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O FENÔMENO HARRY POTTER: LITERATURA OU QUESTÃO DE MERCADO?

Marta Catarina Louro de Castro Valente - Fundação Educacional do Município de Assis (FEMA)

Em um país onde o número de leitores é restrito e a leitura não é um hábito entre seus jovens, os livros da série Harry Potter se destacam justamente por atrair um grande número de leitores, não só no Brasil como no mundo, especialmente entre o público infanto-juvenil. Este texto tem por objetivos apresentar uma análise acerca das vendas dos livros da autora J. K. Rowling, refletindo sobre a influência do marketing e da mídia, ainda analisar de forma sucinta a obra Harry Potter e a Pedra Filosofal.
Analisando as vendas de livros infantis no Brasil, pode-se observar que a leitura não é um hábito cultivado nos lares brasileiros. O brasileiro lê em média 1,8 livros por ano e apenas 0,7 desses livros não são didáticos (WERTHEIN, 2004) e as compras dos chamados livros paradidáticos estão sujeitos à escolha do governo e das escolas, que decidem quando e o que nossas crianças vão ler. Não é raro, ao visitarmos escolas, encontrarmos representantes de editoras fazendo propagandas e entregando amostras de livros para que os professores escolham e peçam para seus alunos lerem. O mercado editorial de livros infantis sempre esteve sujeito aos programas educativos governamentais, e assim, entra em uma relação de dependência com o governo, seu maior comprador. As editoras vivem tempos prósperos quando conseguem atingir as expectativas desses programas, mas quando não conseguem, as grandes editoras procuram permanecer no mercado investindo na reedição de clássicos, e as editoras de pequeno e médio porte diminuem sua produção e até mesmo estacionam à espera da falência ou de tempos melhores.
Nesse cenário destaca-se a saga do menino bruxo que, desde seu lançamento no Brasil, alavancou o mercado editorial com as vendas dos livros da série e de outros livros oportunistas que esmiuçam o universo criado por J.K. Rowling ou contam histórias parecidas com nova roupagem. Estes fatos têm levantado questões acerca da forma de divulgação do livro e até mesmo se ele realmente é bom.
Desde seu lançamento, os livros de Harry Potter têm sido alvo de críticas positivas e negativas, e muitos se questionam se seu sucesso não se deve ao seu planejamento de marketing extremamente cuidadoso e a um planejamento de mídia com excelente execução.
A saga Harry Potter é um fenômeno, tanto da literatura como do cinema. A Bloomsbury, a Scholastic e a Warner Bros., cientes do poder simbólico que a mídia exerce, elaborou uma estratégia cuidadosa e dividida em etapas, para acompanhar a evolução do mercado.
Em 1997, quando a Bloomsbury lançou Harry Potter and the Philosopher’s Stone não tinha idéia do sucesso que o livro faria, com apenas 500 cópias impressas, a maior motivadora das vendas, a princípio, foi a propaganda boca-a-boca.
De acordo com Barban, Cristol e Kobec (2004, p.22) características do produto devem ser levadas em conta na hora de divulgá-lo, assim como traçar o seu plano de mídia, e as obras de J.K.Rowling certamente levaram estes fatos em consideração. Mas essas obras possuem também elementos atraentes para o leitor. Elas possuem um personagem principal com o qual as crianças se identificam facilmente e o narrador das histórias relata os fatos em uma linguagem própria para seu público leitor. Dessa forma, o boca-a-boca se torna a mídia ideal realizado por crianças que leram o livro contando para outras crianças aquilo que leram.
Logo após o lançamento a Bloomsbury percebeu que os pais e os professores das crianças também estavam lendo o livro, e o melhor, assim como as crianças, estavam adorando. Dessa forma, a Bloomsbury decidiu fazer uma edição especial, com uma capa mais escura e sóbria, para agradar ainda mais o público adulto. Harry Potter teve então uma rápida ascensão. Para o produto intensificar o seu processo de conhecimento por parte dos leitores, a Bloomsbury se uniu a um grupo de jornalistas e conseguiu a cobertura do livro em um programa formador de opinião chamado Blue Peter, o que valorizou imensamente o produto para as distribuidoras.
