Professor Mário Sérgio Cortella

 

Minha saudação a todos, é uma satisfação imensa poder numa manhã como hoje poder refletir com vocês sobre um dos elementos mais centrais da nossa atividade cotidiana que é a informação e o conhecimento, claro que eu tenho um vínculo muito forte também com essa temática, não só porque como você sou educador, mas também faz parte das minhas atividades cotidianas a escrita de jornais e a utilização dos jornais no meu dia a dia de trabalho, não só do jornal no sentido impresso, mas também o jornal como sendo a divulgação de tudo aquilo que nos cerca no nosso dia a dia pedagógico. Eu fico agradado com o convite que me foi feito, em função entre outras coisas de que o professor Ezequiel Theodoro, nós já nos conhecemos a mais de 30 anos, de várias atividades porque nós somos originários da mesma região do Estado de São Paulo, meus pais são da cidade em que o Ezequiel nasceu, que é Santa Cruz do Rio Pardo e eu vivi vários momentos da minha vida também naquela região.

 

Nesse sentido eu queria fazer esta reflexão de encerramento com vocês, a partir de um dado inicial que é uma questão pessoal também nessa direção, não é casual que jornal se chama jornal, ele tem haver com o que está acontecendo no dia, com o jur, a própria noção francesa do diário, por isso que entre nós muitos utilizam essa idéia, o jornal, ou seja, aquele elemento do dia, o diário, aquilo que está acontecendo hoje ou aquilo que muitos utilizam, entre eles, a noção de correio, aquilo que leva as notícias, alguns inclusive chegam a brincar, não é minha área propriamente, talvez algumas pessoas aqui saibam que a noção de notícia em inglês, de news, ela significa espalhar a novidade pelos quatro cantos. Eu aprendi quando estava no ensino fundamental, não sabe se é verdade, que a expressão news, tem haver com os quatro pontos cardeais, porque as quatro letras que a compõe significa em inglês exatamente norte, leste, oeste, e sul e isso daria a palavra news que é espalhar a informação pelos quatros cantos. Então diário, jornal, correio e assim por diante, é maneiras de fazer algo absolutamente humano que é nos colocar informado.

 

E é claro a questão central é pensar, e isso tem haver diretamente com a nossa área de educação, qual é a finalidade de nos informarmos no dia a dia, afinal de contas, você já até passou por uma experiência no período de férias, quando as vezes você tem férias, você às vezes passa uma semana sem ler jornal. No começo você sente até um certo incômodo depois você volta para casa tem lá uma pilha de jornais, você começa até a dar uma olhada. E depois de certo tempo você começa a perceber que talvez você nem precisaria ler jornal todos os dias porque você se atualiza com uma certa facilidade.

 

Mas por outro lado, você sente falta disso, porque acompanhar o cotidiano, o que está indo ao dia a dia, acompanhar a féria, a feira, a expressão féria em latim com sentido mesmo de dia, nesse sentido de visão de horário e de horas, acompanhar o dia a dia é exatamente a sua possibilidade de acompanhar o processo histórico, de ter uma clareza em relação, não só a como as coisas estão e especialmente, e é isso que é ser humano, o que pode ser pensado em relação ao futuro.

 

Eu queria partir exatamente dessa noção, quer dizer o vínculo, eu preciso do jornal, eu preciso da informação, eu preciso saber aquilo que está acontecendo no dia a dia e hoje tem uma grande dificuldade aumentou imensamente a tecnologia de informação e difusão da informação e de repente com a velocidade das comunicações cada dia você fica sabendo mais coisa, com muito mais velocidade, com muito mais rapidez e de repente acontece um fenômeno que pode atingir a nós todos e a nossos alunos.

 

Nós ficamos soterrados pelas informações. Você já não sabe mais do que você precisa de fato de tudo o que está chegando nessa direção inclusive levar para a escola, para o trabalho pedagógico escolar, coloca para nós uma decisão que é anterior, que é a partir dela que mais a diante eu quero desenvolver uma reflexão. O mais importante hoje não é ter acesso à informação, porque ela está chegando e com rapidez, mas é como estabelecer critérios de seleção dessa informação. A fonte da informação, o jornal é uma delas, o jornal na televisão é outra, a internet é outra, os livros são outra, a conversa é outra. As fontes de informação hoje se multiplicaram de um jeito inacreditável.

 

Provavelmente, e eu até concordo um pouco com isso, algumas pessoas dizem que nós estamos vivendo um novo renascimento, no sentido assemelhado ao que aconteceu no século XV, XVI. Vocês se lembram que o que caracterizou o renascimento a 500 anos foi exatamente um alto adensamento urbano, uma mundialização que foi chamado na época de navegações ou mercantilismo, um conhecimento de outros locais desse planeta, até alguns brincam que nós estamos na globalização, eu acho que nós estamos fechando um processo de globalização que se iniciou a 500 anos com as navegações. Há 500 anos adensamento urbano, as cidades se concentraram em altíssima escala como nós estamos vivendo hoje, cada vez mais as nossas cidades ficam inchando.

 

Segundo lugar mundialização em relação ao comércio, às culturas e à interdependência econômica, em terceiro lugar e tem haver com a nossa área mais diretamente uma difusão da informação numa velocidade inédita, afinal de contas a 540 anos apareceu algo que tem um impacto que terá hoje a internet entre nós que é o tipo móvel de Gutemberg, em 1452, ele começa a trabalha no conhecido da imprensa do tipo móvel e consegue algo absolutamente inédito. Só para vocês terem uma idéia antes do tipo móvel de Gutemberg, antes do século XV, na Europa medieval entre o século X e o século XIV, eram necessários para produzir vinte exemplares de um livro precisava um ano com dez monges copistas.

