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  IDENTIDADES ALFABETIZANDAS: HISTÓRIAS CRUZADAS

Iole Maria Faviero Trindade - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Introdução

Mesmo sabendo o quanto poderá haver de reconstrução da identidade narrativa no jogo de interpretações que se possa fazer hoje da diversidade de trajetórias que se cruzaram e se cruzam na formação de alfabetizandoras e alfabetizandos/as, nos propusemos a narrar suas histórias de alfabetização e algumas práticas relacionadas a elas. Para tanto, contamos com narrativas de professoras que atuaram como alfabetizadoras e de alunos/as sobre suas alfabetizadoras, cartilhas e métodos de alfabetização, experienciadas por ambos os grupos até a década de 60, no Estado do Rio Grande do Sul.
Para a realização deste estudo, nos valemos de campos como os Estudos Culturais, os estudos pós-modernos e os estudos pós-estruturalistas, fazendo uso de análises culturais, com base no exame de dados “recolhidos” através de entrevistas e de documentos alcançados pelos/as entrevistados/as ou vasculhados a partir de seus comentários. Ou seja, este estudo nos exigiu a realização de análise textual de discursos circulantes e investigações contextualizadoras com aqueles/as que se dispuseram a nos contar suas experiências de alfabetização.
Este estudo se afina com o campo dos Estudos Culturais pela característica de os mesmos serem ativa e agressivamente antidisciplinares, isto é, não se sujeitarem a uma prática científica moderna de pesquisa (Nelson; Treichler e Grossberg, 1995). Ao eleger esse campo de conhecimento para realizar uma análise cultural de histórias de alfabetização, compartilhamos o entendimento de que: “Os Estudos Culturais se aproveitam de quaisquer campos que forem necessários para produzir o conhecimento exigido por um projeto particular”. (Nelson, Treichler e Grossberg (1995, p. 9), sendo que os estudos produzidos sob a ótica de tal campo “têm sido vistos como uma espécie de processo, uma alquimia para produzir conhecimento útil sobre o amplo domínio da cultura humana”.
Afina-se, também, com o campo dos estudos pós-modernos por estes permitirem colocar em dúvida a soberania do sujeito da Modernidade, passando a vê-lo descentrado, sem uma identidade fixa e estável (Hall, 1998). O sujeito moderno deixa de pensar, falar e produzir, passando a ser pensado, falado e produzido (Silva, 1999) pela linguagem.
Afina-se, ainda, ao campo dos estudos pós-estruturalistas, pela centralidade dada à linguagem, ao enfatizar a análise de discursos e de textos (Silva, 1999). Para este campo do conhecimento, o sujeito também é um produto significado social e culturalmente. Tal significação é fluída e incerta, pois não existe uma verdade única, mas verdades que foram construídas “cientificamente”. O pós-estruturalismo, ao transformar verdades em crenças, nos dá ferramentas para examinar o pensamento moderno que escolarizou e “cientifizou” a alfabetização, formação e atuação docente. Silva (1999, p. 123-124) observa que uma perspectiva pós-estruturalista, ao desconfiar das definições filosóficas de “verdade”, passa a “privilegiar o processo pelo qual algo é considerado verdade”. Pensamos que a busca de entendimento de “verdades” que permeiam as práticas discursivas de alfabetização, escolarização e formação docente pode levar à discussão de como tais práticas se constituem e do quanto “somos produzidos [nessas práticas] da forma que somos e nos tornamos às pessoas que somos, reguladas como são, essas práticas, no[s] discurso[s] e através das verdades” (Walkerdine, 1995, p. 220). Verdades que podemos defender ou não e que funcionam como regimes de verdade, pois estão circularmente ligadas a sistemas de poder (Gore, 1994). Isto é: a verdade existe numa relação de poder e o poder opera em conexão com a verdade. Assim, se o poder e a verdade estão ligados numa relação circular, todos os discursos podem ser vistos como regimes de verdade.


1 Primeiras questões


Inspirando-nos em discussão estabelecida por Louro (1990) sobre o valor que devemos dar às narrativas, diversas questões foram formuladas tendo por referência os objetivos iniciais deste estudo, que traduzo aqui em perguntas orientadoras para a realização de cada uma das 30 entrevistas. Estas são apresentadas em uma linguagem acessível, privilegiando aspectos referentes à especificidade da ação docente durante o processo de alfabetização e escolarização inicial:

O que a professora fazia em aula?
O que os alunos faziam?
O que liam?
Como liam? (se a leitura era em conjunto, em voz alta, silenciosa...)
Quando começavam a escrever?
Liam primeiro ou liam e escreviam?
O que escreviam?
Onde escreviam? Usavam a ardósia antes do caderno? Quando usavam o caderno? Tinham um lápis especial para a ardósia? Como era?
Como escreviam? Tinham que fazer cópia? Caligrafia?
Com que idade foram à escola?
Como era o uniforme? O horário? O recreio?
Cantavam o Hino Nacional? E outros hinos?
Havia festas?
Havia provas de final de ano? Como era feita? Alguém acompanhava, além da professora? Como eram avaliados?
Que língua falava a professora em aula? O português? Outra língua? As crianças falavam o português? Como a professora administrava o uso do português ou de outra língua em sala de aula?
Quem organizava as classes da sala de aula? Em que disposição estavam?
Em uma mesma turma havia várias séries? As turmas eram multisseriadas?
Os alunos tinham tempo para realizarem suas tarefas? Era o mesmo tempo para todos?
O que acontecia com aqueles alunos que não realizavam suas tarefas no tempo previsto?
O material era o mesmo para todos os alunos?

Tal conjunto de questões possibilitou construir uma história da alfabetização, localizada no Estado do Rio Grande do Sul, em período bastante extenso, de 1890 a 1960, envolvendo como co-autoras as pessoas entrevistadas e bolsistas que colaboraram na realização desta pesquisa. Em estudo anterior (Trindade, 2001; 2004), já contáramos uma história de alfabetização através da análise de cartilhas e outros documentos relacionados à alfabetização, examinando, então, um período bastante específico – a Primeira República – no nosso Estado.
Buscamos, agora, compreender a forma como as/os alfabetizadoras/es organizavam suas aulas e atendiam seus/suas alunos/as; que expectativas de alfabetização orientavam suas ações; o que ensinavam e como; que relações estabeleciam com os/as alunos/as e as famílias e as comunidades onde lecionavam; o que os/as alunos/as e seus familiares consideravam importante aprender em diferentes épocas e contextos. Isto é: o que lembram todos/as esses/as personagens de sua própria alfabetização e/ou formação e atuação docente e como nos narram tais histórias.

