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A REVISTA E AS IMAGENS DO BRASILEIRO: AS CAPAS DAS REVISTAS SEMANAIS DE INFORMAÇÃO QUE CONSTROEM A IMAGEM E O JEITO DE SER DO “BRASILEIRO”

Cecília Helena Toledo Vieira - Faculdade de Jornalismo – Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas)

Este artigo pretende discutir as abordagens das revistas semanais de informação - Veja, Época e Isto É -, que têm como reportagem de capa matérias de comportamento, objetivando analisar como as revistas de maior circulação do Brasil revelam a população para o País e identificam os diferentes perfis da população, construídos ao longo dos anos pelas publicações. A análise focará a estrutura e produção da informação a partir dos principais conceitos e fundamentos jornalísticos. A proposta, mais do que estabelecer comparações editoriais ideológicas entre as revistas ou o discurso jornalístico que se configura em cada uma delas, busca compreender o processo de construção do texto jornalístico que configura a imagem de “brasileiro”.

Introdução

Quando a Editora Abril decidiu em 1968 criar a revista Veja, apostando em um novo produto quando ainda tinha entre suas revistas sucessos editoriais como Cláudia e Realidade – só para citar dois significativos exemplos -, ela inseria no mercado editorial brasileiro uma proposta que, de certa forma, antecipava as mudanças sociais e culturais que fariam desta mesma Veja um dos maiores fenômenos editoriais do Brasil. Falo antecipava porque, como apontou a pesquisa de Maria Celeste Mira , realizada entre 1994 e 1995 com publicações da Editora Abril, a revista Veja lutou com dificuldades no início de seu lançamento por introduzir no mercado jornalístico o conceito de revista semanal de informação, importado de um dos maiores sucessos editoriais norte-americanos: a revista Time.

A aceitação do leitor brasileiro à revista Veja, no entanto, não foi imediata. Como lembra MIRA:

“A dificuldade de entender o projeto Time e, ao mesmo tempo, dar à revista um caráter nacional era geral. Tanto que foram necessários 14 números zero, crivados de críticas, especialmente as de Victor Civita, para que o produto fosse considerado aceitável pela redação e direção. Com isso, o Projeto Falcão, como era chamado antes de seu lançamento, levou quase um ano de preparação”.(2001, p. 81)

A resistência do público à nova proposta jornalística era explicada pelos modelos de publicações da época. Revistas como O Cruzeiro, Manchete e Fatos e Fotos supervalorizavam os aspectos gráficos e fotográficos em suas páginas, ao contrário de Veja, que privilegiava grandes reportagens, portanto, mais texto, prioritariamente centrado em assuntos políticos e econômicos. Desacostumados a este modelo e sem o hábito da leitura de revistas semanais de informação, os leitores resistiram à nova proposta. Soma-se a isso a acirrada pressão do regime militar, cuja censura tirou das bancas várias edições da revista, que, na época, se posicionou contra as arbitrariedades do regime, em especial o AI-5, o fechamento do Congresso, a suspensão dos direitos civis, a censura e tortura. Por esse posicionamento, Veja foi castigada pelos censores: além da pressão direta na redação, ela perdeu o seu diretor, Mino Carta, em 1975, um ano antes do fim da censura. Mino foi demitido e, como conseqüência da decisão da empresa, parte da equipe de jornalistas, solidária a um dos criadores e diretor da revista, se demite.

As pressões, no entanto, não conseguiram destruir o projeto da revista, que foi idealizada por um dois filhos de Victor Civita, Roberto. Jornalista e economista, ele sabia que “mudar a cabeça das pessoas”, como dizia, era uma questão de tempo. O projeto inicial da revista previa uma circulação de 250 mil exemplares e 25 páginas de publicidade. O feito foi atingido apenas no primeiro número e durante muito tempo a revista amargou prejuízos financeiros. Mesmo assim, o principal objetivo de Veja, que era firmar sua marca no mercado editorial, nunca foi abandonado por Roberto Civita. Mesmo diante da perda de anunciantes, a queda nas vendas em banca em função do descontentamento do leitor pelo produto, a previsão de prejuízo de US$ 1 milhão por ano e a pressão da diretoria, Roberto Civita insistiu no projeto. Na ocasião, ele pediu mais três meses para acertar o tom da revista. Victor Civita cedeu.