 

Dez monges copistas ficavam num lugar de escrever que em latim era spriptorium, o lugar onde você escrevia, copiava e neste local onde se escrevia você precisava de dez monges em uns anos para produzir vinte exemplares de um livro imaginem o que é que isso teve de impacto quando a partir de meados do século XV, a partir daquilo que hoje é a Alemanha, Gutemberg com o tipo móvel consegue difundir a informação de um jeito absolutamente inédito e aí eu dou um exemplo, nos primeiros cinco anos depois da invenção do tipo móvel, portanto da impressa como se fala, da tipografia houve a impressão de mais de dez milhões de livros na Europa.

 

O impacto que isso teve, significa que a informação começou a circular, aliás o tipo móvel permitiu logo na seqüência o aparecimento das primeiras formas de jornal no mundo ocidental, do diário em que você podia fazer numa folha só, num folhetim, podia colocar as informações, as notícias, as coisas, o que isso tem haver conosco, o impacto na educação a 500 anos foi tão forte quanto aquele que a gente tem hoje em relação a utilização de múltiplas fontes para chegar a nós a informação.

 

Claro, se nós estamos vivendo essa era de difusão de magnitude dos veículos de informação, nós temos hoje um inchaço de canais de informação de comunicação. A grande questão que se coloca para nós professores e professoras são como desenvolver, critérios de seleção. Em outras palavras, e é o objeto da minha reflexão mais adiante, como transformar informação em conhecimento porque tem muita gente ainda hoje em educação confunde informação com conhecimento, aliás, algumas pessoas dizem para todos os lados que nós estamos vivendo a era do conhecimento, não necessariamente.

 

A era do conhecimento nós sempre vivemos, nós estamos vivendo hoje e numa dimensão inédita a era da informação e informação e conhecimento não são de maneira alguma a mesma coisa.

 

Mas eu tenho uma outra forma de vínculo, mais duas, em relação ao gosto por esse tema sobre o professor e a leitura do jornal. Não só eu sou professor como o jornal faz parte da minha formação, o jornal foi e é imprescindível no meu cotidiano, não só porque como eu disse eu sou colunista de um ou outro jornal, mas porque eu sou casado com uma jornalista, o que coloca também um convívio diário nessa relação, é que existe um outro elemento nisso eu fui formado aprendendo a ler jornal de forma obrigatória coisa que eu não recomendaria hoje, mas eu fui obrigado a ler jornal desde os sete anos de idade e fui obrigado mesmo. Num outro tempo em que a educação familiar tinha uma outra marca, meu pai na cidade de Londrina onde eu nasci, no note do Paraná, todos os dias, antes de sair de manhã para o trabalho ele pegava o jornal Folha de Londrina que já era grande e hoje continua e entregava, antes de sair para o trabalho, ele era bancário, saia às 7:45 para o banco, ele dizia assim, para meu irmão e para mim, a noite eu vou tomar o jornal.

 

Tomar significa fazer o que ele fazia todos os dias dos meus sete anos de idade, quando eu fui alfabetizado, até quatorze anos. Durante sete anos, eu me mudei para São Paulo com quatorze anos, portanto, até a minha entrada na capital paulista eu tive que ler o jornal todos os dias de segunda à segunda, exceto na própria segunda, porque não tinha jornal nessa época nesse dia, eu tinha que ler o jornal porque a noite ele chegava, sentava na cadeira de balanço dele, que aliás está até hoje na casa da minha mãe em São Paulo, e dizia: muito bem, quais são as principais notícias do dia.

 

E aí nós passávamos uma sessão de tortura de quinze minutos em que a gente dizia assim, aconteceu tal coisa, eu me lembro que em 1963, em novembro, dia 20 de novembro assassinaram o presidente Kennedy nos Estados Unidos e ele queria saber o que tinha acontecido, qual navio tinha afundado, o que tinha acontecido na Argentina, o que tinha acontecido com o Perón e assim por diante, de repente aquilo era uma tortura e se eu não soubesse as notícias, significava que existiria, tal como era a educação naquele momento, uma forma de punição, e a punição evidentemente que ele dava não era algum tipo físico, ele dava um castigo espiritual, a punição quando eu não sabia as notícias ou meu irmão era ter de ler algum livro e contar para ele.

 

Eu caminhava agora, nas livrarias aqui, logo na entrada, e eu vi duas histórias que mais marcaram a minha vida e que eu fui obrigado a ler os dois são livros do Mark Twain, as aventura de Tom Sawyer e a outra de Huckleberry Finn, livros esses, que na época eram até proibidos nos Estados Unidos.

 

Eu aprendi a ler em duas coisas o jornal e aprendi a ter acesso a informação no jornal e isso trouxe uma outra fonte que foi, como castigo, ter de ler livros. Você diria assim, bom isso permitiu que você tivesse um grande conhecimento, sem dúvida, isso permitiu que eu tivesse uma base fortíssima, isso permitiu que eu não deixasse, até nos dias de hoje, de ler dois jornais nos dias de hoje, nas minhas atividades, alguns dizem, mas como é que você tem tempo, eu levanto mais cedo para ter tempo de ler os dois jornais. Eu não consigo iniciar o dia sem uma leitura desses jornais. Ora, você diria assim, fizeram você isso com os seus filhos? Não, porque hoje há outras maneiras e outras fontes de informação que não só o jornal, além do que estando cada um de nós num outro tempo, não teria nexo usar uma estrutura constrangedora como aquela porque ela era o modo como se produzia a educação naquele momento e nós não estamos nele. Deu certo comigo poderia produzir em outros a revolta, mesmo naquela época, poderia produzir o ódio à leitura.

 

Como muitos daqui de nós ficamos com raiva de professores e professoras que nos obrigavam a ler coisas. Por exemplo, nós estamos hoje terminando o mês de julho, quantas vezes eu tive raiva de professores e professoras do ensino fundamental, que diziam assim, logo no final de junho, bom para aproveitar as férias eu vou pedir para você ler José de Alencar, você vai ler um pouco de Visconde de Taunay que ódio que isso dava.