2 Apresentando alfabetizandos/as e alfabetizadoras

Para a apresentação de nossos/as entrevistados/as valho-me de narrativas. Meurer (1998) observa que as narrativas podem funcionar de maneira contextualizadora e como ilustração para a argumentação, já que elas servem para criar um cenário que auxilia a dar início à análise, às generalizações e ao exame da situação retratada. Temos assim o caráter construído das narrativas, em que as vozes da pesquisadora e dos/das entrevistados/as, na interlocução com a literatura acadêmica e didática, constituem uma história da alfabetização pela intertextualidade e interdiscursividade de seus textos. Identificamos, a seguir, cada depoente por uma ou mais letras do seu nome, resguardando, assim, sua identidade. Observo também que a idade indicada é a do momento da entrevista, entre os anos de 2002 e 2004. No caso de alfabetizandos/as e alfabetizadoras, a biografia de cada um/a deles/as, destaca a escolarização inicial, especialmente, no primeiro ano da Escola Elementar ou no Primário e a formação docente na Escola Complementar ou no Normal e em Curso Superior de Graduação e Pós-graduação. A atuação profisssional também será apresentada, quando se tratar de entrevistados/as que atuaram no magistério, como alfabetizadoras ou na formação docente ou, ainda, em funções e cargos relacionados à educação.
Início pela apresentação daquelas que atuaram como alfabetizadoras no início da carreira, em parte dela ou em quase todo o período que exerceram o magistério:
M. H. (falecida) nasceu no município de Taquari, em 1892. Estudou no Colégio Santo Antônio, das Irmãs Franciscanas, em Estrela, onde viveu quase toda sua vida, lecionando nesse município até se aposentar. Por seus méritos como educadora, recebeu uma homenagem em 1985, tendo seu nome agraciado à rua onde residiu em Estrela. Sua história nos é narrada por seu filho Lo..
L.P. (falecida) nasceu em 1900, em Santa Vitória do Palmar. Alfabetizou-se no município de Itaqui. Fez a Escola Complementar, em Porto Alegre, concluindo-a em 1924. Trabalhou no Félix da Cunha, em Pelotas, de 1925 a 1939, por 15 anos, e, após, na Delegacia de Ensino por 18 anos, completando, então, 30 anos de serviço. Quem nos conta sua história é ela própria em entrevista realizada por sua neta e que nos foi cedida para uso nesta pesquisa.
M. M., com 92 anos de idade, nasceu em 1911, em Uruguaiana. Aprendeu a ler e a escrever aos sete anos, em um colégio de freiras. Terminou a Escola Complementar em 1931, fazendo, após, um Curso de Aperfeiçoamento, entre os anos de 1932 e 1933. Voltou para Alegrete, sendo nomeada em 1934. Trabalhou em Alegrete e em Santana do Livramento, antes de vir definitivamente para Porto Alegre, onde trabalhou na Escola Osvaldo Aranha e no Instituto de Educação General Flores da Cunha, a partir de 1942, até sua aposentadoria, em 1965.
M. S., com 75 anos de idade, nasceu em Alegrete, em 1927, vindo, em seguida, morar em Porto Alegre. Alfabetizou-se no Grupo Escolar Três de Outubro. Fez o Normal no Instituto de Educação, quando este já estava localizado na Osvaldo Aranha, em 1941. Trabalhou em um supletivo, na Escola Euclides da Cunha. Foi nomeada em 1949, indo trabalhar na Linha Imperial, em um distrito de Gramado. Voltou para Porto Alegre, em 1950, e lecionou no Três de Outubro e no Grupo Escolar Vera Cruz. Trabalhou no magistério por 30 anos dentro da sala de aula.
F., com 76 anos de idade, nasceu em Taquari, em 1928. Estudou Colégio Pereira Coruja, em Taquari. Freqüentou a Escola Complementar de Lajeado, morando, nesse período, no internato da Escola Normal Madre Bárbara. Após terminar a Escola Complementar, veio para Porto Alegre, passando a atuar como professora substituta no Grupo Escolar Rio de Janeiro. Nomeada, voltou a trabalhar em Taquari, no Grupo Escolar Pereira de Souza, no lugarejo de Paverama, hoje município emancipado. Transferida para Flores da Cunha e, posteriormente, para Porto Alegre, aposentou-se com 32 anos de serviço, na Escola Argentina.
I., com 72 anos de idade, nasceu em 1930, em Uruguaiana. Freqüentou a Escola Nossa Senhora do Horto. Terminou o Curso Normal em 1949. Foi nomeada em 1950 e trabalhou em diversos lugarejos e municípios. A partir de 1960, passou a trabalhar na Escola Normal Elisa Ferrari Valls e, após, na Delegacia de Ensino, até 1974, em Uruguaiana. Fez o Curso de Pedagogia, na Faculdade de Ciências e Letras de Uruguaiana. A partir de 1975, foi transferida para a Secretaria de Educação, em Porto Alegre. Fez uma especialização em Avaliação Educacional na Fundação de Recursos Humanos, concluindo-a em 1980. Aposentou-se em 1983, com 23 anos de regência de classe, dos 33 anos de exercício do magistério.
D., com 74 anos de idade, nasceu em São Jerônimo, em 1932. A sua alfabetização teve início em Cachoeira. Morou em Santa Maria, antes de vir para Porto Alegre. Entrou para o Normal, no Instituto de Educação, em 1951. Trabalhou em um dos Anexo do Instituto de Educação, de 1952 a 1963, sempre com o primeiro ano, à exceção de um semestre e de quando entrou na escola, que assumiu o único Jardim existente à época no Instituto. Atuou como orientadora de 1959 a 1963 e ingressou na Pedagogia em 1964. Trabalhou por mais dois anos como coordenadora pedagógica e a coordenadora geral da escola, afastando-se do cargo em 1971. Depois disso, fez alguns trabalhos na PUC e, em 1981, se aposentou.