Um dos problemas enfrentados no lançamento da revista resultou justamente da concepção do modelo jornalístico proposto: da redação de São Paulo exigia-se a prática de uma técnica chamada ‘pauta circular’. Por meio dela, pretendia-se dar à revista um panorama geral do país fazendo cada pauta circular pelas sucursais no país inteiro de modo que cada uma delas – as sucursais - pudessem produzir e enviar à redação tudo o que se relacionasse com as matérias pautadas. Ainda que teoricamente a concepção de ‘cobrir’ todo o país fosse possível, na prática o trabalho resultou em fracasso e foram precisos oito anos para que a diretoria e a chefia de redação encontrassem o rumo vitorioso da revista.

Na verdade, Veja não precisou modificar seu projeto original, mas sim ajustar-se às exigências do mercado (e, particularmente, do público leitor). Era preciso “mudar a cabeça das pessoas”, como dizia Roberto Civita na época da crise enfrentada pela revista. E ele conseguiu a aceitação da revista graças a alguns ajustes que atingiram não apenas a redação, como também a área comercial. Um deles foi a criação de novos departamentos, como os de pesquisa de mercado, marketing e assinaturas, que acabaram, com o tempo, proliferados em outros serviços, como o marketing direto. A revista também decidiu investir em três idéias de Mino Carta, na época diretor da publicação: reportagens mais ousadas encartadas na revista – a primeira foi em forma de fascículo e o tema não poderia ser mais oportuno à época: a conquista da Lua, com fotos trazidas pela tripulação da nave Apolo 11. Outra novidade foi o lançamento das “Páginas Amarelas”, que convidavam o leitor a iniciara leitura da revista por meio de uma entrevista no estilo ‘pingue-pongue’ (pergunta e resposta) e, por último, um “Caderno de Investimentos”, no final de cada exemplar. A distribuição dos fascículos somada aos dois outros ingredientes permitiram à revista dar um salto vertiginoso na sua tiragem e conseqüente faturamento. Hoje a publicação tem uma tiragem superior a um milhão de exemplares, lidera o mercado das revistas semanais de informação e, em 2001, tornou-se a quinta maior revista semanal de informação do mundo.

Antes de tentarmos explicar o fascínio dos leitores pelas semanais, vale registrar a expansão desse segmento com a chegada de duas outras publicações: a IstoÉ, criada em 1976 por Mino Carta e a Época, lançada em 1998 pela Editora Globo. Este quadro mostra a importância crescente do mercado de revista no Brasil, que, apesar da imensa segmentação, ainda tem fôlego para consumir as semanais, abrir espaço para a revista Carta Capital, sem que a Veja, por exemplo, perca sua capacidade de circulação. Mas, afinal, por que o brasileiro mantém-se fiel, tantos anos depois, à revista semanal? O que o fez compreender o modelo de Veja, expressamente rejeitado no final dos anos 60 e começo de 70?

Para a estudiosa Maria Celeste Mira, a resposta a estes e outros questionamentos vem das próprias pesquisas de mercado feitas pela maior empresa do setor no país, a Editora Abril. Com o lançamento nos anos 70 das pesquisas com os leitores, a Abril conseguiu mapear as preferências de seu público e, assim, ajustar seu modelo gráfico-editorial às mesmas. Foi em uma dessas pesquisas que a empresa confirmou uma tendência entre os leitores, tanto homens como mulheres, que se firmou em outros segmentos e mídias: o público quer ser informado sobre os fatos da semana mas de forma econômica. Em outras palavras, o leitor quer “economizar tempo” na leitura. O novo hábito de leitura introduzido pela modernização econômica da sociedade brasileira – similar à que os Estados Unidos experimentaram nos anos 20 com o surgimento da revista Time – exigiu, então, da redação de Veja – e também das demais semanais, não apenas um posicionamento mais declarado da sua linha editorial, como também de um projeto editorial mais departamentalizado. Diz MIRA:

“... Time e Veja nunca se propuseram a ser ideologicamente neutras. São revistas de opinião e bastante polêmicas. Mas apesar de uma de suas premissas básicas ser a não neutralidade, o fato de selecionarem e organizarem a notícia e a forma impessoal e objetiva de expor dão a entender que o que se lê é uma avaliação neutra dos fatos. Obviamente, toda informação é produzida e tende a refletir o ponto de vista hegemônico”. (2001, p. 89).

