Voltar    
  CONTEXTOS, HISTÓRIAS E EXPERIÊNCIAS: TRAJETÓRIAS DE EDUCADORES DE JOVENS E ADULTOS NOS ANOS 60

Maria Clarisse Vieira -Programa de Pós Graduação em Educação – UFMG/ FAPEMIG/Minas Gerais

Este trabalho apresenta algumas reflexões desenvolvidas em estudo cujo objetivo geral é compreender a constituição do campo da educação de jovens e adultos no Brasil. Utilizando-se da metodologia da história oral, a pesquisa examina a trajetória de educadores cujo percurso se caracteriza pelo envolvimento ao longo da vida profissional, em experiências relacionadas à educação de jovens e adultos de camadas populares. Este texto analisa o conjunto de experiências vivenciadas por estes educadores no início dos anos 60, enfatizando as práticas desenvolvidas em movimentos progressistas da Igreja Católica, como alavanca que os motivou a se envolver em atividades políticas e educativas direcionadas à transformação da estrutura social. Para compreender como se deu este processo é reconstruído o marco social e político que condicionou o conjunto de opções desses jovens, considerando-se a singularidade de cada percurso de vida, e ao mesmo tempo estabelecendo relações entre os mesmos. A pesquisa aponta que foi a partir da inserção religiosa, que estes jovens se engajaram em movimentos educacionais e políticos, solidarizando-se e comprometendo-se com a organização das lutas populares do período.

As reflexões presentes neste texto fazem parte de um estudo que visa compreender as contribuições do legado da educação popular à educação de jovens e adultos, por meio da análise da trajetória de vida de alguns educadores. A idéia de investigar a trajetória de educadores que atuaram neste campo nasceu, inicialmente, da necessidade de entender os processos de formação docente na EJA, captando, a partir da memória e experiência desses educadores, elementos que permitissem compreender a constituição deste campo. Nos momentos iniciais da pesquisa, direcionamos nosso olhar para o processo de formação desse educador, a partir da rede de relações sociais vividas no tempo histórico. Interessava-nos conhecer a sua formação inicial, sua prática pedagógica e o significado que o trabalho realizado com alunos jovens/adultos de camadas populares conferia às demais experiências vivenciadas. Ao longo da pesquisa, o contato com alguns estudos (Jóia, 1999; Ribeiro, 1999, Arroyo, 2004) que postulavam à educação de jovens e adultos um status específico, afirmando tratar-se de um campo diferenciado das demais áreas educativas, nos despertou a curiosidade em saber como se configurava esse campo .

O final dos anos 1950 e início dos anos 1960 constitui uma período fértil e de intensa militância política na educação. Durante este período foram desenvolvidas experiências dirigidas a pessoas adultas excluídas da escola, por meio de associações estudantis, agências da Igreja Católica, sindicatos e embriões de movimentos populares. Considerando que o ideário construído em torno da educação popular, gestado neste período, possui uma influência importante na conformação do campo da educação de jovens e adultos, optamos por estudar as trajetórias de educadores, cujas vidas foram marcadas pelo envolvimento e participação nestas experiências . Tais movimentos nos quais se envolveram durante a juventude são representativos das condições sociopolíticas e econômicas que perpassavam o país e das lutas e mobilizações do período, sendo radicalmente diferentes das iniciativas anteriores de EJA, devido o compromisso político explícito, assumido com as camadas populares e sua orientação direcionada às transformações das estruturas sociais.

Considerando os objetivos propostos neste estudo optamos pela metodologia da história oral, especificamente, o ramo da história oral de vida com recorte temático que centraliza o depoimento na experiência do narrador com a educação de jovens e adultos. Segundo Lang (1996) é no indivíduo que a história oral encontra sua fonte de dados, mas sua referência não se esgota nele, dado que aponta para a sociedade. As vivências individuais, coletadas e analisadas têm em vista o conhecimento do social, ou seja, a narrativa constitui a matéria prima para o conhecimento sociológico que busca, através do indivíduo e da realidade por ele vivida, apreender as relações sociais em que se insere. Por meio da narrativa de uma história de vida se delineiam as relações com os membros de seu grupo, de sua profissão, de sua camada social, da sociedade global que cabe ao pesquisador desvendar. Esta posição também é assumida por Franco Ferraroti (1988, p. 26) quando afirma que “se nós somos, se todo indivíduo é a reapropriação singular do universal social e histórico que o rodeia, podemos conhecer o social a partir da especificidade irredutível de uma práxis individual”.

