Voltar    
  OS ESTUDOS DE GÊNERO E A LITERATURA DE AUTORIA FEMININA NO BRASIL

Lúcia Osana Zolin - Universidade Estadual de Maringá (UEM)

As discussões que envolvem o tema “mulher e literatura” têm conseguido ocupar um espaço bastante relevante no meio acadêmico nas últimas décadas: muitas são as obras publicadas sobre o assunto, não apenas nos países considerados berços dos estudos feministas, como França, Inglaterra e Estados Unidos, mas também no Brasil; muitos são os seminários que reúnem anualmente especialistas e simpatizantes dessa linha de pesquisa; e cada vez é maior o número de teses, dissertações, artigos e monografias que se dedicam ao tema.

O contexto em que começam a emergir os estudos feministas é marcado pelo crescente interesse que, a partir da década de 1970, se observa em relação à questão da “alteridade”, ou seja, da “exterioridade” em relação ao que é considerado o “centro”, tanto no âmbito social, quanto no acadêmico: no que se refere ao social, os movimentos anticoloniais, étnicos, raciais, de mulheres, de homossexuais e ecológicos se encarregam de empreender os debates; no âmbito acadêmico, filósofos franceses como Foucault e Derrida intensificam a discussão sobre a crise e o descentramento da noção de sujeito (HOLLANDA, 1994). Trata-se, na verdade, da superação das idéias estruturalistas marcadas fundamentalmente pelas pretensões científicas e pela noção de que existem estruturas que explicam a condição humana (inclusive no que tange o que seria a essência de cada um dos sexos), em favor do pensamento pós-estruturalista, fundamentado na desconfiança em relação aos discursos totalizantes e voltado para o interesse em induzir os debates sobre as idéias de marginalidade, de alteridade e de diferença.

É nesse contexto, então, que a mulher, tomada como o “outro”, em relação ao homem - sua cultura, seus pressupostos estéticos e ideológicos – que é considerado o “mesmo”, ou o “centro”, passa a atrair para si olhares interessados em desnudar-lhe os mecanismos que lhe constituem o modo de ser, de estar na sociedade e de se fazer representar, seja na série social, com o movimento feminista, seja na literária, um pouco mais tarde, com a crítica feminista.

Desde a sua origem em 1970 com a publicação, nos Estados Unidos, da tese de doutorado de Kate Millet, intitulada Política sexual, esta vertente da crítica literária tem assumido o papel de questionadora da prática acadêmica patriarcal. A constatação de que a experiência da mulher como leitora e escritora é diferente da masculina implicou significativas mudanças no campo intelectual, marcadas pela quebra de paradigmas e pela descoberta de novos horizontes de expectativas.

Nas últimas décadas, muitas facções críticas, a exemplo do que faz a Crítica Feminista, defendem a necessidade de se considerar o objeto de estudo em relação ao contexto em que tal objeto está inserido.

No que se refere ao nosso tema, o feminismo, entendido como movimento social e político, pôs a nu as circunstâncias sócio-históricas que envolvem a mulher, as quais foram tomadas pela Crítica Literária Feminista como elementos determinantes em relação ao seu modo de representação na produção literária. Do mesmo modo, fez perceber que o estereótipo feminino negativo, largamente difundido na literatura e no cinema, constitui-se num considerável obstáculo na luta pelos direitos da mulher.

Estudos acerca de textos literários canônicos, empreendidos pelo feminismo crítico, mostram inquestionáveis correspondências entre sexo e poder: as relações de poder entre casais na ficção espelham as relações de poder entre homem e mulher na sociedade em geral; a esfera privada acaba sendo uma extensão da esfera pública. Ambas são construídas sobre os alicerces da política, baseados nas relações de poder.

Se as relações entre os sexos se desenvolvem segundo uma orientação política e de poder, também a Crítica Literária Feminista é profundamente política, na medida em que trabalha no sentido de interferir na ordem social. Trata-se de um modo de ler a literatura confessadamente empenhado, voltado para a desconstrução do caráter discriminatório das ideologias de gênero, construídas, ao longo do tempo, pela cultura. Ler, portanto, um texto literário tomando como instrumentos os conceitos operatórios fornecidos pela Crítica Feminista (feminino/feminista; mulher-sujeito/objeto, gênero, logocentrismo, falocentrismo, patriarcalismo, desconstrução, alteridade, etc.) implica investigar o modo pelo qual tal texto está marcado por tais ideologias, num processo de desnudamento que visa despertar o senso-crítico e promover mudanças de mentalidades, ou, por outro lado, divulgar posturas críticas por parte dos(as) escritores(as) em relação às convenções sociais que, historicamente, têm aprisionado a mulher e tolhido seus movimentos.

