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  ATUAÇÃO PEDAGÓGICA DO ALUNO EGRESSO DO CURSO DE LETRAS / HABILITAÇÃO EM LÍNGUA ESPANHOLA DA UPF

Tânia Mara Goellner Keller
Rosane Innig Zimmermann

Este relato apresenta uma experiência investigativa que foi iniciada em fevereiro de 2005, cujo término está previsto para o final de 2006. Trata-se de uma investigação quantitativa / qualitativa que parte da necessidade de estudos que proporcionem informações sobre \"onde\" e \"como\" de fato estão atuando os professores egressos do curso de Letras – Habilitação em Língua Espanhola da Universidade de Passo Fundo.
Levando em conta a possível oferta obrigatória do ensino de espanhol como disciplina nas escolas do ensino regular do Brasil, conforme projeto de lei no Congresso Nacional Nº 3987/2000, este projeto de pesquisa visa a realização de um levantamento sobre a localização e a atuação desses professores formados pela UPF e, através desse levantamento, a análise da pertinência das propostas e dos objetivos do curso de formação de professores de espanhol pela universidade. Através dessa pesquisa será possível perceber a existência ou não de um paralelismo entre o Projeto Pedagógico (PP) do curso de Letras e a atuação dos seus alunos / professores egressos. A Universidade de Passo Fundo desde o ano de 1996, com a implantação do curso de Letras – Habilitação em Língua Espanhola, até o presente ano, formou trinta e quatro professores que, imagina-se, estejam atuando em diferentes locais da cidade e região e em diferentes sistemas de ensino.

Nos últimos trinta anos, a realidade do ensino de língua estrangeira no sistema educacional brasileiro e suas conseqüências têm sido dependentes de dois fatores: a) o caráter facultativo de oferecimento de língua estrangeira (LE) nas escolas de ensino regular e b) a obrigatoriedade do ensino de pelo menos uma língua estrangeira moderna a partir da quinta série. Nesse período, o sistema educacional do Brasil tem sido regido por três Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. São elas:

A) Lei Nº 5.692/71
De acordo com essa lei, percebe-se o caráter facultativo do ensino de língua estrangeira no então 1º Grau, quando em seu art. 8º § 2º estabelece:
Em qualquer grau, poderão organizar-se classes que reúnem alunos de diferentes séries e de equivalentes níveis de adiantamento, para o ensino de línguas estrangeiras e outras disciplinas, áreas de estudo e atividades em que tal situação se aconselhe.
A partir dessa Lei, coube ao Conselho Federal de Educação estabelecer as disciplinas do núcleo comum e, ao Conselho
Estadual de Educação, as disciplinas pertencentes à parte diversificada. LE constava na parte diversificada.

B) Lei Nº 7.044/82
Em 18 de outubro de 1982, o Congresso Nacional aprovou a Lei Nº 7.044/82 que reformulou alguns aspectos da Lei 5.692/71, mas esta reformulação não contemplou o ensino de LE no 1º Grau. LE continuou sendo disciplina optativa no, então, 1º Grau.

C) Lei Nº 9.394/96
O ensino de LE está passando por modificações fundamentais, de acordo com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A Lei Nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, surgiu para o benefício dos alunos em geral e para satisfação dos professores de LE, pois torna obrigatório o ensino de LE no que, agora, se domina Ensino Fundamental. Assim é a redação, conforme Art. 26, § 5º, dessa Lei:

§ Na parte diversificada do currículo será incluído, obrigatoriamente, a partir da quinta série, o ensino de pelo menos uma língua estrangeira moderna, cuja escolha ficará a cargo da comunidade escolar, dentro das possibilidades da instituição.

