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  O LÚDICO COMO DESMISTIFICAÇÃO DO PRECONCEITO LINGUÍSTICO

Aline Neuschrank Colomby - Universidade Federal de Pelotas - UFPEL
Rafael Leal Vitola - Universidade Federal de Pelotas - UFPEL

Este trabalho tem por objetivo relatar uma experiência realizada com alunos do curso pré-vestibular Desafio, situado na cidade de cidade de Pelotas/RS, o qual é um projeto de extensão da Universidade Federal de Pelotas. Nesse local, trabalham de forma voluntária alunos de diversos cursos de graduação tais como Letras, Matemática, Física, Biologia etc. Todavia, o projeto também conta com a participação de ex-alunos, já formados, da UFPEL, os quais também atuam voluntariamente.

O Desafio possui o intuito de proporcionar a pessoas de baixa renda subsídios para que possam prestar vestibular de forma mais igualitária a quem tem melhores condições financeiras de se preparar para tal processo seletivo. Além deste objetivo didático-pedagógico, o projeto prima também por causas sociais, tendo em vista que ações comunitárias como campanha do agasalho e coleta seletiva de lixo são desenvolvidas por professores e alunos ao longo da atividade anual do curso.

Pensando em proporcionar aos alunos uma atividade lúdica e ao mesmo tempo esclarecedora, um grupo de professores da área de Letras, no ano de 2003, planejou uma peça teatral a fim de abordar um tema bastante polêmico, o qual não estava sendo satisfatoriamente assimilado pelos estudantes do curso: o preconceito lingüístico. A abordagem foi baseada em vasto referencial teórico específico, todo ele concernente à variação lingüística. Matérias de autores como Marcos Bagno, Guacira Louro, Mário Perini, Janete dos Santos formaram a base dessa pesquisa.

A noção do preconceito lingüístico (como ele ocorre, quem são os agentes causadores etc) ainda não é muito difundida em nossa sociedade. A visão mais ampla da língua, a qual exclui a noção de erro e adota a de adequação, ainda está restrita aos grupos que trabalham com essa temática (como os lingüistas), o que prejudica a abordagem do tema em sala de aula.

Como sabemos, caberia também ao professor de língua apresentar os valores sociais atribuídos a cada variedade lingüística. Temos consciência de que “a língua é freqüentemente usada na prática da discriminação, da exclusão social.” (Bagno, 2002, p.70) Sendo assim, à educação lingüística deveria competir a explicitação e o combate a esse preconceito.

Foi, então, através desses conceitos relacionados ao papel do professor que a peça teatral, denominada Mostrando a Língua, foi organizada. Essa encenação consistia em apresentar uma série de personagens possuidores de variantes lingüísticas bem determinadas. Enquanto alguns se utilizavam de uma linguagem mais prestigiada, outros faziam uso de variedades estigmatizadas.

A peça dramatizava uma situação em que um professor de Língua Portuguesa era julgado pela acusação de “gramaticídio”. Faziam parte do júri o Meritíssimo Jimmy Zen da Paz, a promotora Srª Drª Gramatícia Catacrese, a advogada de defesa Srª Drª Variável Lingüística, a testemunha de acusação Sr Máximo Sintático e as testemunhas de defesa Srª Divina do Lar e Sr Ramir Gonçarve Carvaio, além do réu, Sr Aderbal Coloquial.

Gramatícia Catacrese possui um grande conhecimento da norma culta da língua, usando isso como um meio de inferiorizar aqueles que não o possuem. É sua esta fala, referindo-se a Aderbal Coloquial:

“Senhoras e senhores, este homem, que se julga professor, ensina seus alunos a falar errado, porque certamente não entrará em sala de aula com outra linguagem, aquela que todos nós temos prazer em ouvir, o português puro. Sim, senhoras e senhores, o português escorreito, castiço, aquele que é reflexo da nossa melhor cultura, o que deve estar faltando aos seus alunos, senhor Aderbal. Este é o homem que desrespeita as leis da Morfolândia (local fictício onde a peça se situa) e, com suas atitudes, deixa claro o quanto é medíocre!”