Com a imensa procura, em 1998, ano em que foi lançado o segundo volume da série, Harry Potter and the Chamber of Secrets, a Bloomsbury mudou sua estratégia e começou a omitir informações sobre os livros, gerando um frenesi por informações por parte dos fãs. Este frison deu início a uma cultura de boatos e rumores em torno da série e que incitou ainda mais as pessoas a comprarem os livros. Nesse mesmo ano, o primeiro volume da série foi lançado nos Estados Unidos, a Scholastic (editora americana), para aumentar o interesse, distribuiu antes do lançamento oficial, cópias do livro a jornalistas, crianças, bibliotecários, críticos conceituados e outros formadores de opinião.
Conforme Barban, Cristol e Kobec (2004. p.33), a embalagem atua como uma boa ferramenta promocional, na medida em que expõe visualmente o nome da marca, e quando o objetivo de marketing é aumentar o consumo, a embalagem pode ser utilizada para atingir esses fins. Tendo isso em mente, a Scholastic optou por lançar primeiro uma edição mais cara de Harry Potter, com capa dura e papel de alta qualidade, publicando, apenas dois meses mais tarde, a versão de bolso, mais barata.
Ainda em 1998, a Warner Bros. percebeu o potencial da história e comprou os direitos autorais mundiais de Harry Potter. A autora e os editores se preocuparam com o posicionamento dos livros, com medo da superexposição que poderia acontecer e as conseqüências que ela traria. Assim, J.K. Rowling exigiu que, em todas as decisões relativas ao marketing e à mídia de Harry Potter, sua palavra fosse decisiva.
A Warner então fez uma divisão, os produtos baseados nos elementos dos livros seriam mais caros, com um cuidado extremo com a imagem. E os produtos baseados nos filmes seriam voltados ao consumo de massa. Ainda preocupados com o posicionamento da marca, não assinaram contrato com fabricantes de alimentos, pois não queriam “baratear” a imagem do Harry, a única fabricante desse gênero que conseguiu assinar contrato foi a Coca-Cola que, mesmo desembolsando US$287 milhões, não poderia distribuir produtos Harry Potter com o refrigerante. Em lugar disso, fizeram promoções mundiais relacionadas ao filme, Venha Conhecer o Castelo de Harry Potter, e além de promoverem campanhas de alfabetização e de incentivo à leitura, distribuíram cupons para que seus consumidores tivessem descontos em determinados livros.
A Warner também descobriu inúmeros sites de fãs que usavam a marca ilegalmente, então fez uma forte campanha de rastreamento e em seguida lançou o programa Webmaster Community, por meio do qual os fãs que quisessem fazer sites de Harry Potter se registravam, recebiam uma senha de acesso a imagens, jogos e recursos para disponibilizar em seus sites.
Segundo Sissors e Bumba (apud. BARBAN; CRISTOL; KOBEC, 2004, p.33); “Obviamente anunciar numa área geográfica em que não haja distribuição da marca costuma ser desperdício de dinheiro. Ocasionalmente, porém o objetivo pode ser o de “forçar” a distribuição criando uma demanda.”
No caso de Harry Potter, a distribuição foi extremamente importante para seu sucesso. A estratégia da propaganda boca-a-boca e de uso de formadores de opinião fez com que Harry logo fosse conhecido mundialmente. E, mesmo no Brasil, a estratégia usada para divulgação do livro foi a mesma dos Estados Unidos. Em 2000, poucos meses antes do livro ser lançado, a Rocco conseguiu que jornais publicassem matérias sobre o livro, e também distribuiu cópias a jornalistas, crianças e críticos.
Com o lançamento do 4º livro nos Estados Unidos, a importância da eficiência da distribuição ficou mais clara. Harry Potter and the Goblet of Fire vendeu 5,3 milhões de exemplares da 1º edição.
O quinto volume da série, Harry Potter and the Order of Phoenix, teve seu lançamento atrasado em pelo menos um ano para que seu lançamento, ainda que apenas em língua inglesa, tivesse alcance mundial. Bateu recordes de pré-venda e a sua distribuição chegou a virar notícia e forma de divulgação pela sua engenhosidade e grandiosidade, lojas como a Amazon.com e a Barnes&Noble arquitetaram sua distribuição para que todos os que comprassem em suas lojas recebessem seu exemplar no dia do lançamento.
No dia 21 de dezembro de 2004, J.K. Rowling anunciou a data do lançamento do 6º volume da série (Harry Potter and the Half-Blood Prince), no mesmo dia, as ações da Bloomsbury subiram seis pontos na bolsa e os recordes de pré-vendas foram batidos em menos de 24 horas após esse anúncio. Só a Barnes&Noble fez um pedido de 750 mil exemplares à editora e a Amazon.com confirmou um total de 1 milhão de livros já vendidos nos sites Amazon do mundo todo.