 

Eu sou colunista da revista Educação e a minha coluna do mês de junho foi sobre isso, o ócio não é sinônimo de vagabundagem, eu sou absolutamente contrário à idéia de que você dê tarefas nas férias, primeiro porque você descaracteriza a noção de férias, em segundo lugar porque isso é sinal de má organização da escola. Alguém que não consegue colocar o conteúdo dentro do processo cotidiano de trabalho está com problema de planejamento. Dizer assim, mas não dá tempo de dar tudo o que precisa ser dado. Atenção volta aí de novo a idéia de informação e conhecimento, entre o que é significativo e o que não é. Aquilo que deve ser trabalhado e aquilo que é mero inchaço, overdose de informação.

 

Primeiro a gente pegava o livro e contava o número de páginas, depois você pegava e dividia pelo número de dias que você tinha nas férias e você cada vez que lia um pouquinho olhava para ver quanto faltava, olha que coisa prazerosa, que coisa gostosa, que cria uma relação deliciosa com a leitura. Sabe qual o resultado disso? Dezenas de pessoas, entre nós, na educação, pega uma certa aversão ao livro, mesmo trabalhando nessa área, o número de professores que se dedica à leitura não é tão grande, nem de jornal e nem de livros.

 

É muito pequeno o teto do universo. As suposições inclusive das pessoas fora da área de educação é que nós lemos bastantes, não é muito verdade isso.

 

Eu volto a uma coisa, a ponto de partida, por que meu pai me obrigava a ler jornal? E aí eu me lembrei que ele só fez, até a terceira série do ensino fundamental, embora tenha feito carreira, quando faleceu ele era diretor de banco, ele nunca voltou para escola a única coisa que ele tinha como estudo formal foi três anos de estudo em São José do Rio Pardo, até a terceira série do ensino fundamental chamado primário na época.

 

Não terminou o primário, isso significa que ele dava um valor imenso ao estudo. Ele valorizava imensamente a necessidade de você manter-se informado e, portanto, ele criou essa situação com os filhos de maneira que cada um de nós em casa tivesse essa relação.

 

Porque que eu parti dessa relação, porque eu tinha que ler a folha de Londrina que eu demorava a ler, por ser um menino de sete, oito anos, demorava uma hora. Não era dão grande. Hoje você tem jornais maiores, e você não tem um só jornal, você tem dois, você tem três, tem internet, tem sites, tem a tv. Você já imaginou?

 

Alguém que se dedicasse a atualizar-se ele passaria o dia todo buscando informação. Aliás, se você buscar na internet, a cada momento que você abre a internet você tem uma nova notícia, uma nova coisa e você de repente fica curioso de saber tudo o que está acontecendo nesse exato momento que nós aqui estamos acontece algo na Tailândia e nós ficamos sabemos, e aí descarilha um trem na Ucrânia e você vai ler a notícia e se interessa por quantos morreram, tem um tufão na área da China e você fica sabendo, alguém é preso num posto de gasolina em Belo Horizonte e você está acompanhando a notícia. E uma mulher dá a luz a quadrigêmeos no Ceará e você não só fica sabendo como quer saber qual é o nome de cada uma das crianças.

 

 E aí você olha e fica sabendo a notícia de como será a temperatura em Porto Alegre hoje a tarde, que, aliás, como você não está indo para lá tem alta utilidade a notícia da temperatura, vai nevar na serra gaúcha, qual foi a cotação de dólar, o salário que recebeu o jogador de hóquei no Canadá. Você já imaginou o que é ser um aluno nos tempos atuais, ter quatorze anos de idade nos tempos atuais, tem gente que diz que as crianças não gostam da escola, não é verdade, elas adoram a escola, elas têm certa dificuldade com as nossas aulas.

 

Mas a escola ela adoram, basta você observar, amanhã 1o. de agosto, às 7:00 horas da manhã aquela alegria na porta da escola, correndo para lá e para cá, e toca o sinal vai tudo quietinho para a sala aí fica ali quieto sentado, de repente toca o sinal e eles saem numa alegria grande e corre para lá e para cá. Toca o sinal para ir embora eles vão embora para casa? Não eles ficam lá você tem que ir tocando se não eles não vão embora. As dificuldades que eles têm são as nossas aulas. Não sei porquê. Pega um menino com quatorze anos de idade, ele está com os hormônios fervendo, aliás, o Gaudêncio custa dizer isso que tem gente que confunde hormônio com demônio. Ele está com os hormônios fervendo, que está crescendo, que tem a internet, que tem a tv, que tem o jornal que ele passa direto, que tem uma série de coisas.

 

E aí você o coloca quatro horas, quieto, numa sala de aula, sentando num banco de pau sem poder se mexer e faz ele ficar ali aprendendo coisas que são fundamentais no cotidiano dele, como por exemplo, o nome dos sete primeiros reis de Roma, os quatro latinos e os três etruscos, qual é a diferença entre um adjunto adnominal e um complemento adnominal, como você identifica a mitocôndria, como que você calcula a fórmula da raiz do delta, como é que você calcula a trajetória de uma bala de canhão, que tem tudo a ver com a vida dele, é evidente. Como é que você sabe o peso atômico do bário, qual é a capital da Tanzânia, quais são os afluentes da margem esquerda e direita do rio Amazonas e culmina tudo isso pedindo para ele ler um livro delicioso que tem tudo a ver com a vida dele que é Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco. Aliás pedir não, mandando ele ler. Sabe qual é o resultado? Se ele puder escapa. Aliás, como ele não pode escapar porque sala de aula de porta, e vocês sabem que tem instituições sociais que têm porta para as pessoas não entrarem, por exemplo, teatro, cinema, ginásio de futebol, clube.

