Discutindo as relações entre a escola e o currículo do jornal

Saraí  Schmidt
Centro Universitário Feevale
PPGEDU-UFRGS

Gostaria de agradecer a Comissão Organizadora do 2º Seminário Nacional O Professor e a Leitura do Jornal, a  oportunidade de participar como painelista neste importante encontro que está reunindo jornalistas, professoras e professores com o objetivo de criar e consolidar um espaço para reflexão sobre o binômio escola-jornal.

Num primeiro momento fiquei inclinada a ocupar este espaço fazendo um relato a partir de minha experiência como jornalista dedicada ao campo da educação, apontando possibilidades do uso do jornal como elemento importante para a contextualização dos conteúdos escolares e fundamental para estudantes, professoras e professores. Mas, ao mesmo tempo, acredito que antes de partir  para o relato de experiências, para a soma da  multiplicação da aquisição de assinaturas por parte dos leitores e leitoras engajados/as nos projetos de jornal na educação, temos que refletir sobre o que as pessoas estão lendo, o que elas estão encontrando seja nas páginas dos jornais ou navegando na  internet.

Temos que ir além de uma discussão quantitativa e geográfica, é preciso colocar em pauta a  qualidade, a consistência da escola e da informação veiculada na mídia. Pois, é impossível de escapar à presença, a representação da mídia. A mídia deve ser vista aqui como uma dimensão central das nossas experiências enquanto homens e mulheres destes tempos. Experiência não com ação, mas como algo que nos toca, nos afeta, nos constitui.[1]

Portanto, ao invés de analisar a utilização do jornal como instrumento pedagógico, ou o jornal na sala de aula, optei por discutir o jornal como sala de aula. Entendo que a mídia também nos ensina a olhar o mundo de uma forma peculiar. Assim como ela nos ensina como devemos olhar para escola. Considero importante repensar a mídia como uma forma de “aprendizagem” e lançar novos olhares, inclusive para as reportagens publicadas diariamente na imprensa, no sentido de serem compreendidas também como uma construção histórica e social e que, na maioria das vezes, é simplesmente aceita como natural e objetiva, sem possibilidade de questionamentos. Muitas vezes, o conhecimento adquirido e multiplicado através do jornal, é desconsiderado no ensino formal ou então, quando utilizado “pedagogicamente”, é trabalhado como apenas mais uma atividade que permite entender como é mesmo o mundo, ou a realidade deste mundo.

Assim, falar em pedagogia hoje é algo complexo e que vai além dos espaços escolares. Ou melhor, é borrar estas fronteiras, tão insistentemente demarcadas por alguns, sobre aquilo que é e aquilo que não é educativo. Falar na pedagogia da mídia, por exemplo, é compreender que ao lermos um jornal, ao olharmos uma novela, estamos aprendendo coisas, estamos sendo constantemente interpelados por discursos que nos conformam e nos subjetivam.

Neste sentido, mais do que analisar o jornal como um mero recurso para a atualização do currículo, proponho discutir como a imprensa opera na construção do currículo escolar, da profissão docente, do comportamento estudantil, da disciplina, das relações, da sexualidade, e de tantos outros elementos que integram o campo da educação. Ampliar e articular interações mais efetivas e significativas com o jornal, no sentido de perceber que o texto jornalístico não trabalha com simples letras, papéis, imagens, cores, mas que todos estes elementos são conformados numa complexa textualidade aberta e produtiva.

As representações da educação na mídia tornam hegemônicas, “naturalizam”, determinadas idéias ou concepções e, inclusive, criam temas escolares. Ou seja, abrir espaço para a discussão dos  meios de comunicação na escola parece-me uma das possibilidades de repensarmos a nossa prática e promovermos um debate na sala de aula.

Seja na televisão, revistas ou jornais a mídia está presente, criando e multiplicando representações. Não precisamos sair de casa, a mídia invade nossa casa e nos leva para grandes viagens pelo mundo da novela, da natureza, do dinheiro, da guerra, do amor. Não temos a opção de entrar ou não no mundo da mídia. Somos parte deste cenário e não meros espectadores ou observadores.

Talvez possamos desenvolver uma pedagogia crítica na busca de um olhar ativo para a mídia que nos invade. Mas, não apenas no sentido de desenvolver técnicas de leitura estética para analisar as imagens publicadas no jornal ou atividades didáticas sobre o uso do jornal na sala de aula. Ou ainda com treinamentos, quando subestimamos professoras e professores prescrevendo receitas de atividades que “deram certo”. A partir daí, talvez seja possível iniciar os contornos de uma discussão sobre como a imprensa jornalística opera na constituição de nossas identidades.