As promoções de vendas também foram amplamente usadas. Em grandes livrarias tornou-se um ritual as festividades na véspera do lançamento dos livros, com atrações que começavam às 21:30 e culminavam à meia-noite, com o lançamento oficial das vendas do livro. Essas festividades contam com displays especiais, concursos de sósias, premiações e outras atividades.
Para o lançamento do sexto volume em julho próximo, livrarias do mundo inteiro se preparam para o evento, até mesmo em países que não são de língua inglesa, os cinemas se programam para o “Potter Day”, projetando em seqüência os três filmes baseados nos livros.
Com um planejamento de marketing tão bem estruturado e executado, muitos atribuem o sucesso da série Harry Potter exclusivamente a esse planejamento, no entanto, pudemos observar que planejamentos similares para livros lançados após a série não tiveram tanto sucesso. O que nos leva a crer que a história realmente é atraente e deve ser considerada. Partindo desta hipótese, apresentaremos uma breve análise de Harry Potter e a Pedra Filosofal, por ser o exemplar que alavancou a série depois de ser recusado por várias editoras.
Harry Potter e a Pedra Filosofal se inicia de uma forma cativante, descrevendo um dia de Válter Dursley e as coisas estranhas que se sucedem com ele, como ter sentado na porta de sua casa um gato com olhos listrados. O seu dia atinge o ápice do absurdo quando um bebê é deixado à sua porta por uma comitiva ainda mais suspeita, formada por um gigante a bordo de uma moto, pelo mesmo gato que estava sentado à porta e que num passe de mágica se transforma em uma mulher, e por um mago que aparece das sombras. Esse menino é Harry Potter, aquele que sobreviveu.
Harry Potter é o herói ideal, órfão sobrevivente de um ataque que matou seus pais, dessa forma, ele não precisa competir e não pode ser reprimido por eles. Somente no quinto livro da série, o motivo pelo qual Harry é atacado ainda bebê e seus pais são assassinados, fica claro.
Assim como em Hamlet e em muitas outras histórias, Harry tem seu destino marcado por uma profecia, feita pouco tempo antes de seu nascimento. Por causa dela, Dumbledore, diretor da escola e amigo de seus pais, o envia para viver com os Dursley, seus parentes, que o maltratam o tempo todo, fazem-no dormir embaixo de uma escada e permitem que seu primo Duda faça dele saco de pancadas na escola.
Ainda no plano psicológico, existe o romance familiar de Freud, em que a criança fantasia que seus pais não são seus pais, ela é adotada e imagina ser filha de reis. Os Dursley seriam um paralelo aos pais verdadeiros de qualquer criança pequena que, quando recebe um não como resposta, sente ódio dos pais e deseja ser resgatada. É exatamente isso que acontece com Harry quando ele completa 11 anos, nesta ocasião Hagrid, o mesmo gigante que o deixara no batente da porta dos tios, o resgata, levando-lhe uma carta de ingresso a Hogwarts, uma escola onde Harry é conhecido e reconhecido por seus feitos e pode aprender magia junto de pessoas que são semelhantes a ele.
Harry, então, embarca em um trem, embora este veículo seja considerado atualmente como obsoleto, é atraente para o público adulto dos livros, que reconhece nesta cena suas viagens de infância. Assim se dá a “partida” de Harry. De acordo com Joseph Campbell (1995), a jornada do herói tem três etapas, que aparecem na obra como a saída da casa dos Dursley por iniciativa própria, a entrada no expresso de Hogwarts e a chegada à escola, caracterizam essa partida de Harry.
Ao sair do trem, Harry chega em um castelo medieval, sem energia elétrica (ela não se faz necessária em momento algum) e elementos fantásticos entram no lugar dos elementos comuns, mas de maneira sutil, em lugar de lâmpadas iluminando o lugar, aparecem archotes flamejantes, no lugar de escadas rolantes, há escadas que se movem ou têm truques que devem ser aprendidos, e o lugar está cheio de passagens secretas e seres que povoam o imaginário infantil.
Na casa dos Dursley, Harry não tinha amigos, seu primo Duda sempre se encarregou para que ele não os tivesse. Em Hogwarts, no entanto, Duda não está presente, assim, Harry encontra amigos, e novos inimigos também.