Variável Lingüística é uma grande defensora da abolição do preconceito lingüístico. Procura sempre mostrar que os próprios preconceituosos fazem uso, em determinados momentos, daquilo que condenam, como nesta fala:

“Percebam, senhores jurados. Esta é uma das bases do preconceito: toda vez que o objeto de preconceito nos beneficia, mudamos de idéia rapidamente. Foi o que aconteceu agora; o réu disse uma frase (“Se desabou-se o teto!”) que, de acordo com a gramática tradicional, está errada e, no entanto, todos entenderam e se protegeram, inclusive o senhor Máximo e a senhora Gramatícia.”

Máximo Sintático representa uma figura defensora da Gramática Normativa acima de qualquer instância. Acaba, com sua fala, por menosprezar aqueles que não possuem um padrão lingüístico equivalente ao seu, como pode ser observado na fala a seguir:

“Sou redator do ‘Diário Impopular’ – creio que todos aqui devam conhecê-lo, e tenho uma coluna de comandos paragramaticais denominada ‘Não erre mais, seu imbecil’, a qual publico semanalmente. Desde que o senhor Aderbal Coloquial se dirigiu a mim com a frase – prestem atenção – ‘Me empreste a caneta’, em vez de ‘Empreste-me a caneta’, tomei conhecimento da existência desse... ser. Sabe-se lá o que é isso.”

Divina do Lar é uma personagem de baixa classe social, usuária de uma variedade bastante estigmatizada da língua, embora muito natural. “Estamos acostumados a associar conhecimento a uma reflexão consciente, laboriosa e por vezes dolorosa” (Perini, 2000, p. 11); por essa razão, uma forma de falar estilo a de Divina, feita, de certo modo, “sem pensar”, tende a ser classificada como errônea:

“Ela (prima de Divina) vivia rindo de mim e dizendo que eu falava tudo errado, e de tanto ela falá eu já ‘tava começando a achá que eu não sabia falá mesmo. Aí um dia o seu Aderbal falô pra eu que eu não falava errado, só era de um jeito diferente, e que, se as pessoa intendia o que eu queria dizê, era isso que importava. Des desse dia eu nunca mais tive vergonha de falá do meu jeito.”

Ramir Gonçarve Carvaio, por sua vez, é uma figura camponesa, usuária de uma linguagem típica do meio rural, também bastante estigmatizada pela sociedade. A seguir, uma de suas falas será exposta:

“Ah, nóis se conhece deis que nóis era uns bacurizinho ansim... Aí o Aderbá veio pra cidade pra estudá e virá dotô... e acabô virando professô, que é as pessoa mais sabida que tem. O Derbazinho quis sigui esses caminho difícir dos livro. Eu perferi cuidá da minha horta, dos meu porco... Perfiro vê a poesia dos mio cresceno, construí tauba por tauba os currar, os galinhero... Num ixéste vida mió que a vida do campo.”

Já Aderbal Coloquial é conhecedor de muitas variantes lingüísticas, inclusive a culta, usando-as de maneira competente, adequando sua fala à situação:

“Eu tenho pleno domínio (da língua) para as minhas necessidades de falante nativo e de professor de língua portuguesa, nada além e nada aquém disso, assim como os senhores e senhoras que estão aqui presentes; tanto é que estou falando e acredito que todos aqueles que não sejam surdos estão me entendendo.”

Como podemos perceber, a partir das variantes usadas pelos personagens se pode fazer um “retrato” de cada uma dessas figuras e perceber seus papéis na sociedade, além, é claro, de ficar nítida a impressão inicial que cada um deles passa através de seu uso da língua. Todas as noções que envolvem a questão do preconceito lingüístico, do erro e da adequação estão inseridas no contexto teatral em foco.

Não se pode simplesmente restringir as situações de uso da língua em “certas” e “erradas”. Há todo um caráter social na formação lingüística de um indivíduo. Muitos não têm acesso a uma formação educacional que proporcione um vasto cabedal de conhecimento, inclusive no que se refere aos usos da linguagem.

No momento em que os usos feitos por pessoas de classes sociais desprivilegiadas são tidos como erros e desvios da língua, esta estará sendo usada como um fator de exclusão. Essa prática de discriminação pode ser questionada a partir do que encontramos nos PCNs (1997, p 31-32):

“A questão não é falar certo ou errado, mas saber qual forma de fala utilizar, considerando as características do contexto de comunicação, ou seja, saber adequar o registro às diferentes situações comunicativas. (...) A questão não é de correção da forma, mas de sua adequação às circunstâncias de uso, ou seja, de utilização eficaz da linguagem: falar bem é falar adequadamente, é produzir o efeito pretendido.”

