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  GULLIVER´S TRAVELS À MODA LOBATIANA

Adriana Silene Vieira – Centro Universitário São Camilo - CUSC

A pesquisa aborda a influência do livro Gulliver’s Travels (1726), de Jonathan Swift, na literatura infantil de Monteiro Lobato.
Partindo da análise da tradução lobatiana do texto de Swift, podemos encontrar subsídios para o estudo das demais traduções de Lobato e da influência destas em sua obra infantil, seja através da relação entre as personagens lobatianas e as personagens estrangeiras, seja das adaptações em que os personagens do Sítio são contadores de histórias.
A adaptação de Gulliver´s Travels feita por Monteiro Lobato, publicada em 1937, pela Cia Editora Nacional com o título Viagem de Gulliver ao país dos homenzinhos de um palmo de altura, trata da primeira parte das quatro que compõem o texto integral. Nosso estudo aborda as modificações feitas no texto pelo adaptador, cotejando-as com a obra em inglês, para o estudo das diferenças e semelhanças entre os dois textos. Além disso, aborda a influência do trabalho de Lobato como adaptador em outros textos seus, dirigidos ao público infanto-juvenil. Um exemplo seria A chave do tamanho (1942), obra que apresenta algumas temáticas como a miniaturização, a sátira e a relativização do ponto de vista, que aparecem também no texto swiftiano.

Monteiro Lobato, tradutor e adaptador.

Em D. Quixote das crianças, temos um exemplo do trabalho de Lobato de adaptação de um texto originalmente escrito para adultos que, segundo ele, pode interessar ao leitor infantil. Assim, se a linguagem do livro de Cervantes, traduzido em português para o público adulto, não seria interessante ou fácil de ler para a criança brasileira, Lobato, colocando Dona Benta como narradora, faz um trabalho de adaptação. A personagem lê a história e a conta oralmente para seus netos, dando atenção ao enredo, ou, segundo as palavras de Lobato , às aventuras.
Nos textos lobatianos é comum a sua preocupação com o “abrasileiramento” da língua. Em sua correspondência com Rangel, em 1916, o escritor se queixava da falta de livros para as crianças brasileiras:

Ando com várias idéias. Uma: vestir à nacional as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas moralidades. Coisa para crianças. Veio-me diante da atenção curiosa com que meus pequenos ouvem as fábulas que Purezinha conta. Guardam-nas de memória e vão recontá-las aos amigos – sem, entretanto, prestarem nenhuma atenção à moralidade, como é natural. A moralidade nos fica no subconsciente para ir se revelando mais tarde, à medida que progredimos em compreensão. Ora, um fabulário nosso, com bichos daqui em vez dos exóticos, se for feito com arte e talento dará coisa preciosa. As fábulas em português que conheço, em geral traduções de La Fontaine, são pequenas moitas de amora do mato – espinhentas e impenetráveis. Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada. Fábulas assim seriam um começo da literatura que nos falta.(...). É de tal pobreza e tão besta a nossa literatura infantil, que nada acho para a iniciação de meus filhos.

Nessa carta de 1916, podemos observar um pouco dos planos de Lobato com relação à literatura infantil, nela incluídas atividades de tradução. A preocupação do escritor com seus filhos se estenderia depois a todas as crianças do Brasil, sendo suas idéias relativas à leitura, público e livros expostas em suas cartas e também em suas obras. A teoria e prática lobatianas de pensar e trabalhar com textos estrangeiros manifestam-se de várias formas, seja fazendo traduções e adaptações, seja incluindo personagens de textos estrangeiros em sua obra infantil.
Em carta de 1921, Lobato, ao comentar seus planos de tradução e produção dirigidas ao público infantil, critica o trabalho de Jansen:

Pretendemos lançar uma série de livros para crianças, como Gulliver, Robinson, etc., os clássicos, e vamos nos guiar por umas edições do velho Laemmert, organizadas por Jansen Muller. Quero a mesma coisa, porém com mais leveza e graça de língua. Creio até que se pode agarrar o Jansen como “burro” e reescrever aquilo em linguagem desliteraturizada.

Esta crítica não pode passar despercebida, pois mostra que Lobato havia lido as traduções feitas pelo professor do colégio Pedro II, e desaprova a linguagem utilizada por ele. Quando Lobato expõe seus planos de escrever seus textos em uma linguagem “desliteraturizada”, mostra que para ele, mesmo tendo sido publicados no Brasil, estes textos não apresentariam “leveza e graça de língua”.
O que estaria Lobato chamando de “linguagem desliteraturizada”?
Podemos pensar que seja uma linguagem simples, próxima da oralidade, como diria Emília, “em estilo transparente como clara de ovo”. Poderíamos interpretar essa expressão de Lobato como busca de uma linguagem mais inteligível para o leitor infantil, pois, embora o texto de Jansen fosse uma tradução destinada ao público infantil, usava uma linguagem já estranha para leitores do século XX.
A crítica de Lobato ao Jansen tradutor, aliada ao trecho de D. Quixote das Crianças, no qual Emília afirma que um bom texto deveria ser contado com as palavras de Dona Benta, Tia Nastácia e demais ouvintes, num estilo facilmente compreensível pela criança, leva-nos a concluir que, para Lobato, uma boa adaptação, ou um bom texto para as crianças, traria uma linguagem acessível.
Na carta transcrita, Lobato comenta também o seu plano de trabalho: guiar-se pelo trabalho de Jansen e reescrevê-lo, o que despertou nossa curiosidade de observar se ocorreu realmente e de que forma ocorreu esse trabalho de “guiar-se por” e “reescrever” as adaptações de Jansen.
Observamos que as personagens dos títulos traduzidos por Jansen, Contos seletos das mil e uma noites (1882), Robinson Crusoé (1885), Viagens de Gulliver (1888) e As aventuras do celebérrimo Barão de Münchhausen (1891) aparecem de uma forma ou de outra na produção lobatiana: Lobato publica adaptações de R. C. e G. T.; e inclui o Barão de Münchhausen, assim como algumas personagens das Mil e uma noites, como “visitantes” do Sítio de Dona Benta em alguns de seus livros
Surge, assim, a hipótese de que Lobato, ao tratar de obras e personagens europeus trabalhados por Jansen, cria formas inventivas de trazê-los para o repertório do leitor brasileiro, além da mera tradução e adaptação.
Lobato menciona o texto de Swift ao arrolar o que considera bons textos estrangeiros destinados às crianças:

E há Viagens de Gulliver, e as Mil e uma noites e Peter Pan – todas essas coisas que vêm galhardamente resistindo ao roçagar dos anos. O realmente bom, é de todas as pátrias e de todos os séculos.

Esta seleção do texto de Swift entre os preferidos de Lobato é relevante porque ele veio efetivamente a trabalhar com estas obras por ele selecionadas, o que coincide com o que diz a Hernani Ferreira tratando de questões de leitura e escrita:

Quanto aos livros a recomendar... Que coisa difícil! Para cada temperamento, para cada personalidade que somos, tais os livros. Eu já disse não sei onde, que temos de ser ímãs; e passar de galopada pelos livros, com cascos de ferro imantado, para irmos atraindo o que nas leituras nos aproveite, por força de misteriosa afinidade com o mistério interior que somos. Ler não para amontoar coisas, mas para atrair coisas. Não coisas escolhidas conscientemente, mas coisas afins, que nos aumentem sem o percebermos.

Lobato usa neste trecho a metáfora do ímã para tratar do ato da leitura, tratando da influência como uma espécie de atração.
Se compararmos o que Lobato diz sobre a leitura com sua prática como escritor, podemos observar, por exemplo, que ele realmente viria a adaptar, de diferentes maneiras, os textos Robinson Crusoé, Peter Pan e Gulliver, por ele citados mais de uma vez. Assim, a observação das leituras feitas por Lobato é importante no estudo da influência dos textos estrangeiros em sua composição e também na observação da forma como esta se dá.
Na sua obra infantil, o escritor se utiliza constantemente de personagens da cultura ocidental (e também algumas da oriental). Em Reinações de Narizinho (1931), conhecidas personagens estrangeiras precisavam “fugir de seus livros originais e viver outras aventuras, no espaço do Sítio do Picapau Amarelo”. A metáfora da “fuga” das personagens do livro da Carochinha, para viverem novas aventuras no Sítio é tão expressiva quanto teorias como a de Oswald de Andrade, em seu “Manifesto Antropófago” para tratar da relação do artista brasileiro com a cultura estrangeira. Lobato, em vários momentos, põe na fala de suas personagens uma idéia que seria posta em prática ao longo de toda sua produção infantil, a criação de novas histórias com personagens estrangeiras. Esta se dá desde Reinações de Narizinho (1931), em que Emília rouba uma vara de condão de uma fada; passando por O Picapau Amarelo (1939), em que as personagens do Sítio se apropriam do navio do Capitão Gancho, e chegando à apropriação do tema da miniatura em A chave do tamanho (1942).
O trabalho de Lobato como editor e tradutor teve grande importância para a propagação da literatura estrangeira no Brasil, pois, além de haver lançado vários novos títulos, de escritores conhecidos e desconhecidos, lançou também a idéia de distribuir livros pelo correio a vários estabelecimentos comerciais do país.
Outro fato que marca a relação de Lobato com a cultura estrangeira é que ele foi adido comercial brasileiro nos Estados Unidos, morando em Nova Iorque entre 1927 e 1930. Nessa época, entusiasmou-se com a industrialização americana, tentando depois trazer para o Brasil muitas das idéias que aprendera por lá. Lobato era bastante interessado em diferentes culturas, particularmente a inglesa e a norte-americana e ao mesmo tempo extremamente nacionalista, pois se preocupava com a valorização da cultura brasileira e com nosso desenvolvimento. Seu interesse pela cultura estrangeira, em especial pela cultura anglo-saxã, aparece em várias de suas cartas, desde 1907. Em 1909, ele já fazia traduções do jornal Weekly Times, de Londres, para alguns jornais brasileiros.
Além de se preocupar com a falta de livros para as crianças, Lobato mostrava preocupação com a difusão, no Brasil, de contos e romances escritos em outras línguas, particularmente o inglês. Seu interesse condiz com seus planos de editor que começa a publicar traduções de textos originalmente escritos nessa língua e que teriam, segundo ele, pouca circulação no Brasil no início do século XX.

(...) Mas só traduzíamos do francês e do espanhol.
A literatura inglesa, tão rica de monumentos, era como se não existisse. A alemã, a russa, a escandinava, idem. A americana, idem. Um dia um editor inteligente teve a idéia de arejar o cérebro dos nossos eternos ledores de escrichadas e ponsonadas. Aventurou-se a lançar no mercado Wren, Wallace, Bourroughs, Stevenson, e que tais. E foi além. Lançou dos sumos: Kipling, Jack London — e já pensa em Joseph Conrad e Bernard Shaw.
A surpresa do indígena foi enorme. Sério? Seria possível que houvesse no mundo escritores maiores do que Escrich e Dumas? Que fora da França e da Espanha houvesse salvação? (...)
A tradução tem que ser um transplante. O tradutor necessita compreender a fundo a obra e o autor, e reescrevê-la em português como quem ouve uma história e depois a conta com palavras suas.