Como inimigo, aparece Draco Malfoy, filho único com pais bruxos e ricos, é preconceituoso e acredita na pureza do sangue. A seguinte fala pertence ao seu discurso: “Eu realmente acho que não deviam deixar outro tipo de gente entrar, e você? Não são iguais a nós, nunca foram educados para conhecer nosso modo de viver.”(ROWLING, 2000, p.72).
Com a mesma ideologia temos Severus Snape, professor de poções, que demonstra um certo desprezo por bruxos sem sangue puro. Mas o maior vilão é Voldemort, as pessoas temem a simples menção de seu nome, ele também defende o ideal de sangue puro, esse ideal perseguido por esses personagens remete claramente a Hitler e à pureza ariana.
A escola tem seus alunos divididos por casas, e até mesmo o nome da casa Sonserina, a casa de origem desses personagens antagonistas remetem ao autoritarsimo, Salazar Slytherin, é o criador desta casa. Salazar foi o ditador português (a autora viveu alguns anos em Portugal).
Como grande amigo Harry tem Ronald Weasley, também filho de bruxos. Ronald possui família numerosa e de origem humilde. Ao contrário da família Malfoy, inimiga de Harry, em que a mãe aparece sempre com um ar de insatisfação, os Weasley são felizes e unidos.
Harry também conta com a amizade de Hermione Granger, filha de “trouxas” (pessoas não mágicas), é a “sabe tudo” da escola e essencial para o sucesso de Harry na trama. Hermione denota a igualdade dos sexos, sempre ao lado dos meninos nas aventuras, muitas vezes se sobressaindo a eles, justamente pela inteligência, quando os livra de situações de perigo. Outra personagem feminina de personalidade marcante é a McGonagall. Ela simboliza também a inteligência necessária para que nosso herói atinja seus objetivos.
Como os heróis mitológicos, Harry é continuamente posto à prova enquanto está em Hogwarts, anda pela floresta proibida, lugar escuro e cheio de perigosos animais e criaturas, e se vê frente a frente com Voldemort. Mais tarde tem que se livrar de um dragão e passar por um cão de três cabeças para chegar ao subsolo do castelo e salvar a pedra filosofal. O cão de três cabeças que guarda o subsolo é uma referência a Cérbero, o cachorro de três cabeças de Hades. Como Orfeu, da mitologia grega que consegue passar pelo cão e chegar ao submundo para resgatar sua amada Eurídice com música, Harry toca uma flauta para passar pela besta.
Durante uma fuga da biblioteca, o menino fica diante do espelho de Ojesed, no qual vê sua família e recebe o reconhecimento de seu pai, no entanto, o espelho alerta: Este espelho não mostra sua face, mas o desejo de seu coração. E Dumbledore, que possui inúmeras semelhanças com Merlin e Gandalf, reforça a mensagem do espelho dizendo a Harry para não se deixar levar pelos sonhos e esquecer de viver. Quando se vê frente a frente com seu inimigo Voldemort, esse mesmo espelho, por encantamento de Dumbledore, coloca a pedra filosofal no bolso de Harry e assim encerra a segunda etapa da jornada do herói, dando-se então a sua “iniciação”.
Finalmente, o menino bruxo chega à última etapa: “O Retorno”. Antes, inseguro e servindo de saco de pancadas do primo, Harry agora é respeitado por ser um excelente jogador de quadribol (esporte praticado pelos bruxos), por ter enfrentado um trasgo (monstro das lendas escandinavas, grande, forte e notoriamente ignorante), ter sobrevivido a um Visgo do Diabo (planta capaz de matar uma pessoa com seus tentáculos) e, com ajuda de Ron e Hermione, ter sobrevivido mais uma vez a um ataque do bruxo mais temido, Lord Voldemort. Ele embarca no expresso de Hogwarts e volta para a cidadezinha de Surrey, junto dos Dursley, encerrando essa jornada e começando a jornada seguinte, que tem início na “Câmara Secreta”.
Com todos esses elementos fantásticos presentes em um único livro, administrados de forma magistral pela autora e um narrador que mantém seu discurso próximo de seu público leitor, fica fácil entender como essa história surpreendeu sua editora e rapidamente excedeu suas vendas em mais de 500 exemplares inicialmente produzidos pela Bloomsbury. Ainda, justifica-se o sucesso que houve antes de envolver um planejamento grandioso de marketing.
Para entender melhor esse quadro, aplicamos um questionário a crianças de 5º e 6º séries do Colégio Rui Barbosa, Sistema Didático Anglo, do Município de Assis. Foram aplicados 60 questionários, sendo que destes, 34 foram respondidos por alunos que não leram os livros de Harry Potter e 23 pelos que leram os livros. Três questionários tiveram de ser descartados uma vez que suas informações eram incoerentes.