L.B., com 73 anos de idade, nasceu em 1933, em Porto Alegre. Fez o Primário no Grupo Escolar Inácio Montagna e no D. Pedro II. Fez o Ginásio no Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho e, o Curso Normal, no Instituto de Educação. Nomeada, atuou no Grupo Escolar General Osório, no município de Osório, no Colégio Setembrina, em Viamão, e no Grupo Escolar São Simão, em Porto Alegre, que passou a ser nomeado de Grupo Escolar Fernando Gomes. Antes de ir para o anexo da José Bonifácio, do Instituto de Educação, atuou na escola anexa Pedro Tocheto. Fez o Curso de Pedagogia na PUCRS. Com a titulação, passou a atuar como supervisora do Instituto até aposentar-se com 28 anos de classe.
Ro., com 58 anos de idade, nasceu em 1945, em Porto Alegre. Entrou no Jardim de Infância com quatro ou cinco anos. Iniciou sua escolarização na Escola Apeles Porto Alegre. Continuou da 2ª até a 4ª série na escola particular Mãe de Deus. Concluiu a 5ª série do Primário e cursou o Ginásio no Colégio Estadual Padre Réus. Fez o magistério em Guaíba, na Escola Normal Gomes Jardim, terminando o curso em 1965. Trabalhou, após, por três anos, em uma escola especial. Nesse meio tempo, começou a trabalhar no Estado, na Escola Estadual Landel de Moura, Ao sair a nomeação foi para a Escola Otávio Mangabeira, retornando, após, ao Landel de Moura, entre 83, 84. Nesse período, começou a fazer o Curso de Pedagogia, na FAPA, trocando, após, pelo de História. Trabalhou preferencialmente em 1ª série.
B., com 56 anos de idade, nasceu em 1948, em Novo Hamburgo. Entrou na escola aos seis anos e estudou do pré a 5ª série no Colégio São Luís, da Congregação de Santa Catarina. Fez o Normal na mesma escola em que freqüentou o ginásio. Em março de 1967, começou uma experiência docente em uma 1ª série do município e, em agosto fez o estágio da Escola Normal, em uma escola da mesma congregação. Formou-se em dezembro de 1968. Cursou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em Novo Hamburgo. A partir de 1970, começou a trabalhar com as escolas de magistério. Ao término do Curso de Pedagogia, em 1971, foi contratada pela Delegacia de Ensino de Novo Hamburgo. Fez o mestrado na Califórnia. Ao voltar, prestou concurso na UFRGS, trabalhando na Faculdade de Educação, de 1985 a 1995, quando se aposentou. Nesse meio tempo fez o Curso de Doutorado em Educação na UFRGS.
Embora, muitas dessas professoras entrevistadas tenham vivido ou vivam hoje em Porto Alegre, muitas delas nasceram e viveram a infância no interior do Estado, vindo para Porto Alegre para fazer a antiga escola complementar, distrital ou o normal. Tal escola, desde sua instituição, em 1896, passou por inúmeras re-organizações, mudança de prédio até a construção de prédio novo, mudando da Duque de Caxias para a Osvaldo Aranha (1937) e chegando a denominação atual, de Instituto de Educação General Flores da Cunha (1957). A influência do Instituto de Educação não se restringirá à formação docente, incluindo também uma formação continuada junto às professoras da escola e m parceria com o Centro de Pesquisas e Orientações Educacionais (CPOE), da Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul (SEC/RS). A entrada em cursos superiores influiu também na formação docente, qualificando-a.
Assim, já na década de 1940, a escola experimental da Escola Normal General Flores da Cunha, estruturada em maternal, jardim, primário, passa a ser o posto mais alto que um professor primário poderia aspirar na carreira do magistério do estado gaúcho. O CPOE, criado em 1942, ligado ao Departamento de Educação Primária e Normal da SEC/RS, organizava cursos periódicos para os professores em exercício com vistas a resolver o problema do analfabetismo, que se colocava à época como alvo de preocupação dos governos estaduais e federal. Louro (1976) assinala a possibilidade de as professoras ingressarem em certos cursos superiores, esclarecendo que esta formação passa a ocorrer através da Faculdade de Filosofia, com pedagogia, letras, geografia e história, em 1939, com a extensão da matrícula a todos os demais cursos das Faculdades de Filosofia, somente em 1946.
Passo, agora, a apresentação dos/das alfabetizados/as, observando que as alfabetizadoras, apresentadas antes, também ocupam tal posição quando nos contam a sua própria alfabetização:
Lo., com 87 anos de idade, nasceu em 1915, e foi aluno de sua mãe, M. H., no primeiro ano. Diplomou-se em Línguas Neolatinas em 1951, na UFRGS. A partir de 1953 foi professor de Língua e Literatura Espanhola na Faculdade de Filosofia desta mesma Universidade até a sua aposentadoria. Dedica-se ao estudo de temas sul-riograndenses.
N, com 79 anos de idade, nasceu em 1923, em Bom Retiro do Sul. Conhece a história de Lo. e de M.H., respectivamente, esposo e sogra. Fez os sete anos da escola elementar, sendo suas narrativas preferencialmente dessa escolarização inicial.
V., com 63 anos de idade, nasceu em 1940. Estudou no Instituto de Educação General Flores da Cunha, desde o Jardim da Infância, com cerca de quatro anos e meio. Com o término do Normal, lecionou no Anexo do Instituto de Educação. Fez, após, o Curso de Pedagogia na UFRGS. Usufruiu de bolsas de estudos, na Université de Paris, Sorbonne, na Escola Decroly, em um colóquio com Carl Rogers, na França, além de conhecer Summerhill, na Inglaterra. Teve aulas de ensino programado, uma novidade na época. Foi da primeira turma do mestrado e da primeira turma de doutorado da Faculdade de Educação da UFRGS. Atuou no Departamento de Ensino e Currículo, da Faculdade de Educação, e na direção no Colégio de Aplicação. Aposentou-se de forma mais definitiva, em 1996.
