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  CRIANÇAS LEITORAS: LER PARA QUEM E POR QUÊ?

Silmara Helena Zago (Escola do Sítio – Campinas SP)

Ao longo da história da Escola do Sítio, quando ainda não era professora dela, uma turma de 4a. série começou o que hoje chamamos de Projeto de Leitura. A professora, na época, percebeu que incluir a história de leitor de cada criança no projeto da turma ampliaria as práticas de leitura já realizadas pelo grupo. O tempo passou e o projeto ficou como uma “marca” da quarta série. Acredito que as crianças gostam tanto do projeto porque foram ouvintes por vários anos antes de chegarem na 4a. série. É este projeto que quero compartilhar com meus interlocutores. Assim que as crianças chegam na 4a. série já me perguntam quando que irão ler para as outras salas, ou quando entro na terceira série já escuto crianças dizendo que já estão pensando nos livros que lerão no próximo ano. O projeto acabou se institucionalizando como uma prática da 4a. série e não mais daquela determinada turma que realizou o projeto pela primeira vez. Mas, afinal, como é o Projeto de Leitura?
Antes, é necessário relatar as diferentes práticas de leituras das crianças. Uma delas é a leitura realizada por mim na roda que fazemos todos os dias no começo da aula. Esta leitura é uma escolha minha e os critérios são diferenciados de acordo com a necessidade do grupo: ora o livro escolhido está relacionado com o projeto do grupo, ora a escolha é apenas pelo prazer de ouvir uma história sem a preocupação com o projeto. Há momentos de leitura individual e diária, em sala de aula, de diferentes textos que são retirados de jornais, revistas, livros e também leituras de imagens. Outra prática de leitura é a retirada de livros semanalmente da biblioteca da escola. A leitura é realizada em casa e o retorno é em uma roda na própria biblioteca diante de uma pergunta que norteia o relato da história lida pela criança. E uma nova prática de leitura surgiu a partir deste ano: “Leitura na quarta”. É um projeto, também de leitura, realizado pela atual quinta série que lê toda quarta-feira em nossa classe. No começo deste ano a professora de português me procurou contando que as crianças tinham chegado na quinta série perguntando se poderiam continuar o projeto de leitura que realizavam na quarta série. Conversamos e começamos um novo projeto. A cada semana uma criança da quinta série vem até a nossa roda e lê. Como se efetivam a escolha do livro, a preparação da leitura e a proposta de atividade a ser realizada após a leitura, serão explicadas mais adiante.
Resgatar a história de leitor de cada criança é o grande objetivo do Projeto de Leitura. Começamos com a investigação, junto aos pais, das histórias que cada criança ouvia e lia quando tinha de 2 a 9 anos e quais os critérios de escolhas que criança e pais utilizavam para selecionar os livros lidos. A história que a criança mais gostava de ouvir, o primeiro livro que leu sozinha e até aquele livro que tinha que ser lido várias vezes foram aspectos levantados em casa com a ajuda dos pais. Saber da história de leitor dos pais também foi uma questão discutida: que livros os pais gostavam de ler quando tinham a idade de 9, 10 e 11 anos. Este resgate da memória de leitor da criança e dos pais é socializado com todos do grupo e a constatação que alguns livros são comuns é imediata. As crianças começam a perceber que os clássicos da literatura infantil permanecem vivos na memória e no dia-a-dia de todos e que mesmo com o leque de opções diferenciadas na literatura infanto juvenil, ainda se lê “Volta ao mundo em 80 dias”, “Viagem ao centro da Terra”, “Alice no país das Maravilhas”, “Hobson Crusoé”, entre outros.
Conhecendo um pouco da história de leitor de cada, partimos para a realização do projeto: ler para as outras classes da escola.