Neste texto buscamos analisar o conjunto de experiências vividas por estes educadores no início dos anos 1960, conferindo ênfase às práticas vivenciadas em movimentos progressistas da Igreja Católica, como uma das alavanca que os motivou a se envolver em atividades políticas e educativas direcionadas à transformação da estrutura social. É a partir desta inserção que estes jovens irão se engajar em movimentos educacionais e políticos, solidarizando-se e comprometendo-se com a organização das lutas populares do período.

As esquerdas católicas e a educação de adultos: fragmentos para a história de uma geração

As narrativas de Vera, Zeca, Osmar e Aída revelam alguns aspectos comuns em suas trajetórias de vida. Nascidos na década de 1930, esta geração cresceu após o Estado Novo, vivenciando o clima de liberdade de manifestação política aberto pela Constituição de 1946 e as mudanças sociais advindas com o nacional-desenvolvimentismo. Neste contexto marcado por grande efervescência desencadearam-se movimentos sociais e políticos bastante mobilizadores, gerando tensões sociais que não se limitavam aos centros decisórios de poder, mas extravasavam para diversos segmentos da sociedade. Durante este período a participação e a consciência política aumentou de forma vertiginosa, juntamente com a expectativa de uma iminente ação revolucionária, direcionada à construção de uma sociedade socialista, democrática e popular.

Uma série de fatores confluíam na aceleração e radicalização política do período. De um lado, o esgotamento do modelo econômico preconizado por JK e a incapacidade política do Estado Brasileiro no sentido de solucionar de forma adequada questões urgentes como inflação aguda, arrocho salarial, equilíbrio da balança de pagamentos, etc. De outro lado, o fortalecimento progressivo dos setores populares e a mobilização de grupos de esquerda intensificavam as pressões no sentido das mudanças estruturais. A este cenário acrescenta-se a emergência de movimentos sociais no campo e a ascensão de lideranças políticas que não se encaixavam nos padrões tradicionais .

A Igreja Católica não ficou incólume a este processo. Até os anos 1950, esta instituição mantivera-se em posições bastante conservadoras, em defesa dos privilégios da elite, da escola privada e do ensino religioso. Ao final desta década operou-se uma forte transformação no pensamento social católico . Em consonância com a polarização das classes que se delineava na sociedade, no interior desta instituição aprofundou-se a divisão de grupos e segmentos situados a favor ou contra as transformações sociais. No primeiro grupo, encontravam-se católicos que se comprometeram, ao lado das forças políticas de esquerda, na organização das lutas populares, visando construir uma sociedade baseada no socialismo democrático. Entre estes grupos encontram-se os diversos segmentos especializados surgidos no interior da Ação Católica Brasileira.

A Ação Católica era uma forma de apostolado leigo oficializada por Pio XI, em meados do século XX.. Tinha por finalidade recuperar e fortalecer a presença da Igreja na sociedade, reconquistando as massas, principalmente a classe trabalhadora, que se via atraída por outras ideologias. Ela foi lançada no Brasil, em 1923, por D. Sebastião Leme, então arcebispo do Rio de Janeiro. Nos anos 1930, sob a liderança de Alceu Amoroso Lima encorajou-se a difusão deste movimento em todas dioceses do Brasil. Entretanto, seu impacto não foi muito profundo, arrefecendo-se nos anos 1940. Apenas no final dessa década, sob a influência das experiências belga, canadense e francesa chegou-se a conclusão que o movimento devia especializar-se de acordo com o meio, criando-se a JUC (Juventude Universitária Católica), JEC (Juventude Estudantil Católica), JIC (Juventude Independente Católica), JAC (Juventude Agrária Católica), JOC (Juventude Operária Católica), a ACO (Ação Católica Operária) e ACI (Ação Católica Independente) .