S., com 61 anos de idade, nasceu em 1941, na localidade de Potreiro Velho, distrito de Tainha, em São Francisco de Paula. Iniciou a primeira série com sete anos e meio, em 1949, em uma aula municipal. Iniciou o Curso Normal em 1958, no Colégio São José, em Caxias, das irmãs Notre Dame, concluindo em 1960. Lecionou no Grupo Escolar Benito de Souza, até 1967. Fez a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, ente 1967 e 1970. Na época da faculdade, lecionou de manhã nas irmãs em São Francisco e, à tarde no Grupo Escolar próximo de sua casa, indo, à noite, para a faculdade. A partir de 1979, começou a dar aula de Psicologia a Escola Normal José de Alencar. Trabalhou na Delegacia de Educação, em Taquara até se aposentar e fazer novo concurso, sendo nomeada pelo Estado para atuar em Parobé, a partir de 1990.
An., com 59 anos de idade, nasceu em 1944, no município de Alegrete. Estudou no Colégio Divino Coração. Fez o magistério e uma licenciatura em Estudos Sociais, sem deixar de lecionar no currículo por atividades. Destacou em seu relato, as lembranças de sua alfabetização, restringindo-se a ela.
M. L., com 58 anos de idade, nasceu em 1945. Estudou no Sévigné até o Colegial. Ficou uns três meses no pré-primário e, após, passou o primeiro ano. Fez dois cursos universitários paralelos: o de Biologia e o de música-piano. Fez o estágio no Colégio Aplicação, sendo convidada para trabalhar como professora. Passou a atuar como professora do Estado, no Inácio Montanha e, como professora contratada do Colégio de Aplicação, entre 1968 e 1973. Trabalhou no Ciclo Básico, iniciado em 1972, na UFRGS, como professora de Introdução da Metodologia da Pesquisa Científica. Deu aula de Citologia no curso de História Natural. Continuou no Aplicação até 1980. Trabalhou no Departamento de Ensino e Currículo da Faculdade de Educação, até a aposentadoria, em 1995, na UFRGS. Continua atuando como professora colaboradora convidada, no Programa de Pós-Graduação em Educação.
Au., com 58 anos de idade, nasceu em Mariano Moro, em 1946. Estudou em uma escola municipal até a 4ª. Seguiu a educação religiosa aos 10, 11 anos. Continuou o ginásio e científico no seminário de Erechim. Depois do científico, fez vestibular para o curso de Filosofia, na Faculdade de Viamão, entre 67 e 68. Em 68, pediu transferência para o curso de Filosofia da UFRGS, concluindo em 1970. Fez o curso de Pedagogia, habilitação em supervisão, na UFRGS. Desde de 1974, começou a trabalhar como supervisor em Campo Bom, depois em Alvorada, Viamão e Porto Alegre. Fez o Mestrado em Educação, na PUC. Em 1981, começou a trabalhar na Faculdade La Salle, em Canoas, concomitante ao magistério estadual do qual se aposentou em 1995. Atua no Conselho Estadual de Educação e, como docente, na PUCRS desde 1987 e, na FAPA, desde 1994.
M.K., com 56 anos de idade, nasceu em 1947, em Três Passos, e entrou, em 1954, na única escola municipal existente no município. Permaneceu no internato, em Três Passos, no Colégio Espírito Santo, na época, uma escola particular consagrada, até terminar o Normal. Depois, para ser concursada pelo Estado, esse Normal já não era mais aceito. Estudou mais dois anos para poder ter o título de normalista, fazer o concurso e ser nomeada pelo Estado. Inicialmente, trabalhou um ano e meio pelo município sem ser nomeada. Em seguida, trabalhou no Estado por um ano, sendo efetivada posteriormente, mas eu só pode fazer o concurso após nove anos. Aposentou-se em 1993. Fez, entre 2000 e 2004, o Curso de Pedagogia, habilitação Séries Iniciais, na UFGRS.
H., com 56 anos de idade, nasceu em 1947 na cidade de Porto Alegre. Antes de entrar para o Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, freqüentou uma casa que lembrava uma creche. Estudou no Bom Conselho desde a 1ª série até o Científico. Após, cursou a Escola de Enfermagem, na UFRGS. Fez Mestrado e Doutorado em Educação, na UFRGS.
Ru., com 54 anos de idade, nasceu em Areia, no interior de Rolante, em 1949. Em 1957, ingressou no 1º ano do Grupo Escolar Frei Miguelinho, na cidade de Rolante. No ano seguinte, em 1958, passou para a escola da comunidade evangélica Lar Juvenil, que depois passou a ser Escola de Ivoti e hoje é um Instituto Superior de Educação. Permaneceu nessa escola até o 5 º ano, em 1962. Foi convidado para cursar a Escola Normal Evangélica de São Leopoldo, onde concluí o Ginásio Normal, em 1967. Depois da conclusão do Ginásio, interrompeu os estudos por um ano, retornando após para o estágio de meio ano, o qual o diplomou como Regente de Ensino, em 1969. Depois do estágio, lecionou durante um ano e meio. Passado esse tempo, seguiu em outra profissão. Cursa Ciências Sociais na UFRGS.
E., com 47 anos, nasceu em 1956, em Camaquã. Entrou com 7 anos, na 1ª série do Colégio Nossa Senhora do Sagrado Coração de Jesus, no ano de 1963. Relata de forma mais detalhada como foi a sua alfabetização, detendo-se na descrição dessa fase.
M. C., com 44 anos, nasceu em 1960, na cidade de Porto Alegre. Estudou na Escola Estadual de 1º Grau Agrônomo Pedro Pereira, aos sete anos, diretamente na primeira série. Estudou nessa escola até a 5ª série. A partir da sexta série continuou sua escolarização em uma outra escola. Optou pelo curso secundário, não chegando a fazer magistério, tampouco faculdade. Trabalha na Biblioteca da FACED/UFRGS.
Assim como em relação as suas professoras, observamos que muitos/as dos/das entrevistados/as posicionados na pesquisa como alfabetizandos/as se alfabetizaram no interior do nosso Estado. Diferentemente delas, os/as alfabetizandos/as tiveram a oportunidade de aprofundar seus estudos em cursos de graduação e pós-graduação. Formaram-se, em sua maioria, professores/as, se diferençando das alfabetizadoras por não terem se dedicado à alfabetização e a formação de alfabetizadoras. Com uma formação e atuação ampliada e mais recente, nos apresentam o contexto educacional.