Não podemos deixar de destacar no trecho citado que os nomes arrolados foram publicados pela Companhia Editora Nacional, seja com a assinatura de Lobato, seja com a de colegas seus, como Godofredo Rangel . A concepção lobatiana de tradução faz referência à temática da oralidade, pois para Lobato, o tradutor deve reescrever o texto como quem ouve uma história, contando-a com palavras suas. Essa idéia se harmoniza com seu trabalho de tradução e adaptação, pois, ao traduzir textos como Peter Pan, D. Quixote, História do Mundo para Crianças, não só adapta livremente o enredo como também apresenta a história através de um contador de histórias, Dona Benta. Isto nos leva à hipótese de que, mesmo quando não colocava uma personagem como narradora, Lobato ainda mantinha o processo de traduzir e adaptar como se o texto fosse apresentado por um contador de histórias, isto se dá, por exemplo, em sua adaptação de Alice, em que, logo no início, o narrador afirma que a história iria ser contada “por artes de Narizinho”, que queria conhecer a história da personagem inglesa.
O interesse de Lobato pela difusão dos textos em outras línguas se alia também ao que chamaríamos de certa “francofobia”. Lobato criticava muito os brasileiros, que, segundo ele, “macaqueavam” os franceses . O escritor desaprovava a atitude submissa de alguns artistas, entre eles alguns integrantes do grupo modernista, que buscavam inspiração estrangeira e, muitas vezes, traziam para o Brasil modas que não faziam sentido em nosso país. O trabalho de Lobato mostra sua preocupação de, ao trazer o material estrangeiro, inseri-lo no “espaço” e na cultura nacional. Assim, o espaço físico representado pelo Sítio do Picapau Amarelo pode ser lido como a contextualização ou o abrasileiramento do material estrangeiro.
Segundo Else Vieira, a forma como o nome do tradutor é apresentado no livro traduzido por ele mostra a importância dada a seu trabalho. Dependendo da relevância e popularidade do tradutor, seu nome aparece na capa, página de rosto ou apenas na ficha catalográfica. No caso de Lobato, algumas traduções traziam seu nome na capa e também nas propagandas, pois esta era uma estratégia de marketing, a qual se repete até hoje nas reedições de suas traduções.
Levando em conta essa informação, no texto Viagens de Gulliver ao paiz dos homenzinhos de um palmo de altura, título dado por Lobato ao seu G. T., observamos que o nome do adaptador não aparece na capa, mas na página de rosto, como adaptador. Já em A filha da neve, de Jack London, seu nome aparece na capa.
Também na correspondência de Lobato, encontramos uma observação curiosa em relação ao ofício do tradutor e à importância dada a esse trabalho:

Os nomes que vimos pela primeira vez como tradutores perdem o prestígio quando os vemos como autores. Há em nós a vaga impressão de que quem traduz não pode criar” .

Seu comentário traz à tona a polêmica sobre a valorização do trabalho do tradutor. No caso de Lobato, assim como no de Érico Veríssimo, ocorreria o contrário do que o texto acima sugere: Lobato publica suas traduções nas décadas de 30 e 40, época em que já era consagrado como escritor, de modo que o simples fato de assinar uma tradução já valoriza a obra. Este tema é também discutido por Vanete Dutra Santana, que trata da importância das traduções dos contos de E. A. Poe por Baudelaire.
Os textos traduzidos por Monteiro Lobato, apresentam em geral seu nome na capa, juntamente com o nome do autor, o que mostra que seu nome era garantia de maior vendagem da obra. A valorização do nome do tradutor é citada também por Érico Veríssimo, que afirma ter uma tradução de uma obra de Katherine Mansfield sido publicada com maior destaque para seu nome que o da própria autora.
Assim como Érico Veríssimo, na Editora Globo, Lobato – na Companhia Editora Nacional – verteu para o português grande quantidade de textos. Mas, enquanto Veríssimo comenta sobre suas traduções mais como um trabalho árduo, feito durante a noite, e por necessidades financeira, independentemente de apreciar o autor que traduzia , Lobato afirmava em suas cartas que traduzia por um prazer, escolhendo as obras e autores de acordo com sua afinidade e interesses e chegando a afirmar que a tradução era sua “pinga”.
O número de traduções que levam a assinatura de Lobato é tão grande que leva muitos a questionarem sobre ser mesmo ele o tradutor. Além disso, estudiosos da tradução costumam criticar o que chamam de incorreções nestes seus trabalhos, tratando quase sempre da tradução lobatiana do texto Tom Sawyer, de Mark Twain , ou sobre a ausência dos trocadilhos de Carroll na tradução de Alice in Wonderland . Embora em nossa tese tenha abordado apenas com sua tradução de G. T. , acreditamos, contudo, que seu trabalho como tradutor não diminui seu nome como escritor, devido, entre outros aspectos, à influência de suas leituras e traduções em seu processo de criação, assim como de seu nome como um chamariz que poderia levar à maior difusão dos textos.
O intenso trabalho de Lobato como tradutor é comentado por Edgard Cavalheiro . Os títulos que ele arrola são, na maioria, autores ingleses e norte-americanos. Entre estes podemos citar Conan Doyle, Daniel Defoe, Eleanor H. Porter, Ernest Hemingway, H. G. Wells, Herman Melville, Jack London, John Steinbeck, Lewis Carroll, Mark Twain, Rudyard Kipling, além, é claro, de Jonathan Swift. O fato de serem estas obras, em sua grande maioria , textos originalmente escritos em inglês pode ser visto como uma inovação e uma tendência de sua época.
Lobato se envolve de forma bastante inventiva com alguns dos textos traduzidos por ele. Temos, por exemplo, em Memórias da Emília, uma propaganda da tradução, feita por Lobato e publicada pela Companhia Editora Nacional, do livro Alice in Wonderland (1865). Nesta obra, o autor destaca o fato de Alice conversar em português com Tia Nastácia:

Nastácia estava de fato fritando bolos. Emília fez a apresentação.
— “Esta aqui, tia Nastácia, é a famosa Alice do País das Maravilhas e também do País do Espelho, lembra-se.
— “Muito boas tardes, senhora Nastácia! murmurou Alice cumprimentando de cabeça.
— “Ué! Exclamou a preta. A inglesinha então fala nossa língua?
— “Alice já foi traduzida em português, explicou Emília. E voltando-se para a menina: Gosta de bolinhos?