Quando nos deparamos com a virada do século, marcada pelo avanço tecnológico e o acesso à informação aliadas às promessas de “igualdade” da globalização, uma discussão crítica sobre as relações entre mídia e educação configura-se num tema importante para todas/os. Neste sentido, uma perspectiva crítica tem que levar em conta que uma concepção de educação não se limita a dar competência para as pessoas viverem neste mundo competitivo, como se a lei do mercado fosse o ideal a ser seguido por todos e inclusive direcionando os currículos escolares.

Ao olharmos os jornais, estamos todos os dias vivenciando um currículo que nos ensina coisas sobre o mundo e sobre nós mesmos, o lugar que ocupamos ou aquele que deveríamos desejar ocupar ou, ainda, o lugar que deve ser ocupado por uns e outros neste mundo. Partindo deste pensamento e olhando e as imagens multiplicadas pela mídia diariamente, posso dizer que mulheres, homens, negras/os, brancas/os, todos tem uma posição para ser ocupada de acordo com o currículo cultural no qual o jornal está incluído.

Cotidianamente os jornais apresentam uma série de reportagens sobre diferentes experiências “pedagógicas” que vislumbram o desenvolvimento pela preparação dos estudantes para os novos desafios da sociedade. Quando analiso os jornais como uma sala de aula, talvez eu possa compreender a mídia como construtora e disseminadora de um currículo cultural que nos conforma, nos subjetiva, nos interpela. Ao mesmo tempo, grandes organizações divulgam campanhas, oferecendo saídas mágicas pelo caminho da educação, como alternativa central e inquestionável para os problemas sociais do país. Uma das expectativas fortalecidas e disseminadas pela mídia é que a partir de um “bom” e eficiente projeto de educação encontraremos o caminho para a conquista de uma sociedade mais desenvolvida. A educação tem sido apontada tanto como vilã, quanto como salvadora, quando o assunto é o progresso do país. Nela está contabilizada a responsabilidade da preparação do futuro trabalhador, da conquista da cidadania, da falta de desenvolvimento tecnológico. Tanto os avanços, quanto as dificuldades são colocadas sobre os ombros da eficiência ou ineficiência de um projeto educacional.

As documentações jornalísticas, utilizando intensamente fotografias, estão mostrando os altos índices de crianças sem escola e apresentando a marginalização destas crianças como conseqüência da falta de oportunidades que “somente” o estudo poderia oferecer. Este currículo diz o que é certo e o que é errado quando somos seduzidos pelas imagens coloridas divulgadas em anúncios publicitários, prescrevendo a “verdadeira” maneira de ser mulher e de ser homem; quando vemos publicadas nos jornais fotografias de crianças “pobres” da rede pública utilizando um computador e ratificando a idéia da tecnologia da informática como caminho para a salvação da escola; quando uma pessoa sendo alfabetizada aos 90 anos de idade nos emociona e nos faz pensar acerca da importância do nosso esforço individual na busca de nossas conquistas.

Espero que professoras e professores, ao levarem o jornal para a sala de aula, consigam trabalhar com os estudantes de forma a tomar aquilo que está no jornal, não como uma verdade absoluta sobre os fatos, mas como uma das múltiplas versões possíveis sobre os fatos. A análise dos meios de comunicação pode contribuir para a discussão sobre como a mídia participa na construção de concepções hegemônicas sobre educação, como relações de poder forjadas e operantes na arena cultural vão consolidando e legitimando concepções, fortalecendo posições político-filosóficas, produzindo identidades e coordenando sujeitos.

Ressalto que compactuo do entendimento de que o jornal pode ser um recurso extremamente produtivo para engendrar discussões produtivas acerca de aspectos, os mais variados, sobretudo se o confrontarmos com os conhecimentos cristalizados no livro didático. Mas isto, na minha ótica, depende de sua articula÷ão com o planejamento da professora ou do professor. Em outras, palavras estou dizendo que considero importante e produtivo levar o jornal para a sala de aula. Mas, isto implica também numa discussão sobre aquilo que está sendo na apresentado no jornal como uma verdade absoluta. É neste sentido que considero importante e produtiva a discussão sobre aquilo que a mídia está nos ensinando todos os dias seja no rádio, jornais, revistas, televisão ou mesmo na internet.


[1] Este texto apresenta discussões desenvolvidas em minha dissertação de mestrado intitulada 
     “A Educação nas Lentes do Jornal.” PPGEDU_UFRGS, 1999.