A JUC foi criada para ser uma presença no meio universitário, divulgando as idéias católicas e cristianizando a futura elite intelectual. Entretanto, ao longo dos anos 1950, aproximou-se das esquerdas e ultrapassou as preocupações estritamente religiosas, assumindo atitudes inovadoras que suscitaram reações muito fortes da Igreja Católica. Como os demais movimentos estudantis do período, acabou por se envolver nas lutas relacionadas à organização universitária. Um exemplo foram as discussões relativas à LDB, nos quais esta se posicionou contrária à orientação preconizada pela ala conservadora da Igreja Católica .

O ingresso de Osmar Fávero na JUC ocorreu em 1957. Na época ele morava em São Paulo e cursava Matemática na USP. Insatisfeito com seu curso de graduação e sobrecarregado por trabalhar o dia inteiro em um escritório de Contabilidade- no qual era sócio de seu irmão - Osmar vê a entrada na JUC como uma espécie de salvação. Pressionado pela família a abandonar o curso de Matemática e a ingressar no Curso de Administração de Empresas, Osmar constrói uma trajetória totalmente diferente da traçada por seus familiares, ao ir para o Rio de Janeiro, coordenar o movimento universitário Católico. Ao cursar Matemática na antiga Universidade Nacional de Filosofia, Osmar acompanhou de perto as discussões travadas em torno da LDB. Ao participar do movimento estudantil e conviver com grupos ligados à esquerda, vivenciou as dificuldades de cumprir o mandato o qual fora incumbido, percebendo as ambigüidades da Igreja Católica.

Segundo Kadt (2003) vários fatores inclinaram a JUC para uma tendência mais progressista. Dentre eles, a influência de autores progressistas da Igreja Católica como Thomas Cardonel, Padre Lebret e Emanuel Mounier. Havia uma preocupação ativa dos estudantes - católicos e não católicos – com os problemas sociais existentes em cidades como Recife, Belo Horizonte e Natal, o que levou à descoberta da realidade, não apenas em termos de estudos acadêmicos, mas por meio do contato direto com a mesma. Por fim, destaca as transformações sociais e econômicas vividas no período JK, que exerceu influência decisiva no questionamento da Igreja e nas modificações que se sucederam. Aos poucos a JUC vai imergindo nas lutas políticas do período, ficando à frente dos demais setores da Ação Católica, inclusive daqueles ligados à classe operária.

Osmar considera que a transição do aspecto educativo para o político, foi gestada pelo grupo católico que criou a Ação Popular (AP): “Na verdade, saímos de uma ação religiosa para uma ação social e da ação social para uma ação política. O grupo mais antigo da Ação Católica pensava em termos de ação social, não em termos de ação política. O grupo mais novo que chamamos de geração Betinho, pensou explicitamente em termos políticos e por isso fez o rompimento com a JUC, criando a AP”. Osmar permaneceu na JUC até 1960, quando concluiu a licenciatura em Matemática. Pertencente a uma geração intermediária de JUC, aponta que nela havia um compromisso maior com a hierarquia Católica, que será rompido, posteriormente, pelo grupo ligado a Herberth José de Souza, o Betinho.

Em 1961, Aldo Arantes, um jucista, foi eleito presidente da UNE, tendo em sua chapa membros da União da Juventude Comunista (UJC). Sua eleição instaurou o período da hegemonia católica na UNE, que vai até 1964. O episcopado respondeu de forma agressiva ao fato, elaborando documento com a finalidade de conter a efervescência e a politização entre os membros da JUC . A necessidade de uma atuação especificamente política, permanente e estruturada levou os membros da JUC a criar a Ação Popular, em 1962 . Segundo Semeraro (1994, p. 63)) a grande preocupação da AP desde o início fora “deixar de ser um partido universitário e de intelectuais e construir mais sua base nos movimentos operário, camponês e bancário”. Seus componentes compartilhavam com os demais movimentos progressistas uma concepção profundamente humanista, assumindo o homem e o desenvolvimento completo de seu potencial como elemento principal de suas metas. Isto seria possível à medida que fossem eliminadas as estruturas prevalecentes no capitalismo, responsáveis pela alienação e dominação, dentro e entre as nações.