Tabulação e análise dos dados
Entre a população entrevistada, daqueles que não leram as obras de J.K.Rowling, pudemos detectar as suas idades, se gostava ou não de ler e, principalmente, por que não lera os respectivos livros. Os dados levantados são apresentados a seguir:

Idade

Fi

%

10 anos

6

18

11 anos

22

64

12 anos

6

18

Dos 34 entrevistados que não leram as obras sobre Harry Potter, a maioria tem 11 anos (64%), sendo as idades 10 e 12 anos as que tiveram a freqüência de respostas de 18% cada.

Você gosta de ler?

Fi

%

Sim

21

62

Não

13

38

A maioria (62%) respondeu que gostava de ler e poucos (38%) responderam que não gostavam de ler.

Por que não leu os livros do Harry Potter?

Fi

%

Comecei a ler e não gostei

2

6

Prefiro Filmes

8

22

Não tive oportunidade

1

3

Não deu tempo

1

3

Não me interessei

2

6

Não gosto desse tipo de livro

2

6

Meu pai não achou convincente

1

3

Não tenho o livro

3

9

Não gosto de ler

7

20

O livro é muito grande

8

22

Gráfico 3 – Motivos que levaram à rejeição pela obra

(22%) ou não lia porque os livros eram grandes (22%). Em seguida, com 20%, aparecem afirmações como: não gosto de ler, não tenho o livro, não gosto deste tipo de livro, não me interesso, comecei a ler mas não gostei (6% cada). Entre eles, 9% afirmou não possuir o livro e por isso não o leu, outros (3% cada) afirmaram não ter tido tempo, não tiveram oportunidade ou o pai não achou o livro adequado para ser lido. É importante esclarecer que esta pergunta foi aberta e mais de uma alternativa poderia ser assinalada pelos alunos.

Análise Geral
Daqueles que não leram os livros recebemos dados contraditórios, uma vez que a maioria questionada afirmou que gostava de ler. No entanto, ao perguntarmos por que não tinham lido a obra de J.K. Rowling, a maioria respondeu que os livros são grandes demais e que preferia ver os filmes. Entre os entrevistados são poucos aqueles que responderam não gostar deste tipo específico de livro ou então que até começou a ler, mas não gostou. A resposta dada pela maioria afirmando que gostava de ler, ocorreu possivelmente porque a pesquisa foi aplicada em sala de aula, na presença dos professores e os alunos devem ter sentido uma necessidade de agradar a esses professores, assinalando uma resposta que se esperaria deles.

