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  HISTÓRIAS QUE ENCAMINHAM HISTÓRIAS: FÁBULAS E LENDAS ENCONTRAM-SE EM PROJETO DE TRABALHO NO ENSINO FUNDAMENTAL

Alessandra Junqueira Vieira - Universidade de Taubaté

Projeto: Histórias que brotam da leitura de outras
Identificação: Trabalho com fábulas
Público alvo: Alunos que iniciam o segundo ciclo do ensino fundamental
Justificativa: Levar os alunos a construir sentidos para os textos narrativos curtos lidos, conhecer as características de gêneros textuais, bem como trabalhar com outras linguagens.
Objetivo: Levar o aluno a fazer leitura e o estudo das características do gênero fábula, buscando capacitá-los a criar seus próprios textos verbais e não-verbais.

Fábula

Origem e conceito

? Fábula provém de fabla, isto é falar.
? A fábula é uma pequena narração de acontecimentos fictícios que tem dupla finalidade: instruir e divertir.
? Essas histórias, concebidas em prosa ou em verso, devem ser escritas em estilo simples e fácil.
? A origem da fábula é de tempos muito antigos e provém da necessidade natural que o homem sente de expressar seus pensamentos por meio de imagens, emblemas ou símbolos.
? Segundo Platão e Fiorin , a fábula é uma narração que se divide em duas partes: a narração propriamente dita, que é o texto figurativo, em que os personagens são animais , homens, etc e a moral, que é um texto temático, que reitera o significado da narração, indicando a leitura que dela se deve fazer.

Fábula “O sapo e o boi”

Texto figurativo (resumo)

Texto temático

Um sapo se encontra com um boi no meio de um pasto e maravilhado tenta imitá-lo. Para isso, estufa tanto o peito que, por fim, explode.

 

 

 

Seja sempre você mesmo.

 

Fábula - “A cigarra e as formigas”

 

Texto figurativo (resumo)

Texto temático

Em um dia de inverno, as formigas secavam suas reservas de trigo, quando de repente apareceu uma cigarra e lhes pediu um pouco de trigo. Além disso, disse que estava com muita fome e que achava que ia morrer. As formigas pararam de trabalhar e sugeriram ironicamente à cigarra que, se ela tinha passado o verão cantando, deveria passar o inverno dançando.

 

 

 

 

Os preguiçosos colhem o que merecem.

Os fabulistas

? Esopo viveu no século VI a. C. Foi escravo, sendo depois libertado. Suas fábulas readaptadas por Fedro, La Fontaine e outros, tornaram-se parte de nosso cotidiano.
? Fedro viveu em Roma de 30 a. C. a 44 d. C. Suas fábulas foram escritas em versos e tinham acentuado cunho satírico.
? Jean de La Fontaine, 1621-1695, poeta francês, além de compor suas próprias fábulas, também reescreveu em versos muitas das fábulas de Esopo.

As personagens

? Os estudiosos aconselham: devemos atribuir aos animais somente qualidades e ações que conservem analogia com seus instintos e propriedades naturais, ou que lhes são atribuídas pela experiência popular ou pela mitologia (GÓES 1991).

Raposa- Símbolo da astúcia e da perfídia . Na antiga China, a raposa era vista com capacidades especiais para a sedução. Na bíblia, ela personifica a perfídia e a maldade. No norte do Canadá, era sinônimo de “diabo”. O valor negativo da raposa também aparece nos bestiários medievais, onde ela é um animal enganador e astuto. Nos símbolos heráldicos, a raposa tem o significado de uma inteligência pérfida Biedermann (1993).

Nas fábulas de Esopo, ela é vista como espertíssima. Usa inteligência para passar a perna nos outros animais.

A Moral nas Fábulas

? Segundo Rousseau apud Góes (1991), a moral é o aspecto mais polêmico. A fábula escolhida para se trabalhar com a criança deve reunir um mínimo de condições que não permitam confusões interpretativas naquilo que pretendam ensinar; conceito claro e objetivo; sobriedade narrativa.
? As fables foram destinadas a uma época e para um público infantil não constituído como o entendemos hoje. O livro era dedicado a uma criança que era filha de um rei, ao qual o autor queria levar a reflexões sérias. Desta forma, é aconselhável cuidadosa seleção das fábulas antes de as sujeitarem às crianças.

Sobre estratégias de leitura

? Estratégias de leitura são procedimentos que envolvem o cognitivo e o metacognitivo.
? No ensino, elas não podem ser vistas como receitas, pois o que caracteriza a mentalidade estratégica é a capacidade de analisar os problemas e a flexibilidade para encontrar soluções Solé (1996).