Osmar acompanhou de perto as tensões entre a hierarquia e a JUC, que resultaram na criação da AP. Embora não assumisse o lugar de quadro efetivo, “de carteirinha”, observou a emergência desta instituição e participou de suas discussões, sendo considerado por muitos “o homem da AP no MEB”. Comungava de seus princípios, mas por motivos pessoais (casamento, vida profissional) não se envolveu diretamente com ela.

De acordo com Semeraro (1994) diversos estudiosos identificam a JUC e a AP (Ação Popular) como o “epicentro” das manifestações das esquerdas católicas. Entretanto, assevera que é preciso considerar outros espaços de atuação como os movimentos de educação e cultura popular (MCPs), as organizações sindicais e as articulações com as forças políticas de esquerda existentes neste período. Para ele, a formação das esquerdas católicas integra um movimento mais amplo, que se inicia em meados de 1950, ganha evidência no período 1959-1964 e se estende, pelas décadas seguintes, até a posição dos cristãos progressistas atuais.

Diversamente de Osmar, José Carlos Barreto, Zeca, construiu uma trajetória que passa pela JEC, AP, sindicalismo rural e desemboca numa prática de alfabetização segundo os princípios freirianos. Ao cursar o ensino secundário numa escola pública paulistana, Zeca teve a oportunidade de participar de uma experiência que lhe descortinou uma visão social que até então não vivenciara. Ele relembra a passagem pelo ensino secundário e seu envolvimento na Juventude Estudantil Católica como marcos importantes em sua formação, mas não deixa de sublinhar sua condição de privilegiado por freqüentar a escola pública secundária numa época em que as classes populares a ela não tinham acesso.

Zeca ingressou na JEC em 1956. Aos poucos foi se destacando e se tornou uma liderança no grupo. Devido sua atuação, acabou sendo convidado a participar da equipe de direção da JEC no Estado São Paulo, o que além de abrir uma visão social o “gratificava como adolescente: era uma afirmação”. Zeca descreve o convite para fazer parte da equipe nacional de JEC, no Rio de Janeiro, como uma mudança significativa em sua vida: “saí de uma ambiente provinciano que São Paulo era na época e vim para capital, na época o Rio de Janeiro, para morar com um pessoal cheio de garra. Um fotótipo de aspirações que eu nunca imaginara! Eu ousava dizer que São Paulo não era não era a locomotiva que puxava o Brasil: coisa que eu tinha ouvido toda a minha juventude sobre São Paulo. Eu costumava dizer que São Paulo explorava o resto do Brasil. Enfim, foi a minha primeira idéia com o socialismo”.

A convivência no Rio de Janeiro com a equipe nacional e com outros grupos estudantis não católicos ampliaram sua concepção de homem, de mundo e de sociedade, encaminhando seu pensamento na direção do socialismo democrático. Este processo é descrito por Zeca como doloroso, marcado por discussões calorosas. Ao terminar seu mandato na JEC, Zeca retornou para São Paulo e iniciou sua vida universitária, cursando Ciências Sociais, na Pontifícia Universidade Católica. Conforme relata, inicialmente planejava formar-se em Engenharia. “De Engenharia, passei para Psicologia e depois para Ciências Sociais”. Segundo ele, naquele período os universitários possuíam um grande prestígio social “Na época freqüentar a faculdade dava status: a pessoa era vista como gente, virava adulto”. No entanto, este prestígio era acompanhado de um grande desconforto, pela consciência de ser um processo a que as camadas populares eram excluídas.