Tabulação e análise dos dados entre a população leitora de J.K. Rowling
Entre aqueles que leram as obras de J.K. Rowling, pudemos detectar os seguintes dados: a idade, se gostava de ler ou não, e, ainda, se leram os livros da série por motivação própria ou por terem conhecido as adaptações na forma de filme.

Idade

Fi

%

10 anos

1

4

11 anos

16

70

12 anos

5

22

13 anos

1

4

Gráfico 4 – Idade da população leitora entrevistada

 

Dos 23 entrevistados que leram Harry Potter, a maioria (70%) possui 11 anos, sendo seguidos pelos alunos com 12 anos, somando 22%, e pelos com 10 e 13 anos, com uma freqüência de uma resposta cada (4%).

Você gosta de ler?
Pudemos observar que entre os leitores das obras de J.K. Rowling, 100% afirmaram que gostam de ler. Esse dado revelou que as obras dessa autora são cativantes para o público que já possui o hábito de leitura. Ainda, buscando compreender se houve influência dos filmes na eleição das obras, indagamos a população leitora pesquisada. Os dados referentes à essa indagação podem ser visualizados a seguir:

Quando leu os livros da série?

Fi

%

Antes de conhecer os filmes

9

39

Depois de conhecer os filmes

13

57

Sem resposta

1

4

Gráfico 5 – Motivação da leitura provocada pelo conhecimento dos filmes

A maioria (57%) dos entrevistados afirma ter lido os livros de Harry Potter depois de conhecer o filme, 39% diz ter lido os livros antes de conhecer o filme e apenas uma pessoa não respondeu à essa pergunta.

Tinha o costume de ler antes de conhecer as obras de HP?

Fi

%

Não

1

4

Muito Pouco

5

22

Sim

17

74

Gráfico 6 – Hábito de leitura anterior ao conhecimento das obras de J.K. Rowling

A maioria (74%) afirmou que tinha o hábito de ler antes de conhecer as obras de J.K. Rowling, 22% disse que lia muito pouco antes disso e apenas uma pessoa não possuía o costume de ler.

O que costumava ler?

Fi

%

Romance

2

9

Comédia

2

9

Aventura

5

22

Terror

2

9

Mistério

4

18

Livros para escola

2

9

Poesias

1

5

Ficção Científica

1

5

Gibis

2

9

Suspense

1

5

Gráfico 7 – Gêneros eleitos para leitura antes do conhecimento das obras de Harry Potter

Antes de conhecerem as obras de Harry Potter, as crianças costumavam ler livros de aventura (22%), mistério (18%), romance, comédia, livros paradidáticos e gibis (9% cada), outros gêneros de leitura, tais como poesia, ficção científica e suspense, ficaram com 5% das respostas cada.

Depois de ler Harry Potter se interessou por outros livros?

Fi

%

Não

11

48

Sim

12

52

Gráfico 8 – As obras de Rowling atuando como elemento de motivação para novas leituras

Apesar de verificarmos um certo equilíbrio nas respostas referentes a esta pergunta, pudemos perceber que a maioria (52%) foi motivada para novas leituras após conhecer as obras de Rowling. Entre os motivos indagamos por quais livros se interessaram. As respostas constituem o gráfico a seguir:

Por quais livros se interessou?

Fi

%

Código da Vinci

1

8

Ficção Científica

2

17

Cara ou Coroa (Fernando Sabino)

2

17

Dom Quixote

1

8

Shakespeare

1

8

Aventuras

1

8

Senhor dos anéis

3

26

Sem resposta

1

8

Gráfico 9 – Obras eleitas para leitura após o conhecimento das obras de J.K. Rowling