3 Histórias cruzadas

À medida que colocamos as entrevistas realizadas em uma ordem cronológica, estas deram visibilidade a trajetórias que se cruzaram, como a de uma aluna-mestra, Olga Acauan, que se tornou autora didática, professora da Escola Complementar e, posteriormente, Diretora de Instrução Pública do Estado do Rio Grande do Sul. Sua história se cruza com a de alfabetização, formação e atuação de algumas das entrevistadas, sendo esta personalidade pública gaúcha lembrada pelas entrevistadas, em virtude das orientações recebidas dessa professora da Escola Complementar quanto uso da Cartilha maternal ou do primeiro livro Queres ler? ou de sua atuação como Diretora de Instrução.

A Dona Olga era professora de Pedagogia. Ela que ensinava o método João de Deus, da Cartilha maternal. Primeiro, ela dava aula. Depois, na próxima aula, uma aluna dava aula – o que ela tinha dado – para ver como dava. Fazíamos estágio na própria Escola Complementar. Após, íamos dar aula para alunos pequenos. Dávamos aula como ela queria, não inventávamos uma outra forma. Assim, no último ano, ela levava as alunas para darem aula no curso primário, anexo à Escola Complementar. (L.P.)

Nessa preparação para ser professora, eu também tinha aulas de Pedagogia. As professoras ensinavam como devíamos proceder para dar aula. O livro usado era o primeiro livro Queres ler?, feito pela professora Olga Acauan e Branca Diva Pereira de Souza. A Olga Acaun também foi minha professora de pedagogia. Já na primeira aula de alfabetização, ela me chamou: “Mathilde, tu vais dar a aula!”. Eu não tinha preparado nada. Era a lição da letra “D”! A lição do “Dedo”, do primeiro livro Queres ler?. Ela levara um grupo de crianças para a sala onde estávamos todas reunidas. Comecei do meu modo e não houve nenhum percalço. Quando terminou, eu fui me sentar. Ela disse: “Bem, agora eu quero saber o que é que vocês acharam da aula da Mathilde?”. Uma aluna falou: “Ah, eu achei formidável!”.Ela continuou, então, perguntando: “E tu fulana, o que achaste?” - “Ah, eu achei maravilhosa”. Com isso, ela perdeu a paciência e disse assim: “Pois fiquem sabendo que não foi nada boa, porque ela não seguiu os passos da lição”. (M.M.)

Eu viajava muito pouco. Viajei mais quando a Dona Olga Acauan foi fazer uma viagem para o exterior. Ela foi viajar e o Dr. Coelho nomeou a Sylvia no lugar da Dona Olga, como Diretora da Instrução Pública. E me nomeou como delegada de Pelotas, no lugar da Sylvia. (L.P.)

Lembro que eu estava em uma loja fazendo compras, em Rivera, e chegou uma amiga que queria nomeação, pois tinha acabado de se formar, e disse: “Olha tu vais ser a professora de didática do Curso Complementar do colégio Santa Tereza de Jesus”. Eu disse: “Mas quem te disse isso?”. Eu soube, depois, que duas pessoas pleitearam isso: uma delas era a sobrinha do Flores da Cunha, governador; a outra, era a Diretora da Instrução Pública, a Olga Acauan. Eram duas cadeiras, a de Didática e a de Geografia ou História, não lembro bem. Quando cheguei em casa, havia um telegrama para mim, da D. Olga Acaun. Ela era Diretora da Instrução Pública, o que corresponde hoje à Secretaria da Educação. Ela me nomeou professora de Didática e fiscal do colégio Santa Tereza de Jesus, das freiras, em Santana do Livramento. E eu fiquei três anos nesta escola. (M. M.)

Magnani (1997) observa que, entre 1876 e 1890, eram reconhecidos como métodos sintéticos os métodos de soletração e de silabação, vistos pejorativamente como “tradicionais”. O método João de Deus era identificado como “moderno”, inaugurando uma fase científica e definitiva do ensino da leitura considerado como um fator de progresso social, baseando-se na palavração. Novos deslizamentos no entendimento do conceito de moderno ocorreriam entre 1890 e 1920 e acirrariam disputas entre os que defendiam os “modernos” métodos analíticos e aqueles que defendiam os “tradicionais” métodos sintéticos, especialmente o da silabação, bem como entre os próprios defensores dos métodos analíticos, permitindo classificá-los em “modernos” e “mais modernos” . Dessa forma, surgem obras como o primeiro livro Queres ler?, reconhecido como analítico, quando se considera a ênfase dada à palavração, ou analítico-sintético, quando se considera que privilegia a palavração, a sentenciação e a análise fonética.O Livro de Lili, caracterizado como global, estaria entre os livros “mais modernos”, ao priorizar o conto. Ilustrando esse movimento, surgem, após, métodos mistos, como o Minha Abelhinha e Upa, upa cavalinho!
Vale lembrar que Olga Acauan e Branca Diva Pereira de Souza participaram de missão de estudos ao Uruguai, em 1913, como alunas-mestras, acompanhando professores/as da Escola Complementar. Tal viagem pode ter possibilitado o conhecimento da obra uruguaia, da qual fizeram a adaptação. A atuação da Olga Acauan na Escola Complementar e na Comissão Permanente de Exame das Obras Pedagógicas pode ter favorecido a divulgação da obra uruguaia e sua adoção na Instrução Pública.
Assim, obras didáticas de alfabetização e seus/suas autores/as cruzam suas histórias com as das alunas mestras e professoras de pedagogia da Escola Complementar,como vimos antes, na década de 20. Cruzam-se, também, com as histórias de alfabetizandos/as, suas famílias, colegas e alfabetizadoras. Grande parte dos/das alfabetizadores/as e alfabetizados/as lembra, de alguma forma, das cartilhas ou do método usado na sua própria alfabetização. Informa também que a alfabetização começou em casa com pai, mãe, irmãos/ãs mais velhos, ou com professoras contratadas para tanto, especialmente para aqueles/as alfabetizandos/as que viviam em áreas rurais.

Não estava toda a turma na mesma lição da Cartilha Maternal. Podia haver diferença: uns estarem mais atrasados, outros mais adiantados. [...] Era usada a Cartilha maternal no 1º ano; no 2º era o Segundo Livro, também de João de Deus, e, mais adiante, o livro Leituras Escolhidas, 3º e 4º, ambos do Alfredo Clemente Pinto. A Seleta era só no 5º ano. É de 1915 a publicação de Leituras Escolhidas, ano em que eu nasci. (Lo.)

Usei a Cartilha maternal no primeiro ano. Na outra escola, eu não me lembro de ter usado essa cartilha. Eu acho que já estavam no segundo livro. Naquele tempo, mamãe e papai nos ensinavam em casa. Eles nos ensinavam muito. Utilizavam a Cartilha Maternal, que era a da capinha dura. Todo mundo usava a mesma cartilha. Antigamente os livros não mudavam. Nem sei se as minhas irmãs se lembram. Eu me lembro de ter usado essa aí, principalmente do trecho: “Ó Pedro, que é do livro de capa verde, que te deu o avô?...” Eu me lembro, também, que lá em casa iam uns negrinhos, e eles iam junto conosco para a escola, e nós começávamos a dizer na rua: “Ó Pedro que é do livro de capa verde, que te deu o avô?” E eles começavam a dizer também, para ver quem sabia melhor ou quem dizia mais ligeiro. Era a primeira lição da cartilha que tinha texto e não só palavras soltas. Sobre o outro texto da cartilha - Hino de Amor -, acho que o Lo., meu esposo, sabe melhor. (N.)

A cartilha com a qual eu fui alfabetizada era a Cartilha maternal, de autoria do João de Deus. O Segundo Livro de Leitura era também de João de Deus e a primeira lição era a da “Guiomar e Julia”. Lembro que eram duas meninas e nem sabia que lembrava! Depois tinha o Terceiro Livro de Leitura. E as alunas mais adiantadas usavam a Seleta. A Seleta tinha muitas fábulas e era um lindo livro. (M.M.)

Minha primeira professora foi a Bina. Não me lembro do seu sobrenome. Ela iniciou a alfabetização com o Primeiro Livro Queres ler?. Como eu já estava mais ou menos, só fui em frente. (M.S.)