Ela vai além:

“O método criado por Time acaba se impondo devido ao ritmo de trabalho exigido por uma revista desse tipo. Uma vez adotado o modelo, é preciso seguir o seu método, departamentalizando as notícias em editorias e sub-editorias, criando um sistema de pesquisa e checagem para suprir os redatores com a informação que dá o entorno de cada notícia, além de todo o pessoal ligado a seus departamentos comerciais, de assinatura, de marketing, etc. Tudo no curso espaço de tempo de uma semana. Não é por outro motivo que Veja mobiliza em torno de 300 profissionais na sua realização. Tão grande número de envolvidos resulta no anonimato e no ritmo acelerado de operação, duas grandes queixas de todos os profissionais que se vêem sob as ordens da indústria cultural”. (2001, p. 92)

Isso significa que a lógica da indústria cultural - segundo a qual a produção de bens culturais, aqui inseridas as mensagens que circulam nos meios de comunicação de massa, parte de um sistema social marcado pela ‘luta de classes’, que tem como efeito a opressão e a servidão dos homens e, portanto, a manipulação das massas - está cada vez mais atrelada à lógica de mercado. Se de um lado as pesquisas com os leitores de Veja aplicadas pela Abril têm revelado as preferências de seu público, por outro ela definitivamente aderiu às exigências da chamada “Era do Marketing”. Para MIRA:

“Nos anos 70-80, Veja entra decididamente na ‘Era do Marketing’. AS vendas por assinatura representam 85% de sua circulação paga. Milhões de peças de mala direta estão circulando entre os assinantes, milhares de vendedores vão de porta em porta e centenas de pessoas trabalham para atender os assinantes. O índice de renovação que se consegue com esse esquema é da ordem de 80%. As mudanças na diagramação da revista também são fruto de pesquisa de mercado”. (2001, p. 94)

Atrelar-se às regras de mercado tem se tornado uma prática de vários veículos de comunicação de massa e quem principalmente perde com isso é o público, que se torna acrítico e dominado diante dos mecanismos de manipulação, como alerta ADORNO:

“Dependência e servidão dos homens, objetivo último da indústria cultural, não poderiam ser mais fielmente caracterizados do que por aquela pessoa estudada numa pesquisa norte-americana, que pensava que as angústias dos tempos presentes teriam fim se as pessoas se limitassem a seguir as personalidades preeminentes. A satisfação compensatória que a indústria cultural oferece às pessoas ao despertar nelas a sensação confortável de que o mundo está em ordem, frustra-as na própria felicidade que ela ilusoriamente propicia”. (1977, p. 294)

O processo de segmentação da indústria cultural em geral acelerou-se nos anos 70 e hoje é uma realidade nas empresas de comunicação, impressas e eletrônicas. Atingir novos nichos de mercado e, assim, segmentá-los, exige um potencial de consumo de um público que muitas vezes, em se tratando das semanais, quer mais do que explicações aos fatos que o rodeiam. O público quer se reconhecer na publicação a partir principalmente do “conhecimento legitimado”, ou seja, das vozes consideradas autorizadas para falar e de dados comprobatórios (pesquisas).

I. A “comportamentalização” das capas

Este texto traz, de forma ainda inicial, as primeiras reflexões de uma proposta que tem como objeto de pesquisa as principais revistas semanais como espaço de construção da identidade do brasileiro a partir das capas (e, portanto, das matérias principais ou especiais), que são genericamente identificadas como da editoria de “comportamento”. Neste sentido, destaca algumas edições consideradas preliminarmente como significativas, sem se ater, ainda, a uma metodologia que considere, por exemplo, periodicidade – isto é, com que constância a editoria de comportamento “vale” capa – ou mesmo a articulação contextual que poderiam estar justificando esta ou aquela temática. Assim, a proposta aqui é apenas destacar algumas edições fazendo uma análise pontual de forma que se possa, talvez, estabelecer alguns parâmetros de como estas matérias e capas “traduzem” o “ser brasileiro” para o seu público.

Do primeiro levantamento feito, considerando que o recorte histórico deste trabalho define o período compreendido entre 1994 e 2004, ou seja, quando o Brasil, através do governo Fernando Henrique Cardoso assume e, com ele, acentua-se o projeto neoliberal com todas implicações sócio-econômicas e culturais que esta política implica, o que se percebe, como não poderia deixar de ser, é o espaço cada vez mais amplo que é destinado para capas centradas no indivíduo. Tem-se, então, biografias de sucesso como eixos para se falar da nova possibilidade de “ser brasileiro”. Por isso, “rei da soja” para Olacyr de Moraes ou “a história de sucesso do empresário x”, etc. Só como contraponto vale lembrar algumas capas de Realidade que, quando destacavam personagens únicos, procuravam mantê-los em seu espaço de “vida especial”, sem que esta se transformasse em um parâmetro de identificação do brasileiro. Um exemplo: na edição de outubro de 1966, a manchete de Realidade era “O palhaço o que é?”, sobre a foto, que tomava toda a capa, de Arrelia, a nos olhar de forma intensa. Internamente, a matéria trazia um perfil deste palhaço, valorizando sua trajetória individual, mas, como já colocado, sem transformá-la em modelo de vida ou de identidade.