Depois de ler os livros de Harry Potter, os livros que atraem as crianças para uma nova leitura são os de J.R.R. Tolkien, o Senhor dos Anéis (26%), seguidos em 17% por livros de ficção científica e de aventura não especificados, com exceção do livro do livro de Fernando Sabino, Cara ou Coroa, e de Cervantes, Dom Quixote. Vale destacar o poder da mídia que, surpreendentemente, atingiu esse público jovem por meio da obra Código Da Vinci, de Dan Brown classificada desde seu lançamento entre as dez mais lidas pela Revista Veja. Cabe ainda uma reflexão acerca de uma obra de cunho poético aparecer entre as citações, a de Shakespeare que, embora não seja classificada, pode ter recebido influência do terceiro filme de Harry Potter, em que o 4º ato da peça Hamlet é transformado em uma música ou provavelmente foi indicada por um professor de literatura ou língua portuguesa. O mesmo deve ter ocorrido com as obras Dom Quixote, de Cervantes, e Cara ou Coroa, de Fernando Sabino.
Há uma confusão entre gênero e título de obra. Esta pode acontecer por dois motivos; o desconhecimento dessa classificação ou o esquecimento pela população entrevistada do título da obra lida que se insere nas classificações: ficção científica, aventura etc.
Procuramos então detectar por qual meio de comunicação os leitores souberam da existência das obras de Rowling. As respostas podem ser visualizadas a seguir:

Como ficou sabendo dos livros de HP?

Fi

%

Filme

6

22

Amigos

7

27

Livraria

3

11

Jornal

2

7

TV

3

11

Ganhou

2

7

Bancas

1

4

Pelo sucesso

2

7

Biblioteca

1

4

Gráfico 10 – Meios de divulgação dos livros de Rowling

A maioria dos entrevistados ficou sabendo dos livros por meio dos amigos (27%), os filmes também chamaram atenção para os livros (22%), por ter visto o livro em uma livraria ou na TV (11% cada), outros ficaram sabendo pelos jornais ou pelo sucesso da história (7%) e, com 4% cada, temos aqueles que viram o livro nas bancas ou na biblioteca. Lembrando que esta foi uma pergunta aberta e mais de uma resposta poderia ser dada por cada aluno.
Indagando esses leitores acerca do enredo da obra, verificamos que o mais atraente para ele são as aventuras pelas quais os personagens passam (27%), a magia (20%), e o suspense (17%), outros elementos como os desafios, os mistérios, os monstros, as histórias divertidas e o quadribol também são mencionados. É importante ressaltar que esta pergunta foi aberta e cada aluno pôde dar mais de uma resposta. O gráfico a seguir ilustra essas respostas:

O que mais gosta nas histórias?

Fi

%

Desafios

1

3

Histórias divertidas

2

7

Suspense

5

17

Mistérios

2

7

Monstros

2

7

Magia

6

20

Aventuras

8

27

Ação

1

3

Emoções

1

3

Parece que é real

1

3

Quadribol

1

3

Análise Geral
Todos os que leram Harry Potter afirmaram gostar de ler, a maioria disse ter lido os livros depois de conhecer os filmes. A maioria deles afirmou ter o hábito de ler antes de conhecer os livros de Harry Potter e o gênero mais apontado como preferido é o de aventura. Quando perguntamos se depois da leitura da obra de J.K. Rowling houve interesse para a leitura de novos livros, observamos um certo equilíbrio, mas a maioria afirmou ter se interessado. A obra que mais chama a atenção daqueles que se interessaram por novas leituras foi o Senhor dos Anéis de Tolkien, que tem um estilo fantasioso similar ao das obras de Harry Potter. A obra de Tolkien provavelmente tornou-se conhecida também por intermédio dos filmes. Deve ter atraído os jovens como as obras de Harry Potter, pelo tipo de narrativa fantástica e cativante que apresenta.
Ao perguntarmos como as crianças ficaram sabendo do menino bruxo, a eficácia dos planos de mídia das editoras e da Warner Bros. ficou clara, já que muitos alunos afirmaram ter conhecimento por meio de amigos. Outros ganharam o livro de parentes ou viram o livro na TV, no jornal ou souberam de seu sucesso. Outra forma de chamar a atenção desse público deu-se pela apresentação dos filmes produzidos pela Warner. Eles permitiram um primeiro contato com os jovens e despertaram seus interesses por conhecer um pouco mais das histórias. Deste modo, podemos concluir que, se a princípio, as obras de Rowling foram divulgadas pela propaganda interpessoal, o “boom” no mercado deve-se a um plano específico bem estruturado. Assim, embora Rowling seja uma ótima contadora de histórias e as suas obras sejam cativantes para o público a que se destinam, elas podem ser definidas como um fenômeno de mercado.

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