A minha turma era mista e em cada classe sentavam duas crianças. Era um colégio de grande conceito. O livro que eu usava era o Queres Ler?, que era uma adaptação da obra de autor uruguaio, por duas autoras gaúchas: Olga Acauan e Branca Diva Pereira de Souza. (F.)

O pai me ensinava em casa com o primeiro livro de leitura Queres ler?. Havia em casa também a Cartilha maternal, usada por minhas irmãs mais velhas. [...] Como eu estudei em uma escola de irmãs, minha primeira professora era uma freira, a Alexandrina.Cada dia ela passava uma lição. Ela não passava para outra lição se a maioria das crianças não tinha aprendido. Ás vezes, ficava dois ou três dias numa mesma lição. Ela usava o Queres ler? para nos alfabetizar. E eu me aborrecia porque eu já sabia e tinha que ficar esperando. (I.)

Eu fui alfabetizada em 1949, na localidade de Potreiro Velho, distrito de Tainha, São Francisco de Paula. A professora era a Idalina Alves de Moraes, que ainda está lá em São Francisco, bem faceira, bem contente, viajando e tudo. Ela está com bastante idade, mas está bem lúcida. Ela, assim como eu, ela foi alfabetizada com o livro Queres ler. Nesse período, eu já tinha aprendido o ABC com a minha mãe. Eu fui para a primeira série com sete anos e meio, porque eu não pude entrar em 48, já que precisava estar com sete anos completos e eu só fiz em agosto. No primeiro dia de aula, me lembro que cheguei na escola e a primeira palavra que aprendemos foi “ovo”. Comecei a escrever a lição do “ovo” e da “uva”. Eu recordo da angústia que senti quando olhei para a palavra “ovo” que escrevi tão mal, comecei com o “o”, subi no “v” e desci no “o”. (S.)

Como podemos constatar, identidades alfabetizandas são constituídas pelo cruzamento de histórias não tão pessoais de alfabetização. Percebemos que Cartilha maternal será ombreada no final da década de 20 pelo primeiro livro Queres ler?. A Cartilha maternal e o Método João de Deus foram lembrados por entrevistadas/o que foram alfabetizadas/o na década de 1920. Já o Primeiro Livro Queres ler? foi lembrado por aqueles/as que se alfabetizaram entre as décadas de 1930 e 1940. Mais: se as obras didáticas adotadas no nosso Estado na Primeira República foram contrafação ou adaptação de obras estrangeiras, a obra didática mencionada pelos/as entrevistados/as, nas décadas de 40 e 50, é mineira. O Livro de Lili , de autoria de Anita Fonseca, marca a trajetória das gerações seguintes, o que podemos reconhecer por meio de narrativas feitas por quem se escolarizou, alfabetizou ou formou professora nesse período. Vejamos:

Quando entrei na primeira série, com seis anos e meio, sonhava em ter a professora que minha irmã, três anos mais velha do que eu, tivera, D. Jaci Jobim. Ela era uma pessoa jovem, muito bonita, loira, que chamava a atenção, o que naquela época não era muito comum entre as professoras. Trabalhava com o método de contos da Lili, que era uma novidade. Inclusive, ela se vestia de Lili para dar aula para as crianças. (V.)

O Livro de Lili foi usado pelo meu irmão. Havia uma professora, no Instituto de Educação, que era famosa pelo uso do método da Lili. Ele nasceu em 40. E em 46 estudou com o Livro da Lili. (M.S.)

Nessa época, até havia o Livro de Lili, que alfabetizava através de contos, mas era um livro pronto e eu preferia partir da experiência das crianças. (D.)

Quando comecei minha carreira já estava se usando o famoso livro, que começava pela frase. Era o Livro de Lili. A professora que eu substitui usava o Queres ler?. (F.)

Em 55, eu estava na primeira série, e a professora no início usava o método do “aeiou”. Eu preenchia as fichas, uma linha de “a”, uma linha de “e”. Devia encher a linha. Depois, ela começou a trabalhar com algumas consoantes. Eu devo ter a minha cartilha, que tinha como personagens o Dedé e a Lili. Acho que era o Livro de Lili, que alfabetizava através do método global. Tinha que escrever com a letra cursiva, mas na cartilha era letra de imprensa. Eu acho que eu passei a ter contato com a letra script somente quando eu fui alfabetizar, em 1967. (B.)

Louro (1986) informa que procurando seguir o movimento da Escola Nova, professoras gaúchas vão em viagem de estudos para o Rio, São Paulo e Minas. Sabemos que a ida a outros Estados foi favorecia pelo Instituto de Educação com o apoio do CPOE, da SEC/RS, através da freqüência a cursos de aperfeiçoamento.
Novas histórias se cruzam, quando outras obras e autores/as didáticos/as entram em cena.Outro método será utilizado já nos anos 60. Reconhecido como método misto, este incluirá a apresentação de historietas acompanhada de recursos e desenhos que ajudam a fixar a forma das letras. Tratá-se da obra Minha Abelhinha, das autoras Almira Sampaio Brasil da Silva, em co-autoria com Lúcia Marques Pinheiro e Risoleta Ferreira Cardoso que fizeram estudo piloto de uso do método na década de 50 no antigo Estado da Guanabara. Tal método será lembrado por duas alfabetizadoras que o utilizaram em suas aulas.