 

E tem instituições que tem portas para as pessoas não saírem como escola, penitenciária, hospício, são lugares que você tem que criar um certo constrangimento para as pessoas ficarem senão elas não ficam. Se a gente tivesse um local altamente agradável de conhecimento, se a escola fosse isso, não precisaria porta, a sala de aula precisaria ter porta para não lotar. A sala de aula teria que ter porta para as pessoas não encherem demais a sala, se ali fosse um local onde o prazer e o conhecimento se encontrasse, nem sempre é assim e aí nós temos que ter portas e esquemas de vigias das portas e esquemas de vigia de quem vigia as portas e esquema de vigia dos humanos e das humanas que ali estão, se eles puderem eles escapam.

 

Aliás, como ele não pode escapar da sala de aula ele dorme ou ele põe a mão em cima mesa e vai deitando ou vai escorregando, escorregando na carteira. Sabe o que dá na gente? Uma raiva danada. A gente levanta e fala assim, vocês não respeitam, não sabem respeitar, onde já se viu fazer uma coisas dessas comigo?

 

Os melhores lugares para iniciar uma viagem para a informação chegar ao conhecimento é o jornal, porque o jornal fala do presente, aquilo que as pessoas vivem, embora cada um de nós tenha passado e futuro, a gente só vive o presente assim como na história humana todos os seres humanos sempre viveram na idade contemporânea embora nós estudemos divididos em fases é evidente que todo o ser humano sempre foi alguém que viveu na era idade contemporânea, contemporânea ele.

 

E é claro que isso teria a ver com que ele estava vivendo, portanto ao contrário até do que muitos e muitos achem na educação, o jornal ele não é um elemento estranho ao processo de produção do conhecimento ele é a porta de entrada. Ele não é o jornal, que vale menos do que o livro, que tem um peso menos significativo ao cinema, ou a tv, ele é uma ferramenta que tem um poder imenso de ser ele a fazer o convite para as pessoas navegando no presente poderem caminhar no processo histórico passado e viajarem também em direção ao desejo e, portanto ao futuro.

 

O jornal não é a leitura a mais dentro do processo é o jornal que traz no dia a dia e é por isso que ele se chama jornal, dia a dia, ele é o diário, ele é o correio, aquilo que entrega para as pessoas, ele é a folha. Folha de São Paulo, onde eu sou colunista, Jornal O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, Correio do Povo, Diário de Campinas, você tem aquilo que fala o que as pessoas estão vivendo no dia a dia, fica clara essa idéia? O jornal não é uma leitura menor dentro do processo educativo, ele é o convite que pode permitir, entre outras coisas, a sedução para outros conhecimentos ou informações que serão necessárias.

 

Portanto trazer a leitura do jornal para dentro do trabalho pedagógico, não é simplesmente dizer aos alunos, vocês precisam se atualizar. Sabe porque? Porque nós é que precisamos nos atualizar, eles estão atualizados, é que nós estamos vivendo em outra época e em outra situação e atualizar não significa apenas ter informações atuais, significa ter uma concepção do processo pedagógico para esteja voltada para as condições de agora.

 

Por isso a leitura do jornal é a ferramenta, o instrumento mais poderoso que nós temos para capturar, para seduzir, para convencer a pensar o cotidiano. Só que para pensar o cotidiano, eu tenho que pensar a história. Para eu, por exemplo, discutir com eles o aparecimento de um suposto meteoro que poderá atingir o nosso planeta, um asteróide, aliás, que poderá atingir o nosso planeta no ano de 2019, marcada a data, 1o. de fevereiro, data e horário em que poderá haver essa colisão quando vocês estarão já no 17o. Congresso Brasileiro de Leitura de Jornal. Já imaginou?

 

O aluno está sabendo disso. Já imaginou o que você pode tirar de sedução e captura para ensinar outras coisas, para colocá-lo a aprender outras coisas. Olhar a composição do asteróide, quem sabe você chega ao peso atômico do bário, quem sabe você passa para eles um filme, no qual se busca exatamente evitar a colisão de um astro, como o Armagedon. Ele sabe o que é o Armagedon, bom, mas o Armagedon é o juízo final, da onde vem isso? Isso está escrito lá na bíblia dos Judeus, Cristãos e Mulçumanos. Que tal olhar um pouco o passeio que é possível por essas culturas, culturas essas que produziram coisas que são importantes para compreender a nossa história.  

 

Quando você pega uma caixa de fósforo e nela está escrito Fiat Lux, essa foi a primeira frase dita pela divindade judaica, ela disse: “Faça-se a Luz”. Claro que ela não disse em latim, mas o latim foi dominante para traduzir o pensamento religioso e aí apareceu Fiat Lux, numa caixinha de fósforo você tem a história também. Quando você olha o nome das pessoas, você olha o nome daquele que dá a denominação do estado que boa parte de nós vive que é o Estado de São Paulo. Paulo um apóstolo do cristianismo chamado Saul ou Saulo, como ele era baixo de estatura ele foi apelidado de Paulus, pequeno em latim. Portanto, ele de Saul ou Saulo se tornou Paulus e Paulus de repente que é o pequeno se tornou grande. E você começa a brincar um pouco com a informação.

 

Brincar um pouco com a informação porque um trabalho sério não é necessariamente um trabalho triste. Uma aula séria não é uma aula triste. Uma discussão séria não é uma discussão triste. A seriedade é falta de prazer, jamais. A tristeza que é falta de prazer. O trabalho pedagógico tem que ser um trabalho prazeroso e, portanto alegre.

 

Isso significa que o trabalho pedagógico não pode ser triste. E sabe de onde vem a tristeza? De dois momentos básicos, você não queria estar ali dando aula e eles não queriam estar ali aprendendo. Você já encontrou essa situação alguma vez na vida, você não queria estar ali e ele também não. Já imaginou que delícia, que relação gostosa. Você não queria dar aula, você quer que acabe logo, se der você tira licença prêmio, você usa faltas justificadas, se der você quer que fique em greve seis meses. E ele fica torcendo para essas coisas acontecerem também é uma relação pedagógica na qual o maior desejo é que a relação não aconteça. Já imaginou que delícia, que ponto de partida gostoso? Não é para um trabalho.