Relatório do desenvolvimento das estratégias de leitura

1ª Atividade:
Duração: 50min
Objetivo: Desenvolver a compreensão do aluno sobre a moral da história
? Levei os alunos para o pátio da escola. Assim, nos sentamos em círculo e disse a eles que estávamos iniciando um trabalho de leitura de um tipo de história e que o trabalho duraria algumas semanas.
? Abri uma cartolina na qual estava escrita a definição de fábula
? Perguntei às crianças se elas já sabiam o que era fábula e se já conheciam alguma. Elas citaram alguns filmes que possuíam animais como personagens.
? Pedi às crianças que lessem o cartaz e me dissessem o que elas entenderam. Assim, cada uma mencionou um dos elementos típicos do gênero que havia lido no cartaz.
? Pedi para quatro alunos segurarem, em pé , cada qual um pedaço de cartolina, onde estava escrita uma moral de história e para quatro alunos lerem individualmente uma fábula para a classe. Toda vez que uma criança terminasse de ler sua fábula, a classe deveria dizer qual era a moral correspondente e explicar por que achava ser “aquela” a moral da história lida.
Obs.: Juntos, os alunos não tiveram dificuldades em associar cada fábula à sua moral.
2ª Atividade:
Duração: 1h 30mim
Objetivo: Desenvolver a compreensão do aluno dando atenção, de início, para o conhecimento lingüístico como parte importante ao entendimento do texto e posteriormente atenção para os elementos específicos do gênero fábula.

? Na sala de aula, entreguei para cada aluno a fábula “O sapo e o boi” do livro Fábulas de Esopo da editora Companhia das Letrinhas.
? Pedi a eles que a lessem silenciosamente e marcassem as palavras e/ou expressões que não conseguissem entender.
? Os próprios alunos foram construindo os significados das palavras grifadas com base nos conhecimentos prévios de vários alunos do grupo.
? Pedi aos alunos que identificassem os elementos específicos do gênero fábula no texto lido
? Os alunos me devolveram a história escrita e a seguir a recontaram oralmente, em conjunto.
? Pedi a eles que cada um a reescrevesse. Para isso, escrevi na lousa a importância da disposição dos elementos da fábula na folha de caderno que iriam me entregar.
Obs.: Todos reescreveram a fábula proposta entre trinta e quarenta minutos.

4ª Atividade:
Duração: 50min
Objetivo: Verificar se o aluno consegue elaborar sozinho a moral de uma fábula.

?Em sala de aula, li para os alunos quatro fábulas
? Fiz a leitura destas fábulas na ordem abaixo. A cada fábula ouvida eles individualmente deveriam escrever, em uma folha de caderno, a moral da história.
1ª- A galinha e os ovos de ouro
2ª- O galo e a pedra preciosa
3ª- O leão e os três touros
4ª - O lobo e a ovelhinha

Obs. 1: Apenas cinco, dentre trinta e sete alunos, conseguiram elaborar uma moral coerente com a história em todas as 4 fábulas propostas.
Obs.2: Na aula que foi aplicada a atividade cinco, li as fábulas “A lebre e a tartaruga”, e “A cigarra e as formigas”. Os alunos, juntos, construíram as seguintes morais:

1ª - A lebre e a tartaruga
Morais atribuídas a essa fábula:
- “Não seja convencido, que você pode perder”
- “Um dia você pode perder, e outro você pode ganhar”
- “Quem sempre quer, sempre alcança”
- “A conquista leva a luta”
- “Quem ri por último, ri melhor”
- “Quem luta, vence”

2ª - A cigarra e as formigas
Morais atribuídas a essa fábula:
- “Devemos ajudar o próximo”
- “Devemos ajudar uns aos outros”
- “Trabalhe para ganhar”
- “Nunca seja vagabundo”

5ª Atividade:
Duração: 1h 30min
Objetivo: Levar o aluno a relacionar as atitudes e situações vivenciadas pelas personagens das fábulas às atitudes e situações vivenciadas nas vidas das pessoas em geral.

? Nos posicionamos sentados em círculo, em uma sala bem grande.
? Em pé e no centro do círculo, li para os alunos a fábula “O leão e o ratinho”
? Li o texto “A conquista de um grande amigo”. Uma história que criei, baseada na fábula lida, porém com a diferença de os personagens serem seres humanos.
? Pedia a eles que fizessem a relação entre os textos da seguinte forma:

Leitura da 1ª fábula: “O leão e o ratinho”
Comparação com a história: “A conquista de um grande amigo”

a - Quem é o leão?
b - Quem faz o papel do ratinho?
c - Compare as duas histórias e explique em que partes elas são parecidas.