Um outro caminho seguem as semanais de agora. Uma edição emblemática deste outro modelo é nº 1.731 da Veja (19 de dezembro de 2001). A manchete é: “A Fé que move o Brasil”. Sob este título, três linhas finas: 99% dos brasileiros acreditam em Deus; 83% acreditam na vida eterna no paraíso e quanto mais rico e escolarizado, mais o brasileiro acredita na vida após a morte. Todos estes dizeres sobre uma imagem de Jesus, em uma de suas representações clássicas: mão direita erguida, em pose de bênção (a revista não identifica o autor do quadro). Reforçando a capa, o editorial “A resistência da Fé” identifica a fonte da pesquisa, no caso, o instituto Vox Populi, e cria um elo destas constatações com os graves e dramáticos acontecimentos de 2001, como o ataque às torres gêmeas, a queda vertiginosa do dólar no Brasil, o envolvimento do senador baiano conhecido como ACM (Antônio Carlos Magalhães) na violação do painel de votação, além da renúncia de Jader Barbalho à presidência do Senado para pôr fim a uma investigação sobre o crescimento estrondoso (e, portanto, suspeitíssimo) de sua fortuna pessoal.

Internamente, o título da especial amplia ainda mais este recorte de construção de identidade: Um povo que acredita, afirma. Sob estas palavras, um ‘olho’ que o justifica: “Pesquisa mostra que os brasileiros são religiosos, crêem em Deus e esperam passar a eternidade no paraíso”. O texto só se inicia na página seguinte, após duas fotos dramatizadas. Na menor, o clima de fé é balizado pela luz intensa das velas e as atitudes de devoção de duas mulheres e crianças, facilmente identificadas em sua origem social mais simples enquanto na segunda foto, bem maior, uma imagem em contra-plongée mostra uma multidão na Basílica de Aparecida do Norte em 12 de outubro, com a legenda destacando local e data e, ainda, a participação de 170.000 fiéis. Além das fotos, um box destaca alguns índices da pesquisa, em corpo 24 e, abaixo dele, finalmente o início da matéria que, não por acaso diz:

No início do século XX, acreditava-se que quanto mais o mundo absorvesse ciência e erudição menor seria o papel da religião. De lá para cá, a tecnologia moderna se tornou parte essencial do cotidiano da maioria dos habitantes do planeta e permitiu que até os mais pobres tenham um grau de informação inimaginável 100 anos atrás. Apesar de todas essas mudanças, no início do século XXI o mundo continua inesperadamente místico. O fenômeno é global e no Brasil atinge patamares impressionantes. Em resposta à pergunta “Você acredita em Deus?, feita em pesquisa encomendada por VEJA ao instituto Vox Populi, 99% dos entrevistados responderam “sim”. Trata-se de uma maioria acachapante, de desarmar qualquer ceticismo em relação à religiosidade dos brasileiros... (Jaime Klintowitz, VEJA, 19 de dezembro de 2001, p. 125).

Ora, o que salta de uma matéria como esta? A revista encomenda a pesquisa... Baliza sua matéria nos números. São dados tão “objetivos” que permitem, inclusive, um final de matéria que referenda esta escolha dos brasileiros através das palavras da psicóloga Maria Cristina Mariante Guarnieri, mestre em Ciência da Religião pela PUC de São Paulo, que explica o fenômeno pela lógica que todos conhecem - as pessoas precisam da religião porque esta dá respostas para perguntas como o sentido da vida e da morte – para, em seguida, a revista emendar, fechando o texto: “Não sem motivo, o brasileiro é um povo cheio de fé”.