Nesse contexto, surgem os Parâmetros Curriculares Nacionais em 1998 e, com eles, o Padrão Referencial de Currículo – 1998 - ( PRC), em nível estadual, que constituem uma tentativa de alertar professores e equipes diretivas de escolas sobre um novo prisma no processo de ensino e de aprendizagem de LE, que ventila uma prática pedagógica em que “o aluno interaja com o professor e com seus colegas de forma a se tornar um participante ativo, responsável pelo seu discurso” (Padrão Referencial de Currículo, 1998, p.4)

Supõe-se que a atual obrigatoriedade de LE no Ensino Fundamental ocasionará melhorias gradativas na prática de ensino desta disciplina, considerando que até há bem pouco tempo os professores tão somente se preocupavam e argumentavam em favor de permanência da LE no currículo desse nível de ensino. Pensa-se que, em razão disso, mais discussões têm sido levantadas e poderão ser canalizadas para aspectos educacionais na condução de uma prática de ensino de LE mais eficiente.

O oferecimento de espanhol como língua estrangeira não tem recebido a mesma atenção que o oferecimento de inglês como tal. Uma das razões dessa realidade está diretamente relacionada com o número escasso de professores habilitados. São recentes os cursos de formação de professores de espanhol como língua estrangeira nos cursos de Letras, diferentemente de cursos que preparam professores de inglês.

Considerando, pois, o projeto de lei 3987/2000, em tramitação no Congresso Nacional, que torna o ensino de espanhol obrigatório para as escolas brasileiras e de matrícula facultativa aos alunos, pode-se prever uma expansão do oferecimento e do ensino dessa língua em todas as escolas do país, o que acarretará o aumento do mercado de trabalho, com a conseqüente oferta de cursos universitários visando a formação de professores para aquele mercado.

Através dos PCNs e de inúmeros trabalhos de pesquisa realizadas em Lingüística Aplicada, enriquecidos pelas contribuições de outras áreas de estudo, como Psicologia, Sociologia e Antropologia, podem-se vislumbrar uma atenção e uma preocupação maiores para com a melhoria do ensino de LE em cursos de ensino regular. Cabe aqui, deixando de lado os aspectos político-sociais do ensino de línguas, determinados pelas Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e que refletem modelos que facilitam ou dificultam o processo de ensino e propiciando ou restringindo as oportunidades a todos os cidadãos, abordar outro fator essencial que, igualmente, pode colaborar, quando oportuno e bem trabalhado, para uma aprendizagem bem-sucedida em LE.

Trata-se do aspecto teórico-metodológico, mais diretamente relacionado com a ação do professor em sala de aula e da filosofia educacional dos cursos de formação de professores de LE. Há que se avaliar, pois, os cursos de formação de professores de espanhol como língua estrangeira e de investigar a existência ou não de coerência entre o programa didático pedagógico do curso e a atuação didático-pedagógica dos professores egressos desse curso. Este é o objetivo específico desta pesquisa. Levantar dados para analisar e interpretar a relação entre a filosofia/programa do curso de Letras – Habilitação em Língua Espanhola da UPF e a atuação pedagógica como professores de espanhol dos seus ex-alunos.