Durante o curso de graduação Zeca ingressou na Ação Popular, envolvendo-se no movimento de sindicalização rural . Embora atuasse no movimento estudantil, não queria se restringir àquele meio, pois sentia necessidade de desenvolver um trabalho de base, junto à população rural. O ingresso de Zeca na organização sindical e nas lutas do homem do campo evidenciavam um compromisso abrangente com a transformação das estruturas sociais: “Não queria mais trabalho de cúpula. Engrenei num movimento político que trabalhava com Sindicalização Rural, quando o Montoro tinha sido Ministro do Trabalho e tinha regulamentado a Sindicalização Rural. Mas ninguém era sindicalizado, eu ia acionar isso fazendo frente agrária. Passei a organizar o povo de sindicato”.

Durante seu envolvimento no sindicalismo rural Zeca ouviu falar de Paulo Freire alfabetizador e ingressou numa experiência desenvolvida pela UEE da USP, que organizava o MCP e planejava um amplo trabalho de alfabetização. Para ele, essa experiência vivenciada alguns meses antes do golpe de 1964 mudou radicalmente sua vida. Foi a partir daí que se tornou um educador. Segundo ele, hoje sua visão de educação se mistura às idéias de Paulo Freire: “A visão de educação hoje é freiriana, a ponto de eu não saber mais se é freiriana ou se é barretiana”. Foi nessa experiência que ele conheceu Vera Barreto, que veio a se tornar sua esposa.

Nascida em Belo Horizonte numa família de classe média, Vera estudou no Colégio das Dominicanas. Nesse período dois fatos marcaram sua vida, ajudando a definir sua escolha pela área de educação. O primeiro foi a convivência com um professor de filosofia, considerado por ela o grande responsável pela abertura social que passou a ter. Ela relata que nessa época Belo Horizonte era um ambiente rigorosamente fechado e graças à influência desse professor “começou a descobrir que todas as pessoas tinham direito aos mesmos bens, tinham dignidade: essa percepção que os pobres são pessoas e enquanto pessoas são ontologicamente iguais.” O segundo aspecto foi sua participação na JEC-F. Segundo ela “A JEC M em Belo Horizonte era famosa, a JEC F não era tanto. Mas mesmo não sendo tanto, foi um espaço de abertura, de convivência com pessoas de diferentes escolas, até pessoas que vinham de escolas públicas, que era pouco. Nesse aspecto foi bastante interessante, pois ao mesmo tempo foi um espaço muito rico dessa coisa de debate.(...) Na minha escola, em pouco tempo eu era coordenadora de um grupo.”

No final deste período Vera fez sua opção pela educação. Começou a cursar Pedagogia na UFMG e algum tempo depois transferiu-se para USP. Ao Cursar Pedagogia na USP Vera se deparou com um curso distanciado da realidade, sob a influência norte-americana. Vera relata que nessa época a cidade universitária estava em construção, existindo forte presença de pedreiros, marceneiros, etc. Segundo ela havia uma queixa por parte do Centro Acadêmico acerca do Curso:

“Aquela realidade de estarmos ali cercados de pedreiros e operários da construção da cidade universitária fez com que o Centro Acadêmico resolvesse criar um curso para adultos, para atender os pedreiros e outros mais. Ele começou a recrutar esses alunos de Pedagogia que queriam dar aula. Quando eu vi aquele anúncio outra vez me acendeu, por que primeiro, eu não tinha nenhuma experiência concreta de escolaridade. Isso para mim seria legal (...) Estava ali e não podia perder a oportunidade. Foi aí que eu me inscrevi e comecei a dar aula.”

Foram os desafios enfrentados nessa experiência- como a busca de materiais específicos para adultos - que levaram Vera a se envolver num trabalho organizado pela UEE, vinculado ao MCP da UNE. Foi nesse grupo que ela ouviu falar da experiência desenvolvida no Nordeste por Freire: “O pessoal ficou sabendo que em Recife havia uma experiência diferente feita pelo MCP e pelo professor Paulo Freire. Tinha uma pessoa daqui de São Paulo que tinha uns parentes no Nordeste.[Ela foi] com a função de escarafunchar em Recife, achar esse professor ou pelo menos conversar com alguém da universidade. Ela veio com algumas informações (...) trouxe o endereço dele e da Aurelice. Foi aí que o grupo teve contato com o Paulo. As primeiras vezes foram por cartas.” A partir desse momento, Vera iniciou seu percurso como educadora popular, em sintonia com o pensamento freiriano, que irá marcar toda sua trajetória.