 

É aquele em que eu entro para dar aula considerando aquilo um tortura e o outro entra considerando a mesma visão. Aliás, é um dos momentos em que há uma coincidência entre o discente e o docente nenhum do dois queria estar ali naquele momento. Quando que você sente na classe que está gostoso. Quando de repente você sabe, você é professor há cinco anos, dez anos, trinta anos, quarenta anos, como várias pessoas aqui são. Sabem como vocês sabem que é gostoso? Quando você sabe que ele está prestando atenção, quando ele está com o olho brilhando, quando ele está fazendo um movimento que é um movimento assim, só com um lado do ombro.

 

Quando você sabe que as pessoas não estão gostando, existe um movimento na sala de aula, elas começam a bagunçar, começam a ficar incomodadas. Quando você está gostando você não se preocupa com a comodidade, haja visto sua ida ao circo, quem aqui freqüenta o circo desde pequeno, quer lugar mais desconfortável que aquilo, você fica trepado no poleiro que nem galinha no começo da noite. Com aquelas tábuas perigosas, você ficar no meio da emenda da tábua, principalmente para o mundo masculino era um risco aquilo.

 

Quantas vezes você foi a um culto religioso e o local não é confortável, os bancos de madeira, se o sermão é chato, se ele não tem nada a haver com a sua vida. O que você faz? Você cochila e fica ali. Quando o pastor ou líder, o irmão ou a irmã fala uma coisa que você acha fundamental. Atenção, fundamental, que tem algo a ver com os fundamentos da sua vida, você esquece se o encosto não é bom, você não está nem aí.

 

A relação pedagógica não pode ser provocadora de incômodos ruins, porque existe um incômodo bom, que é o incômodo de consciência, que é a curiosidade, que é o desafio. Mas tem um incômodo que é negativo, você não queria estar ali. O que isso tem a ver com o jornal? O jornal é uma das formas mais eficazes de fazer um convite aos alunos para que eles conosco passeiem pela história começando do presente. Que ele olhe o dia a dia, que ele converse e que daquele ponto se parta para outras maneiras de compreender e olhar o mundo.

 

O jornal não é um objeto acima de qualquer suspeita, ao contrário, o jornal ele também é uma empresa, tem a sua posição, isso não significa que não é um instrumento, que não é uma ferramenta que se usa sem cautela. O Millôr Fernandes, que é um grande escritor e cartunista do Rio de Janeiro, diz uma coisa que a gente sempre tem que pensar. Que todo o jornal ou revista deveria colocar no alto perto do título um alerta escrito assim: qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais é mera coincidência.

 

Millôr é alguém que nos incomoda no sentido positivo. Ele diz também que “e você não tem dúvida é porque está mal informado” E essa é uma questão forte porque essa ferramenta, o jornal, tem uma deliciosa, e precisa sê-lo uma porta de entrada para o conhecimento, a cultura, a ciência, a religião. Você também precisa, como qualquer outra forma de informação, ter critérios de escolha, critérios de seleção têm que ter uma visão criteriosa ou crítica, a palavra crítica vem da agricultura. Os gregos tinham uma expressão para indicar a separação do joio do trigo ou da palha do arroz ou do feijão da pedra.

 

Essa separação é chamada em grego de criterium. Criticar significa separar, selecionar. Cuidado, tem gente que diz assim, olha eu queria fazer, mas não queria quer fosse negativa, então nem comece porque toda crítica é positiva e negativa porque criticar é separar o que serve o que não serve. Você não pode caracterizar uma crítica como se ela positiva ou negativa porque se ela não for positiva ou negativa o que você pode caracterizá-la pela intenção ou é uma crítica construtiva ou destrutiva.

 

Quando eu estou corrigindo o trabalho de um aluno eu estou fazendo uma crítica, ou seja, separando o que não serve e o que tem equívocos, o que vai caracterizar de fato é a minha intenção eu quero criticar para construir ou para destruir. Tem gente que confunde avaliação com auditoria. Avaliação é reorientação de processo auditoria é caça ao responsável para punição.

 

Avaliação não é auditoria. Toda vez que você transforma um processo pedagógico em auditoria você simplesmente está buscando a crítica que destrói. O que quero dizer com isso e aí amarrando inclusive nessa direção. É preciso ter capacidade crítica, capacidade de seleção, capacidade de julgamento. Por isso a mais importante ferramenta que a gente pode e precisa hoje trabalhar no trabalho educativo é a capacidade de seleção.

 

Portanto, para selecionar você precisa ter critério e aqui é que vem outro pólo. Não confunda informação com conhecimento. A escola é marcada por nos rechear de informações. Não necessariamente de conhecimento, exemplo, nesse auditório aqui, cada um e cada uma estudaram pelo menos quatorze anos de língua portuguesa. Você começou aos sete e foi até os pelo menos vinte e um se você fez faculdade de língua portuguesa. Se eu perguntar aqui agora, exceto de quem é da área, qual a diferença entre um adjunto adnominal e um complemento adnominal, você não sabe, só se for da área. Você já soube disso um dia? Nunca soube, você decorou.

 

E o que você pode decorar é informação, porque informação é esquecível, conhecimento é inesquecível. Tem gente que diz assim agora nós temos a internet e a internet é a grande fonte de conhecimento, não. A internet é a ferramenta mais poderosa, imprescindível do nosso cotidiano forte de informação. Tem gente que diz que navega na internet, a maior parte não navega, a maior parte naufraga. Porque para você navegar você tem que ter clareza do para onde você quer ir. Você tem que ter clareza do que está procurando. A pessoas que vão só pegando informação é mais ou menos como gente que fica desesperada numa feira do livro. Tem gente que para e eu estava observando isso agora, algumas pessoas param e ficam assim: meu Deus do céu será que eu preciso ler tudo isso? Comprar tudo isso? Claro que não. Todos os dias saem dezenas e dezenas de livros.