Assim, somos, portanto, um povo de fé. Este é o brasileiro. Esta é a sua identidade. É uma visão de religião que nos reforça enquanto “rebanho” que segue, unido, suas tendências. E é uma visão de povo que ecoa em outras capas, até mesmo nas aparentemente políticas, como a da IstoÉ, de 8 de janeiro de 2003 (edição nº 1.736). Nesta, uma foto da multidão ladeando o carro presidencial que levava Lula, pela primeira vez, ao Palácio do Planalto e, sobre ela, o título: “Brasília, 1º de janeiro de 2003”; linha fina: O POVO NO PODER (manchete, em caixa alta). A mesma revista já havia ‘manchetado’ a vitória de Lula, na edição de 30 de outubro de 2002 (nº 1.726), com uma foto do novo presidente, posada e sorrindo, tomando toda a capa, tendo como título: “Lula – Como será o Brasil do novo presidente”. Em outras palavras, nosso comportamento depende deste novo personagem...

Esta tendência em transformar mesmo matérias políticas em expressão de comportamento do brasileiro parece ser, segundo este levantamento inicial, uma das tendências das capas das semanais. Uma capa que ilustra bem este caminho (e que os petistas poderiam resgatar) é a da edição de Veja de 6 de junho de 2001 (nº 1.703). A imagem é a de um anônimo, bem vestido (claro!), com um nariz de palhaço segurando uma vela na mão. O título é “O que mais falta acontecer?”. Logo abaixo, as linhas finas: Pesquisa – O brasileiro está com raiva do governo do apagão; Imagem – Apenas 7% ligam o governo à estabilização. Para 36%, sua imagem está associada às denúncias de corrupção; Colaboração – 91% das pessoas já estão economizando energia. Mais uma vez os números são os indicadores que expressam um modo de pensar e agir de nós, brasileiros.

II. Capas e construção da identidade

A efemeridade de uma capa de revista pode sugerir, com certa razão, que esta não pode ser considerada um indicativo de construção de identidade. No entanto, a sintonia e constância de um modelo faz às vezes de algo que a sabedoria popular resumiu no antigo ditado: “água mole em pedra dura...” Além disso, pode-se destacar que as escolhas e abordagens destas capas tendem a reforçar uma imagem de país e de brasileiros que não é destoante de uma versão oficial da história, consumida nos bancos escolares e, ainda, das outras mídias. Não por acaso, por exemplo, um dos programas de maior audiência da TV, o “Globo Repórter”, da Rede Globo, inclui entre suas pautas referenciais, por exemplo, religião e fé, sob as mais diversas abordagens.

A importância, portanto, deste projeto, vai para além de seu processo identificador e descritivo. O que move este trabalho é a perspectiva de um conceito de comunicação, construído historicamente e merecedor contínuo de debates que buscam resgatar como princípio norteador do papel da comunicação justamente a sua possibilidade de ser formador, de ser questionador dos modelos e não, simplesmente, daquele que se propõe a ir de encontro com a “necessidade” de seu público. Um dos autores que se debruça sobre este eixo é Muniz Sodré, especialmente em Reinventando a Cultura – a comunicação e seus produtos . Para este autor, o ponto de partida é justamente o conceito de comunicação que deve ser resgatado desde os gregos. Por isto, segundo ele, é importante recuperar o confronto entre os filósofos (capitaneados por Platão) e os sofistas, em que os primeiros, respondendo às afirmações sofísticas de que não há uma verdade da vida, contrapõem o oposto, indicado pelo logos. Viver com a verdade é escolher o melhor modo de vida, porque assim é possível determinar as coisas dignas de que depende a cultura da alma (Paidéia) ou, do modo contrário, sua incultura. (Sodré, M.: 2001, p.15).

A partir desta volta às origens, Sodré continua uma espécie de “linha do tempo” do debate em torno da comunicação, retomando autores que nem sempre se debruçaram diretamente sobre este tema, mas que, de algum modo, fundamentam conceitos que são acionados até hoje. Destaca, particularmente, Heidegger que diz que comunicação nunca é a transposição de vivências, por exemplo, de opiniões e desejos, do interior de um sujeito para o interior de outro sujeito (em Ser e tempo), mas sim a partilha, no discurso, da disposição e da compreensão enquanto modalidades temporais da existência (existenciais, na terminologia heideggeriana), que constituem a abertura do ser-no-mundo. (SODRÉ, M.: op. cit. p. 21). Não pretendo aqui recuperar toda a discussão feita por Sodré. O que quero destacar é que ao recuperar historicamente esta construção, o autor acaba desaguando em uma proposta que, para ele, pode ser um paradigma necessário para as novas formas de comunicação impostas pela tecnologia e este, particularmente me interessa. Isto porque, resumindo o que Sodré coloca, este novo paradigma inclui a necessidade da diferença, da alteridade apontando para uma revisão urgente deste conceito de totalidade que as capas de revistas parecem sempre fazer questão de reforçar.