O texto é seguido de uma nota de rodapé informando o título do livro, Alice in Wonderland, que havia sido traduzido pelo próprio Lobato. A informação tem sotaque comercial, pois nela Lobato, como co-editor, faz propaganda de outro trabalho seu, despertando a curiosidade do leitor o outro livro. Usando da intertextualidade como estratégia de marketing, Lobato aponta a necessidade da tradução para que a personagem estrangeira pudesse falar em vernáculo e se comunicar com tia Nastácia, pois, depois de ser traduzida, a obra estrangeira começava a fazer parte do universo dos leitores brasileiros.
Nosso trabalho com a tradução lobatiana de G. T. tem seu foco na censura ou não de trechos de e na recuperação ou não da sátira, presente no texto de J. Swift. Desse modo, observamos que nosso objeto de análise, não apresenta o original, mas sim versões, adaptações, transcrições de um manuscrito desaparecido. Assim, ao estudar o trabalho de Lobato podemos inseri-lo em seus pensamentos sobre a tradução, com a aproximação entre o “tradutor” e o contador de histórias, em sua preocupação em manter a “fábula” ou “versão fracionada” do texto, inserindo-a no novo contexto. Assim como fizera com D. Quixote, Lobato fez com Alice e também com G. T., mostrando a visão que, como leitor, tinha em mente para seus textos.
Apresentamos a adaptação lobatiana como a leitura feita por ele, levantando hipóteses sobre suas preocupações com a recuperação ou não to texto “original”. Acreditamos que Lobato faz um trabalho de intrusão ou de tradução cultural do texto de Swift. Ou, para usar a metáfora sua, Lobato traduz como se fosse um cavalo com as patas imantadas, que galopasse sobre os textos atraindo apenas aquilo com que se identificasse.
É também importante lembrar que, por não ser contemporâneo de Lobato nem de Jansen e também por não ser originalmente destinado às crianças, o texto de Swift sofreu muitas modificações. Assim, não se pode dizer que os adaptadores brasileiros sejam responsáveis pelas “perdas” do texto, já que, se perdas houve, estas vieram antes, nas adaptações inglesas . Desse modo, nosso confronto entre o “original” e a versão lobatiana objetiva constatar suas semelhanças e diferenças, lembrando que dentro da própria língua se fazem traduções, como no caso das versões de Swift na Inglaterra ou no D. Quixote das crianças, que reescreve a tradução do Visconde de Castilho e do Visconde de Azevedo, publicada em Portugal. Assim, para Lobato, o paradigma pode ou não ter sido Jansen, mas para nossa tese os paradigmas para ele são a edição de Falkner e uma das adaptações, observando as marcas lobatianas. Uma destas marcas seria seu estilo, a oralização e simplificação do texto, com vistas a facilitar a leitura para o público.
Acreditamos que Lobato não reproduz a escatologia do texto de Swift porque esta nada diz a sua época, e também porque sabia que não agradaria a seu público. Mas a crítica às guerras, detalhada no texto de Swift, aparece também detalalhada no de Lobato, que faz, inclusive, comentários desfarováreis a ela. Esta crítica parece importante na primeira metade do século XX.

Idéias de Lobato sobre leitura e tradução.

A adaptação lobatiana de G. T., publicada pela Cia Editora Nacional teve apenas quatro edições, duas em 1937 e duas em 1940.
O interesse de Lobato por G. T. também se explica no livro de ensaios e crônicas intitulado Na Antevéspera (1933), onde encontramos informações relativas a seu primeiro contato com a personagem de Swift através de uma imagem de propaganda. É importante observar que Lobato relata, quando adulto, sobre algo que ficou em sua memória, da infância, quando ainda não sabia ler:

Lembro-me de um cromo de vivas cores que vi aos cinco anos, reclame da linha de coser Coat (...) Representava aquele cromo um gigante estirado à borda do mar e enleado de mil fios de linha Coat; em redor formigava a legião dos pigmeus amarradores.(...)
Mais tarde, quando chegou o belo tempo dos livros de Grimm, Andersen e outros maravilhadores da imaginação infantil, travei conhecimento com Jonathan Swift e tive a explicação do meu cromo de Coat. Representava Gulliver no país de Liliput, amarrado durante o sono por mil cordas liliputianas.