 

Você vai atrás daquilo que você tem necessidade você tem que ter clareza daquilo que você deseja. Por isso não confunda informação com conhecimento. Há pessoas que na bienal do livro entram em pânico. Meu Deus do céu o que eu vou fazer agora? O que você vai fazer? Você seleciona.

 

Tem alguns autores que tem mais idade, o Jair, meu assistente tem 73 anos de idade, e ele seleciona o que vai ler, por que? Porque ele tendo 73 anos ele sabe que ele precisa ser cada vez mais seletivo, mais por que? Porque ele vai morrer logo? Não é essa a questão. Porque você sabe que você tem um tempo vital que precisa ser mais bem aproveitado e, portanto mais selecionado. Ele não quer conhecer todas as pessoas. Minha mãe que mora em São Paulo de vez em quando liga para mim e diz: filho vem aqui na minha casa conhecer uma amiga minha. Eu digo: mãe eu não quero não eu já conheço muita gente. Eu não dou conta nem de quem eu já conheço. Cada dia você é apresentada a mais gente, eu quero me dedicar um pouco a quem eu já conheço. Por que isso implicaria em você desperdiçar um tempo, aí você diz a internet é um poderoso meio de acesso a informação mais ela não é uma saída na área de educação a saída é a capacidade de selecionar critérios e conhecimento.

 

Há pessoas que dizem que navegam na internet e se comportam como Colombo. Colombo quando sai não sabia para onde ia chegar e quando chegou não sabia onde estava.  Há pessoas que fazem isso com a leitura do jornal partem sem saber aonde chegarão e quando chegam não sabem onde estão. Não esqueça sempre de uma obra que eu sempre repito e não me canso de citar que é talvez uma das maiores obras da literatura ocidental que é Alice no País das Maravilhas, se você já leu, leia de novo, se não leu, vá atrás porque aquilo é psicanálise pura antes do Freud.

 

No século dezenove um matemático inglês chamado Charles Dodson, deu a si mesmo o apelido Lewis Carol, um grande matemático, você tem livros de lógica dele que são deliciosos e ele escreveu Alice no País das Maravilhas na qual vocês se lembram ela cai, ela está atrás de um coelho e cai, cai dentro dela, em termos de psicanálise, tem duas personagens no livro que eu gosto de mais, primeiro é o coelho, que para nós, está sempre atrasado com o relógio na mão.

 

E o outro é um gato que só aparece o sorriso dele e o rabo do gato ele é invisível e só aparece os dentes e o rabo. Tem uma cena, que a gente não pode esquecer em educação, principalmente quando se fala em leitura do jornal e em leitura da mídia e leitura da informação, em que Alice está perdida, querendo orientação. Então ela está perdida andando naquele lugar e de repente ela vê no alto da árvore o gato. Só o rabão do gato e o sorriso. Ela olha para ele no alto da árvore e diz assim: você pode me ajudar? Ele falou sim, pois não. Para onde vai essa estrada? E ele fez uma pergunta incrível para ela: Para onde você quer ir? Ela falou: eu não sei, eu estou perdida. Ele diz assim: Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve.

 

Isso é forte na área de educação. Para quem não serve para onde vai qualquer caminho serve. Para quem não sabe para onde vai, serve o jornal, o livro, a internet, o videotape, o cinema, etc. de qualquer modo. E aí qualquer um de nós, na ansiedade de modernizar o modelo pedagógico eletrifica a sala de aula. Enche de coisa eletrônica, como se você para fazer algo que interessa às pessoas você precisasse eletrificar a educação, aí mete aparelho eletrônico ligado para todo o lado, dizendo que como os alunos estão habitados com isso precisa modernizar. O que moderniza não é a ferramenta, o que moderniza é o tratamento dado ao conteúdo.

 

Eu estou aqui nesse momento fazendo uma fala para vocês sem utilizar nenhum equipamento eletrônico, exceto o microfone, pelo óbvio. Se eu estivesse em sala de aula com pouca gente eu não utilizaria. Poderia utilizar? Claro está aqui um lugar para um PowerPoint, um data show, um retroprojetor. É bom? Dá para fazer aulas melhores? Com uma data show ou um PowerPoint? Mas dá para fazer aulas ótimas também sem eles, depende da sua finalidade, para onde você quer ir? Para quem não sabe para onde vai qualquer caminho vale. Se você sabe você vai usar a ferramenta necessária.

 

Por que você está aqui nesses cinqüenta minutos? Porque eu vim fazer uma palestra? Não é isso, se você fosse um adolescente, um dos nossos alunos e não tivesse apreciando o que eu estou dizendo você levantava e saia. Se não pudesse sair fingia que estava? E como você finge que está? Dorme. Porque que você está aqui agora, nesse tempo? Porque das coisas que eu estou te falando elas te interessam ou tem haver com a tua vida. Tem-se a haver com a sua vida você vai apropriando isto é, tornando próprio. Você está aqui a três dias, ouvindo, pensando e debatendo. Muita coisa foi colocada, o que você vai levar daqui? O que você apropriou.

 

Isto é, o que você tornou próprio, tornou seu. Atenção, conhecimento é seletivo, informação é cumulativa. A primeira grande distinção entre informação e conhecimento é que a informação é cumulativa e o conhecimento é seletivo. Informação você acumula para tendo à disposição você poder selecionar o que precisa e apropriar.