Em outras palavras, o que baliza, pelo menos inicialmente, este projeto, é a necessidade de confrontar um espaço de comunicação consumido por um número expressivo de pessoas que têm colaborado por uma visão de “si mesmo” (brasileiros! Existe isso?), que é totalizadora, com poucas nuances e, de certa forma, colaboradora de uma sociedade que, esta mesma mídia, tende continuamente a colocar como de urgente revisão. Pode parecer o óbvio, mas a somatória das mídias, mesmo que superficialmente abordadas (e, creio, circulam no meio acadêmico uma série de pesquisas que buscam refutar este modelo), indica com clareza uma opção que desconsidera as diferenças todas as vezes que pretende-se abarcar “o brasileiro”. Ao mesmo tempo, centra boa parte destas reportagens em um modelo de brasileiro que é o seu típico consumidor: branco, classe média, idade compreendida entre 25 e 50, quase sempre.

Como agravante dessa situação, temos hoje uma imprensa abastecida pela comunicação de instituições públicas e privadas altamente especializadas, formada por assessorias de imprensa ou departamentos de relações públicas (próprios ou terceirizados). Essas, cada vez mais vão assumindo o papel de interlocutores oficiais e oficiosos dos jornalistas. E cada vez mais a informação passa por grivos, por um processamento prévio antes de chegar às redações. Segundo BUCCI:

Isso significa que o jornalismo e, de um modo mais amplo, ps que gerenciam os conteúdos nos meios de comunicação já não detém controle integral sobre as informações. Assim como as fotos dos filmes que estréiam na semana não são tiradas por repórteres fotográficos, mas são produzidas internamente nos estúdios, uma série de informações,visuais ou escritas, já vêm prontas de fora. São transformações radicais que representam novos desafios para a técnica do jornalismo – e também para a sua ética. O maior deles talvez seja o da especialização aliado ao do preparo crítico.(2000, p. 204)

As grandes redações – e aí podemos incluir as das revistas semanais de informação – ainda contam com profissionais especializados em diferentes áreas, mas essa não é a regra da imprensa em geral. Ao buscar suas fontes em ONGs, universidade e instituições, por exemplo, os jornalistas derrubam o mito de serem os ‘donos da verdade’. Portanto, a especialização do jornalista hoje precisa ser revista para que ele possa, dentro de seu veículo, ser o canal devidamente autorizado para noticiar assuntos relevantes e de interesse público. A questão está, pois, na formação desse jornalista, que precisa ter preparo crítico para não ser ‘engolido’ pela lógica das redações e muito menos das fontes de informação. A prática jornalística nunca precisou tanto de reflexão e estudo como agora. No cumprimento de seu papel, o jornalista trabalha com fatos e vale lembrar que a verdade dos fatos é sempre uma versão dos fatos. Como diz BUCCI:

Ser independe da fonte é um desafio clássico já bastante conhecido. Trata-se de não permitir que a proximidade necessária entre o repórter e sua fonte se transforme na cooptação do repórter pela fonte: sem notar, o primeiro começa a adotar os pontos de vista da segunda, começa a usar o seu linguajar e a desenvolver espontaneamente raciocínios que não são próprios nem do veículo em que ele trabalha nem do público ao qual ele se dirige,as dela, da fonte. Agora, na era do espetáculo – em que tudo o que precisa de visibilidade já vem empacotado para as redações como uma atração em si mesma – o desafio não é mais de nível intelectual, mas sistêmico...A imprensa pode atuar como reserva crítica perante o espetáculo. (2000, p.199)

Bibliografia:

BUCCI, Eugênio. Sobre Ética e Imprensa. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

KÜNSCH, Dimas Antônio. Maus pensamentos: os mistérios do mundo e a reportagem jornalística. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2000.

MIRA, Maria Celeste. O leitor e a banca de revista: a segmentação da cultura no século XX. São Paulo; Olho d’Água/Fapesp, 2001.

NASCIMENTO, Patrícia Ceolin. Jornalismo em revistas no Brasil: um estudo das construções discursivas em Veja e Manchete. São Paulo: Annablume, 2002.

SCALZO, Marília. Jornalismo de Revista. São Paulo: Contexto, 2003 (Coleção Comunicação)

SODRÉ, Muniz. Reinventando a Cultura – a comunicação e seus produtos. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2001

 
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