Nesse sentido, o objetivo dos debates, empreendidos pela Crítica Feminista, acerca do espaço relegado à mulher na sociedade, bem como das conseqüências, ou dos reflexos daí advindos, para o âmbito literário, se os contemplarmos de modo amplo, é a transformação da condição de subjugada da mulher. Trata-se de tentar romper com os discursos sacralizados pela tradição, nos quais a mulher ocupa, à sua revelia, um lugar secundário em relação ao lugar ocupado pelo homem, marcado pela marginalidade, pela submissão e pela resignação. Tais discursos não só interferem no cotidiano feminino, mas também acabam por fundamentar os cânones críticos e teóricos tradicionais e masculinos que regem o saber sobre a literatura. Assim, a crítica feminista trabalha no sentido de desconstruir a oposição homem/mulher e as demais oposições associadas a esta, numa espécie de versão do pós-estruturalismo.

Se em seu primeiro momento, a Crítica Feminista esteve voltada para a necessidade desmascarar a misoginia da prática literária canônica, caso de textos críticos fundadores dos anos 1970, como o de Kate Millet, a partir da década de 1980, esta tendência crítica se expandiu segundo outros direcionamentos: ao invés de se ocupar dos textos masculinos, passou a investigar a literatura feita por mulheres, enfatizando quatro enfoques principais: o biológico, o lingüístico, o psicanalítico e o político-cultural.

Tais enfoques emergem da ênfase dada a certos aspectos, em detrimento de outros. Mas todos são constituídos a partir da idéia básica do pensamento feminista: desnudar os fundamentos culturais das construções de gênero (opondo-se às perspectivas essencialistas e ontológicas dos estudos que abordam a questão da mulher) e promover a derrocada das bases da dominação de um gênero sobre outro.

Dois pólos conceituais são percebidos hoje quando se fala em Crítica Feminista: a crítica feminista francesa e a anglo-americana. A francesa se ocupa de investigar as ligações entre sexualidade e textualidade, bem como de examinar o campo de articulações do desejo com a linguagem, visando definir os contornos de uma possível “escritura feminina”, numa orientação claramente psicanalítica.

A anglo-americana, da qual deriva aquela praticada no Brasil, ocupa-se de uma gama bastante variada de questões. As mais debatidas referem-se a: 1) noções de gênero, classe e raça, discutidas em confronto com a noção de essencialidade da mulher; 2) noção de experiência, que enfoca as práticas culturais da mulher relacionadas com sua produção literária, a fim de recuperar uma “identidade feminina” e rejeitar a repetição dos pressupostos da crítica literária tradicional; 3) noções de representação literária, de autoria e de leitor/leitora; 4) noção do cânone literário e crítico, discutindo a legitimidade do que é, ou não, considerado literário e denunciando a ideologia patriarcal que o permeia e determina sua constituição; 5) discute, por fim, a problematização do projeto crítico feminista, no que tange às possibilidades de intervenções nas relações sociais (QUEIROZ, 1995).

Uma das grandes conquistas empreendidas pela Crítica Feminista desde a sua origem em 1970 foi a de fazer emergir uma tradição literária feminina até então ignorada pela História da Literatura. Tomando como elemento norteador a bandeira do feminismo e, portanto, a ótica da alteridade e da diferença, muitos historiadores literários começaram a resgatar e a reinterpretar a produção literária de autoria feminina, numa atitude de historicização que se constituiu como resistência à ideologia que historicamente vinha regulando o saber sobre a literatura. Trata-se de promover a desestabilização de paradigmas estabelecidos e saberes instituídos, como o de “essencialismo, homogeinização e universalismo que sustenta a institucionalização da literatura e que subjaz às noções vigentes de tradição e cânone literário, ao discurso crítico da historiografia literária e às estratégias interpretativas e critérios de valoração herdados e legitimados na cultura patriarcal” (SCHMIDT, 1999, p.36). O resultado do processo de questionamento dessas práticas que determinam a invisibilidade histórica da mulher, entendida como sujeito não só da produção literária, mas também da produção crítica e teórica, aponta para a territorialização desse sujeito num espaço tradicionalmente entendido como sendo da alçada masculina.