Nesta passagem, Lobato inclui Swift entre os autores “maravilhadores da imaginação infantil”, tratando da forma como primeiro tomou contato com a história, através de uma propaganda estrangeira e da leitura de uma ilustração. A seguir, trata de sua experiência como leitor de uma adaptação do texto de Swift. É interessante observarmos que a primeira impressão que Lobato teve de G. T. foi a de uma história para crianças, lado a lado com Grimm e Andersen. Assim, da mesma forma como afirmava em várias cartas valorizar sua impressão de criança com relação à obra R. C., Lobato parece também desejar resgatar sua impressão de criança leitora de G. T., já que seu objetivo era o de escrever livros que pudessem interessar e se comunicar com as crianças, o que, segundo os críticos do escritor, foi um trabalho bem-sucedido.
O relato de Lobato sobre seu primeiro contato com o texto de Swift traz-nos curiosidade sobre qual adaptação desse autor teria chegado às suas mãos e leva-nos a levantar a hipótese de que tenha sido a adaptação de Jansen, pois Lobato tinha seis anos em 1888, ano de publicação desta adaptação. Outra hipótese seria a de que teria lido alguma adaptação portuguesa.
Em nosso estudo sobre a adaptação lobatiana de Peter Pan , observamos a liberdade de seu trabalho e a introdução da personagem estrangeira em outros textos seus, concluindo que Lobato, num trabalho de “bricolagem”, reaproveitava os textos que lia em suas composições, fazendo um trabalho de apropriação ou “deglutição” dos textos estrangeiros.
A observação de algumas outras adaptações, nas quais Lobato tomou maiores liberdades, deixando agir a voz de seus narradores, é uma maneira de compreendermos melhor seu processo de tradução e adaptação. Observar que esse tema da transformação dos textos escritos em histórias “contadas” está sempre presente na obra de Lobato nos leva a perceber que a introdução de um “contador de histórias” é uma de suas maneiras de adaptar os textos estrangeiros. Assim, os comentários de Lobato de que se deveria considerar o texto de Jansen como rascunho se unem aos comentários de Emília sobre “deixar de lado as viscondadas” ao contar a história de D. Quixote, referindo-se à linguagem dos dois viscondes que haviam traduzido Cervantes para o português. Essas idéias de Lobato nos fazem pensar em suas adaptações como forma de tornar os textos estrangeiros – fossem estes clássicos ou infantis – mais acessíveis a seu público.
Vemos em todos estes textos a marca de Lobato, podendo observar que seu trabalho com obras alheias – e suas – era de uma constante reescritura. Mesmo desconhecendo a edição do texto de Swift sobre a qual Lobato teria trabalhado, com base no levantamento de Prior-Palmer sobre as várias adaptações de G. T., na língua inglesa e levantando a hipótese de Lobato ter tido conhecimento do texto integral em inglês, podemos estudar seu processo de tradução e adaptação.
Falamos em tradução no sentido mais amplo, de passagem de uma língua a outra, e do processo de adaptação no sentido de resumo, mudança livre de palavras , permanência do enredo e modificações tendo por base o receptor (adaptar para). Lembrando que Lobato, ao traduzir textos como Hans Staden, adaptava sua própria tradução para seus leitores infantis, usando Dona Benta mais uma vez como narradora, nossa hipótese é que, tendo utilizado uma versão em inglês ou até mesmo em português, o processo de Lobato era o mesmo: limpar o texto de tudo aquilo que não era seu “modo de escrever”, deixando as palavras em seu estilo, re-escrevendo ou “lobatiando” o texto.
Na obra A Barca de Gleyre temos, ainda, outras referências de Lobato à tradução, de modo a podermos pensar em um conceito de tradução lobatiano. Em carta de 1924, Lobato diz a Rangel:

(...) isto de traduções é uma eterna lástima. Alguns de meus contos aparecidos em revistas de Buenos Aires são até de irritar. E pelo que fazem nos meus contos, imagino a borracheira em que os lusitanos terão transformado as centenas de obras internacionais que traduziram. Tenho diante mim a tradução de The Vicar of the Wakefield, que é uma obra-prima da literatura inglesa; pois o raio do labrego transformou-a em “bota” – com “s”. Gosto tanto desse livro, que me vem vontade de eu mesmo pô-lo em língua nossa.
(...) Mas insisto em obter traduções como as entendo. Essas traduções infamérrimas que vejo por aí, não as quero de maneira nenhuma. Mas é difícil...

Vemos nesse comentário que Lobato tinha também alguns conceitos sobre o que seriam as boas e más traduções. Aliada à sua observação sobre a dificuldade de se traduzir Alice, embora o tenha feito em 1931, esta afirmação mostra que, embora se desse o direito de traduzir textos de outros, muitas vezes desaprovava o que era feito com os seus.
Algumas vezes os comentários de Lobato se referiam também à atualização do português, pensando em uma adaptação dentro da própria língua, “abrasileirando portugueses”, como vemos a seguir:

Sabe até o que quero? Verter a Menina e Moça, ou Saudades do velho Bernardim Ribeiro, em língua quase atual. Fiz uma parte, que já dei a imprimir. Depois te mostrarei. Aquilo está já muito recuado, muito antiquado; mas se o pusermos mais perto, em língua, não digo de hoje, mas de pouco antes de Herculano, fica uma delícia. O rouxinol que cantou, cantou e morreu – que lindo! É o melhor rouxinol que conheço. Os outros cantam e fazem cocô – o do Bernardim canta e morre...

Dos planos, Lobato parte para a ação e menciona sua esposa como a primeira crítica de seus trabalhos:

Já concluí a semi-desarcaização do Bernardim Ribeiro, mas coisa tão leve que o leitor nem sente. Nada se perdeu da ingenuidade daquele homem. De ilegível que era, ficou delicioso de ler-se. Fiz a experiência ontem em casa, com as provas. Purezinha, sempre tão exigente, leu-o e com encanto. Só agora, Rangel, vai o Bernardim popularizar-se no Brasil. Antes apenas lhe citavam Menina e Moça, e os imortais recorriam ao seu rouxinol sempre que precisavam dum passarinho que não fosse virabosta. Eu tinha-o na estante e jamais o li. Pegava e largava. E como eu, todo mundo. Logo que sair, te-lo-ás aí. Vamos fazer uma linda edição. Aquele rouxinolzinho merece gaiola dourada.