Considerando que a UPF não possui uma fonte de alunos egressos, a decisão da realização da pesquisa, além de ser uma tentativa de formação de um quadro referencial da atuação dos alunos concluintes, gira em torno da necessidade de elencar e de mapear a atuação dos professores egressos do curso de Letras – Habilitação em Língua Espanhola da UPF, com o objetivo de investigar a linha de atuação desses professores, se, realmente, estão atuando como professores de espanhol e onde estão trabalhando. Essa investigação, pois, objetivará entender as características de interação pedagógica entre os professores de espanhol, formados pelo curso de Letras da UPF e seus alunos. Quais ações estão envolvidas no cotidiano da sala de aula, cenário riquíssimo de representações afetivas e sociais? Igualmente, reside nessa investigação, o objetivo de entender como a aprendizagem de espanhol está sendo conduzida pelos professores oriundos do curso de Letras – Habilitação em Língua Espanhola da UPF. Esse curso, em seu Plano Pedagógico (PP), assume a natureza interativa do processo pedagógico, com a abordagem comunicativa no processo de ensino-aprendizagem de língua estrangeira, na qual subjaz a visão cognitivista e sociointeracional de aprendizagem. Com isso, poder-se-á traçar um paralelo entre a filosofia do curso e a atuação dos professores egressos da UPF no seu metier. Este estudo oferecerá uma melhor compreensão dos aspectos que refletem as crenças dos professores, das decisões sobre programas e currículos, do papel do professor, da estrutura da aula e dos padrões de interação, enriquecendo estudos que beneficiarão uma avaliação do curso de Letras na formação de profissionais que ensinam espanhol. Igualmente, possibilitará à Universidade de Passo Fundo um mapeamento não apenas da localização dos alunos egressos do curso de espanhol, mas também de uma compreensão mais efetiva da linha metodológica de atuação dos professores formados pela UPF, na busca de análise que objetive questionamentos comparativos sobre o perfil que o curso tem primado na formação de professores de espanhol e dos aspectos teórico-metodológicos submersos em suas ações como professores de língua espanhola, supõe-se, nos mais diferentes sistemas de ensino.

Esse estudo persegue os seguintes objetivos específicos:
a) localizar geograficamente os trinta e quatro professores egressos do curso de Letras – Habilitação em Língua Espanhola e seu campo de atuação profissional;
b)levantar o material didático-pedagógico adotado e os recursos utilizados nas aulas de espanhol como língua estrangeira;
c)analisar a abordagem e a metodologia de ensino praticada na condução das suas aulas de espanhol como língua estrangeira.

O trabalho de pesquisa parte de fundamentações de lingüistas aplicados sobre ensino de língua estrangeira, Lightbown / Spada (1999), Thomas (1999), Richards e Lockhard (1994) e Germain (1996) bem como das teorizações sobre aprendizagem segundo Vygotsky (1984, 1998 e 1994), Bakhtin (1995) e Paulo Freire (1985), sendo complementado e enriquecido pela análise interpretativa de dados em situação de uso da linguagem. Igualmente, será desenvolvido pela perspectiva microetnográfica proposta pelo antropólogo da educação Frederick Erickson (1990, 1996, 1998) e da Sociolingüística Interacional formulada por John J. Gumperz (1986). Estes referenciais permitirão a caracterização da atuação dos professores entre o que define-se como abordagem tradicional ou interacional de aprendizagem de língua estrangeira.

Metodologicamente, essa pesquisa está sendo direcionada para uma investigação qualitativa / quantitativa, considerando que usará dados quantitativos (aplicação de questionário inicial de levantamento de dados) e outros qualitativos (descrição dos significados que as ações e os eventos têm para os professores envolvidos, caracterizando o que Erickson (1990) denomina como pesquisa interpretativa. Nesse caso, duas questões-chave desse tipo de investigação serão contempladas:
a) O que está acontecendo aqui, especificamente?
b) O que estes acontecimentos significam para as pessoas envolvidas neles?

Após o levantamento dos nomes dos professores egressos, de seu domicílio e local de atuação profissional, todos serão consultados sobre a possibilidade de serem visitados pelas pesquisadoras para assistência e/ou filmagem de uma aula. A partir deste \"corpus\" de informações, acontecerá a entrevista sobre os procedimentos e sobre a atuação dos atores do cenário em questão.

Todos os professores egressos do curso de Letras - Habilitação em Língua Espanhola serão entrevistados a partir da assistência e/ou da filmagem de uma aula (sua ou não). Ao(s) professor(es)que não permitir(em)visita e/ou filmagem de sua atuação em aula, será oportunizada a visualização da filmagem de uma outra aula para análise e entrevista. As entrevistas serão foco para análise da conversa e daí advirão as características e referenciais da atuação dos professores.