No Brasil, como no exterior, a literatura de autoria feminina, de até bem pouco tempo atrás, não existia efetivamente, isto é, não aparecia no cânone tradicional. Conforme observa Lúcia Helena Viana (1995), as “Histórias Literárias” de José Veríssimo e Sílvio Romero “nos deixam a impressão de que o mundo da literatura era povoado somente por homens”. Até mesmo A história da literatura brasileira (1950) de Lúcia Miguel Pereira, crítica que se fez reconhecer no “estreito círculo dos literatos masculinos”, refere-se apenas a Júlia Lopes de Almeida, certamente por não considerar que as demais escritoras da época tenham participação na formação da identidade nacional ou, simplesmente, por considerar suas obras inferiores em relação àquelas modelares dos “homens letrados”. Do mesmo modo, as “Histórias” mais recentes referendam a exclusão da mulher como sujeito participativo da história.

O novo lugar que a mulher passa a ocupar na sociedade em decorrência do feminismo fez-se refletir (e não poderia ser diferente) neste status quo. De um lado, a crítica literária, antes de domínio quase exclusivamente masculino, passou a ser praticada por mulheres; de outro, estas passaram a escrever mais como literatas, livres dos temores da rejeição e do escândalo.

As isoladas aparições de mulheres escritoras nos anos 30 e 40 na lista de escritores consagrados dão lugar, nos anos 70 e 80, a uma explosão de publicações: Raquel de Queiroz e Cecília Meireles, ao serem reconhecidas nacionalmente, abrem as portas das editoras a outras escritoras, mas é Clarice Lispector quem “abre uma tradição para a literatura da mulher no Brasil, gerando um sistema de influências que se fará reconhecido na geração seguinte” (Viana, 1995, p. 172).

Inserida nesse contexto de mudanças, a literatura brasileira agrega a si “outras” vozes. Na trilha de Clarice Lispector, surgem as, hoje imortais da Academia Brasileira de Letras, Lígia Fagundes Telles e Nélida Piñon, seguidas de muitas outras escritoras reconhecidas, como Lya Luft, Adélia Prado, Hilda Hilst, Patrícia Bins, Sônia Coutinho, Ana Miranda, Zulmira Tavares, Márcia Denser, Marina Colasanti, Helena Parente Cunha, Judith Grossman e Patrícia Melo para citarmos apenas algumas.

Trata-se de escritoras que, tendo em vista a mudança de mentalidade descortinada pelo feminismo em relação à condição social da mulher, lançam-se no mundo da ficção, até então genuinamente masculino, engendrando narrativas povoadas de personagens femininas conscientes do estado de dependência e submissão a que a ideologia patriarcal relegou a mulher.

Tendo detectado o fato de que a mulher sempre fora produtora de uma literatura própria, embora esta tenha permanecido por tanto tempo no limbo, críticos(as) feministas, ao desempenharem a função de fazê-la emergir, reinterpretando-a e revisando os mecanismos dos pressupostos teóricos que a marginalizaram, têm perscrutado-lhe a trajetória com o objetivo de descrevê-la, dando a conhecer suas marcas, suas peculiaridades em cada época específica. É o que faz, por exemplo, a ensaísta norte-americana Elaine Showalter. Em A literature of their own: british women novelists from Brontë to Lessing (1985), ela entende que quando se debruça sobre o trabalho das escritoras, tomados coletivamente, pode-se perceber a recorrência, de geração para geração, a determinados padrões, temas, problemas e imagens. É o que ela chama de “female literary tradition” e que busca descrever, tomando como corpus a tradição literária feminina no romance inglês. Showalter argumenta que os grupos minoritários acabam por encontrar formas próprias de expressão em relação à sociedade dominante em que estão inseridos. No caso das mulheres escritoras, elas teriam construído uma espécie de subcultura dentro dos limites da sociedade regulada pela ideologia patriarcal. Noutras palavras, elas construíram sua tradição literária (que não é absolutamente inata ao sexo biológico) a partir das relações, ainda em desenvolvimento, travadas com a sociedade maior em que se inserem. O objetivo de Showalter, nesse sentido, é o de investigar as maneiras pelas quais a autoconsciência da mulher se traduziu na literatura por ela produzida num tempo e espaço determinados e como ela se desenvolveu.