Chama-nos a atenção o fato de Lobato ter realmente editado uma “retradução” de um texto escrito em Língua Portuguesa. Este foi a obra Memórias de Um sargento de Milícias (1852-3), de Manuel Antônio de Almeida, que saiu em 1925, pela Cia Gráfico-Editora Monteiro Lobato numa edição “escoimada dos vícios da forma”. Esta “tradução” lobatiana é discutida e cotejada com o texto original por Lilian Escorel de Carvalho . A interferência do editor Lobato no texto de Manuel coincide com a interferência dos editores ingleses, que abordamos nos capítulos I e II.
Além de preocupar-se com a atualização do português, Lobato também tinha intenção de resumir os textos. Abaixo, temos um exemplo da preocupação de Lobato com o trabalho de condensação, ao fazer sugestões a E. Cavalheiro:

(...) e se puseres pedra-hume na tinta, ainda poderás na tradução encurtar umas cinqüenta páginas.

Desse modo, temos, junto da preocupação com a atualização da língua, o interesse em simplificar e resumir os textos nas adaptações brasileiras dos textos estrangeiros.
Os familiares de Lobato parecem sempre aparecer como os primeiros críticos de seus experimentos literários. Do mesmo modo que mencionara o fato de seus filhos re-contarem as histórias que ouviam da mãe, Lobato afirma que a mulher aprovara sua atualização do texto de Bernardim. Além disso, o escritor transplantara o serão doméstico para a ficção, na figura de Dona Benta como contadora de histórias. Desse mesmo modo, ele sugere a Rangel que pense em seus filhos como os destinatários de suas adaptações:

Lembras-te que os leitores vão ser todos os Nelos deste país e escreve como se estivesse escrevendo para o teu. Estou a examinar os Contos de Grimm dados pelo Garnier. Pobres crianças brasileiras! Que traduções galegais! Temos que refazer tudo isso – abrasileirar a linguagem.

Por fim, também navegamos no que poderia ser chamado de teoria lobatiana da tradução quando Lobato usa a metáfora da tradução como transplante, e considera a tradução como:

A tarefa mais delicada e difícil que existe, embora realizável quando se trata da passagem de obra em língua da mesma origem que a nossa, como a francesa ou a espanhola. Mas traduzir do inglês, do alemão, ou do russo, equivale de fato a quase absurdo. Fatalmente ocorre uma desnaturação. Se a tradução é literal, o sentido chega a desaparecer; a obra torna-se ininteligível e asnática, sem pé nem cabeça, o que se não dá quando o original é francês ou espanhol. A tradução tem de ser um transplante. O tradutor necessita compreender a fundo a obra e o autor, e reescrevê-la em português como quem ouve uma história e depois a conta com palavras suas. Ora, isto exige que o tradutor seja também escritor – e escritor decente.

Aqui vemos que Lobato considera a tradução de obras escritas em línguas não neolatinas como algo mais complicado e lembra que é preciso o tradutor conhecer a fundo a obra, para traduzir seu sentido, e não simplesmente suas palavras. Por fim, lembra a necessidade de o tradutor ser também um escritor, o que se dava em seu caso.
Parece que a tradução sempre foi uma preocupação de Lobato, que freqüentemente a comenta, inclusive a propósito do trabalho de outros tradutores, voltando a expressar sua teoria sobre o que chamaríamos de infidelidade às palavras do texto original.

Folheei a tradução (“A sabedoria do destino”), li aqui e ali, e li com atenção os dois primeiros capítulos. Helas! É tradução ao tipo de quase todas por aí, que seguem o texto literalmente e matam toda a claridade da obra. Duvido que um leitor qualquer leia e entenda o que Maeterlinck quis dizer no capítulo I, em português, e no entanto está traduzido fielmente. Eis o erro. A tradução de fidelidade literal, isto é, de fidelidade à forma literária em que, dentro da sua língua, o autor expressou o seu pensamento, trai e mata a obra traduzida. O bom tradutor deve dizer exatamente a mesma coisa que o autor diz, mas dentro da sua língua, dentro da sua forma literária.

Pelo trecho acima, vemos que Lobato, criticando as traduções literais e afirmando que o tradutor deve ser um “bom escritor” parece considerar-se entre os bons, já que em seus trabalhos ele toma grande liberdade com relação aos textos de outros.
Questionado e criticado pelo grande número de traduções que levam sua assinatura, Lobato dá a receita de seu trabalho, que seria incansável.

“Posso ensinar o meu método a todos esses moços. A questão toda é ir para a máquina de escrever logo que chega o leiteiro e não parar até a hora do almoço. Eles que experimentem...” Era como respondia, meio ofendido, a tais calúnias.

Este regime apertado de trabalho coincide com o que Lobato conta a seu amigo Rangel sobre o mesmo.

Tenho empregado as manhãs a traduzir, e num galope. Imagine só a batelada de janeiro até hoje: Grimm, Andersen, Perrault, Contos de Conan Doyle, O homem invisível de Wells e Polliana Moça, O livro da Jungle. E ainda fiz Emília no país da gramática. Tudo isto sem faltar ao meu trabalho diário na Cia. Petróleos do Brasil, com amiudadas visitas ao poço do Araquá. Positivamente não sei explicar como produzi tanto sem atrapalhar o meu trem normal de vida.

Junto à sua dedicação, observamos o seu testemunho sobre o deleite ao lidar com os autores que traduz:

Gosto imenso de traduzir certos autores. É uma viagem por um estilo. E traduzir Kipling, então? Que esporte! Que alpinismo! Que delícia remodelar uma obra de arte em outra língua! Estou agora a concluir um Jack London, que alguém daqui traduziu massacradamente. Adoro London com suas neves do Alaska, com o seu Klonlike, com os seus maravilhosos cães de trenó.