As crianças recebem um desafio: como ler para as salas do maternal, jardim, pré, primeira, segunda e terceira séries uma vez por semana, sendo que cada criança necessariamente será leitor e só poderá ler uma vez em cada sala? Lançado o desafio e crianças em pequenos grupos, tabelas são elaboradas e socializadas. Escolhida a tabela que permite uma leitura horizontal e vertical, é iniciado o projeto que consiste em uma seqüência de etapas que será descrita a seguir.
Escolhido o dia da semana em que as crianças da 4a. série entrarão nas rodas das salas já citadas, começamos o dia da leitura nas outras classes com uma roda em que sou a mediadora. Seis crianças são sorteadas para comporem o primeiro grupo de leitores e as outras crianças da classe cumprem o papel de observadores do leitor ou das crianças que ouvem a história. Os leitores, que já escolheram com antecedência o livro que será lido para a turma daquela semana, prepara em casa a leitura. Cada leitor com 4 observadores se encaminha à sala determinada na tabela, se apresenta para os menores e começa a sua leitura. Durante a leitura, os observadores do leitor registram os aspectos que serão avaliados posteriormente na roda da 4a. série. Terminada a leitura, o leitor propõe uma atividade para ser realizada de acordo com a história que foi lida. As atividades são muito diversificadas e tenho que dizer, muito criativas; construir um castelo de areia no parque, fazer uma armadilha, preparar um teatro, fazer culinária, pintura, escrita, desenho, máscaras e até confecção de livrinhos. Quando todos os leitores encerram as leituras, voltamos para a sala e fazemos a roda de avaliação da leitura do dia. Os observadores lêem os registros em que priorizam alguns aspectos que o próprio grupo elegeu como importantes para uma boa leitura: ter boa entonação, respeitar pontuação, mostrar as ilustrações, ler alto e sem parar entre as sílabas e o mais importante, interagir com as crianças durante a leitura. Os leitores ouvem as críticas, fazem uma avaliação da leitura realizada, se propõem a rever os aspectos que foram assinalados e que são pertinentes para a melhora da leitura. Terminado o primeiro grupo de leitores, realizamos uma reflexão individual, que depois é compartilhada com o grupo todo, enfocada na seguinte questão: o que mudou na minha vida depois que fui leitor ou observador no projeto de leitura? As reflexões são interessantes e permeiam não só a vida escolar das crianças, mas principalmente a vida no mundo. É comum ouvir delas os seguintes depoimentos “depois que fui leitor perdi um pouco a vergonha de falar em público”, “passei a prestar mais atenção na hora de escolher um livro para ler”, “os registros me ajudaram na ortografia”, “eu pensei com cuidado nas palavras para falar do amigo que estava lendo”, “ser observador me ajudou a olhar melhor as pessoas”, “eu aprendi que é uma responsabilidade grande ser leitor porque tem que escolher o livro adequado e trazer na data”, “eu não me preocupei com as palavras que estava usando, mas acho que meus registros estavam claros”.
Por que ler até a terceira série? Porque as crianças se sentem mais seguras ao ler para crianças menores. Quando sugeri que podiam ler para a quinta e sexta séries, elas disseram não bem forte. Perguntei o porquê e a resposta foi geral: que era mais fácil ler para quem não é da idade deles e que os mais velhos gostam de ler coisas “grandes” e que a roda seria muito demorada.
Todas as atividades propostas ao término da leitura são vistas pelo leitor. A avaliação é feita em classe e comentada entre os colegas. Repensar com as crianças um retorno mais eficaz das atividades realizadas pelas crianças das outras séries é um desafio para o próximo grupo de leitores. Os leitores e observadores podem , por exemplo, fazer uma avaliação escrita do material recebido, com impressões sobre o que foi produzido e entregar para a classe em que a atividade foi proposta.
Todos são leitores? Sim, todo. Crianças com Síndrome de Down também foram leitores. Estratégias diferenciadas foram criadas por elas até para resolver um problema que era o não domínio da leitura. Escolher livro com ilustrações grandes e “fazer de conta” que estava lendo foi uma delas, preparar cenário e levar fantoches foi outra estratégia.
Compromisso, responsabilidade, prazer, desejo, escolhas, são aspectos que permeiam o projeto e fazem com que as crianças saibam o porquê e para quem lêem.

 
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