No entender da ensaísta, todas as subculturas literárias, como a negra, a judia, a canadense, a anglo-indiana, a americana, etc, percorrem três grandes fases: a de imitação e de internalização dos padrões dominantes; a fase de protesto contra tais padrões e valores; e a fase de autodescoberta, marcada pela busca da identidade própria. Adaptando estas fases às especificidades da literatura de autoria feminina, tem-se a fase feminina, a feminista e a fêmea (ou mulher), respectivamente.

Baseada neste estudo de Showalter, a pesquisadora carioca Elódia Xavier (2002) identifica as marcas da trajetória da narrativa de autoria feminina na literatura brasileira: a fase feminina teria se iniciado com a publicação de Úrsula (1859), de Maria Firmina dos Reis, um dos primeiros romances brasileiros escritos por mulheres, e se estendido até 1944, quando Clarice Lispector inaugura sua produção literária com a publicação de Perto do coração selvagem. De modo geral, a obra clariceana se estrutura em torno das relações de gênero que trazem à tona as diferenças sociais cristalizadas entre os sexos, as quais cerceiam quaisquer possibilidades de a mulher atingir sua plenitude existencial. Trata-se, portanto, de a escritora iniciar a fase feminista na trajetória da literatura brasileira de autoria feminina, marcada pelo protesto e pela ruptura em relação aos modelos e valores dominantes. Fase esta que, uma vez inaugurada, contou com muitas outras representantes e se estendeu até os anos 90, quando começam a surgir romances escritos por mulheres que se caracterizam por não mais fazer das relações de gênero o dado determinante dos dramas narrados, inaugurando a fase fêmea, em que se pode vislumbrar a representação de novas identidades femininas, livres do peso da tradição patriarcal.

De qualquer modo, seja representando a mulher como seres oprimidos, atados às amarras de ideologias, como a patriarcal, que subjugam o sexo feminino, seja a representando como figuras engajadas no processo de transformação social, reivindicando o direito de preservação da identidade, seja, enfim, representando mulheres liberadas, capazes de decidir o rumo que desejam imprimir à própria história, o fato é que a tradição da literatura de autoria feminina está consolidada no Brasil. Graças aos estudos de gênero, de modo especial, à critica literária feminista, os posicionamentos críticos tradicionais que costumavam rotular os textos de autoria feminina como sendo “coisas de mulher”, “futilidades”, “amenidades”, ou coisa assim, perderam credibilidade. A mulher escritora tem, finalmente, seu trabalho reconhecido no meio acadêmico, hoje, consciente de que o valor estético da literatura canônica não reside apenas no próprio texto, mas em fatores marcados por preconceitos de cor, de raça, de classe social e de sexo, construídos em consonância com os valores da ideologia patriarcal.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HOLLANDA, H. B. Feminismo em tempos pós-modernos. In: HOLLANDA, H. B. (Org.) Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

QUEIROZ, V. A atividade crítica feminina: alguns pressupostos. In: SEMINÁRIO NACIONAL MULHER E LITERATURA, 5, 1995, Natal. Anais... Natal: UFRN: Universitária, 1995.

SCHMIDT, R. T. A transgressão da margem e o destino de Celeste. In: SEMINÁRIO NACIONAL MULHER E LITERATURA, 7, 1997, Niterói. Anais... Niterói: EdUFF, 1999.

SHOWALTER, E. A literature of their own. British women novelists from Brontë to Lessing. New Jersey: Princeton UP, 1985.

VIANA, L. H. Por uma tradição do feminino na literatura brasileira. In: SEMINÁRIO NACIONAL MULHER E LITERATURA, 5, 1993, Natal. Anais... Natal: UFRN, Universitária, 1995.

XAVIER, E. A hora e a vez da autoria feminina: de Clarice Lispector a Lya Luft. In: DUARTE, C.; DUARTE, E. de A.; BEZERRA, K. da C. (Org.) Gênero e representação na literatura brasileira. Coleção Mulher & Literatura. Vol. II. Belo Horizonte: Pós Graduação em Letras – Estudos Literários: UFMG, 2002.

 
Voltar