 

Por isso você nunca soube a diferença entre um adjunto adnominal e um complemento adnominal, a menos que seja da área, você decorou e o que você decora você esquece. Eu tenho uma colega na PUC de São Paulo, uma grande professora da área de Direito, especialmente nos campos dos Direitos Femininos, chamada Sílvia Pimentel e a Sílvia agora já é avó e ela outro dia contava algo incrível. Ela tem uma neta de dez anos, agora já deve ter doze, e aos dez anos entrou na 5a. Série. Vocês sabem que para a criança entrar na 5a. Série é um impacto porque de 1a. a 4a, ela está com uma professora só que administra os conteúdos. Caiu na quinta está perdido, são seis, sete componentes diferentes, com professores diferentes que quase nunca se encontram e que muitos nem foram formados para ser professores. Então você tem ai uma certa disparidade naquele momento.

 

Num domingo à noite, diz a Sílvia Pimentel, que a netinha dela chega para ela e diz assim: vó, amanhã eu tenho prova de geografia, você poderia me ajudar a estudar? A vó ficou meio assim, como nós algumas vezes temos dificuldade de ajudar os nossos filhos a estudar, porque muitos deles só vão decorar alguma coisa, você não lembra mais ou nunca soube porque se você soubesse nunca iria esquecer porque o conhecimento é inesquecível.

 

Você aprendeu a andar de bicicleta você nunca vai esquecer, você pode perder a prática, mas subiu nela, nem que você tiver noventa anos, você vai. Você aprendeu a andar a cavalo você não esquece, você aprendeu a fazer arroz você não esquece, porque aquilo que você seleciona, que fica significativo ela se incorpora a você.

 

Aí a Sílvia disse: não eu te ajudo. Aí estão as duas estudando no domingo à noite e a menininha diz assim: vó, o que são rochas cristalinas? Sabe filha eu já soube, mas eu esqueci. Então a menina disse: a vó então eu também não vou estudar. Sabedoria profunda aos dez anos de idade. Eu me mudei de Londrina, como eu disse, em 1967/1968, cheguei à São Paulo e fui estudar numa escola pública da rua da Consolação na capital paulista chamada Colégio Estadual Professora Marina Cintra. Cheguei lá com sotaque do norte do Paraná com o erre puxado. Vocês imaginam rapidamente eu me tornei o alvo da gozação dos colegas e eu ficava desesperado. A minha salvação veio no dia em que entrou um professor novo de matemática, chamado Edson, que chegou da Bahia naquela semana, que foi a minha libertação, foi o meu messias.

 

Fita 12

31 de julho de 2002

 

Continuação Conferência:

Professor Mário Sérgio Cortella – PUC-SP

Tema: “O professor e a leitura do jornal”

 

O professor Edson de matemática deu aula para nós alguns anos, um dia na série subseqüente, que seria o equivalente à 8a. Série que disse: hoje eu vou ensinar para vocês o cálculo de fórmula da raiz do delta. Eu com quinze anos, fiz uma pergunta inacreditável, eu disse: professor, para que serve isso? Ele disse uma resposta que eu nunca vou esquecer, ele disse um dia você vai saber. Até hoje eu não sei, eu sei a fórmula, para que serve eu não sei. O que ele produziu ao falar isso? Ele produziu em mim um descompromisso com o conhecimento ele disse para mim que um dia eu vou saber, que decisão inteligente eu tomei aos quinze anos de idade? Se um dia eu vou saber, eu vou esperar esse dia chegar. Aliás o aluno usa uma expressão que diz assim: Porque que eu vou perder tempo. Você pede para um aluno ler um texto para discutir na segunda-feira e você não discute. O aluno diz assim: professor o senhor não vai discutir? Você diz assim: não acho que eu vou fazer outra coisa. Puxa professor, perdi a tarde inteira lendo esse texto, ao invés de dizer usei a tarde inteira. Ora o que isso significa, não confunda informação com conhecimento. Conhecimento é seletivo, informação é cumulativa.

 

E a escola cumula, cumula, o aluno de informações. Sabe qual é a nossa maior dificuldade hoje? Selecionar os conteúdos. Você está selecionando ou cumulando. Eu fui secretário da educação em São Paulo por dois anos e uma das coisas que se fez na gestão em que eu estava foi não admitir, que se desse trabalho e tarefa para as crianças na sexta-feira no ensino fundamental. Não dá tarefa. Porque se a escola argumenta que tem que dar tarefa no final de semana é porque ela não organizou bem o conteúdo.

 

Ela está só acumulando. Porque uma criança não pode ter o seu final de semana ocupado por tarefa. Como nenhum de nós gosta de levar tarefa no final de semana nós ficamos irritados. Você protela para corrigir as provas e vai corrigir no domingo à noite, com raiva porque quer descansar. Você fica enrolando, seu filho faz isso, você fez isso. Ela vai fazer tarefa domingo à noite, com raiva, com sono com tudo. Aí você diz assim, vamos para a escola que a escola é importante, ela adora a escola, mas aquele conteúdo fica estranho.

 

O professor e a leitura do jornal passa por três grandes requisitos: o primeiro deles é o jornal é uma ferramenta poderosíssima para nós convidarmos, capturarmos, seduzirmos os nossos alunos para, pensando hoje, interessar-se pela história. Segunda, no entanto, essa utilização do jornal, seja de que modo for, impresso, televisivo internáutico, não pode ser evidentemente sem cautelas, porque também o jornal, seja de que modo for ele faz parte dos interesses dos grupos que os mantém, portanto é importante lê-lo, pensa-lo, assisti-lo de forma criteriosa, desconfiando, duvidando, afirmando, debatendo.

 

Terceiro lugar, a finalidade do uso do jornal é oferecer um leque maior de informações significativas que possam ser transformadas em conhecimento. Portanto, selecionada, isso significa que num jornal você não precisa ler todos e tudo, você precisa selecionar o que interessa. Exemplo concreto, eu sou um leitor contumaz de jornal como eu disse ontem, mas eu não leio o caderno de esportes. Por que? Porque eu não gosto de esporte? Não porque eu tenho outras coisas para ler eu prefiro me dedicar um pouco a outras leituras.