O objetivo da peça teatral não era simplesmente transmitir um conhecimento, e sim ter a certeza de que um espírito crítico a respeito do tema havia sido despertado no corpo discente. Para, então, obtermos essa confirmação, optamos por deixar que os alunos participassem ativamente da dramatização, atribuindo a eles a tarefa de pronunciar o veredicto da causa.

Desde o início do trabalho criou-se a expectativa de que, a partir do que já havia sido trabalhado em aula, aliado à abordagem a ser desenvolvida no evento, os alunos optassem pela absolvição do réu, demonstrando, assim, o entendimento da língua não como demarcadora de fronteiras sociais, mas sim como um elo entre as mais variadas formas de expressão.

O resultado obtido com o desfecho do julgamento, no qual aconteceu, de fato, a absolvição do réu, foi que houve a conscientização, por parte dos alunos, de que cada uma das facetas da língua tem a sua situação de uso, cabendo a cada um de nós a questão da adequação vocabular.

Desse modo, a partir do conceito o qual havíamos atribuído anteriormente ao que vem a ser o papel do educador, sentimos que o nosso dever, nesse caso, havia sido cumprido. É necessário que rompamos, então, com os “muros” do preconceito nas situações reais de ensino. A importância de se trabalhar explicitamente com o preconceito lingüístico pode ser expressada pelo que diz Guacira Lopes Louro (1997, p 65):

“Dentre os múltiplos espaços e as muitas instâncias onde se pode observar a instituição das distinções e das desigualdades, a linguagem é, seguramente, o campo mais eficaz e persistente – tanto porque ela atravessa e constitui a maioria de nossas práticas, como porque ela nos parece, quase sempre, muito ‘natural’. Seguindo regras definidas por gramáticas e dicionários (...) supomos que ela é, apenas, um eficiente veículo de comunicação. No entanto, a linguagem não apenas expressa relações, poderes, lugares, ela os institui; ela não apenas veicula, mas produz e pretende fixar diferenças.”

De fato, muitas vezes não percebemos o quanto a língua é capaz de implicar aceitação ou recusa, dependendo do uso que fizermos dela em determinada situação. É importante que todas as pessoas tenham noção da variabilidade lingüística e da naturalidade da mesma. Dessa forma, haverá menos riscos de um indivíduo ser rotulado pela forma de se expressar, seja ela qual for.

A língua faz parte de um processo que nunca pára. Ela está sempre passando por uma série de mudanças, as quais são naturalmente absorvidas por seus usuários. Negar essa naturalidade da variação da língua é ir contra o próprio processo de evolução da mesma. Cabe a nós, enquanto professores de Língua Portuguesa, garantir ao aluno acesso a essas noções, para que, então, o mesmo possa se sentir não como um mero reprodutor de usos da língua, mas sim como um agente ativo na evolução da mesma.


BIBLIOGRAFIA

BAGNO, Marcos (1999). Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola.

________. (2002). Língua materna: letramento, variação & ensino. São Paulo: Parábola.

GNERRE, Maurizio (1998). Linguagem, escrita e poder. São Paulo: Martins Fontes

HUBNER, Regina M. (org.) (1989). Quando o professor resolve: experiências no ensino de português. São Paulo: Loyola.

LOURO, Guacira. L. (1997). Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista.
Petrópolis: Vozes.

PCN – Parâmetros curriculares nacionais: língua portuguesa (1997). Brasília: MEC/SEF.

PCN – Parâmetros curriculares nacionais: pluralidade cultural, orientação sexual (1997). Brasília: MEC/SEF.

PERINI, Mário A. (2000). Sofrendo a gramática. São Paulo: Ática.

______. (2003). Gramática descritiva do português. São Paulo: Ática.

POSSENTI, Sírio (1996). Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas: ABL, Mercado de Letras.

SANTOS, Janete S. dos (2004). Letramento, variação lingüística e ensino de português. In: Revista Linguagem em (Dis)curso. Centro de Pós-Graduação de Tubarão/ SC.

TRAVAGLIA, Luiz C. (2003). Gramática ensino plural. São Paulo: Cortez.

 
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