Lobato trata também de seu trabalho de “fiscal” de outros tradutores:

Ando a fiscalizar as traduções para o Otales, e bom dinheiro perde ele com essa fiscalização! Mas, faça-se-lhe justiça: perde-o com prazer. Prefere perder dinheiro a enfiar no público uma tradução que eu condene. Que outro editor faz isto? Já perdeu assim mais de vinte contos este ano. E o público engoliria do mesmo modo todas as infâmias condenadas, porque o público é o maior bueiro do mundo. Eu às vezes até me revolto de dar à bola em certos trechos de difícil tradução, ao lembrar-me do que é a média do público. Mas sou visceralmente honesto na minha literatura. Duvide quem quiser dessa honestidade. Eu não duvido. Nem você.

É interessante observarmos que nesse trecho Lobato parece incluir seus trabalhos como tradutor dentro de “sua” literatura. Além disso, ele, que trata com respeito seus leitores infantis, aqui parece destratar o público em geral que, segundo ele, aceitaria qualquer tradução sem nenhuma crítica, não obstante, ele diz esmerar-se em seu trabalho, por causa de seus princípios.
Para contrapor à crítica de Lobato ao leitor comum, e para evitar que ele seja acusado de desmerecer o mesmo, temos o trecho abaixo:

Ora, como se sabe, a elite no Brasil é restritiva e, ao demais, os seus elementos são os que menos compram livros.[...] Quem se metesse a editar para as elites morreria de fome. O forte da venda está nas massas. Essas só aceitam a leitura como um divertimento. Daí tem você estabelecido o princípio: é preciso divertir o leitor. [...] Por isso estou editando os romances de capa e espada de Dumas e outros escritores franceses passionais, cujas traduções o mundo em peso lê e aprecia.

Lembrando também do carinho especial de Lobato para com seu público infantil, temos uma metáfora sua sobre o que se encaixaria no gosto deste leitor:

Se eu sarar bem e puder ver-te um dia hei de revelar-te o segredo de escrever para crianças de modo que elas se agradem e peçam por mais. No fundo é tratá-las como quase gentes grandes. Aprendi isso certa vez em que vi uma criança metida nesta escolha: ou um lindo bonezinho infantil vermelho ou uma velha cartola do pai. Ah, não vacilou. Foi-se à cartola, e levou muito tempo com ela na cabeça. Nos livros as crianças querem que lhes demos cartolas – coisas mais altas do que elas podem compreender. Isso as lisonjeia tremendamente. Mas se o tempo inteiro as tratamos puerilmente, elas nos mandam às favas.

Lobato ainda volta a falar de seu trabalho de fiscal de traduções e também de “retradutor”, entrando em detalhes sobre alguns textos traduzidos, ou seja, tratando na prática da sua teoria, segundo a qual às vezes não se precisam traduzir as palavras “ao pé da letra”, mas que se podem tomar os nomes próprios dados às coisas nas outras culturas. Em carta, de 1941, o escritor comenta com Rangel a respeito das revisões que fazia em trabalhos dos outros e de críticas às suas traduções:

(...) A primeira tradução do Kim lançada pela Editora era uma neblina. A gente lia e entendia vagamente. Otales encomendou-me outra. E meu último trabalho – ou “trabalheira” – foi retraduzir uma tradução do tremendo For Whom The Bell tolls, do Hemingway. Encontrei “pérolas do Agripino” nessa tradução, e das mais preciosas. Esta, por exemplo; - “What is this?” pergunta lá um cabra quando Jordan tira do bolso a frasqueira de absinto. E Jordan responde: “That is the real absinthe. That is wormwood.” “Wormwood” é o nome inglês da nossa velha losna, o ingrediente do absinto; mas como se trata duma palavra composta – “worm”, verme; e “wood”, pau, madeira – lá o tradutor tomou a pobre losna como “bicho de pau podre” e verteu assim: “Isto é o absinto, uma bebida feita de bicho de pau podre.” E acrescentou: “No verdadeiro absinto há verme de pau, cupim...”
(...) O Agripino coleciona destas “pérolas”, e se recorresse a mim eu lhe forneceria colares maravilhosos. Tenho uma coleção que vale ouro. E eu também solto de vez em quando a minha perolazinha. Na História da Literatura traduzi The Village Blacksmith – O ferreiro da Aldeia, por A aldeia de Blasksmith – e mais que depressa o Agripino, com aquele seu bico de ave, “nhoc”! fisgou-me a pérola e lá a pôs em sua coleção.

Ao criticar uma tradução incompreensível, Lobato a considera uma espécie de “neblina”, não deixa escapar também as suas próprias falhas. Desse modo, podemos observar que uma das qualidades das traduções para Lobato seria o fato de poder ser lida, ou seja, estar em estilo claro, transparente (como clara de ovo, diria a Emília).
Em carta de 5 de março de 1945, Lobato afirma, depois de terminar uma tradução de Will Durant:

Estou com atraso, com 2 cartas tuas sem a resposta pronta do costume. Isso foi porque empreendi a tradução do último volume da História da Civilização do Will Durant, Cesar e Cristo, e apaixonei-me tanto que suspendi todas as minhas atividades, inclusive a epistolar.
Hoje terminei – 700 pags! (...)
Essa tradução é a última que faço, e fi-la porque já tinha traduzido os primeiros volumes. Uf!... Chega. Mas vou ter saudades. Como é bom, como é absorvente traduzir um bom livro! (...)
Bem, volte à sua tradução. Goze essa delícia de que desassisadamente eu vou me privar. Foi a tradução que me salvou depois do meu desastre no petróleo. Em vez de recorrer ao suicídio, ao álcool ou a qualquer estupefaciente recorri ao vício de traduzir, e traduzi tão brutalmente que me acusaram lá fora de apenas assinar as traduções. Mas era o meio de me salvar. Hoje me sinto perfeitamente curado, – e por isso abandono o remédio.