Eu posso dizer que eu usava um método para alfabetizar essa turma e que era o da Abelhinha, mas eu não posso dizer que segui o método da Abelhinha, Na verdade, eu tinha uma muletinha que era a história. No entanto, em cima daquilo, eu ia criando de acordo com as necessidades das crianças. Eu acho que o professor tem que ser criativo, tem que estar atento ao seu trabalho.
Foi na escola especial que eu tomei conhecimento do Método da Abelhinha. Eu tinha uma colega chamada Elenita, que começou a se interar do método na outra escola em que trabalhava. Foi uma professora da prefeitura que começou a divulgar o Método da Abelhinha e a minha colega começou a trazer para a escola e passar para os professores. Ela já estava iniciando na escola e, aos pouquinhos, fui aplicando com aquelas crianças que tinham dificuldades de escrita e na fala, isso porque se enfatizava muito o som e a pronúncia das palavras. Eu me lembro da menina Dulce, que tinha uma dificuldade tremenda na fala, mas apesar disso ela conseguia escrever certo. E, através da história, pronunciando bem o som, ela foi capaz de associar aquilo que eu estava dizendo com o personagem da história. Isso acabou por me ajudar na escola pública, pois eu peguei uma turma na escola estadual com alunos de segunda série com muita dificuldade. Eram tri-repetentes.
No Método da Abelhinha só se alfabetizava com a letra minúscula, que era a dos personagens. Acontece que algumas crianças me chamaram atenção, porque eles já vinham do Jardim escrevendo o nome com letra cursiva, mas a letra inicial era maiúscula e, às vezes, eles queriam até se identificar com o personagem da história. Por exemplo, o nome do aluno começava com a mesma letra do nome do personagem, só que era escrito de forma diferente. No Método da Abelhinha não se podia falar em letra de imprensa, nem o nome da letra, mas tinha situações que eu saia fora do manual, porque aconteciam situações em sala de aula que eu tinha que aproveitar e adaptar. Eu trabalhei a letra maiúscula e a minúscula. No Método da Abelhinha tinha uma seqüência e a história gerava uma expectativa por ser em capítulo. Era alfabetização em capítulos, que começava com as vogais e depois era o encontro, o passeio dos amiguinhos. Eu fazia muita dramatização com cartazes para os alunos identificarem bem o som, os pedacinhos e a palavrinha que formava. A partir daí, iam surgindo situações que eu ia aproveitando. (Ro.)
O método fonético [Minha Abelhinha] foi o mais usado, quando eu lecionava no 1º ano. Acho que os alunos gostavam, pois se não gostassem, não aprendiam. Eles gostavam de cartilhas que tinham desenhos e historinhas. A história da abelhinha começava assim: “Era uma vez uma abelhinha que nasceu com asas de um lado só. Não podia voar nenhum pouquinho. Tinha medo de andar. E ela estava tão cansada que suspirava assim, AAA!” Já dávamos o som do “a”. A cada capítulo ia entrando o som de um fonema, uma letra e um personagem. Às vezes, até de mais de um. Lembro que botávamos uns quadros coloridos nas paredes para cada nova letra e som ensinados. Era eu que fazia os desenhos, bem grandes, em cartolina. Quando estavam no fim da cartilha, as lições estavam aprendidas pelas crianças. Elas iam juntando as letras, associando ao som do fonema e ao personagem que representava a letra e o fonema. A toda hora, olhavam na parede, consultando. Foi também nessa época que começamos a substituir a letra cursiva pela letra script. (I.)

Outras quatro obras receberão menção, como a Cartilha do Guri , de Elbio Gonzáles, Rosa Ruschel e Flavia Braum, sendo esta representativa do uso da letra script e de método de palavras geradoras. Upa, upa cavalinho! , mencionada por uma alfabetizanda, abre a coleção de livros didáticos da Série Pedrinho, de Lourenço Filho, e representa uma outra conformação dos métodos mistos, a dos que intoduziram em uma mesma página uma letra e uma família silábica, seguida de palavras e frases que combinam famílias silábicas novas com famílias de lições anteriores. Há ainda menção ao uso da cartilha Sarita e seus amiguinhos , de Cecy Cordeiro Thoferhrn e Janira Cardias Szechir, por uma das alfabetizadoras. Esta cartilha consta da relação de livros indicados para as escolas primárias, pelo CPOE. Marcelo, Vera e Faísca é outra cartilha contemporânea a de Sarita e seus amiguinhos, sendo lembrada como mais uma cartilha que enfatizava a importância dos personagens da histórias, feitos de arame para “envolver” os alunos, através de suas histórias no processo de alfabetização.

Não sei especificar o tempo em que comecei a usar a cartilha, mas foi em seguida. Era a Cartilha do Guri. Não me lembro se era a escola que dava ou se foi meu pai que comprou, mas toda turma tinha a cartilha. Eu a guardei, mas tenho a impressão que depois ela se perdeu. Quando nós começamos a usar a cartilha, já estávamos formando sílabas, por isso já sabíamos escrever o nome dos personagens. O primeiro personagem apresentado era o Olavo. Nós tínhamos, também, um caderno de caligrafia, no qual a professora escrevia as letras e nós tínhamos que encher as linhas. (M.C.)

Usávamos o mesmo livrinho durante todo o ano. No caso, quando fui alfabetizada, o livro usado foi o Upa, cavalinho!. Enquanto a professora tomava a leitura, os demais alunos faziam a lição no quadro. (E.)

Adoravam ouvir histórias e dramatizar as situações nelas contidas: “Vejam a Sarita...” Isso foi 54. Encomendei os livros da Sarita. Era aquela cartilha que tu tens que recortar. Eles adoravam a aula. No inverno, era muito frio e chovia. Então, eles faltavam, pois não tinham roupa para ir, mas incomodavam as mães em casa, porque queriam ir à aula. ( L.B.)

Apesar de todos os métodos que eu experimentei, foi uma orientadora que me deixou quase louca. Inventou que tínhamos que seguir o que ela dizia, mas não funcionou. Eu vi que não estava dando certo e a orientadora não aparecia. Chegou setembro e meus alunos não sabiam nada. Eu decidi, então: “Sabe de uma coisa, eu vou voltar para o meu método!” Era um método de fraseação, o método da Sarita. Isto, na década de 60! Nós fazíamos uma papelada e dávamos para as crianças, e eles tinham que recortar as frases e palavras e remontar novamente. Dávamos aquelas frases inteiras. Os alunos tinham que dividi-las em palavras com tesoura. Eu tenho uma colega que o filho dela, que hoje é médico, foi meu aluno. Ela dizia que o filho chegava em casa e ficava cortando aquela papelada e montando frases.[...] Tinha também o método do Marcelo, Vera e Faísca. Uma colega minha começou alfabetizando uma das minhas filhas usando esse método. Ela fazia aqueles bonequinhos de arame e dramatizava cada história das lições dessa cartilha. (M.S.)

Teve um ano que recordo que era moda a cartilha do Olavo e da Élida. Alfabetizei um ano usando essa cartilha, na qual a criança associava a palavra à figura que estava vendo. (M.K.)

Algumas dos/das entrevistadas não lembram das lições dadas pela professora nem das cartilhas adotadas. Algumas aulas são lembradas pela aprendizagem das letras e pelo ensino sucedâneo da leitura e da escrita ou, ainda, através de personagens e frases que personificam comumente os textos das cartilhas. Cartilhas e métodos “antigos”, “modernos” e “mais modernos” mostram, assim, um outro cruzamento: o de discursos “mais tradicionais” com o dos “novos” discursos de alfabetização em um período de plena valorização dos métodos globais e mistos, nas décadas de 40 e 50.