 

Como é que eu me informo com relação aos esportes? Informações rápidas ou então o Jair que é meu assistente, que lê o caderno de esportes e conta algumas coisas. Como ele não lê outras coisas eu conto para ele. Ao contar para ele eu conto de forma resumida e ele também. Eu não tenho que ler tudo, ver tudo, assistir, tudo. Se não você entra numa sofreguidão. È igual gente que tem tv a cabo e não sabe assistir tv a cabo, ele muda de canal o tempo todo. O que falta ali? Critério. A pessoa quer assistir tudo ao mesmo tempo. Isso dá um desgaste, você tem um estresse da informação. Você fica estressado com a quantidade de informação assim como o professor ou a professora fica estressado com o conteúdo que acha que precisa passar e às vezes é só informação. Já imaginou? De tudo o que você sabe juntado com tudo o que te informaram na escola, a relação é muito desbalanceada. Você diz assim: a mais é só porque me informaram muito é que eu tenho hoje esse conhecimento. Não. O que importa é você ter critério porque é o critério que permite que você separe.

 

Por que é importante você desenvolver critérios? Porque ele vai permitir uma seleção adequada. Mas você só pode ter um desenvolvimento do critério se você tiver uma oferta mais ampla de informação. O que eu quero dizer com isso? Um dia, o André, meu filho mais velho que tem vinte e quatro anos, trabalha na uol, universo on line, ele tinha dezoito anos e eu estava em casa na sala ouvindo ópera. Eu gosto de ópera, mas não de qualquer ópera para mim o critério que eu tenho para música é: música boa é aquela que me emociona. Eu estava ouvindo ópera e tem que ouvir alta, ouvir ópera baixa é a mesma coisa que ouvir jogo de futebol baixinho. O André estava no quarto dele ouvido rap e ele saiu do quarto dele foi até a sala e disse: pai, você está louco? Isso é lá música? Abaixa esse som.

 

Eu disse: que pena filho, você com essa idade já decidiu que tipo de música serve que tipo de música não serve? Você com essa idade já está próximo da indigência mental? Com dezoito anos você já tomou a decisão das coisas que servem e que não servem? Como é que você vai desenvolver seus critérios se você não aumentar o número de possibilidades de acesso, como você vai escolher se não tiver uma oferta mais extensa de múltiplas e diversas formas das coisas? Você já decidiu o que serve ou o que não serve? Ele disse: pai você está ficando louco. Eu disse: não, filho você está com uma redução mental sabe porque? Charlie Chan que é um fictício detetive do cinema chinês e depois o desenho animado tem uma frase que eu acho que a gente não pode esquecer na área da educação, ele diz: “mente humana é como pára-quedas funciona melhor aberta”.

 

Concluo agora com uma idéia não se descarte a idéia do jornal como uma ferramenta poderosa no nosso dia a dia para aumentar as fontes de informação, mas não é que o aluno precisa ler jornal apenas porque precisa ler. Não é porque contigo ele precisa ler jornal apenas porque você fica atualizado. A leitura do jornal é uma porta de entrada no presente, que com critérios te permite entender o processo do passado e projetar a compreensão do futuro.

 

Não admita a noção de que ter informação em si é suficiente, porque informação sozinha não produz consciência crítica por si mesma se fosse assim a revolução social e do conhecimento viria sabe da onde? A partir daqueles que se informam o dia inteiro, por exemplo, o motorista de ônibus, a empregada doméstica, o porteiro do prédio. São pessoas que por terem uma atividade mais fechada, eles ouvem rádio o dia inteiro. Será que isso é suficiente? Não porque ele tem uma informação, mas não necessariamente sabe o que fazer com ela. Ele só é capaz de te dizer que o dólar que estava a $3,26 passou a $3,30. Se a informação não é transformada em conhecimento se ela não é tornada própria ela se perde ela se dilui. Por isso o nosso trabalho tanto na vida, quanto na escola como educadores e educadoras é transformar com outros a informação em conhecimento da maneira que o porteiro do prédio, a empregada doméstica, o motorista do ônibus e do táxi saiba o que fazer com a informação e não simplesmente consuma a informação como algo que é um dado a mais e, portanto é esquecível.

 

Conhecimento é inesquecível o que você apreende é diferente daquilo que você aprende. Apreender é prender em você e isso significa a sua imensa capacidade de não esquecer. Eu me referi ao livro Hukleberry Finn, ou todos os demais livros que eu encontrei aqui Reinações de Narizinho do Monteiro Lobato que eu li aos sete, oito anos de idade, aquilo para mim é inesquecível, faz parte do meu mundo até agora. Aquilo está vivo.

 

 E por isso a leitura do jornal é para a gente lidar com a vida e aí eu fecho de vez. Com a seguinte noção: a leitura do jornal tem uma finalidade fazer biópsia da história cotidiana, cuidado que muitas vezes na escola o que a gente faz é necropsia, que é ficar vendo o que aconteceu com o que já faleceu. A finalidade da leitura do jornal é a gente fazer biópsia, ou seja, estudar, olhar as condições do dia a dia para manter a bio, manter a vida, manter a vitalidade, manter a animação, da vida, do trabalho e da história.

 

E concluo com a frase: os chineses têm um ditado que diz o seguinte, quando dois homens vêm andando por uma estrada cada um carregando um pão eles se encontram se eles trocarem os pães cada uma vai embora com um. E é para isso que serve o congresso, quando dois homens estiverem andando por uma estrada com uma idéia e se encontram e se eles trocarem as idéias cada um vai embora com duas e essa é finalidade de um congresso, essa é a finalidade da vida. Trocar idéias para que todos tenham pão. Obrigado e sucesso para vocês.