Oriunda de Recife, numa família numerosa, Aída Bezerra convivia num ambiente marcado pela influência política do pai, que militava no PCB e pela vida religiosa ensinada pela mãe. Apesar de ser devota de Nossa Senhora da Conceição, sua mãe não impunha uma prática religiosa ritualesca: “havia toda uma ética, uma moral decorrente da existência de Deus. Mas de fato a gente não foi educado num meio religioso”. Durante a adolescência, ao participar de um movimento de jovens chamado Juventude de Casa Amarela, Aída vivenciou uma perspectiva de fé, de militância e de compromisso cristão. Foi esse compromisso cristão que a fez optar pelo Curso de Serviço Social. Além desse aspecto, Aída sentia uma grande atração pelo meio rural e uma angústia por conquistar sua autonomia. “Eu queria, na vida, era ficar independente e ir trabalhar no interior. Ou ir trabalhar no interior e ficar independente” (Costa, 1986, p. 21).

Esta oportunidade ocorreu no Terceiro ano do Curso de Serviço Social, quando foi convidada para trabalhar num Projeto de Eletrificação Rural, em Itacuruba e Rodelas. Esta experiência marcou sua entrada na educação e a faz ingressar no MEB. Segundo ela, a entrada no MEB foi determinante em sua formação política

“A minha formação política vem depois da entrada no MEB. Até então eu tinha afinidades, simpatias, posições, discussões, mas eu não me sentia uma pessoa politicamente formada. Dentro do MEB é que a gente começa a percorrer o caminho da formação. A fazer as grandes perguntas (...)É como se você estivesse abrindo as janelas todas. E o MEB é invadido por esta prática e por esta indagação e por esta revelação de realidade. Então não dava mais para você fazer um bom trabalho, de boa pessoa, que vai lá trabalhar com os pobres. Não era mais isso! Você estava dentro de um desafio e você estava fazendo uma aliança, na verdade você estava estabelecendo e propondo uma aliança com uma outra classe ”

Embora as trajetórias de Vera, Zeca, Osmar e Aída tenham percursos singulares, há pontos comuns que as aproximam. Dentre elas, a inserção religiosa como uma das as razões que os levaram a optar pela educação de camadas populares. A inserção numa prática religiosa levou à descoberta das exigências de um engajamento social e de uma prática política, o que deu como resultado uma revisão crítica da própria prática religiosa. Essa mudança interna, não era fruto apenas da reflexão individual ou do estudo coletivo com seus pares, mas resultava das práticas sócio-politico-educativas desenvolvidas nos movimentos sociais e do contato direto com as camadas populares.

BIBLIOGRAFIA CITADA

ARROYO, Miguel G. Educação de Jovens e Adultos _ um campo de direitos e de responsabilidade pública. Belo Horizonte, MG, 2004 (mimeo (Costa, 1986, p. 21)

JÓIA, Orlando et al. Propostas curriculares de Suplência II (2º segmento do ensino fundamental supletivo) Relatório de pesquisa. São Paulo: Ação Educativa, 1999.

KADT, Emanuel de Católicos Radicais no Brasil João Pessoa, edit. Universitária, 2003.(2003)

FERRAROTTI, Franco. Les biographies comme instrument analytique et interpretatif. Cahiers Internationaux de Sociologie, LXIX. Paris, jul/dez. 1980. P-227-248.

LANG, Alice B. da Silva G. História oral: muitas dúvidas, poucas certezas e uma proposta. In: MEIHY, José Carlos Sebe Bom (Re) introduzindo história oral no Brasil. São Paulo: Xamã, 1996RIBEIRO, Vera M. A formação de educadores e a constituição da educação de jovens e adultos como campo pedagógico. Educação e Sociedade. Ano XX, n.º 68, Dezembro, 1999.

 
Voltar