No Instituto de Educação, comecei com um primeiro ano. Eu tinha o primeiro livro Queres ler?, mas não o adotei. Adotei uma outra cartilha, que tinha um bloco só com letras de imprensa para recortar. Era um material bom para a criança colar. Eu alfabetizei meus alunos inventando histórias. E nas histórias eu encaixava o que eu queria dar. Por exemplo, na “História do gigante Pandarecos” a mãe do gigante tinha galinha.Um dia o gigante viu a galinha cacarejando e foi ver se tinha posto um ovo. “Ovo” era, então, a primeira palavra que deviam aprender. Continuava com a história: o gigante pegou o ovo e a mãe dele ficou braba, porque não podia mexer no ninho da galinha... Eu floreava até não poder mais. E os alunos tinham que desenhar. Resumindo: eu comprei um papel pardo, e colei na parede no fundo da sala e eles tinham que ilustrar a história contada. Ficou muito bonito. Um dia, a Amneves Furtini, que estava substituindo a direção, olhou e disse: “Ah, Mathilde! Vamos botar no corredor do Instituto para as outras professoras ficarem entusiasmadas!”. E eu disse: “Não, Amneves! Pelo amor de Deus, vai dar uma ‘caneleira’!” De fato, não deixei. (M.M.)

Quando eu me alfabetizei, lembro que na sala de aula tinham uns cartazes com letras e com palavras. Lembro que eu aprendia primeiro as vogais, depois as palavras. Não sei qual a palavra que vinha primeiro, nem como a professora iniciava, mas era depois da palavra que passava para a sílaba das palavras estudadas. Assim: “vovô viu a uva”. Não era nem “mamãe” nem “papai”. Era aquela “velhinha”, “uva”. Tanto que, quando eu falei na cartilha, já me veio à lembrança da vovó. (An.)

Logo que eu entrei na escola comecei a trabalhar com a cartilha “A Vida de Maria Lúcia”. Essa cartilha era organizada em torno das vogais, mas também tinha figuras. As figuras eram em preto e branco, e mostravam Maria Lúcia, a personagem principal da cartilha. Eu lembro que a palavra mais difícil era “Úrsula”. Ficava na última folha da cartilha e representava a letra “U”. [...]A sala de aula era adaptada à sala de casa, com quadro-negro e alguns cartazes na parede. Esses cartazes eram da própria escola. A professora fazia frases, que nós íamos apontando e fazendo a leitura. Na verdade, um aluno lia e depois todo mundo junto e, por fim, todas as pessoas individualmente. Ela apontava com uma varinha comprida. Nós repetíamos primeiro as palavras e depois as frases.Líamos frases como: “O Ivo viu a uva”, “A uva é de Ivo”,. As letras eram grandes, maiúsculas e minúsculas, em letra de imprensa. Nós tínhamos, também, caderno de caligrafia. Eu tinha uma letra horrível. A professora passava no caderno e nós ficávamos repetindo aquela palavra. Enchíamos a linha e a folha do caderno de caligrafia. (M.L.)

O livro, do início, eu tenho na imagem da capa. Não recordo... Estava escrito A-B-C. Tinha uma figura de um gurizinho e de uma guriazinha. Eu tenho mais é a imagem. O texto apresentava vogais, figuras com a correspondente identificação: ovo, uva, vovó... (Au.)

Naquela época, a alfabetização iniciava pela leitura, pois eu lembro que a professora colocava no quadro todo o alfabeto. Claro que não tínhamos condições de copiá-lo, porque não possuíamos noção das letras, mas a professora fazia com que decorássemos todas as letras, algo que consegui fazer rapidamente. Ela explicava todo o alfabeto, de A até Z. Mostrava as letras no quadro, apontando com uma varinha o “ABC” até chegar ao final. Juntava as letras explicando que “b” com “a” ficaria “ba”, mas para isso tinha que decorar as letras para poder associá-las com as vogais. Eu tinha facilidade de decorar, por isso eu lembro que esse processo de leitura não foi tão difícil para mim. De início, nós não escrevíamos a letra no caderno. Nós estávamos quase sabendo ler sem ter muita noção de escrita, pois a escrita ia vindo aos poucos. (M.K.)

Eu não recordo o nome da cartilha com a qual fui alfabetizada, mas recordo que trazia as vogais e depois o alfabeto na ordem. Tinha figuras e frases do tipo: “Ivo viu a uva”. Tinha, também, o caderno de caligrafia, principalmente no segundo ano. Na sala havia figuras penduradas no quadro negro, sobre a qual nós tínhamos que falar e em algumas ocasiões, fazer redações. (H.)

No ano seguinte, em 1958, passei para a escola da comunidade evangélica “Lar Juvenil”, que depois passou a ser Escola de Ivoti e hoje é um Instituto Superior de Educação. Na época, esta escola estava sendo inaugurada graças ao esforço da comunidade. Foi necessário repetir o 1º ano, pois eu não estava alfabetizado. Eu não sabia ler, embora tivesse sido aprovado para o 2º ano na outra escola. Nesta nova escola tive bons professores, a maioria formado na Escola Normal. Já eram usados métodos e didática mais modernos e o castigo físico quase não existia. (Ru.)

Temos, assim uma rede de histórias que se cruzam: a de autores/as didáticos/as, professoras da Escola Complementar ou Normal, alfabetizadoras e alfabetizandos/as, incluindo seus familiares e amigos/as.

Últimas questões

Quem conta o quê? Como conta? Para quem conta? Estas parecem ser algumas questões que devemos nos fazer ao examinar as histórias que nos foram narradas por meio das entrevistas, pois os posicionamentos mudam durante as narrativas: ora as histórias são narradas por alfabetizandos/as; ora por alfabetizadoras. Temos, também, um grupo de entrevistados/as que pode falar de um outro lugar: o de formadores/as de professores/as e especialistas, formados/as em instituições de graduação e pós-graduação. Nessa trama de posições diversas, os/as alfabetizandos/as relatam suas lembranças das cartilhas e suas lições, dos/das personagens e enredos, da forma como aprendiam e com quem aprendiam; das experiências de alfabetização vivenciadas com familiares e amigos da infância. Por sua vez, as alfabetizadoras nos contam o que lhes era orientado na Escola Complementar e nas escolas que atuaram como docentes quanto ao uso de determinados métodos, como criaram novos métodos e como os tornaram mais atrativos e eficientes para a alfabetização de seus/suas alunos/as, entre outras narrativas, que não examinamos nos limites deste trabalho.
Haverá, assim, uma diversidade de histórias em cada narrativa, pois cada história é distinta, dependendo, entre outros aspectos, de quem conta e a quem se conta. Assim, o modo com que o outro entende a nossa história não é idêntico ao modo como as entendemos e, ainda mais, porque essas nossas histórias são contadas também por outras vozes.
Temos, dessa forma, a instituição de uma nova forma de narrar uma história de alfabetização e que corresponde a contar “pequenas” histórias de alfabetização e não só aquelas reconhecidas como “exemplares”, na “vida” e na “ficção”.


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