Na aplicação deste método de pesquisa, os seguintes procedimentos têm sido considerados no levantamento de dados:
• aplicação de questionário auxiliar como levantamento de dados secundários;
• filmagem e/ou gravação de algumas aulas para levantamento de dados com a intenção de analisar a abordagem e a metodologia de ensino e atividades propostas e trabalhadas por esses professores.
• entrevista com os professores egressos, sem perguntas previamente estabelecidas, em uma construção conjunta e espontânea de significado entre os participantes, para investigar as conduções e, nelas, as facilidades e/ou dificuldades como professores de espanhol como língua estrangeira, contemplando assim, a visão êmica dos mesmos.

Faz-se necessário ressaltar que todos os professores envolvidos nesse trabalho de pesquisa serão consultados sobre sua anuência ou não na permissão da realização de filmagem, de observação de aula e de participação em entrevistas referentes a suas aulas. No caso das filmagens, havendo a concordância de mais de três professores, serão escolhidas e definidas pelas pesquisadoras, três filmagens de aulas. Os critérios dessa escolha serão explicitados no desenvolvimento do trabalho. Já com relação às assistências, com exceção de professores que não permitam, será observada uma aula de cada professor egresso. Determinadas ocasiões das filmagens serão analisadas conjuntamente entre pesquisadoras e cada professor participante do estudo, o processo de triangulação de dados, caracterizando a pesquisa de cunho etnográfico.

A identificação dos participantes da investigação e da fala-em-interação social atenderá à justificativa e à argumentação do fundador da Análise da Conversa, Schegloff (1995), o qual defende que os sujeitos devem ser identificados pelo seu nome (real ou pseudônimo). Com referência a este aspecto, cabe ressaltar que os professores farão individualmente a sua opção.

A investida nos procedimentos acima citados estará embasada nos fundamentos da Análise de Conversa (SCHEGLOFF 1997, 1999a, 1999b), na construção conjunta de discurso nas entrevistas e nas transcrições de fontes gravadas conforme o sistema Jefferson (ATKINSON, HERITAGE, 1984).

Ao investigar \"onde\" e \"de que maneira\" os trinta e quatro (34) professores egressos do curso de Letras – Habilitação em Língua Espanhola estão atuando, tem-se a preocupação da observação e da análise de como eles constroem relações e definem papéis em atividades de sala de aula. A investigação visa a articulação de uma compreensão da dinâmica da interação social, dos rituais e das características do grupo de professores formados pela Universidade de Passo Fundo.
Finalizando, através dessa investigação poder-se-á proporcionar uma melhor compreensão do perfil e da atuação desses professores no mercado de trabalho e, de acordo com os dados levantados e analisados, confirmar e / ou redirecionar a proposta didático-pedagógica do curso de Letras – Habilitação em Língua Espanhola da UPF.

REFERÊNCIAS

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BAKHTIN, M. (V.N. Volochínov). Marxismo e filosofia da linguagem. 7.ed. São Paulo: Hucitec, 1995.

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FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

GERMAIN, Claude. “As interações sociais em aulas de uma segunda língua ou de idioma estrangeiro”. In GARNIER, C., BEDNARZ, N. & ULANOVSKAYA, I. (org.) Após VYGOTSKY E PIAGET – Perspectivas Social e Construtivista – Escolas Russa e Ocidental. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. p. 92-100.

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LIGHTBOWN, P., & SPADA N. How Languages are Learned. Oxford: Oxford University Press, 1993.

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LDB – Lei Nº 7.044/82 – Brasil, Congresso Nacional, 1982.

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MISHLER, E. G. Research Interviewing – Context and Narrative. United States of America: Harvard University Press, 1995.

RIBEIRO, B., & GARCEZ P. de M. (orgs.) Sociolingüística Interacional. Antropologia, Lingüística e Sociologia em Análise do Discurso. Porto Alegre: AGE, 1998.

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VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984.

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