos ou das facilidades encontradas.

Nesta etapa, a professora também se perguntava:
Como ajudá-los, se eu também não consigo sozinha atender a todas essas questões? Que livros ler, que teorias buscar? Como não desestimulá-los? Como “matar a curiosidade” sem matá-la literalmente? Como levar adiante um projeto que requer parcerias? Como não frustá-los? Será que a busca de respostas é sempre uma busca prazerosa? Posso dar liberdade para, aqueles que assim o desejarem, parem no meio do processo?
Só sei que nada sei, mas como quero saber! Aqui, vai um agradecimento especial às bibliotecárias sempre presentes, quer na localização da fonte, quer na localização das possíveis respostas.

8. Leituras, registros, sínteses.

Esta é uma etapa-chave para o desenrolar do projeto. As dúvidas aumentam. Cada um segue um percurso. Há alunos que vão além da pesquisa, há outros que ficam satisfeitos com a resposta encontrada, outros não e não querem mais continuar, outros não ficam satisfeitos e essa inquietação não os paralisa, ao contrário, vão em frente, pedem ajuda e querem respostas para suas indagações. Outros elaboram outras perguntas, porque querem participar do projeto. E assim as investigações continuam...

A professora sente necessidade de parcerias, briga com o tempo, pois tem outras frentes de trabalho, sabe da importância desse e de outros projetos em andamento. Intercala as atividades, volta ao cronograma com eles, reavalia e replaneja com eles. [...]

9. Organização dos registros do material coletado.

10. Atividades paralelas para que os alunos se apropriem da frase-resumo, do resumo e da paráfrase.

11.Síntese das leituras, em forma de resumo. Aqui, o aluno teve a liberdade de escolher se o seu texto seria informativo científico, ou literário.

12.Leitura das sínteses pela professora para encaminhamentos, tais como: revisões, novas leituras em outras fontes para melhoria do texto, refacções, e/ou outros procedimentos.

13.Entrevistas com alguns professores do colégio.

14.Troca de textos entre os colegas da classe, não só com o objetivo de compartilhar conhecimento, como também o de revisar os textos, não perdendo de vista o compromisso com o leitor.

15. Seleção das perguntas para a elaboração do livro (Em equipe).

Cada aluno fez sua pesquisa, discutiu-a em grupo e cada grupo selecionou quais perguntas deveriam fazer parte do livro “O porquê das coisas e as curiosidades das 6ª /2002.” Este trabalho foi entregue juntamente com um disquete para que pudesse ser transformado, posteriormente, em um livro para ser doado à Biblioteca da escola.

16. Revisão e digitação da 1ª versão do livro ( elaboradas pelas 6ªs /2002)

Cada aluno recebeu uma cópia desse material para que todos tivessem conhecimento das respostas, para uma futura publicação.
Nesse período tivemos a agradável surpresa de ver nosso projeto citado no artigo “Perguntas de criança” escrito por Rubem Alves, no caderno “SINAPSE” publicado pela Folha de São Paulo, em 24/9/2002.

17.Paralelamente a esse projeto, as perguntas continuaram, só que, agora, mais centradas na adolescência. Estabeleceu-se uma parceria com o Prof. de Ciências, que além de responder algumas das questões, trouxe um médico, especialista, que respondeu outras perguntas.

Obs. Final de ano. O projeto “O porquê das coisas” foi temporariamente “adormecido”, interrompido por outras propostas de trabalho, pois os alunos das 6ªs séries seguintes (2003 e 2004), embora tenham lido o texto “O segredo do casco da tartaruga”, não manifestaram desejo de continuar esse projeto, indo por outro caminho – o fascinante e mágico mundo das lendas e dos mitos.
Escreveram um livro ilustrado de lendas indígenas, elaboraram um jogo da memória e um dicionário sobre a mitologia grega.
Os objetivos iniciais foram mantidos. Pesquisaram, leram e escreveram muito. O enfoque da busca e da curiosidade é que foi outro.

18.Retomada do projeto em 2005.
Leitura e revisão da 1ª versão do livro elaborado pelas 6ªs/2002 pelos alunos das 6ª/2005, após passarem pelas mesmas três primeiras etapas citadas anteriormente.

Os alunos das 6ªs/2005, saborearam não só as perguntas, como também as respostas dadas pelos colegas das 6ªs/2002. E foram convidados a desempenhar o papel do revisor. Alguns tiveram dificuldade para executar a revisão, mas outros tiveram olhos de “lince” de tão minuciosos que foram.

19.Revisão e digitação da 2ª versão do livro “O porquê das coisas e as curiosidades das 6ªs séries/2002”.

20.Discussão sobre a formatação do livro, aproveitamento de algumas ilustrações elaboradas em 2002 e criação de novas por alunos das 6ªs/2005.

21.Desejo, por parte dos alunos, em dar continuidade ao projeto e elaborar o 2º volume do livro “O porquê das coisas”.

22. Intercâmbio com alunos de uma escola do município de Dirceu Arcoverde, no Piauí, que conhecedores deste projeto também elaboraram as suas perguntas e nos enviaram para futuras trocas de saberes.

“POSSÍVEIS” RESPOSTAS

“A curiosidade é imprescindível, porque nós não crescemos
de resposta em resposta, mas de pergunta a pergunta.”
Anônimo

Para mim, o mais importante neste projeto, não era encontrar a resposta “certa”, escrita da melhor forma didática e/ou científica. O mais importante foi constatar o quanto a curiosidade motiva, provoca, desperta interesse.
O mais importante foi:

• perceber que os alunos buscavam outras soluções para as perguntas sem respostas;
• perceber que a curiosidade é a base para a busca do conhecimento, para aprender, para desenvolver a criatividade, para estimular a capacidade investigativa tão necessários para exercitar o pensar;
• perceber que o papel do pesquisador, do leitor, do revisor e do escritor estavam sendo intensamente trabalhados e significativamente presentes;
• e, principalmente, perceber que eu era tão “aprendente” e curiosa quanto eles.

A curiosidade gera prazer de aprender. Conforme citação da Drª Britta Bürger, “A curiosidade e o desenvolvimento da inteligência de uma criança são incentivados quando se dá atenção às suas perguntas. Por isso se recomenda aos pedagogos que se empenhem por não sufocar este impulso nas crianças”, já que é na escola que a curiosidade deve ser incentivada, aprendida e cultivada.
Não que seja fácil, na verdade é bem trabalhoso! Requer “escutas”, parcerias, rompimentos de estruturas e humildade para aceitar os erros.
O educador, filósofo e sociólogo Hugo Assmann faz a seguinte pergunta em seu livro Curiosidade e Prazer de Aprender: “Como evitar que a curiosidade deixe de ser vista como ameaça, digressão que desvia a atenção daquilo que o professor julga, naquele momento, o assunto importante?”
E busco em Paulo Freire uma das alternativas para essa indagação: “Quem inibe a curiosidade do educando sempre acaba tolhendo também a própria curiosidade[...]Nenhuma curiosidade se sustenta eticamente no exercício da negação da outra curiosidade.[...] Como professor devo saber que sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino (1996.p.85).
Ensinar a pensar com qualidade, talvez seja um dos caminhos para que nossos jovens não sejam mudos nem telepáticos tendo vez e força na voz.
Aprender a perguntar, talvez seja um dos caminhos para que os jovens não se sintam intimidados e busquem respostas para tantas impunidades e injustiças.
Aprender e ensinar, provocar, inquietar e despertar curiosidade são exercícios para a busca do conhecimento e do desejo pelas descobertas.

 
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