? Li a fábula “A raposa e as uvas”.
? Pedi que relacionassem a uma outra história que criei a qual é semelhante à fábula “A raposa e as uvas”.

Leitura da 2ª fábula: “A raposa e as uvas”.
Comparação com a história: “A grande festa!”
a - Quem é a raposa?
b - Quem faz o papel das uvas?
c - Quem representa a alta parreira que impedia a raposa de tocar nas uvas?
?Por fim, pedi aos alunos que contassem uma história que pudesse ser comparada à fábula “O sapo e o boi”, já reescrita por eles em uma outra atividade.

6ª Atividade:
Duração: 1h 30min
Objetivo: Levar os alunos a observarem os animais que se encontram como personagens das fábulas e a relação deles com as características humanas.
? Ao entrar na sala, colei na lousa o nome de dez animais, dentre os mais representativos do mundo das fábulas
? Com os alunos, fiz o levantamento das características específicas de animais que eles possuem.
? Com outra cor de giz, pedi o levantamento das características humanas que ele poderia assumir em uma fábula.
? Contei uma história, na qual as personagens eram humanas e pedi a eles que substituíssem oralmente os seres humanos por animais.

7ª Atividade:
Duração: 50min
Objetivo: Criação da própria fábula
? Recordei com os alunos todas as características do gênero
? Pedirei aos alunos que escolhessem uma moral e criassem uma fábula com a moral escolhida.

8ª Atividade:
Duração: 1h 30min
Objetivo: Observar as diferentes idéias que as ilustrações expressam e a elaboração a própria ilustração
?Levei os alunos a um salão no qual estavam algumas mesas com cadeiras nas quais os alunos se sentaram
? Nestas mesas, estavam materiais para pintura, tais como folhas de papel sem pauta, lápis de cor, giz de cera.
? Projetei, na parede, ilustrações de fábulas de alguns pintores e observamos as diferenças entre as ilustrações.
? Cada aluno ilustrou sua própria fábula.
9ª Atividade:
Duração: 50mim
Objetivo: Apresentar aos alunos o resultado do trabalho deles

? Levei, para escola, todas as fábulas de autorias dos próprios alunos, sendo cada uma seguida de seu desenho.
? Com a presença dos pais, os alunos leram as histórias criadas por eles.
? As apresentações foram finalizadas com um café servido às pessoas presentes.
Textos em anexo:
Texto1:

A conquista de um grande amigo (O leão e o ratinho)

Marcos era um garoto de onze anos. Adorava futebol, mas nunca era convidado para jogar no time de sua classe, pois não jogava bem. Apear disso, assistia ao treino todos os dias.
Certo dia, em um grande jogo de futebol, em um campeonato entre as escolas da cidade. O time de sua escola estava incompleto, pois vários alunos do time estavam gripados e os reservas não eram suficientes. Era a chance de marcos.
Sem ter dúvidas, correu ao treinador do time e implorou para participar do jogo. A princípio o treinador recusou, mas depois deixou.
Aquele foi um dos dias mais felizes da vida de Marcos. Ele não jogou bem, mas seu time venceu. Em troca, como Marcos que era o aluno mais inteligente da classe, ensinou matemática ao treinador de futebol. Assim, nasceu ali uma grande amizade.

Texto 2:

A grande festa (A raposa e as uvas)

Com vontade de se divertir sem gastar dinheiro, Paulo e Renato foram até uma casa onde ia acontecer uma festa particular.
Ninguém os queria em festa alguma, porque esses garotos sempre batiam em alguém. Sabendo disso, os dois garotos estavam disfarçados para não serem reconhecidos.
Ao tentarem entrar, foram rapidamente descobertos e impedidos pelos guardas de permanecerem no local.
Com muita raiva, eles disseram:
__ Nós não queríamos entrar mesmo. A banda que está tocando é horrível.
Assim, os dois foram para casa dormir.

Bibliografia

BIEDERMANN, Hans. Dicionário ilustrado de Símbolos. Tradução: Glória Paschoal de Camargo. São Paulo: Companhia Melhoramentos. 1993.

ESOPO. Fábulas de Esopo.Compilação Russell Ash e Bernard Higton; Tradução: Heloisa Jahn, São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1994.

FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para entendra o texto. 16 ed. São Paulo: Ática,

GÓES, Lúcia Pimentel. Introdução à literatura infantil e juvenil. 2 ed. São Paulo: Pioneira, 1991. (Manuais de estudo)

KLEIMAN, Ângela. Oficina de Leitura: Teoria e prática. 5 ed, Campinas: Pontes/Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1997.

SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura. TraduçãoClaudia Schilling, 6 ed.Porto Alegre: ArtMed, 1998.

 
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