A comparação do ofício de traduzir com um remédio, feita por Lobato, pode ser lida como uma forma de ele expressar o quanto esta tarefa lhe fazia bem. Sentido semelhante ocorre em outras metáforas de Lobato, quando, na prisão, trabalha com afinco em suas traduções e compara este ofício a um vício e/ou um remédio.
Além de escrever livros para crianças e adultos – e de adaptar Grimm, Andersen e Carroll – Lobato também traduziu autores importantes da literatura dita adulta, contribuindo para colocar o leitor brasileiro “em dia” com a produção literária internacional. Mas ele não se contentava apenas em verter os textos de uma língua para outra. Procurava também torná-los claros e mais fáceis de ler. No texto abaixo, ele, que já tratara da tradução como um transplante, usa a metáfora do escafandrista para tratar do tradutor, ressaltando sua importância para que o leitor comum conheça obras de outras nações e línguas.

Há muitas maneiras de ler. Talvez que a mais profunda seja a de quem verte um livro para outra língua. O tradutor é um escafandrista. Mergulha na obra como num mar, impregna-se de um pensamento concretizado de um certo modo – o estilo do autor – e lentamente o vai moldando no barro de outro idioma, para que a obra não admita fronteiras. Sem esses abnegados trabalhadores, a literatura ficaria adstrita a pátrias, condenada a limites muito mais estreitos do que os permitidos pela sua potencialidade.
O homem de uma só língua, que entra na biblioteca e pode ler O Banquete de Platão (...) e tanta coisa, admira os autores mas não tem uma palavra para a formiga humílima – o tradutor – graças à qual aquelas obras lhe caíram ao alcance.
Para o tradutor não haverá nunca remuneração econômica, nem glória, nem sequer gratidão dos homens; só há insultos quando não faz o trabalho perfeito. Não obstante, a coisa suprema do mundo mental: universalização do pensamento – é obra deles.
A América Latina acaba de receber um alto presente elaborado por uma dessas tenazes abelhas da internacionalização, Benjamim de Garay, com o seu transplante para o castelhano de Os Sertões de Euclides da Cunha. (...)
Mas não é só sobre Euclides que desejávamos falar aqui; sim, e só, sobre os tradutores e o prazer imenso do mergulho de escafandrista no mar das mentalidades. O último mergulho que dei proporcionou-me quatro semanas de verdadeiro êxtase: a tradução de Mme. Curie, de Eva Curie.

Finalizamos, assim, o tópico sobre “Lobato tradutor”, onde sistematizamos suas observações sobre a tradução, sua opinião sobre a importância da tradução para a difusão de textos estrangeiros no país, suas críticas às traduções e também sua apologia ao tradutor, através de metáforas como a do escafandrista, para lembrar que ele “mergulha”, e a da formiga, para lembrar seu trabalho incansável.
Lobato publicou dezenas de traduções pela Cia Editora Nacional, entre 1925 e 1946. A partir de 1945, Lobato passa a publicar seus textos pela editora Brasiliense, que reedita algumas de suas traduções e adaptações.
Estas traduções merecem um estudo mais detalhado, especialmente para observarmos como, nelas, o diálogo com o “original” se articula com as interferências nos textos que, em sua obra infantil, têm a mediação de Dona Benta.
Por isso, nas adaptações feitas por Lobato, a mudança de voz ou de foco narrativo é muito importante. Sendo assim, não deve ser gratuito o fato de G. T. traduzido por Lobato estar em terceira pessoa, quando o de Swift está em primeira. Se no texto integral temos uma espécie de paródia dos diários de viagem, na adaptação de Lobato temos um contador de histórias, uma espécie de filtro, de segunda voz.
Em sua adaptação de Alice in Wonderland Lobato aponta no prefácio que a história havia sido vertida para o português devido ao interesse de Narizinho, que não sabia inglês e que a tradução, embora não sendo considerada “fiel”, servia para dar uma pálida idéia da história, essa preocupação de na tradução de Alice fazer referências às personagens do Sítio mostra o constante diálogo entre o trabalho de Lobato como escritor e como tradutor, de modo que suas traduções podem ser vistas como o ofício de um grande contador de histórias, ofício no qual ele se assemelha a Dona Benta em seus serões.
No trecho abaixo, de uma carta escrita da prisão para seu amigo Candido Fontoura, em 23 de março de 1941, vemos transparecer a paixão de Lobato pela tradução:

Nas horas em que não estou dormindo, ou comendo, ou sendo visitado, ou conversando com os companheiros, trabalho em minhas traduções. Haverá melhor vida? Meu medo é um só: que o Tribunal de Segurança me absolva e assim me prive duma deliciosa estadia aqui de seis meses a dois anos. Isso só serviria para por em foco o caso do petróleo – e a causa se beneficiaria.

Em outra carta, para o amigo Garay, redigida na casa de detenção, no dia 19 de abril do mesmo ano, Lobato também alude às traduções:

Aproveito o tempo traduzindo o Kim, de Kipling e essa estadia na Índia me faz esquecer de maneira mais completa a prisão. Pena é que o excesso de visitas me tome tanto tempo. Como vai a tradução de Reinações?

Em carta de 15 de Abril de 1940, Lobato, diria.

Continuo traduzindo, a tradução é minha pinga. Traduzo como o bêbedo bebe: para esquecer, para atordoar. Enquanto traduzo, não penso na sabotagem do petróleo.

Com esta última metáfora sobre a tradução – “a minha pinga” – , finalizamos esta breve abordagem das idéias de Lobato acerca da tradução, além de seus relatos sobre seu trabalho em algumas destas. Desejamos com esse levantamento, dar nossa contribuição para uma pesquisa sobre as traduções que recebem a assinatura de Lobato, pensando nela como parte do mosaico de traduções publicadas no Brasil na primeira metade do século XX, época que, para a historiografia da tradução, foi o boom da tradução no Brasil.

 
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